Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker
Espiões de Deus
Desde o começo, foi um troço sujo. Os primeiros espiões de que temos
notícia foram os que Josué infiltrou em Jericó. Encontraram um “lugar
seguro”, como dizem no jargão atual da espionagem; era a casa da
prostituta. O segundo relato mais antigo está no Livro x da Ilíada. É um
episódio sórdido de infiltração e contrainfiltração na noite, terminando
numa carnificina abafada. Não à toa os estudiosos consideram essa
narrativa como um acréscimo posterior, um pequeno melodrama não de
Homero. Mas o fascínio do gênero é perene. Entre as primeiras obras
literárias maduras nos eua está O espião. James Fenimore Cooper, neste
romance, põe à luz um tema tipicamente moderno: o agente duplo pretenso
ou efetivo. No contexto da Revolução Americana, em que os adversários
falavam a mesma língua e muitas vezes tinham laços de parentesco, existia
quase por definição uma ambivalência do agente secreto. O mesmo
aconteceu durante a Guerra Civil, cujos espiões secretos e mensageiros
clandestinos encarnavam em si mesmos e em suas atividades obscuras o
dilaceramento da lealdade dividida.
O germe da duplicidade é o demônio que habita todo agente. Como
poderia ser diferente? O ofício de quem espiona se baseia na intimidade
com a parte que está sendo espionada. O agente precisa se fundir com a
cidade inimiga. O decifrador se insinua com seu próprio ser nos meandros
do coração do codificador. (As longas “Reflections on Espionage”
[Reflexões sobre a espionagem], poema sutil e engenhoso de John Hollander, trazem uma alegoria dessa intimidade especular entre o
montador e o desmontador das tramoias.) Apanhado na rede enigmática de
seu próprio “disfarce”, exposto, desmascarado, muitas vezes a saída do
agente secreto é aceitar a proposta de uma dupla traição. Então começa a
trabalhar para o lado que o capturou, mantendo nas aparências sua lealdade
inicial. “Foi convertido”, como dizem.
Mas novas piruetas podem se seguir. Um agente duplo, com efeito,
pode ser exatamente isso: pode estar entregando materiais genuínos para as
duas partes, e assim se torna uma das pontezinhas ou sinapses neuronais
que mantêm o indispensável contato mesmo entre os inimigos nacionais
mais encarniçados. Não raro os dois patrões, ou “controles”, sabem que
estão sendo mutuamente traídos, mas que há alguma vantagem nisso. Ao
agente é concedida a imunidade desprotegida da terra de ninguém. Outras
vezes, apenas um dos patrões sabe que seu agente é um “convertido”.
(Durante a Segunda Guerra Mundial, esse conhecimento permitia que os
“espias” aliados infiltrassem dados falsos nas principais artérias da rede de
contrainformação alemã.) Mas existem muitos casos em que nenhuma das
duas partes, neste mútuo engano, jamais pode saber com certeza onde
reside a lealdade ou a traição do agente. Um agente aparentemente duplo
— estaria o jovem Stálin trabalhando igualmente para a czarista Okhrana e
para os bolcheviques? Estaria passando mais coisas para um lado do que
para o outro? Teria retornado a seus primeiros recrutadores, depois de tê-
los traído para os segundos? — escava e penetra irreversivelmente o
labirinto de seus próprios objetivos secretos. E, como pergunta Joseph
Conrad em O agente secreto, o próprio espião lembrará a quem é leal?
