Tigres no Espelho e Outros Textos da Revista The New Yorker
De Profundis
As exigências que faz Alexander Soljenítsin a seus leitores clandestinos na
União Soviética (quantos serão?) e a seu vasto público ocidental são ferozes
e muito perspicazes. Ele conhece e desdenha a fácil solidariedade com que
reage o público ocidental, o gosto levemente obsceno pelo sofrimento à
distância. Mais do que sermos nós a ler Soljenítsin, é Soljenítsin quem nos
lê. Como Tolstói em seus anos mais avançados, Soljenítsin é um
perscrutador, um explorador das fraquezas humanas e um incômodo para o
mundo.
Soljenítsin, anarquista teocrático, não sente grande apreço pela razão,
sobretudo quando brota do “intelectual”, do homem que faz da
imparcialidade seu ganha-pão mais ou menos mundano. Diante do
desumano, muitas vezes a razão é um agente fraco, até risível. Também
pode ser levemente presunçosa, e Soljenítsin troça impiedoso da
“objetividade” fácil daqueles que argumentam, que tentam ser “razoáveis”
sem ter sido expostos a um milímetro sequer do arquipélago da dor. O que
tem a análise histórica a dizer diante dos sofrimentos de Soljenítsin e de
seu grito a percorrer a história moderna? Cada tortura, cada indignidade
imposta a um ser humano é irredutivelmente singular e irredimível. A cada
vez que um ser humano é açoitado, submetido à fome, roubado de sua
dignidade, abre-se um buraco negro específico na estrutura da vida. Uma
obscenidade adicional é despersonalizar a desumanidade, é recobrir o fato
irreparável da agonia individual com categorias anônimas da análise estatística, da teoria histórica ou da construção de modelos sociológicos.
Conscientemente ou não, qualquer um que ofereça um diagnóstico, por
mais compassivo ou mesmo condenatório que seja, diminui, atenua a
irremediável concretude da morte sob tortura deste homem ou daquela
mulher, da morte à fome desta criança específica, facilitando o
esquecimento. Soljenítsin tem a obsessão pela sacralidade do detalhe.
Como acontece em Dante e Tolstói, os nomes próprios saem em cascatas
de sua caneta. Ele sabe que, para rezarmos pelos mortos sob tortura,
devemos decorar e dizer seus nomes, aos milhões, num infindável réquiem
a nomeá-los sem cessar.
Mas a mente dos mortais é feita de tal maneira que não consegue reter
com uma identidade precisa mais do que um pequeno número de presenças
conhecidas. Pelo menos 20 milhões de homens, mulheres e crianças foram
enviados à morte nos expurgos stalinistas. Se tivermos uma grande
capacidade de percepção interna, conseguiremos visualizar, conseguiremos
enumerar e, em certa medida, identificar cinquenta, talvez cem pessoas.
Para além disso estende-se o cômodo limbo da abstração. Assim, se
realmente quisermos entender, precisamos tentar analisar, classificar, expor
esses sonhos da razão que se chamam teorias.
É uma platitude mais antiga do que Tucídides que os homens no
exercício do poder político podem voltar e voltarão à bestialidade. Os
milênios estão pontuados de massacres com uma monotonia chocante. O
tratamento rotineiro dado aos escravos, aos dependentes familiares, aos
loucos ou aos aleijados em épocas e sociedades que agora,
retrospectivamente, consideramos de grande esplendor artístico, intelectual
ou cívico é tão brutal que paralisa nossa imaginação. Os oásis de
compaixão eram raros e esporádicos. (Daí a promessa cristã de um Paraíso
em compensação.) Ninguém sabe realmente se a grama voltou a crescer por onde Gêngis Khan passou; não sobrou ninguém para verificar. Em
vastas áreas da Europa Central durante a Guerra dos Trinta Anos, restaram
apenas lobos se alimentando de ar.
Mas houve uma trégua, um relativo armistício com a história nas áreas
mais afortunadas da Europa Ocidental e dos eua durante boa parte do
século xviii, e depois novamente entre o final das guerras napoleônicas e
1914. A constante de selvageria ficou nas mãos de exércitos profissionais
especializados e foi exportada para a fronteira ou para as colônias. Voltaire
não era um utopista ingênuo quando previu o desaparecimento da tortura e
da represália em massa na vida política. Os sinais eram auspiciosos. As
táticas do general Sherman, ao estilo huno, pareciam mero atavismo
isolado e um tanto embaraçoso.
