Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker
B. B.
A multidão em tumulto que correu num tropel para o lado ocidental,
passando pelas brechas no Muro de Berlim em novembro passado, esvaziou
os supermercados e as lojas de vídeos. Em poucas horas, não restou uma
embalagem de comida pronta nem um frasco de desodorante. As lojas
foram despojadas de seus vastos sortimentos de vídeos de pornografia leve
e às vezes pesada. Jeans e camisetas, moeda de troca de um e outro lado do
muro na época das duas Alemanhas, logo sumiram das prateleiras. Atentos
e animados, sacudindo-se à batida do rock e do heavy metal que,
clandestinos ou não, tinham sido as odes à liberdade por toda a Europa
Oriental, os jovens e os não tão jovens realizaram a primeira revolução pela
tevê. Depois que Dallas chegou até eles (podia ser encontrado a muitas
centenas de quilômetros a leste do posto militar no centro de Berlim),
depois que fitas de novelas e de shows de rock ocidentais podiam se
multiplicar e ser postas à venda do outro lado da “linha Dallas”, o
cataclismo e a farra eram inevitáveis. A televisão desencadeou o imenso
impulso desenfreado por uma economia de consumo, e transmitiu (de
maneira brilhante) a correria que foi. Por que viver só de pão quando se tem
manteiga de amendoim? Por que resistir como satélite soviético quando a
palavra “satélite” significa televisão a cabo?
Os ganhos têm sido enormes. Regimes de estupidez medonha, de
despotismo corrupto, de ineficiência inacreditável caíram. Aos poucos os
seres humanos a leste de Berlim e da Oder-Neisse estão recuperando o
amor-próprio, a liberdade de movimentos, o senso de um futuro possível. Mais devagar, mas mesmo assim de maneira palpável, as dimensões
ocultas do iceberg do passado de massacres, mentiras, charadas sádicas
estão aflorando à superfície. Os cadáveres clamam, as sombras dos
torturados e dos esquecidos adquirem substância sinistra. A história está
começando a voltar à luz incerta da verdade. As duas potências, a União
Soviética e os eua, estão retornando, mesmo que com ocasional
beligerância, ao próprio regionalismo, colossal e mutilado. Os antigos
sinos de Praga e Cracóvia podem ser ouvidos pela região sombria, mas
viva. Leningrado e Odessa estão reabrindo as janelas para a luz do
Ocidente (imagem icônica dos liberais oitocentistas russos). A violência e
a hipocrisia na Romênia são assustadoras, mas mesmo lá é difícil conceber
um retrocesso para o insano passado. Apenas um mandarim irresponsável
não exultaria com essa temporada de esperança.
Mas há perdas. O marxismo, ele mesmo produto de uma
intelectualidade, sobretudo na Alemanha Oriental, sentia-se engajado com
certos ideais paternalistas arcaicos da alta cultura, da cultura literária
acadêmica. O teatro clássico, a música clássica, a publicação dos clássicos
floresceram. Como trazia em sua facilidade roufenha e em seu atrativo de
massas o germe do protesto anárquico, grande parte do que há de mais
ordinário na modernidade, nos meios de comunicação, no entretenimento
barato foi (parcialmente) mantido à distância. Agora os maestros e os
intérpretes estão abandonando as mais de setenta orquestras sinfônicas
financiadas pelo governo alemão oriental. Os professores estão se
esvaindo. Os poetas, os pensadores se indagam se conseguirão concorrer
no mercado de futuros das escolhas comerciais. A opressão é a mãe da
metáfora. No supermercado, Goethe dá prejuízo. Mas esses prejuízos, em
nível mais imediato, são prejuízos de bens de luxo, e talvez possam ser recuperados. Os sinais negativos na folha do balancete são mais profundos,
e muito mais difíceis de definir.
