Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker

Cartas Mortas

 

A receita do romance Letters [Cartas] (Putnam, 1979), de John Barth, é

bastante simples. O primeiro passo é pegar qualquer um dos vários

compêndios de história da literatura e, depois de um minucioso cruzamento

das referências, guarnecer um texto de 772 páginas, aqui e ali, com

passagens como esta:

 

É a data de nascimento de João Calvino, Giorgio de Chirico, Jaime iii da Escócia, Carl Orff, Camille Pissarro, Marcel Proust, James McNeill Whistler. Os Aliados estão desembarcando na Sicília, a Apolo xi teve um vazamento, o vice-presidente Fillmore sucedeu Zachary Taylor na presidência dos eua, o primeiro contingente de fuzileiros americanos está saindo do Vietnã, Ben Franklin propõe uma União Colonial aos moldes da Liga Iroquesa das Seis Nações, os alemães começaram o bombardeamento da Inglaterra e ratificaram o Tratado de Versalhes, Ra de Thor Heyerdahl está enfrentando de novo um mar bravio e talvez não chegue a Barbados, começaram as negociações para a trégua na Coreia, o mercado financeiro continua em baixa, Woodrow Wilson apresentou sua proposta da Liga das Nações ao Senado americano.

 

A finalidade dessas listagens sincrônicas é sugerir que o passado e o

presente, a memória e o sonho, o real e o fictício fazem parte da mesma

brincadeira. Nosso ser, as sombras fugidias em nossos pensamentos são

apenas um longo Wiedertraum (palavra de mr. Barth), um sonho sonhado

de novo. Tudo se interliga na pulsante teia do tempo. Bertrand Russell

perguntou com suprema concisão: que provas existem de que o passado

inteiro do universo não é uma fantasia da mente nesta última fração de segundo? Borges pode adotar essa possibilidade numa única frase

tranquila.

Segundo passo: você supõe que o leitor tem plena familiaridade com

todas as suas obras anteriores — que ele tem na ponta da língua todos os

seus enredos, alusões, personagens e recursos de estilo. Em cada página,

você insere referências mais ou menos sorrateiras, mais ou menos discretas

em A ópera flutuante, The End of the Road [O fim da estrada], The Sot-

Weed Factor, Giles Goat-Boy, Perdido no túnel do terror e Quimera. Num

êxtase de narcisismo intelectualista, segue em frente. Você faz o

personagem principal de Letters descobrir, ler e comentar todas essas

paradas anteriores na sala de espelhos. E aí, num salto lá de cima da corda

para a rede de proteção do próprio eu, você introduz no novo romance um

tal Jacob Horner, máscara visivelmente autobiográfica tirada de um livro

anterior, e ainda melhor. Outrossim (para imitar o pastiche da linguagem

epistolar clássica feito pelo professor Barth), você divide o referido Horner

numa forma dupla: Jacob Horner, o morador da Fazenda da

Remobilização, redige cartas a Jacob Horner, o morador da Fazenda da

Remobilização, entregando-se a um abandono autista. Um personagem de

um romance prévio, seu mesmo, sonha consigo outra vez. Mas Pirandello

já esteve aqui antes, e foi magistral.

Terceiro passo: sendo um professor de literatura inglesa e americana

sem sombra alguma de dúvida culto e possuindo um conhecimento não

meramente superficial das letras europeias dos séculos xviii e xix, você

coze seu enorme tijolo (Letters é mais longo do que O idiota, Ulisses ou A

montanha mágica) com um carvão acadêmico cuidadosamente preparado;

isto é, ele se torna um palimpsesto de fontes e alusões literário-histórico-

estilísticas. Por trás desse tomo estão Clarissa, de Samuel Richardson,

Werther, de Goethe, e aquele que é o mais grandioso, o romance epistolar mais nu e cru de todos, Ligações perigosas, de Laclos. Cada passagem,

