Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker
La Morte d’Arthur
O zero e o infinito, de Arthur Koestler, é um dos clássicos do século. The
Spanish Testament [Testamento espanhol] (também conhecido como
Dialogue with Death [Diálogo com a morte]) tem quase a mesma estatura.
The Sleepwalkers [Os sonâmbulos], sobretudo os capítulos sobre Kepler,
são uma das raras proezas de recriação literária convincente da grande
ciência, da lógica poética da descoberta. Não compartilho as certezas de
Koestler em Reflections on Hanging [Reflexões sobre a forca], mas o texto
resiste como um dos grandes ensaios polêmicos de nossa época, um
momento central no debate sobre a pena de morte. Há capítulos clássicos
em obras autobiográficas como Arrow in the Blue [Seta no azul]. Mas de
alguma maneira Arthur Koestler é mais do que a soma de seus escritos.
Existem em todas as eras e sociedades homens e mulheres que prestam um
testemunho essencial, cujas sensibilidades pessoais e vidas individuais
concentram e estampam em si os significados mais amplos da época. Neste
século sombrio, coube ao judeu centro-europeu, talvez mais do que a
qualquer outro grupo, a enormidade de portar e ilustrar a experiência de
nossos tempos. Koestler, que nasceu em Budapeste em 1905, estava no
ponto exato onde se cruzam os terminais nervosos da história, da política,
da linguagem e da ciência. Ele foi atravessado por suas correntes dolorosas
e envolventes. Num catálogo das principais presenças da modernidade — as
políticas do marxismo e do terror fascista; a psicanálise e os estudos das
anatomias mentais; o grande avanço das ciências biológicas; os conflitos
entre a ideologia e as artes — encontraremos não só os vários livros de Koestler, mas também o próprio indivíduo. Ele conheceu o exílio e a prisão,
o divórcio e o assustador consolo do álcool, a luta ambígua pela privacidade
no mundo dos meios de comunicação de massa. As carteiras de identidade
de Koestler, autênticas e forjadas, os vistos e carimbos em seus passaportes,
suas agendas do dia e cadernetas de telefones compõem o mapa e o
itinerário dos perseguidos em nosso século.
É por isso que o duplo suicídio de Arthur e Cynthia Koestler, no dia 3
março de 1983, ou logo antes desse dia, ainda repercute. É por isso que
adquiriu uma força sugestiva tão marcante. Aqui também a mensagem
vinha em maiúsculas. Narrado com sobriedade pungente na breve memória
de George Mikes, Arthur Koestler: The Story of a Friendship [A história
de uma amizade] (André Deutsch, 1983), o suicídio teve motivos
imediatos. Uma doença degenerativa em fase terminal não demoraria a
reduzir Koestler a uma dor degradante. Mas, como em tudo na vida de
Koestler, o gesto pessoal foi antecedido e sustentado por uma reflexão
pública e ponderada. Koestler tinha manifestado fortes simpatias pelas
posições de um grupo que procurava esclarecer as questões jurídicas e
morais da morte por livre escolha. Tendo encarado tantas vezes a morte em
suas formas mais cruéis e involuntárias, tendo combatido com tanto vigor
a imposição fria da morte judicial aos condenados, Koestler atribuía
enorme valor à liberdade humana, à dignidade humana perante a morte.
Um homem na posse de suas faculdades mentais deveria ter a chance de
converter seu fim num gesto consoante com o valor central da liberdade de
espírito e de consciência. O castigo previsto em lei para o suicida que não
conseguiu consumar seu intento, como consta em tantos códigos jurídicos,
parecia a Arthur Koestler uma impertinência bárbara.
O bilhete do suicídio estava escrito desde junho de 1982. Traz a
seguinte passagem:
Quero que meus amigos saibam que estou deixando sua companhia num estado de espírito pacífico, com algumas tímidas esperanças de um além despersonalizado, que ultrapassa as fronteiras do tempo, do espaço e da matéria, e ultrapassa os limites de nossa compreensão. Esse “sentimento oceânico” me sustentou em muitos momentos difíceis, e me sustenta agora enquanto escrevo.
Na verdade, e como bem se sabe, as esperanças ou, melhor, as ansiosas
especulações de Koestler nada tinham de “tímidas”. Seu “sentimento
oceânico” (a expressão vem de Freud) se concentrava na profunda
convicção de que existiam “lá fora” presenças psíquicas, energias
organizadoras de tipo transcendente — embora inacessíveis em sua força
oculta, podiam ser abordadas ou percebidas em certos aspectos dentro dos
limites de nossa consciência e da observação empírica. Por isso seu
interesse insistente, muitas vezes expresso publicamente em tom de
desafio, pela parapsicologia, pela percepção extrassensorial, por
fenômenos que iam de assombrações ao entortamento de colheres. Por isso
sua compilação ardorosa de coincidências “inexplicáveis”. Pois o
secretário de Lincoln, chamado Kennedy, não tinha implorado ao
presidente que não fosse ao teatro, e o secretário de Kennedy, chamado
Lincoln, não tinha implorado ao presidente que não fosse a Dallas? Booth
não atirou em Lincoln num teatro e fugiu para um armazém e Oswald não
atirou em Kennedy de um armazém e fugiu para um teatro? (Quando me
apresentou pela primeira vez esse encadeamento, Koestler parecia vibrar
com uma intensidade maravilhosamente irônica, espicaçadora, mas
também obsessiva. E quando hesitei, aquela voz de uma ironia insistente,
ardendo por dentro, acrescentou: “E não foram ambos sucedidos por
presidentes chamados Johnson?”.) Koestler legou uma parte considerável
de seu patrimônio à dotação de uma cátedra universitária de estudos de
parapsicologia.