Depois das conclamações proféticas de Moisés pela justiça, depois do
cristianismo primitivo, o marxismo foi o terceiro grande projeto de
esperança. Quando Marx, nos famosos manuscritos de 1844, imaginou
uma sociedade na qual as relações humanas se regeriam não pelo dinheiro
e por ódios rivais, mas pelo amor e pela solidariedade, ele estava
simplesmente reformulando os apelos à transcendência de Jeremias, de
Amós e dos Evangelhos. Quando pregou um reino de justiça social, de
fraternidade sem classes sobre a terra, ele estava traduzindo em termos
seculares a promessa solar do messianismo. Sabemos — imagino que
sempre soubemos — que essas conclamações eram utópicas: que os seres
humanos são carnívoros mais ou menos bem-dotados, e que o homem é o
lobo do homem. O que é ainda mais terrível, agora sabemos — e
deveríamos saber desde as fantasias utópicas de Platão — que os ideais de
igualdade, de racionalidade em comum, de austeridade com sacrifício
próprio só podem ser impostos a custos absolutamente inaceitáveis. O
egoísmo humano, o impulso competitivo, o desejo de ostentação e
desperdício só podem ser sufocados por uma violência tirânica. E os que
exercem essa violência, por sua vez, cairão na corrupção. Inelutavelmente,
os ideais coletivistas socialistas parecem levar a uma ou outra forma do
gulag.
Termos conhecimento disso nos diminui. Aumenta a gritaria do dinheiro
nos mercados do Ocidente, que é ainda mais estridente nos mercados
negros em torno do Portão de Brandenburgo e nas praças antes
acolhedoras de Praga. Utopias moribundas deixam uma peçonha atrás de
si. O traficante de drogas, o vendedor de kitsch, o capanga de gangue
foram ocupar o vácuo russo e do Leste Europeu. O sonho marxista se transformou num pesadelo imperdoável, mas os novos sonhos à luz do dia
são assustadores; o tribalismo, o chauvinismo regional, os ódios
nacionalistas se inflamam da Ásia soviética à Transilvânia, dos skinheads
de Berlim Oriental aos bandidos da Croácia e de Kosovo. Com eles vem
inevitavelmente o ódio aos judeus — a intuição de que o programa
marxista de internacionalismo, de abolição das fronteiras, estava
radicalmente tingido pelo universalismo judaico. Trótski, afinal, era judeu.
Assim, mais uma vez, os velhos tambores alucinados das pretensões
territoriais irredentistas e da autonomia étnica ressoam na selva das
cidades.
Até aqui não há praticamente nenhuma frase que não incorpore, de forma
mais ou menos direta, uma expressão, uma ideia, uma ambiguidade extraída
de Bertolt Brecht. Apenas adaptei os nomes de duas obras-primas:
Tambores na noite e Na selva das cidades. Nenhum poeta lírico, nenhum
dramaturgo, nenhum panfletista deu voz mais aguda aos hinos ao dinheiro,
tornou mais palpável o fedor da ganância. Poucos espíritos examinaram
com maior rigor a hipocrisia e as eloquentes desculpas dos que enganam a
si mesmos, as quais azeitam as engrenagens do lucro e conferem uma
aparência de assepsia às relações de poder no mercantilismo e no
capitalismo de consumo de massas. Ao mesmo tempo, e muitas vezes
dentro dos mesmos textos indiretos, oblíquos, à la Esopo, Brecht deu
provas do cinismo, das astúcias (ele era o mais astucioso dos sobreviventes,
um felino em suas manobras e aterrissagens sinuosas) necessários para
resistir no labirinto homicida do leninismo e do stalinismo. Nos maiores
poemas de Brecht (alguns deles estão entre os mais belos de nosso século),
em suas melhores peças de teatro, nas inúmeras canções de revolta e sofrida
esperança que ele inspirou e cantou, a chave é em tom menor, o compasso,
ainda que às vezes imperceptivelmente, decresce. Um homem é um homem
(outro título famoso) — muito provavelmente a avareza, a covardia, o egoísmo desenfreado do homem prevalecerão. Mãe Coragem, mortos os
filhos, destruída a terra, se atrela à sua carroça fatal: venda de armas. O
palco vira e vira. A história é uma dura faina que os homens infligem a si
mesmos. As visões de justiça se convertem num apocalipse sangrento. O
que restará de nossas cidades, como proclama um grande lírico de outrora,
são os ventos negros que varrem suas ruas. E no entanto valia a pena sonhar
esses sonhos absurdos e assassinos. Inteligência não é conhecimento, por
mais penetrante que se tenha demonstrado. Os que estavam errados,
pavorosamente errados, como os bolcheviques, os communards franceses
em 1871, as brigadas internacionais na Guerra Civil espanhola, os milhões
que morreram proclamando lealdade a Stálin, estavam menos errados, de
uma maneira profundamente trágica e paradoxal, do que os clarividentes,
do que os ironistas e os yuppies, do que os elegantes mascates da Madison
Avenue e os especuladores urrando no pregão da Bolsa. (A imagem é de W.