uma após a outra, é construída com citações, alusões em acrósticos duplos,

jogos acrônimos com nomes, fatos e citações tirados da literatura inglesa e

americana, de Chaucer a T. S. Eliot. Defoe, Swift e Samuel Johnson

abundam neste que é basicamente um pastiche de um romance epistolar

setecentista. Mas abundam também os metafísicos, Shakespeare e os

humoristas americanos. Quando chega abril, ele é, claro, “o mais cruel dos

meses”; quando se pormenorizam infindavelmente as genealogias, elas

trazem furtivos ecos dos inventários das heranças em Faulkner, sobretudo

em O urso. Mas a trama e a urdidura não são apenas literárias em sentido

estrito. São tecidas em torno de carretéis biográficos arcanos. É

praticamente impossível entender Letters sem um íntimo conhecimento da

vida, dos amores e das opiniões de Madame de Staël e seu atormentado

amante Benjamin Constant. A intimidade com as peregrinações eróticas de

Lorde Byron também é um requisito indispensável. (Madame de Staël e

Byron se conheciam.) Sabendo do papel essencial de Napoleão na vida e

na imaginação de George Noel e Corinne, passamos para um conjunto

tremendamente erudito de alusões à suposta fuga de Napoleão para os eua

em 1815, à efetiva estada americana de Jérôme Bonaparte e às

testemunhas ou descendentes ianques dessa ilustre visita. A ressurreição de

figuras histórico-literárias nada tem de novo nem de ilícito. Mas Barth não

teve sorte. Titãs já estiveram aqui antes dele, e exatamente no mesmo

terreno. O mundo de Madame de Staël e Byron, às cintilantes margens do

lago de Genebra, tece seu espectral sortilégio em Ada, de Nabokov;

Werther renasce, com a vitalidade do pleno autocontrole, em Carlota em

Weimar, de Thomas Mann.

Tais ingredientes, em si, vão resultar num suflê escolar mais ou menos

indigesto. Nenhuma página aqui, senhor doutor, que não mereça exegeses, glosas, notas de rodapé, hermenêuticas, explicações, análises semióticas,

comentários psico-históricos e acadêmico-cabalísticos. Que os adufes

ressoem nas coutadas do saber, pois não só o texto do professor Barth é

uma colcha de retalhos, mas esses retalhos muitas vezes são duplamente,

triplamente costurados. Ambrose Mensch propõe “fazer uma verbena”. Ha,

ha! Transposição do famoso faire cattleya de Proust, significando “fazer

amor”. Coisa para calouro, isso. Mas espere: não é a Proust que o dr. Barth

agora nos encaminha. Ele pergunta num parêntese: “Você conhece o conto

‘La Fenêtre’ [A janela], de Maupassant, sobre a dama com perfume de

verbena que convida seu galanteador para seu château no campo?”. Uma

corrida da sala de aula até as estantes, onde, de fato, espera-nos uma

edição completa dos contos de Maupassant. Fim da caçada? De maneira

nenhuma. “Perfume de verbena” deveria despertar alguma lembrança.

Deveras, senhor, andamos meio desmemoriados. Aquele conto intrigante,

“Um odor de verbena”, da coletânea Os invencidos, de Faulkner. Claro!

Como demoramos tanto para perceber? John Barth, Professor Catedrático

de Inglês e de Redação Criativa na Cátedra do Centenário dos Ex-Alunos

da Universidade Johns Hopkins, membro do Instituto Nacional de Artes e

Letras e da Academia de Artes e Ciências dos eua (tudo isso e outras

coisas mais na orelha do livro), fica sentado a sorrir.

John Barth tem se mostrado um escritor extremamente inteligente, se

bem que enfatuado. Possui um ouvido excepcional para a paródia, o

pastiche, o rifacimento, a imitação satírica. Tem um conhecimento

impressionante da literatura e da história, da guerra de 1812 e do

desenvolvimento do cinema americano, da fauna e da flora de Maryland.

Por grosseira que tantas vezes seja, sua verbalização da sexualidade e da

pulsão erótica na carne humana é de intensa convicção. Sem dúvida

voltará a escrever livros melhores, mas neste aqui os virtuosismos da percepção e da técnica verbal resultam num desperdício gigantesco. Se o

professor Barth não quer refrear sua prolixidade, não havia ninguém com a

coragem ou a afeição necessárias para dizer ao autor que um livro com um

terço do tamanho e despido de sua espalhafatosa mecânica autorreferencial

ficaria divertido e funcionaria bem? O lamentável nessa história toda vai

muito além do caso particular. Abrange também o clima atual das

publicações que pretendem nos oferecer um “ótimo momento” — a

caçada, ao mesmo tempo arrogante e descerebrada, ao “blockbuster”.

Supõe a inexistência de um exercício gabaritado da resenha literária,

sobretudo da “literatura dos grandes nomes”. Quantos resenhistas sob

pressão terão tido tempo para examinar e, quanto mais, para dedicar uma

reflexão crítica a esta “nova obra-prima do cômico”? (Quem escreve os

releases tem de dizer essas coisas.) No entanto, apenas quando a crítica é

rigorosa e franca é que se honra a literatura. Hoje em dia é moda aplicar o

rótulo de narcisista à situação americana. Boa parte dessa atribuição é

obviamente esquemática e simplista demais. Mas, num grau ao mesmo

tempo exato e grotesco, Letters parece comprovar a validade desse ponto

de vista.

Carta ao autor: Prezado John Barth, na França — onde (como diz um de

seus mestres favoritos, o Sterne Laurence) sabem lidar melhor com essas

coisas — existe um provérbio: um mau livro mata uma boa floresta.

 

31 de dezembro de 1979

 

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