Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker

Uneasy Rider

 

Avisados pelo release de que temos aqui “um dos livros mais únicos e

empolgantes na história das letras americanas”, estacamos diante da

gramática do apelo e de seu habitual exagero. A gramática é irremediável.

Mas tenho um palpite de que a proposição em si é válida. Zen e a arte da

manutenção de motocicletas: uma investigação sobre valores, de Robert M.

Pirsig, é tão intencionalmente canhestro quanto o título. É densamente

compactado. Oscila, com deslocamento deliberado de seu lastro, entre a

ficção e o discurso filosófico, entre as memórias pessoais e a

impessoalidade convencional de uma revista de engenharia ou alguma outra

profissão. É um livro enorme, mas diz a matéria, e indicam as falhas, que

resulta de um texto muito maior. Ouvimos falar num rascunho de 180 mil

palavras e aí sentimo-nos impiedosamente privados dele pela sã consciência

e pragmatismo da editora. Zen e a arte é difícil de lidar, seja para ler, seja

para comentar. Ele se instala na cabeça da gente como poucos romances

recentes conseguem fazer, agarra-nos com força, obriga a paisagem a se

abrir em planos inesperados, dotados de ordem e carregados de ameaça.

O fio da narrativa é enganosamente trivial. Pai e filho estão numa

viagem de férias, de moto, indo de Minneapolis até as Dakotas, depois

atravessam as montanhas, viram para o sul em Santa Rosa e Bay. Asfalto,

motéis, curvas fechadas no frio cortante das Rocky Mountains, nevoeiros,

desertos, as águas divisórias, os vinhedos e as orlas douradas do mar. Mr.

Pirsig não foi o primeiro: Kerouac esteve lá antes dele, e Humbert Humbert, e mais um monte de romances, filmes, contos, seriados de tevê

com os solitários que puseram o pé na estrada, cobrindo os quilômetros em

silêncio, queimados ou encharcados sob os céus imensos, indo de motel

em motel como oásis de neon, percorrendo no crepúsculo a enervante

melancolia dos subúrbios americanos, das espeluncas e dos aterros de

carros usados. Pirsig é bom ao falar sobre a distância, as queimaduras

causadas pelo vento, os distúrbios intestinais indesejados depois de horas e

horas sentado no banco de uma moto, depois de um número excessivo de

sanduíches de pão dormido. Mas isso não explica a força do livro.

Há outras pressões. O passageiro de onze anos de idade se chama Chris.

O peso de suas percepções incipientes, de sua identidade sob ameaça, vai

se tornando enorme. Num certo nível, é a história do robusto barqueiro do

Senhor, são Cristóvão, protetor e padroeiro dos viajantes, cujas vértebras

vão cedendo, as pernas estremecendo, quase afundando sob o peso do

menino no meio da correnteza. E Pirsig sabe, sente talvez com a erudição

sonambúlica de um grande artista, que a própria imagem de Cristo é o

reflexo de algo muito mais antigo — o centauro, uma criatura

“motociclística”, se é que isso algum dia existiu, carregando o menino

Hércules. Pai e filho avançam pela noite e pelo vento, numa enigmática

perseguição, ouvindo chamados sinistros que parecem bater à alma do

menino. Sim, claro: a mais famosa balada, “Erlkönig”, de Goethe, que tem

alguns arranjos musicais que parecem vir das semínimas e das explosivas

do motor da motocicleta. Um conto sobrenatural de rapinagem noturna, a

psique humana arrastada de volta para um antigo sono ou possessão,

exatamente como pode ocorrer a Chris se não alcançarem a tempo as águas

purificadoras do Pacífico. Em suma, temos uma abundância de referências

e ressonâncias. Há os Selvagens da Motocicleta da turma de Marlon

Brando, os Anjos saídos do Inferno (sendo permitidas todas as inferências teológicas) — aqueles batedores da Morte que Cocteau vestiu de couro e

filmou muito tempo atrás. Uma fartura de símbolos, alusões, arquétipos em

tal prodigalidade, com tal tangibilidade, que somente alguém de grande

imaginação, moldando os materiais por absoluta necessidade, poderia se

permitir. Um inventor mais profissional teria cortado, teria sido mais

indireto em suas mitologias, teria se sentido constrangido com a obviedade

dos símbolos apresentados. Mr. Pirsig se permite uma dose de franca

inocência. Tudo tem vida na superfície, tudo tem contornos e lança

sombras exatas, como na paisagem de neve de um primitivo americano.

