Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 5
Meia hora depois, Fábio e Cipião subiam a tribuna de madeira construída para o ramo dos Césares da gens dos Júlios na frente do Campo de Marte, onde a rua enfeitada para a procissão triunfal se abria para o campo de treinamento e manobras do exército. As gentes competiam pela melhor posição para suas tribunas, garantindo a preferência dos tribunos do povo de acordo com a extensão de suas benfeitorias à cidade desde o triunfo anterior, uma das poucas formas em que a plebe era capaz de influenciar os privilégios dos ricos. Os Césares tinham se saído excepcionalmente bem naquele ano, tendo financiado doações de grãos e a construção de uma casa de banhos pública no Monte Esquilino, tendo assim recebido uma posição de onde podiam ao mesmo tempo ver a execução dos desertores à beira da rua e os espetáculos no Campo de Marte planejados para a noite. Tais eventos incluíam rinha de ursos, lutas mortais entre prisioneiros macedônios e gladiadores e o sacrifício em massa de centenas de cabeças de gado que forneceriam carne em abundância para todos que desejassem, assadas em espetos e braseiros sobre as numerosas fogueiras que pontilhavam o campo, suas chamas já se elevando no céu do anoitecer.
Primeiro houve a execução dos desertores, um evento que Cipião era obrigado a testemunhar como oficial do exército; ele e Fábio chegaram apenas minutos antes do primeiro carro de bois, então havia pouco tempo de sobra. Subiram camadas de assentos, passando pelas senhoras elegantemente penteadas com seus filhos e os homens de togas, alguns usando a toga senatorial debruada de roxo com coroas de louro na cabeça, prêmios por conquistas cívicas. Entre eles havia alguns homens de uniforme, inclusive o irmão de Júlia, Sexto Júlio César, um companheiro tribuno que também servira na Macedônia, e seu pai ilustre de mesmo nome, veterano condecorado da Batalha de Zama que assentiu solenemente para Cipião e retribuiu a saudação enquanto ele e Fábio passavam.
Júlia estava separada das outras mulheres de sua gens na fila superior, com suas duas escravas em serviço, e acenou para eles quando se aproximaram. Não estava vestida como as outras e parecia ter acabado de voltar de uma de suas sessões secretas na academia; o cabelo ondulado amarrado frouxamente caía sobre os ombros, o manto fechado na cintura revelava as curvas firmes dos quadris e dos seios. Não tinha permissão para usar nenhuma ornamentação militar, mas carregava uma antiga relíquia de família, um capacete alado de desenho grego ático com o emblema da águia dos Césares na frente; era um pequeno ato de desafio que Fábio sabia ter sido permitido pelo pai dela, contrariando os desejos da mãe e das outras Vestais. De pé ali, com o capacete, ela parecia ter sido talhada do mesmo molde das cariátides que Fábio tinha visto na Acrópole em Atenas, entretanto arrematada em estilo inteiramente romano; tinha o nariz reto e as maçãs do rosto proeminentes da família dos Césares, e o cabelo castanho-arruivado e os olhos grandes da mãe. Ao se virar para recebê-los, ela estava radiante, sem a tristeza que Fábio vira nela desde que Metelo retornara, e ele teve esperanças de que, como Cipião, ela pudesse ser capaz de desfrutar daquela noite e se esquecer do futuro, da vida que precisaria levar como senhora da gens dos Metelos nos anos que a aguardavam.
A multidão já começava a gritar e fazer chacota, e Fábio viu a primeira de uma fila de carroças puxada por bois entrar no campo de visão, vindo do Fórum. Cada carroça trazia uma jaula de ferro grande, e, à medida que a primeira se aproximava, ele via uma leoa africana andando de lado a outro, de olhos injetados e com a língua pendente. Ele sabia que estaria meio enlouquecida de fome, seu corpo emagrecido por dias de inanição antes do espetáculo. Atrás de cada carroça, um homem cambaleava de mãos atadas às costas e tornozelos frouxamente acorrentados, com uma longa corda se estendendo dos pulsos à jaula e outra de um laço no pescoço a um gladiador musculoso atrás dele, com a armadura completa de bestiarius e de tempos em tempos estalando o chicote nas costas do prisioneiro.