H. Auden, que Brecht conheceu por algum tempo como camarada Auden.)
É melhor ter sido um alucinado pela justiça do que um desperto para a junk
food. O cruzador cujo disparo de festim deu início à revolta de Petrogrado
se chamava Aurora. Assim sentia Brecht, “que saiu da Floresta Negra”.
E parece ter saído quase totalmente formado, como algum íncubo
pronto para se entregar a suas travessuras. As entonações de Brecht, a
destreza no andamento, o humor dissimulado, a couraça do equilibrista que
precisa sobreviver andando na corda esticada já estão nas primeiras das
Letters, 1913-1956 [Cartas], selecionadas, organizadas e anotadas por John
Willett, e traduzidas para um inglês fiel e direto por Ralph Mannheim.
Bertolt Brecht tem apenas quinze anos quando começamos a seguir sua
trilha. Mas o credo chegara a: “Combinar fidelidade à natureza e idealismo
— isso é arte”. E tal é a impetuosa percepção. Brecht tem um poema em
mente: “À tarde o inimigo é derrotado”. (Estamos em novembro de 1914.)
Alegria de um lado, raiva e desespero do outro: “É uma noite em que
choram as mães”. Nada revelador nisso, mas aí vem o toque brechtiano: “Dos dois lados”. Essas lágrimas impotentes iriam rechear suas obras.
Mães — militantes, cegas, céticas, idealistas — ressurgem
incessantemente. Mais tarde, Brecht iria converter A mãe, de Górki, numa
peça muito sua. Mas B. B. não chorava. Abril, 1918, um mês antes de sua
convocação: “Têm sido dias celestiais. […] À noite cantamos canções de
Goethe, Wedekind e Brecht. Todo mundo nos ama. […] E eu amo todo
mundo. […] Preferia ter vencedores em vez de vitória. […] Vocês
conquistarão o mundo e ouvirão meus ensinamentos, e morrerão velhos e
saciados de vida como Jó, que era admirado por cem camelos. E então,
juntos, reformaremos o inferno e faremos alguma coisa com ele”. Isso para
Caspar Neher, colega, colaborador, figurinista de Brecht durante toda a
vida. O programa todo está dado: reformar, fazer alguma coisa com o
inferno, seja o inferno a Alemanha derrotada depois de 1918, a multidão
enlouquecida de refugiados quando Hitler chegou ao poder, os pobres-
diabos do exílio na Califórnia ou o sinistro banditismo do regime alemão
oriental.