Porque o desenho subjacente está oculto e é até certo ponto original.

A obra de Pirsig, como grande parte da literatura americana clássica, é

maniqueísta. É feita de dualidades, oposições binárias, presenças, valores e

códigos de enunciação em conflito. Pai contra filho; arquiteturas do

espírito contra arquiteturas da máquina; a modernidade da velocidade, da

uniformidade e do consumo (de combustível, de espaço, de publicidade

política) contra o conservadorismo, contra a paciência do verdadeiro

pensamento. Mas essas oposições são ambíguas em si mesmas; fazem-nos

perder o equilíbrio e nos obrigam a reequilibrar, como as guinadas da

motocicleta.

Fedro persegue o narrador. Num nível, ele é o confidente secreto, o

questionador implacável, a compactação do intelecto puro. Nasceu

diretamente do diálogo platônico de onde vem seu nome, e o expediente de

apresentar um ser vivo perseguido por uma sombra saída de Platão é, por si

só, suficiente para atestar a força, o domínio de Pirsig sobre o leitor. Mas a

caçada é, claro, interior. É o próprio narrador que é, em si, um ser de

aluguel, dividido quase até o cerne por identidades que se alternam. Não é o

rei demoníaco que está ameaçando a psique e talvez a vida do menino: é o

pai. A percepção desse fato, que Chris começa a entender através de

pesadelos, através da estranheza da voz paterna que ouve na penumbra, e o duelo final entre o menino e o homem dividido à beira do mar purificador

são de uma força assombrosa. Chris percebe que, em algum sinistro ponto

do passado, seu pai perdeu o juízo, entrou literalmente em êxtase, como os

possuídos pelo demônio. A lembrança de uma parede de vidro, em algum

hospital muito tempo atrás, toma conta dele. Fedro, a instância de ação do

pensamento indomado, da obsessão especulativa para além das restrições

impostas pelo amor e pela vida social, instância esta bruxuleante, mas em

última análise anárquica, está prestes a aflorar:

 

Seu olhar se ofusca num súbito clarão interno. Então fecham-se os olhos e lhe sai da boca um grito estranho, um gemido como o som de algo muito distante. Vira-se e tropeça no solo, então cai, dobra-se, põe-se de joelhos e se embala de trás para a frente, com a cabeça apoiada no chão. Um leve vento enevoado sopra no capim em torno dele. Uma gaivota pousa ali perto.

Na neblina ouço o rangido das marchas de um caminhão…

 

Marchas do câmbio, polias, parafusos de suporte do motor, tensionador

de correia, tirante da suspensão, correntes de segurança, bombas injetoras

desempenham um papel fundamental. É de fato um livro sobre a arte da

manutenção de motocicletas, sobre a concentração mental, o cuidado e a

delicadeza das mãos e dos ouvidos necessários para manter um motor

íntegro, cantante, no frio e no calor, no asfalto e no chão batido. É um livro

sobre os vários tipos de relações — obtusas, amadorísticas, peremptórias,

utilitárias, perspicazes, destrutivas — que ligam o homem moderno a seu

ambiente mecânico. Uma motocicleta é “um sistema de conceitos

trabalhados em aço”. Fedro e seu mestre Platão acreditam que a estrutura de

aço é mera sombra, necessariamente inferior, da ideia de um motor gerado

pelo intelecto, perfeito em sua inteireza mental. O narrador admite que há

uma verdade nessa obsessão pelo ideal. Mas é uma verdade perigosa. É o

concreto, o material que devemos enfrentar e moldar de acordo com nossas

necessidades. A matéria também tem sua precisão:

Se no ajuste houver uma folga nem que seja de um milésimo de centímetro, a força vai vir de uma vez só, como uma martelada, e a biela, o mancal e a superfície do cárter logo vão se achatar, produzindo um barulho que no começo parece um braço frouxo. É por isso que estou verificando agora. Se for mesmo uma biela solta e eu tentar chegar até as montanhas sem fazer uma vistoria, o barulho logo vai aumentar até que a biela se desprenda, bata no fundo do cárter girando e acabe com o motor. Às vezes a biela quebrada chega a atravessar o cárter e toda a gasolina vaza no chão. Aí, a única coisa a fazer é ir a pé.

 

As duas disciplinas do entendimento, a ideal e a instrumental, são

encarnadas e apresentadas no episódio provavelmente mais espirituoso e

mais ramificado da história. O viajante volta à faculdade em Montana, da

qual uma crise de nervos e a insistência de Fedro sobre o valor absoluto da

verdade, sobre a educação como formação moral, tinham-no afastado anos

atrás. Seus anfitriões moram na casa perfeita no cânion perfeito. São a

própria essência da nova pastoral americana, daquelas simplicidades

chiques que agora vestimos, construímos e frugalmente comemos. Robert

DeWeese, artista residente, mostra as instruções para montar uma

churrasqueira ao ar livre que o encantou. A conversa se estende e se

aprofunda. Comentam as limitações da linguagem em relação aos

procedimentos mecânicos; a montagem de máquinas como um ramo da

escultura esquecido desde longa data, cuja sutileza orgânica é traída pela

facilidade inerte dos projetos comerciais; o fantasma (sombra zero de

Descartes) que habita a máquina. A perícia artesanal, o senso temporal de

Pirsig nessa passagem são impecáveis.

Nem sempre é assim. A viagem para o Oeste é pontilhada de longas

reflexões e sermões laicos que Pirsig chama de “Chautauquas”. São

essenciais para sua finalidade. Nesses discursos ao leitor, o narrador

registra e diagnostica as insinuações de Fedro. A natureza da qualidade,

tanto de conduta quanto na engenharia, é discutida e contraposta à

falsidade pragmática de uma sociedade de consumo. Essa argumentação discursiva, a “investigação de valores”, é muito bem elaborada, em larga

medida. Mas há trechos medíocres, resumos simplórios de Kant que

mostram as certezas agressivas do autodidata, erros de atribuição (não foi

Coleridge, e sim Goethe, quem dividiu a humanidade racional entre

platônicos e aristotélicos), fragmentos tirados de um curso sobre Grandes

Livros ao qual o narrador abriu certa vez uma penosa exceção. A voz

continua a ranger como uma pedra de moinho, sentenciosa e monótona.

Mas o livro tem inspiração e originalidade suficientes para nos motivar e

avançar além dos trechos insípidos. E quando as encostas das montanhas

se atenuam descendo para o mar — pai e filho cerrados num abraço

espectral — a habilidade narrativa, o tratamento perfeito dos efeitos

desafiam qualquer crítica.

Minucioso tratado técnico sobre as ferramentas, as rotinas e a metafísica

de um ofício especializado; lenda de uma grandiosa caçada à identidade, à

salvação da mente e da alma para libertá-las da obsessão, a caçada ao

caçador; ficção constantemente interrompida por uma longa reflexão, que

a ela se entrelaça, sobre as singularidades irônicas e trágicas do homem

americano: as analogias com Moby Dick são evidentes. Robert Pirsig nos

convida a essa prodigiosa comparação. Em muitos pontos, e mesmo na

ausência quase completa do feminino, ela é cabível. O que mais se pode

dizer?

 

15 de abril de 1974

 

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