Essa pergunta, que pode ser tomada como símbolo das incertezas da
identidade humana, daquela capacidade de enganar a si mesmo e de
exercer uma memória seletiva que faz com que os homens vacilem ou tropecem ao descer a espiral de sua interioridade, ganha nova resposta na
espionagem e na literatura de espionagem do século xx. Mesmo o agente
triplo, que vende seus dois empregadores a um terceiro interessado,
mesmo o espia mais venal e camaleônico (espiar, “olhar privadamente”, é
a arte do voyeur), realmente tem uma causa última a que dá sua adesão. Na
hora nauseante antes do alvorecer, enquanto aguarda a leve batida discreta
do torturador à porta, ele é leal não às nações ou aos governos que o
compram e o vendem, e sim à sua profissão, à fina teia urdida,
incessantemente rompida, incessantemente reparada, que une numa mesma
intimidade de desconfiança todos os agentes, todos os homens com
minicâmeras em salas de arquivos às escuras, todos os calígrafos
escrevendo com tinta invisível, qualquer que seja a bandeira sob a qual
exercem seu ofício. Nenhum espião jamais quer sair do frio. Seu único lar
é a tundra do ofício compartilhado. Seu único vínculo afetivo é o da estima
profissional como há entre a caça e o caçador.
Nos sentimentos britânicos, esse terrível paradoxo adquiriu uma faceta
obsessiva. A infiltração de Kim Philby nos mais altos escalões do serviço
secreto britânico, a serviço da inteligência soviética, e as traições
correlatas de Guy Burgess e Donald Maclean, cuja fuga para Moscou foi
urdida por Philby, tornam-se cada vez mais intrigantes à medida que passa
o tempo. Em parte isso se deve ao implacável descaramento do golpe,
junto com a ineficiência da reação oficial. (Ou pior: terá havido uma
conivência ou um acobertamento em escalões ainda mais altos?) O
desastre Philby, sórdido, estabanado, de alto custo — o serviço secreto
americano jamais voltou a se sentir à vontade para trabalhar em plena
coordenação com seus “primos de primeiro grau” —, veio a simbolizar
algumas falhas nevrálgicas de imaginação e técnica nos assuntos públicos
britânicos.
Mas existem razões mais profundas para o mal-estar. Com sua instrução
e a posição social da família, com suas maneiras e estilo de vida, Philby e
seus subordinados encarnavam a casta superior cuja absoluta fidelidade,
cuja devoção inquestionada ao serviço público fornecia a própria base para
a confiança britânica no governo de uma elite diletante. Judas pertencera
aos clubes certos. Pior: fizera parte do comitê da casa. O choque da
revelação atingiu o âmago. E fez com que E. M. Forster apresentasse uma
das mais surpreendentes proposições modernas: a de que um autêntico
cavalheiro e humanista é aquele que prefere trair o país a trair um amigo (a
inferência sendo que o amigo também é um “cavalheiro”, e que trair um
rude plebeu não colocaria nenhum problema que se compare). O drama de
Philby confere uma densidade especial — embora, no caso mais recente,
com uma exuberância um tanto sentimental — aos romances de
espionagem de John le Carré. É este o tema da peça atual de Alan Bennett,
The Old Country [O velho país], na qual sir Alec Guinness está primoroso
no papel de Philby em seu retiro moscovita. E é, inevitavelmente, o pano
de fundo do vigésimo romance de Graham Greene, O fator humano
(Simon & Schuster, 1978), que, pelo que podemos entender, começou
muitos anos atrás como uma reflexão sobre Philby.
Graham Greene é, faz muito tempo, um mestre da política da tristeza.
Nisto é herdeiro de Conrad, a quem o novo romance vai buscar sua
desolada epígrafe: “Só sei que quem cria um vínculo está perdido. O
germe da corrupção lhe entrou na alma”. Maurice Castle (o nome aponta
para Forster e também para Kafka) criou um vínculo. Ama sua esposa
negra Sarah e o enteado negro Sam. O plano de fugirem da África do Sul,
das leis raciais que impediriam o casamento e a vida juntos, era muito
arriscado. Não conseguiriam sem a ajuda de Carson, obscuramente
entregue à morte numa prisão sul-africana, e de seus associados contra o apartheid, inclusive comunistas. Essa dívida une ainda mais Castle a
Sarah. Castle honra a dívida desonrando seu cargo e a confiança
depositada nele. Faz-se agente duplo.