De uma carroça em algum lugar atrás um leão rugiu, um trovão que soou pela arquibancada como um terremoto, e a turba urrou. Todos sabiam o que viria a seguir; os prisioneiros condenados à damnatio ad bestias. Emílio Paulo demonstrou misericórdia para com muitos dos capturados em Pidna, com os próprios macedônios e alguns mercenários trácios aptos para o treinamento de gladiadores, mas qualquer prisioneiro que marchasse acorrentado por um triunfo era poupado apenas temporariamente. A plebe sabia disso e iria vaiar qualquer demonstração de clemência. E esses prisioneiros eram os piores, não inimigos, mas desertores, homens cujos antigos camaradas e familiares estavam entre os que clamavam por seu sangue na multidão das ruas. Roma podia enviar seus homens homenageados e coroados com grinaldas para a guerra, mas aqueles que não tivessem coragem ou bravura deviam saber que seriam tratados com mais severidade do que qualquer inimigo, voltando a Roma acorrentados e humilhados, trazidos à justiça diante da mesma multidão cuja confiança e expectativa haviam traído tão brutalmente.
A certos intervalos pela rua, grossos mastros de madeira, como postes de crucificação, foram enterrados, mas em vez de uma cruz havia uma alça de ferro presa na extremidade superior. Enquanto cada carroça se aproximava de um mastro, a multidão se retraía, formando um espaço circular, e os que estavam na fila da frente davam-se as mãos e empurravam para trás para abrir espaço. No mastro mais perto deles, Fábio viu um gladiador descer ao lado do condutor da carroça e ir até a traseira da jaula, desamarrando a corda nos pulsos do prisioneiro, passando a ponta pela alça no mastro antes de entregá-la ao bestiarius. Depois colocou a mão para dentro da jaula e pegou um rolo de corrente preso a uma coleira de ferro no pescoço do leão, prendendo a outra ponta na alça do mastro. A um sinal do bestiarius, o condutor chicoteou os bois e a carroça avançou, fazendo com que a traseira da jaula se abrisse e o leão saltasse, seu pescoço apanhado violentamente pela corrente quando a retesou em um puxão. Enfurecida, a fera sacudiu a cabeça e rugiu, depois investiu para a multidão até que a corrente a fez parar novamente, levando-a a se esparramar no chão, a rosnar e se irritar com a coleira. Tentou novamente, atirando-se para o outro lado, depois se levantou e caminhou pela beira da clareira, babando e batendo as patas em direção à multidão, as garras chegando a centímetros dos meninos que se desafiavam a pular na frente. Fábio se lembrou de quando ele próprio fazia isso, apostando com a morte muitas vezes, instigando o leão com pernas decepadas que eles tiravam das carcaças de touro ao lado dos altares de sacrifício no Campo de Marte; os sacerdotes sempre deixavam cortes de carne para esse mesmo fim, lembrando-se da própria diversão infantil, quando atrair os leões e ganhar cicatrizes era a maneira mais rápida de angariar a estima como um guerreiro das ruas.
A multidão caiu em silêncio, vendo o leão circular sem parar. O bestiarius mantinha tesa a corda das mãos do prisioneiro, afrouxando-a o suficiente pela alça para que o homem pudesse recuar e se manter perto da beira da multidão, pouco além do alcance do leão. Sempre que o leão se aproximava, os meninos tentavam empurrar o homem para a frente. Na terceira ocasião, ele tropeçou e o leão o atacou antes que ele pudesse se atirar para trás, rasgando sua face e arrancando um olho. O homem gritou, caindo de joelhos, com uma aba sangrenta de pele pendurada abaixo do queixo. Às vezes o bestiarius permitia mais uma tentação, até que a vida da vítima estivesse por um fio, mas dessa vez ele sabia que a multidão já havia sido atiçada e queria sua recompensa. De repente ele puxou a corda e o prisioneiro arremeteu para frente, tropeçando e se contorcendo enquanto a corda puxava seus pulsos poste acima, até que ele ficou pendurado ali, os pés se debatendo e tremendo incontrolavelmente, o olho que restava acompanhando o leão que andava à volta dele. No momento em que o leão parou e olhou, percebendo que o prisioneiro agora estava a seu alcance, o bestiarius soltou a corda e puxou-a do pescoço do prisioneiro, levando-o de volta à segurança bem a tempo. A multidão berrou, e Fábio via agora o prisioneiro com mais clareza, pálido de terror, as pernas marrons de fezes.
O bestiarius parou com os pés separados e o peito estufado, berrando para a turba:
— O leão está com fome?
A multidão urrou novamente.
— Daremos comida a ele?