São os massacres armênios de 1915-16 que se mostram problemáticos
e, ao mesmo tempo, cruciais. Teriam sido, como dizem alguns, um nefasto
epílogo de uma longa história de invasão e devastação “bárbara”, um
retrocesso ao mundo de Átila? Ou, como afirmam outros, marcaram o
início da era do holocausto e do genocídio? E quais são os vínculos
técnicos e psicológicos, se é que existem, entre a matança deliberada de 1
milhão de armênios às mãos dos turcos e as hecatombes simultâneas no
fronte ocidental? Qualquer que seja a resposta, o fato avassalador foi que o
homem político, o homem nacionalista, equipado com armas sem
precedentes na história, relembrou ou redescobriu a lógica da aniquilação.
É segundo esta lógica que temos conduzido nossos assuntos desde
então. A lógica acarretou a insanidade do assassinato em massa de 1914 a
1918 (quase 750 mil pessoas apenas em Verdun), a erradicação de povos e
alvos civis, o envenenamento programado do meio ambiente, a matança
brutal de espécies animais, a liquidação nazista de judeus e ciganos. Hoje,
essa mesma lógica gera a erradicação desapiedada das tribos indígenas em toda a Amazônia, a ubiquidade de um grau de terror e tortura no Uruguai e
na Argentina que se equipara ao que sabemos sobre os matadores de Stálin
e da Gestapo. Hoje, neste exato minuto, é uma lógica que subscreve a
carnificina suicida no Camboja. O gulag não tem fronteiras físicas.
Isso não significa diminuir de maneira alguma a especificidade dos
relatos de Soljenítsin sobre o Inferno. Mas cabe perguntar se e como o
edifício soviético da servidão e da degradação é ou não é uma parcela de
uma catástrofe mais geral. O próprio Soljenítsin não se mostra claro a este
respeito. Os dois primeiros volumes da crônica do gulag eram
peremptórios ao ressalvar que se deviam estabelecer distinções entre as
práticas nazistas e as stalinistas. Soljenítsin se concentrou mais no fato
(incontestável) de que Stálin massacrou muitos milhões a mais do que
Hitler. (Em seu auge, como mostrou Robert Conquest em seus estudos
clássicos a respeito, os campos soviéticos contavam com cerca de 8
milhões de prisioneiros.) Soljenítsin chegou a avançar a hipótese de que a
Gestapo torturava para arrancar “fatos”, ao passo que a polícia secreta
russa torturava para obter falsos testemunhos. Nenhuma dessas
vulgaridades desfigura este terceiro volume, O arquipélago Gulag três
(Harper & Row, 1978), mas Soljenítsin continua indeciso no momento de
indicar onde e como o gulag se insere no tecido da história e da índole
russas. Em alguns pontos, ele dá voz à crença de que a opressão do alto e a
obediência da grande massa da população à autoridade bruta são
características do espírito russo. Mas, em outros, insiste na natureza
especificamente bolchevique do regime de terror, regime este iniciado por
Lênin, levado a uma eficácia insana por Stálin e que ainda hoje persiste na
loucura, em escala menos apocalíptica. Soljenítsin estabelece várias vezes
um contraste sarcástico entre as diabruras relativamente benignas do aparato punitivo czarista (tal como exposto por Tchecov ou Dostoiévski) e
a bestialidade rematada da solução soviética.
Se se perguntasse a Soljenítsin se o retorno do homem político moderno
à tortura, ao encarceramento e ao assassinato de massa representa algum
fenômeno geral, ou se cada caso é uma pavorosa singularidade, imagino
que ele responderia algo assim: no momento em que a humanidade rejeitou
o verdadeiro significado e a premência do exemplo de Cristo, no momento
em que optou por ideais seculares e esperanças materiais, ela separou sua
história e suas instituições políticas da compaixão, do imperativo da graça.
Uma política ou uma burocracia social apartada da sanção teológica traz
inevitavelmente dentro de si a mecânica do niilismo, da gratuidade
autodestrutiva. O planeta gulag, a ubiquidade da tortura e do homicídio em
nossa existência pública, é apenas a manifestação mais extrema, mais
despudorada de uma desumanidade que perpassa tudo.