Entre “todo mundo” que Brecht ama está um bando de Rosies, Helenes,
Ruths. Cabeçudo, desajeitado, propenso a vulgaridades boêmias,
sistematicamente promíscuo, B. B. fascinava as mulheres. Usava e abusava
delas, como faz Baal na primeira peça autobiográfica. Para Brecht, um
ménage à trois era magra refeição. Às vezes, sua caravana (aqueles cem
camelos adoradores) incluía pelo menos duas amantes reconhecidas e suas
proles. Helene Weigel (a ligação data de 1923) reinaria suprema — pelo
menos oficialmente. Brecht veio a considerá-la indispensável em seu
talento de atriz e seu rigor de comunista. Mas proliferavam outros
envolvimentos. Com Carola Neher, com Ruth Berlau — a um terrível
custo para as mulheres envolvidas. Quando Carola Neher foi sugada pela
máquina de morte stalinista, Brecht avaliou com uma cautela e uma objetividade quase desumanas os limites até onde poderia ir, na (vã)
tentativa de salvá-la. Ruth Berlau sucumbiu à beira da loucura. Em “Mack,
a Faca”, tem-se mais do que uma simples sugestão da sexualidade briosa
de Brecht e, suspeita-se, de seu desprezo pela subserviência das mulheres
aos apetites masculinos. “O tubarão tem dentes”: o gênio criativo tem
necessidades e liberdades.
A ópera dos três vinténs não é de maneira nenhuma sua melhor obra. É
inimaginável sem as cançonetas agudas e atrevidas de Kurt Weill. Mas a
peça capturou e estilizou precisamente uma hora derradeira, de sabor
agridoce, da história ocidental. Ela transmite como nenhuma obra a
vitalidade macabra, o esgar autodestrutivo do crepúsculo de Weimar. “O
teatro morreu”, trombeteia Brecht ao longo de 1926 e 1927, mas o cadáver
pode ser sacudido, chacoalhado para readquirir uma vida febril. E, em
termos de celebridade e rendimento, esses três vinténs tornaram Brecht
indestrutível de 1928 em diante.
Fato que foi muito afortunado. Hitler faz uma aparição muito precoce
nas cartas, “cagando em Moses Iglstein” num parque de Munique, em
março de 1923. Brecht manteve um olhar muito atento em seu colega de
trocadilhos. Mas suas atitudes em relação ao nazismo são complicadas, e se
entrelaçam com a teoria materialista dialética. O nacional-socialismo
representa para Brecht e seus camaradas do kpd a fase terminal lógica e
plenamente previsível do capitalismo. Sua violência organizada e sua
eficiência burocrática são a própria consumação caricata das linhas de
montagem industriais e das convenções contábeis das instituições
ocidentais da livre concorrência. O triunfo de Hitler — esse foi o erro
pavoroso, suicida, dos comunistas alemães — seria breve. Ele
desencadearia a verdadeira revolução proletária e traria a derrocada final do
império de Wall Street. Impedir tal triunfo seria adulterar as leis da história. O carnaval das batalhas de rua, a crise monetária e a emancipação erótica se
adequavam bem à sensibilidade analítica e observadora de Brecht. O
período entre 1927 e 1933, ano em que Hitler tomou o poder, é um dos mais
férteis de sua carreira. Todas as suas forças se reuniram. Acompanhamos
nestas cartas o insistente didatismo de Brecht, sua convicção aristotélico-
marxista de que o teatro é um instrumento de doutrinação sem igual — que,
potencialmente, uma peça sempre é também um manual de conduta e de
percepções sociopolíticas dos homens. Muito à maneira de predecessores
alemães como Lessing e Schiller, Brecht se coloca como tutor, como
preceptor moral. Suas peças são Lehrstücke, isto é, “peças didáticas”. Ao
mesmo tempo, o experimentalista formal vem à frente. Mesmo hoje, uma
“peça cantada” como Mahagonny continua a ser radicalmente inovadora.
Brecht rompe com o realismo e a eloquência lírica expressionista de seus
primeiros dramas. O cabaré, o ringue, o cinema passam a fazer parte de
seus recursos técnicos e perceptivos. Brecht é um dos primeiríssimos
mestres do drama radiofônico. (Veja-se O voo de Lindbergh.) Faz
experiências com máscaras e técnicas corais. Adotando a colagem e a
montagem como estavam sendo exploradas pelos pintores e cineastas da
época, Brecht incorpora em seus poemas e peças os textos de outros
escritores. Suas adaptações de A ópera do mendigo, de Gay, de Edward ii,
de Marlowe, das baladas e contos militares de Kipling são metamórficas.