Amigos e conhecidos que não o acompanhassem por essas sendas
obscuras eram, com maior ou menor gentileza, excluídos de sua
intimidade. Koestler sabia muito bem que, com sua crença na telecinética e
no extrassensorial, vinha se tornando um pária no mundo das ciências
exatas e naturais. Nunca seria eleito para a Royal Society. Ao lado do
Prêmio Nobel, para o qual de fato foi indicado, seu maior desejo era
pertencer a ela. Interessante que essas duas honrarias também foram
negadas a H. G. Wells, que em alguns aspectos é o único antecessor
genuíno de Koestler. E ambos fizeram muito mais do que a grande maioria
dos cientistas profissionais para divulgar a severa beleza e a importância
política das ciências entre a comunidade letrada.
Outro critério de Koestler na escolha de seus íntimos era a bebida.
Mikes é afetuosamente direto nesse assunto. Logo ficou claro para mim e
para minha esposa que não conseguiríamos acompanhar os uísques antes
do jantar, o vinho durante a refeição e depois os numerosos conhaques que
regavam as noites de Koestler. Isso significava que um relacionamento,
uma troca de opiniões, uma sucessão de visitas mútuas frequentes, mesmo
estendendo-se durante anos, não amadureceriam numa intimidade sincera.
Outro obstáculo, não mencionado por Mikes, era o xadrez. Koestler tinha
um jogo rápido e contundente. Mas preferia interromper a partida a perder
para alguém visivelmente inferior em inteligência, em talento, em
experiência de vida. Isso também veio a significar um véu tácito a nossa
confiança recíproca, nossa descontração quando estávamos juntos.
Enfrentei exatamente a mesma inibição com Jacob Bronowski, aquele
outro mestre da Europa Central cuja morte, somada à de Koestler, parece
ter reduzido em muito o total de inteligência geral, polímata, em nosso
mundo. E ele era um jogador brilhante.
Os conhaques de Koestler, os acessos de irritação e sarcasmo
exacerbado que podiam assustar e humilhar os mais próximos, tinham uma
motivação legítima. Comenta Mikes: “Um homem feliz era algo estranho e
bizarro para ele, quase um mistério”. Como uma pessoa sensível,
inteligente, poderia ser feliz entre as insânias brutais, as devastações, a
cegueira suicida da história contemporânea? Para Arthur Koestler, o
racionalismo convencional não passava de complacência, de afetação
inaceitável. Seria de fato possível alicerçar políticas liberais sobre uma
ficção da razão, avançar com a ciência sobre bases positivistas não
examinadas, quando o mundo real estava tão visivelmente à mercê de
impulsos desumanos inexplicáveis? Se desde o começo dos anos 1950
Koestler deixou de participar abertamente no debate público (absteve-se
mesmo durante a invasão soviética da Hungria), foi por desalento. Quando
falavam, as vozes da razão eram objeto de escárnio.
Mas, nos bons tempos, Arthur Koestler irradiava uma rara paixão pela
vida, uma profunda alegria diante do desconhecido. Parecia encarnar a
ideia de Nietzsche de que existe nos indivíduos uma motivação mais forte
do que o amor, o ódio ou o medo. É a motivação de se interessar — por
um corpo de conhecimento, por um problema, por um passatempo, pelo
jornal de amanhã. Koestler era sumamente interessado. Imagino que ele
marcou seu encontro com a morte com aquela mesma arte de atenção
cuidadosa, questionadora, que havia dedicado com generosidade à
literatura e às ciências, à política e à psicologia, às tribos perdidas de Israel
e à culinária francesa.
George Mikes, ele também um exilado húngaro, é demasiado modesto
em relação a seus próprios talentos e realizações. É o autor daquele ensaio
clássico How to Be an Alien [Como ser um extraterrestre] e de uma série
de divertidíssimos livros sobre os perigos dos tempos modernos. Seu livro sobre Koestler é um retrato criterioso e espirituoso de alguém que o
apreciava muito. Apenas para constar, vou corrigir um episódio que Mikes
relata. Koestler tinha um refúgio em Alpbach, nas montanhas austríacas.
Durante um colóquio de verão, ele me pediu para pô-lo em contato com
um funcionário húngaro de segundo escalão que estava participando dos
procedimentos. Nós três nos encontramos ao anoitecer, em torno de uma
mesa de bar. Brusco, Koestler perguntou se seria possível revisitar
Budapeste e pisar mais uma vez em solo natal. Depois de pensar um
pouco, o húngaro disse que a visita seria um verdadeiro triunfo e que o
regime lhe daria discretamente uma boa acolhida. Mas disse também que o
nome de Koestler encimava uma lista bem curta (que também incluía
Silone) de pessoas tão odiadas pelas autoridades soviéticas que elas
poderiam vir caçá-lo mesmo em Budapeste. Não seria possível garantir sua
segurança. A kgb tinha seus meios de cruzar as fronteiras. Quando
Koestler e eu voltávamos à sua casa, sob uma chuva de estrelas e o ar
límpido da montanha, disse-lhe que a presença naquela lista me parecia
uma distinção maior do que o Nobel ou uma cadeira na Royal Society. Ele
estacou, me deu um de seus típicos olhares de esguelha e não falou nada.
Mas, por um instante, pareceu em paz.
11 de junho de 1984
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