Castle ocupa um nicho vagamente elevado num dos velhos becos do
serviço secreto britânico. Mantém sob melancólica vigilância as ex-
colônias africanas. Detesta as políticas sul-africanas e passa para seus
contatos soviéticos qualquer informação capaz de ajudar a inibir a difusão
do apartheid e a repressão ainda maior à resistência dos liberais e
esquerdistas dentro da África do Sul. Quando Sarah fala em “nosso povo”,
Castle é tomado por uma súbita sensação de lar, mais próxima, mais vital
para seu íntimo, para o coração que vem envelhecendo, do que sua
identidade de inglês de nascimento ou do que a função oficial que
desempenha. Descobre-se um vazamento no departamento de Castle. O
serviço de contrainformação desconfia de uma “toupeira” — termo usado
para designar um traidor no meio do serviço secreto, alguém entocado ali
dentro trabalhando a mando de uma agência de espionagem estrangeira. A
lógica da suspeita, de início informal, e que depois adquire uma coerência
falaciosa, aponta para Davis, o assistente distraído e levemente descuidado
de Castle. O coronel Daintry quer provas sólidas antes de prosseguir, mas
dr. Percival, que cuida dos problemas de saúde na “firma” (a equipe de
espionagem), é menos sentimental. Davis morre envenenado.
Enquanto isso, Castle recebe ordens de colaborar diretamente com o
mesmo homem do serviço secreto sul-africano que antes perseguira a ele e
Sarah. Tio Remus é o codinome de um desses planos antissubversivos,
mutuamente vantajosos, em que a África do Sul e os eua defendem seus
interesses comuns contra os comunistas. Castle transmite um último dossiê
com informações essenciais e, sabendo que os sapadores estão chegando
perto, resolve detonar a situação. Está cansado da Inglaterra. No final do romance, a linha telefônica, por onde ouvira brevemente a voz de Sarah,
fica muda. Temos a impressão de que vai demorar muito até que Castle
volte a ver a esposa e Sam, e será um período bem difícil. No limbo de seu
apartamento em Moscou, ele está lendo Robinson Crusoé. Quanto tempo o
náufrago ficou abandonado na solidão da lembrança? “Vinte e oito anos,
dois meses e dezenove dias…” Mas Moscou é uma ilha ainda mais
distante.
Ao longo de todo o romance, estamos no espaço restrito e limitado que
Greene adotou em sua obra. O tom é de fim. Castle é estéril. Os espiões e
contraespiões britânicos operam numa base de poder ou importância
drasticamente reduzida. Os sonhos marxistas se transformaram em
pesadelo ou se mumificaram num conjunto de atitudes e metáforas tão
vazias, tão corrosivas quanto as do liberalismo ocidental clássico. (Aqui
Greene é ainda mais desencantado do que Le Carré, que fez do “centro
faltante” um elemento constante de suas tramas.) Qualquer élan que exista
consiste ou na brutalidade deliberada do boss (a agência do serviço secreto
sul-africano) ou na pressão indiferente da ingenuidade americana. Em
Daintry, o elevado código do cavalheiro e servidor público inglês mirrou e
virou ineficiência. (A única passagem mais faiscante no livro mostra um
Daintry atrapalhado e aturdido com o casamento de sua filha com alguém
de posição inferior, por obra da esposa mandona da qual ele tinha se
separado muito tempo antes.) Em dr. Percival, esse mesmo código
degenerou numa imperturbável propensão homicida.
Dos clubes estiolados em St. James’s, das livrarias com sua coleção de
edições eróticas, dos bairros residenciais regados a uísque, Greene cria
imagens de toda uma sociedade cansada, arfando rumo a algum futuro
levemente sórdido — visão esta que já se encontrava em Brighton Rock, em
1938. Um diálogo entre Castle e Davis, no começo da novela, contém o
discreto sarcasmo da narrativa inteira:
— Qual foi a informação mais secreta que você já teve, Castle? — Uma vez eu soube a data aproximada de uma invasão.