Extraem da fonte original elementos maravilhosamente talhados para o tom
e a finalidade de Brecht. Na voz de Brecht entretecem-se o jazz, o blues, os
spirituals negros, o alemão luterano, a tragédia elisabetana, os lamentos dos
ladrões de Villon.
As melhores cartas são as “da oficina”. Brecht não desperdiça muito
tempo com preocupações pessoais. Não é um missivista na linha de um
Keats ou de um Proust. Suas cartas não são rascunhos de textos incipientes
nem meditações introspectivas. São projetos de produções, boletins
organizativos, polêmicas ásperas contra críticos obtusos e intérpretes aguados. Brecht mantém uma atenção fria e constante nos contratos, nos
royalties, nos direitos no exterior. Trabalha para institucionalizar e
sustentar uma companhia teatral comunista, um teatro operário, uma frente
cultural comunista contra a maré montante nazista. “O problema com os
intelectuais é que o que começa como sentimento termina numa ressaca”,
escreve ao diretor Erwin Piscator. Brecht se sente em casa com
desenhistas, ajudantes de palco, músicos, gente de cabaré. Anda sempre
com sua jaqueta de couro e masca um charuto grosso e úmido. Teoria,
muito que bem. (Há trocas cordiais e respeitosas com o pensador marxista
heterodoxo Karl Korsch.) Mas o que conta é a práxis. Uma nova
marchinha (com a melodia de “Tipperary”) “poderia ser cantada com um
ponteiro na frente de fotos projetadas”. Tinha de se encontrar o ponteiro, o
projetor teria de funcionar num porão enfumaçado ou num cinema de
interior. Mesmo uma parábola tosca, de espírito stalinista, como A decisão
pode ter sua utilidade tática e pedagógica. As massas estão desnorteadas; a
hora é adiantada.
Quando chegou a hora, na primavera de 1933, Brecht pôde fugir: Praga,
Viena, Zurique, Lugano, Paris, Nova York. B. B. se juntou ao torvelinho de
refugiados, dos apátridas da noite para o dia, dos intelectuais e artistas
ciganos. Com uma diferença: ele era uma celebridade. Tirou do Reich os
parentes e colaboradores mais próximos e conseguiu dinheiro no exterior.
Como asilo escolheu a Dinamarca. Tinham se iniciado os “tempos
sombrios”. Iriam se demonstrar produtivos. Brecht lutou para elaborar um
diagnóstico político compatível com o historicismo dialético e, ao mesmo
tempo, com a situação da época. Seus malabarismos interiores oferecem
uma leitura fascinante. A Korsch, em janeiro de 1934:
Existem razões forçosas para o fascismo alemão, que não se aplicam a outros países. As democracias burguesas podem olhar cobiçosas para os cortes salariais na Alemanha e para a escravização dos desempregados, mas também enxergam retrocessos. […] O fascismo é uma bebida forte; você tem de se endurecer até a medula, e um golpe rápido precisa ter perspectivas de sucesso. Infelizmente, ainda não temos a mais leve ideia da significação da Guerra Mundial. Suas origens continuam envoltas numa densa neblina. A “salvação da Alemanha” nunca seria alcançada na velha forma democrática. Arregimentado como foi, o proletariado não era mais capaz de uma política quer externa ou interna. […] Esta, evidentemente, é uma situação muito especial.
Amigos e colegas de exílio, entre eles Walter Benjamin, foram ficar
com Brecht. Terror e miséria do Terceiro Reich, um conjunto feroz de
vinhetas para o palco, foi encenado por elencos de refugiados e
companhias teatrais de esquerda fora da Alemanha. Paul Hindemith, antigo
colaborador, recebeu um comentário irônico: “Parece que você tentou pôr
em música um catálogo telefônico”. O neoclassicismo e a altanaria da torre
de marfim não têm mais qualquer serventia; são retrógrados, mas não
como o reacionarismo e a barbárie atávica do nacional-socialismo. Entre
os que foram visitar Brecht estava Ferdinand Reyher, escritor de
Hollywood que ele conhecera em Berlim. Que tal escrever um roteiro
sobre a censura e a eliminação inquisitorial das verdades racionais —
sobre, digamos, a perseguição e a retratação de Galileu?