Outro urro e o bestiarius largou a corda do pescoço e puxou a outra com a maior força que pôde, seus músculos ondulando retesados, içando o homem pelo mastro mais uma vez, até que ele ficou pendurado, com os pés chutando freneticamente e a cabeça se contorcendo de um lado a outro de pavor enquanto o leão continuava a caminhar pelo perímetro, espiando-o agora, flexionando os ombros, parando e batendo as patas no chão.
Em uma questão de segundos ele saltou e a multidão arfou. Aconteceu com tal rapidez que o homem nem teve tempo de gritar. O leão cravou suas mandíbulas nas costas e o arrancou do mastro, sacudindo-o violentamente, quebrando seus ossos como se ele fosse um animal apanhado nas planícies da África. O bestiarius soltou a corda totalmente e recuou junto à multidão. Uma fonte de sangue jorrou do pescoço do homem, espirrando nos meninos na primeira fila. O leão largou o corpo, sentou e começou a comer. Deu uma dentada imensa no peito do homem, mastigando as costelas e deixando um buraco em sua lateral, arrancando um pulmão e engolindo-o, a traqueia e as artérias penduradas de seu queixo. Ele as puxou para dentro e deu outra bocada, dessa vez no abdome, devorando o estômago e os intestinos do homem, a cara pingando sangue e bile.
Cipião virou-se para Júlia, que olhava com uma atenção extasiada.
— Este é o fim da diversão aqui — disse ele. — Levará a noite toda no Campo de Marte, mas prometi a meu amigo Terêncio que assistiria à peça que ele preparou especialmente para os jogos, no jardim do peristilo da casa de seu patrono Terêncio, no Palatino. Antes, no entanto, eu e Políbio marcamos de nos encontrar, quero contar a ele uma coisa que Terêncio me disse, e Políbio aparentemente também tem algo a me dizer. Quer vir comigo?
— Minha mãe pensará que desapareci e mandará as Vestais atrás de mim — disse Júlia, sorrindo. — Mas isso tornará tudo mais divertido. Ela não está olhando agora, então podemos ir.
Eles se levantaram, passando pelos outros sentados na tribuna, seguidos por Fábio. A multidão em volta do leão já começava a se dispersar, alguns rumo às outras carroças, para onde as execuções ainda iam começar, outros indo para o Campo de Marte. Fábio olhou o leão ao passarem por ele, a barriga visivelmente inchada, o corpo desmembrado do homem reduzido a uma massa de sangue e ossos. O leão tinha apanhado a cabeça do homem em suas mandíbulas e a triturava. Ele se lembrou do banquete que se seguiria ao sacrifício dos touros no Fórum e os pedaços de carne que os sacerdotes entregariam para ser lançados no fogo abaixo do púlpito. Fábio tinha prometido encontrar a escrava Eudóxia de Hipólita ali mais tarde, então esperava que Cipião e Júlia não permanecessem na peça por muito tempo. Ele já estava começando a sentir fome.
De volta ao Fórum, eles encontraram Políbio na Basílica Emília, o grande tribunal onde ele discursara a um grupo de acadêmicos e professores gregos trazidos por Emílio Paulo a Roma para o triunfo. Ao chegarem, ele estava se despedindo de um grupo de homens de manto branco, longas barbas grisalhas e cabelos sem corte, segurando pergaminhos enrolados e olhando para a frente com altivez. Cipião virou-se para Políbio, sorrindo:
— Se não me engano, meu pai capturou a filosofia grega e a trouxe para Roma.
— Eles não são prisioneiros, mas uma delegação de Atenas — murmurou Políbio. — Vieram a convite de seu pai para ensinar os jovens depravados de Roma a pensar.
— Você parece cético, Políbio.
— Vi como é em Atenas. A sabedoria dos verdadeiros filósofos, de Sócrates, Platão e Aristóteles, foi diluída e degradada por homens que pensam que usar um manto de mestre e exibir uma barba branca ondulante os qualifica a nossa estima; a maioria é de homens como aqueles, constitucionalmente incapazes de pensamento original. Entretanto tentarão espalhar suas ideias confusas aos fracos e crédulos. Roma é como um jovem brilhante porém iletrado, ansioso para aprender, no entanto sem capacidade crítica. Estes homens não ensinam filosofia, mas a mera sofística, os jogos de palavras, e só falam em enigmas como faz Sibila, porém sem o benefício de Apolo para orientá-los.