É esta leitura teológico-penitencial da condição humana que serve de
base aos dogmas mais excêntricos, mas também mais profundos e
sinceros, de Soljenítsin: seu horror ao liberalismo laico tal como provém
da Revolução Francesa; a aversão aos judeus, nos quais vê não apenas os
primeiros negadores de Cristo, mas também os libertários radicais cuja
agitação culmina no marxismo e no socialismo utópico; o desprezo pelo
“hedonismo degenerado” e pelo consumo desenfreado nas sociedades
ocidentais; a indisfarçada nostalgia pela aura teocrática da Rússia
ortodoxa, quase bizantina.
É um conjunto de teses que gera isolamento e desperta perplexidade.
Tem contra si uma aliança, ao mesmo tempo risível e — para Soljenítsin
— plenamente natural, entre a kgb, a sra. Jimmy Carter (veja-se sua
tentativa de refutar o discurso de Soljenítsin na cerimônia de formatura de
Harvard) e as autoridades do fisco suíço tentando arrebanhar seu dízimo sobre os royalties de seu recente hóspede. Juntas, essas crenças de
Soljenítsin compõem uma explicação “mística” da barbárie moderna. É
uma explicação que, por sua própria natureza, é impossível de provar ou
refutar. Mas existe alguma melhor?
Muitos têm tentado encontrar. A falecida Hannah Arendt se esforçou
em localizar as raízes do totalitarismo moderno em determinados aspectos
da evolução do Estado nacional abrangente e do tipo de coletivismo
econômico e psicológico pós-Iluminismo. Outros veem nos campos de
concentração e morte uma derradeira encenação, ao mesmo tempo lógica e
paródica, dos processos industriais de padronização e linha de montagem.
De minha parte, apresentei a “metáfora de trabalho” segundo a qual a
eliminação da presença de Deus na vida cotidiana e na legitimidade do
poder político gerou a necessidade de instituir na terra um sucedâneo da
condenação (um Inferno aqui), que seriam os gulags nazistas, soviéticos,
chilenos e cambojanos. Mas nenhuma dessas hipóteses é realmente
explicativa. O que nos resta é o fato central: de uma maneira e numa escala
inconcebível para o homem ocidental educado, desde, digamos, Erasmo
até Woodrow Wilson, retomamos ou inventamos uma política da tortura e
do massacre. Desse fato brota a única pergunta que importa: é possível
deter o ciclo infernal?
Soljenítsin, que sobreviveu não só ao gulag, mas também ao pavilhão
dos cancerosos, é movido por uma vontade ardente. Talvez mais do que
qualquer outro desde Nietzsche e Tolstói, ele é senhor e servo da infinita
resistência do espírito humano. A resposta dele seria: sim, é possível deter
essa tremenda força; é possível rejeitar a banalidade do mal e dizer não aos
que querem reduzir o indivíduo a um operário do matadouro. Ele diria —
ou deveria dizer, à luz de suas próprias ideias — que os eua poderiam deter
o genocídio na Amazônia, o festival de sadismo na Argentina, as degradações no Chile, retirando desses regimes grotescos os
investimentos, os interesses empresariais cuja generosidade lhes serve de
apoio. Soljenítsin pode e deve proclamar que é possível interromper o
automatismo da opressão, porque já o viu interrompido ou, pelo menos,
reduzido a uma impotência temporária nas profundezas do próprio Inferno.
Este é o testemunho do último volume da trilogia, com seu fascinante
registro das revoltas nos campos, das fugas, do desafio das vítimas em
grupo ou individualmente. Soljenítsin narra os quarenta grandiosos dias e
noites da revolta de maio e junho de 1954 no campo de Kengir. Conta a
história — é uma narrativa clássica — de Georgi P. Tenno, o mestre das
fugas. Nos comoventes capítulos finais, ele evoca sua ressurreição da casa
dos mortos, seu regresso, ao mesmo tempo angustiado e jubiloso, à luz
habitual de uma existência autorizada mais ou menos normal.
E no entanto esse colosso de homem, tão acentuadamente estranho à
humanidade comum, não conclui o épico em tom consolador. Depois de
nove anos escrevendo clandestinamente, Soljenítsin encerra sua trilogia
com a terrível observação de que se passara um século desde a invenção do
arame farpado. E ele, que viu, viveu, narrou a mais alta resistência, a mais
elevada esperança contra o Inferno, dá a entender que é essa invenção que
continuará a determinar a história do homem moderno. No negro desse
grandioso afresco, esse é o toque mais desesperado.
4 de setembro de 1978
OceanofPDF.com