A vida de Galileu, de Brecht, foi concluída no outono de 1938, e entre
suas principais criações é a mais sutil. Sua força muda e contida e o foco
estranhamente dividido — é uma peça sobre a asfixia do livre exame
intelectual e sobre a irresponsabilidade sociopolítica da ciência pura —
apontam a crise central da perspectiva de Brecht. Nem os comentários de
John Willett, muitas vezes numa nostálgica “linha do Partido”, nem as
cartas aqui publicadas contam o episódio inteiro. Mas as linhas principais
são claras. Foi durante o verão e o outono de 1938 que Brecht se afastou do marxismo-leninismo oficial e das realidades do sistema soviético.
Muitos amigos e íntimos de Brecht estavam desaparecendo nos campos
stalinistas. Suas próprias obras mais inovadoras estavam sendo atacadas
como “formalistas” ou inadequadas às exigências concretas das políticas
do Partido e da União Soviética. Brecht pode ter chegado a entender a
trágica miopia da estratégia de Stálin e da Comintern de combater os
socialistas — na Espanha, na Alemanha — e não os fascistas e nazistas. O
iminente Pacto Hitler-Stálin não foi totalmente uma surpresa para os olhos
desencantados de B. B.
O resultado foi uma posição bastante pessoal de razoável complexidade.
Não condenou frontalmente a União Soviética. Pelo contrário. “O regime,
o aparato de Estado, o Partido, sua liderança, digamos assim, estão
desenvolvendo as forças produtivas do país”, escreveu ele. “Elas também
estão sendo desenvolvidas pela forma nacional com que a União Soviética
deve ingressar na luta decisiva. E aí você tem o caráter de classe da
política internacional. A guerra civil mundial.” Brecht continuou a nutrir
um ódio visceral pelo capitalismo burguês, anunciando sua ruína iminente
com um entusiasmo mais anárquico do que nunca. Mas boa parte dessa
aversão profética, tanto em sua psicologia quanto em seus meios de
expressão, faz lembrar suas peraltices boêmias da juventude e uma espécie
de moralismo luterano. Suas antenas aguçadas o avisavam do fedor da
burocracia, das severas coerções pequeno-burguesas que prevaleciam na
Mãe Rússia. Da mesma forma como Martin Heidegger estava
desenvolvendo nessa mesma época um “nacional-socialismo particular”
interior (a expressão se encontra num arquivo da ss), Brecht estava
expondo ao mundo e para si mesmo um comunismo analítico, satírico,
estranho à ortodoxia stalinista e alheio às necessidades simplistas do
proletariado e dos intelectuais de esquerda no Ocidente. Para ambos, essas táticas interiorizadas foram extremamente fecundas: no caso de Heidegger,
gerando uma grande filosofia e estética; no caso de Brecht, importantes
criações poéticas e teatrais.
Quando chegou o momento de uma nova fuga, Brecht agiu com uma
astúcia fenomenal. Depois de uma permanência provisória na Suécia e
então na Finlândia, Brecht percorreu toda a União Soviética logo antes do
ataque nazista à Rússia (durante o qual ele perderia seu filho Frank, que
morreu combatendo a Wehrmacht). Mantendo grande discrição, esse
mestre da sobrevivência então atravessou ardilosamente o Pacífico com
sua caravana doméstica, até Santa Monica e Hollywood. Dizem que,
quando Walter Benjamin — o qual logo morreria como um fugitivo caçado
— perguntou ao grande dramaturgo se iria procurar abrigo em Moscou, B.