— Da Normandia?
— Não, não. Só dos Açores.
Esse “aproximada” é de mestre.
Mas, mesmo sendo uma obra enxuta e muito bem montada, não é uma
das grandes coisas de Greene. O texto é cheio de autorreferências. Para dar
corpo à caracterização e aos temas apenas indicados, o leitor precisa se
lembrar de episódios muito similares, trechos de diálogos, o movimento
das emoções em Nosso homem em Havana e O cônsul honorário. Como
ocorre com frequência em Greene, o tratamento do amor conjugal, central
para a traição de Castle, é precário. O diálogo entre Sarah e Castle é
canhestro; a dolorosa intimidade entre ambos é sugerida, jamais realizada.
São as vinhetas rápidas que se destacam: Bellamy (“Philby”) indo visitar
Castle em Moscou.
O tema de longe mais interessante em O fator humano é a sugestão de
Greene de que o catolicismo e a espionagem oferecem um instrumento de
consolo e verdade que nem o protestantismo, nem o racionalismo secular
(seu infeliz fruto) conseguem igualar. É preciso que se espreite a alma; é
preciso que haja ouvintes ocultos que possam punir e consolar. O agente
que apresenta um relatório a seu controle e o católico ajoelhado diante do
confessor estão no mesmo barco arriscado. Mas nessa travessia, com seu
desnudamento do espírito, com sua aceitação da penitência, encontra-se a
solidariedade. Greene utiliza esse paralelo. Uma vez Castle viu um padre
de verdade, um servo do Senhor, trabalhando nos cortiços de Soweto, e
sabe que o comunismo também tem uma face humana — que alguma
verdade última na visão comunista sobreviveu a Praga e a Budapeste, tal
como o catolicismo sobreviveu aos Bórgias. E na cena essencial do livro, uma cena composta para lembrar explicitamente a obra máxima de Greene,
O poder e a glória, Castle, que não segue religião nenhuma, tenta surripiar
o consolo do confessionário. Como Kierkegaard, Greene sabe que o mais
solitário dos homens é aquele que não tem nenhum segredo — ou, mais
precisamente, aquele que não tem ninguém a quem possa trair um segredo.
Assim, há uma estranha afinidade em todas as traições e uma teologia
ressoando na misteriosa advertência de Lear a Cordélia: sejamos “espiões
de Deus” e cantemos como os passarinhos na gaiola.
Essa noção tem um fascínio sombrio, como aquelas fantasias de
identidade clandestina que tantos de nós usam para amparar nossos
devaneios. É o pobre Davis que deixa escapar a verdade: “Que profissão
danada de idiota é a nossa” (onde “profissão” traz, como sempre em
Greene, o atrativo de suas raízes etimológicas). Mas é exatamente essa
percepção que Greene, Le Carré e a vasta tribo que enxameia em torno
deles procuram evitar. Existem aparelhos capazes, dizem, de detetar o
calor do exaustor de um tanque a 25 mil metros. O jornalismo
investigativo e o espírito agora universal da fofoca inundam as bancas de
jornal com informações ultraconfidenciais. Revistas populares trazem
diagramas mostrando como montar bombas nucleares. Existe alguma coisa
realmente nova ou decisiva no material que os espiões mascateiam para
seus clientes? Josué precisava de quatro olhos disfarçados para lhe dizer
que Jericó tinha muros e que seus moradores não receberiam bem uma
invasão? Talvez toda a indústria da espionagem tenha se convertido numa
brincadeira frívola, numa amarelinha mortífera numa casa de espelhos.
“Gostaria que todas as mentiras fossem desnecessárias”, confidencia
Castle a Boris, seu controle soviético. “E gostaria que estivéssemos do
mesmo lado.” Talvez estejamos, e talvez Greene nos sussurre que este,
porém, é o lado dos perdedores. Confiteor.
8 de maio de 1978
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