B. respondeu: “Sou comunista, não idiota”.
Fazia muito tempo que os eua eram uma espécie de fonte de encanto
fonético para Brecht. As meras palavras “Minnesota” e “Mississippi”
ressoavam com ambíguo fascínio e ameaça. Tinha sentido aversão e
atração pela “selva” de Manhattan e pelo que lia e intuía dos matadouros e
das ventanias de Chicago. Nas melodias de Weill para as letras de Brecht,
eram frequentes os sincopados e os elementos americanos. As realidades
da Califórnia em tempo de guerra eram diferentes, porém. Ultimamente,
têm saído livros e peças sobre a vida dos refugiados alemães, centro-
europeus e judeus em Los Angeles e arredores. É uma história sardônica.
Grandes nomes como Thomas Mann receberam homenagens lacônicas.
Franz Werfel floresceu à sombra melodiosa da Canção de Bernadette (seu
produto de consumo mais vendido). Arnold Schoenberg lutou
ferrenhamente para ter algum reconhecimento. (Recusaram-lhe um
Guggenheim.) Peixinhos menores enxameavam e esmolavam,
improvisavam febrilmente, tentavam cavar algum empreguinho de professor, espalhavam intrigas mútuas com a mesquinharia da necessidade.
Brecht observava o ninho de cobras e usou de todo o cuidado para
atravessá-lo. Mais uma vez a tensão e a marginalidade foram
extremamente fecundas.
São os anos de Mãe Coragem (talvez o mais convincente de todos os
dramas em grande escala) e de O julgamento de Lúculo, uma peça
radiofônica que mais tarde ganhou uma trilha sonora soberba, esquecida,
de Roger Sessions. Em meio às vitórias de Hitler, Brecht criou a
enigmática A alma boa de Setsuan, sua parábola mais estranha, e O sr.
Puntila e seu criado Matti, uma dramatização do tema do senhor e do
escravo; a sátira a Hitler, A resistível ascensão de Arturo Ui, acompanhou
a bagagem de Brecht. Nos eua, quem senão Charles Laughton poderia
realmente encarnar o personagem forte e complexo de Galileu?
Mas foram poucos os interessados. Apesar da compreensão dos
tradutores e críticos como Eric Bentley, as exigências de Brecht, as
idiossincracias de suas técnicas no palco, a extrema disciplina que
requeriam dos atores e produtores se mostraram impraticáveis. Um toque
de Vênus, de Kurt Weill, explodiu na Broadway. Brecht se viu procurando
teatros pequenos ou oferecendo seus serviços como adaptador, revisor e
assistente de direção para produções periféricas, como a versão de
Elisabeth Bergner de The Duchess of Malfi, de Webster. Apenas Galileu
chegou aos palcos de Nova York. Eventuais roteiros e a venda dos direitos
para a versão em prosa de As visões de Simone Machard garantiam o pão
na mesa, mas o opulento renome de Thomas Mann e o sucesso de Weill
exasperavam Brecht. E também as eternas infelicidades, cada vez mais
estridentes, de Ruth Berlau. “Você parece decidida a fazer tudo, sem
esquecer nada, para me amargurar”, escreveu a ela. “Você realmente quer transformar nosso exílio num interminável dramalhão, com altos e baixos,
censuras, dúvidas, acessos de desespero, ameaças etc. etc.?”
Mas o problema de base era, sem dúvida, a falsa posição de Brecht em
termos ideológicos. Como marxista, poucas virtudes via no New Deal de
Roosevelt. O que lhe doeu na morte de Roosevelt foi que assim o
abominável Churchill se alçou à evidente liderança da aliança ocidental.
Perspicaz, Brecht conseguiu enxergar através do temporário namoro entre
as democracias capitalistas do Ocidente e o povo heroico de Stalingrado.
Ele conhecia o “tio Josef” melhor do que seus fascinados anfitriões
californianos ou os companheiros de percurso que lhe apareceram nas
curvas do caminho, e tão melhor que foi capaz de prever tanto a incipiente
Guerra Fria quanto o surto de caça às bruxas na direita americana. Em tom
tipicamente abafado, as cartas de Brecht, mesmo para os familiares, apenas
sugerem a solidão impaciente e irônica em que vivia. Quando o Comitê de
Atividades Antiamericanas e o fbi vieram lhe bater à porta —
absurdamente, pensaram que as ligações de Brecht com Gerhard Eisler
teriam uma possível relação com a espionagem atômica —, B. B. estava
preparado. A audiência em Washington se deu em 30 de outubro de 1947.
Brecht desembarcou em Paris em 1o de novembro.
As cartas traduzidas nesta generosa coletânea oferecem apenas alguns
vislumbres incompletos da história tortuosa dos últimos anos de Brecht.
Ele retornou à Alemanha Oriental marxista via Zurique. Um passaporte
austríaco e uma conta bancária na Suíça lhe prepararam uma discreta rede
de proteção. Seus primeiros tempos no Paraíso Reconquistado foram
espinhosos. O lugar lhe dava “arrepios”. Seus flertes com o modernismo e
o formalismo na música e nas técnicas teatrais desagradavam aos cães de
guarda do “realismo socialista” — bem como sua ênfase constante no
passado trágico da Alemanha (sobretudo a Guerra dos Trinta Anos) e na história geral dos perseguidos e derrotados (como em Os dias da Comuna).
A nota oficial na rda era de otimismo militante, de esperança obrigatória
na aurora stalinista. Os burocratas do Partido corretamente percebiam em
seu mais ilustre escritor um veio incorrigível de ironia, de clarividência
anárquica. As coisas chegaram a um ponto dramático na revolta operária
de Berlim Oriental em junho de 1953. Pessoalmente, Brecht exultou com o
surgimento autêntico de um proletariado politizado e ficou amargurado
com o esmagamento brutal. Num epigrama que percorreu o mundo, ele
sugeriu ao Partido que remediasse a situação “elegendo um novo povo”.
Mesmo assim, e apesar de um sentimento de ultraje um tanto dogmático
no Ocidente, Brecht se negou vigorosamente a condenar o regime ou a
romper com sua terra natal. Tinham ocorrido erros, e voltariam a ocorrer no
futuro, mas para Brecht a história estava do lado do socialismo de Estado
centralizado. A democracia espúria do capitalismo de consumo de massas
continuava inaceitável para ele. Sua posição deu frutos. A Berliner
Ensemble ganhou apoio e reconhecimento. O círculo de giz caucasiano foi
produzido exatamente da maneira como Brecht queria. Diretores, atores,
cineastas de todas as partes do mundo iam em peregrinação às oficinas de
Brecht. Um Prêmio Stálin concedido por Moscou protegeu Brecht das
intrigas invejosas das autoridades alemãs orientais. A serenidade perpassa
as cartas finais, mesmo a Ruth Berlau. Brecht ajudou a preparar uma visita
da Ensemble a Londres, com suas enormes produções de O círculo de giz e
Mãe Coragem. Elas foram encenadas em triunfo duas semanas após a morte
de Brecht em 14 de agosto de 1956, vitimado por um ataque cardíaco.
Na noite de 30 de junho passado, colunas de veículos blindados sob a
proteção aérea de helicópteros entraram no pouco que restou da rda,
levando milhões de marcos alemães recém-impressos. Junto ao Muro
demolido, multidões dançavam e acenavam camisetas da Disneylândia.
Nada desse circo teria surpreendido Bert Brecht. E tampouco o fato de que os raros visitantes que procuram sua lápide em Berlim Oriental são
acadêmicos ou ocasionais artistas de teatro do Ocidente “podre”.
Os melhores poemas, o conjunto de grandes peças (no teatro moderno,
apenas Claudel tem um peso comparável) ficarão. E o grito de pura dor, tal
como foi emitido, em absoluto silêncio, pela boca aberta e dilacerada de
Helene Weigel em sua interpretação de Mãe Coragem, parece ficar cada
vez mais alto.
10 de setembro de 1990
OceanofPDF.com