— Você nos subestima, Políbio — disse Cipião, olhando para ele com uma seriedade fingida. — Para a maioria de nós, estes homens são apenas ornamentos, como aquelas estatuetas de bronze e pinturas que tomamos da Macedônia. Proporcionarão entretenimento após o jantar nas villas de Roma e Nápoles, em Herculano e Estabia. Sem dúvida nenhuma será imperativo ter um filósofo grego entre os escravos, assim como passou a ser de rigor ter um médico grego e um músico grego. Mas é melhor que tenham bons truques escondidos na manga. Ninguém nesses jantares irá de fato dar ouvidos ao que dirão. Eles serão meros artistas.
— Ainda assim, Cipião, sei que você comparecerá às palestras deles. Você é curioso demais para ficar de fora. Cuidado com os gregos que falam com a língua bifurcada.
Júlia o cutucou.
— Isso não inclui você, Políbio?
Cipião riu e deu um tapa nas costas de Políbio.
— De maneira nenhuma. O que Políbio realmente ama é um cavalo de batalha e a caça de javalis. Não é verdade, Políbio? Por isso você é tão fascinado por nós, os romanos. Você adora nossa praticidade. Para você, estudar história não é refletir sobre a condição humana como filósofo, mas compreender as batalhas do passado e encontrar a melhor maneira de usar a linha de conflito ou de distribuir a cavalaria ligeira. Estou certo?
Políbio o olhou intensamente.
— E por falar em caçar, soube que seu pai lhe deu a Floresta Real Macedônia como presente de maioridade. Sabia que aprendi a caçar ali quando era menino? Tem o melhor javali de qualquer floresta ao sul dos Alpes.
Cipião olhou para Júlia.
— Vê o que eu quis dizer? Fale em caçar javalis e ele é todo seu. — Ele se voltou para Políbio, sorrindo. — Tem razão. Estou ansioso para chegar lá. Mas na verdade será apenas um presente temporário, já que a Macedônia é propriedade pessoal de meu pai, no arrebol de Pidna. Daqui a alguns anos ele calcula que Roma tentará anexar a Macedônia como província e enviará um pretor. A floresta não será mais minha para a caça, então minha oportunidade é agora.
— Você disse que queria me ver — disse Políbio.
Cipião assentiu, sério de repente.
— Desde a última vez que nós o vimos, Públio Terêncio Africano andou contando a mim e a Fábio sobre Cartago.
— Terêncio, o dramaturgo? Você tem amigos interessantes.
Cipião assentiu.
— Terêncio era escravo em Cartago, e a mãe dele era africana de tribos berberes da Líbia, parentes dos númidas de Gulussa. Lembra-se do modelo de Cartago que fiz na academia?
— Aquele que você usou para planejar um possível ataque à cidade? Lembro-me de me perguntar como você teria obtido as informações. Eu pretendia perguntar a você, mas nesse meio-tempo veio o chamado às armas. Roma não tem se dado ao trabalho de ter espiões em Cartago desde o final da guerra contra Aníbal, e agora os romanos que tentam entrar na cidade são rechaçados. Dizem que o trabalho da grande construção está em progresso, mas tudo isso fica por trás do paredão do mar e portanto é invisível aos navios que por lá passam.
Cipião olhou para trás.
— Diga a ele, Fábio.
Fábio pigarreou.
— Minha mãe trabalhou na casa do senador Públio Terêncio Lucano, que manteve Terêncio como escravo e o libertou depois de lhe dar instrução e de perceber seus talentos como dramaturgo. Terêncio e eu nos tornamos amigos quando ele ainda era escravo. Ele me disse que Cartago era muito melhor no esconde-esconde do que Roma, devido às casas muito amontoadas ao pé da Birsa, a colina da acrópole. Quando, anos depois, Cipião disse que planejava construir um modelo de Cartago, eu trouxe Terêncio e ele deu conselhos sobre a construção.
— Lembra-se de como encenei o ataque? — Cipião virou-se para Políbio. — Eu disse muitas vezes que devemos nos concentrar nas características óbvias de defesa: as muralhas, os templos, os arsenais. Essas características foram tudo que os veteranos da última guerra contra Cartago puderam me contar, mas isso foi antes de eu conhecer Terêncio. Ele me contou sobre o círculo de casas antigas que cerca a Birsa, com uma profundidade equivalente a dois ou três de nossos cortiços. Pense nas casas da plebe que nos cercam agora em Roma, derramando-se pela beira do Fórum. Um general que planejar atacar Roma dificilmente se preocuparia com elas, pois ficam em quadras urbanas e é possível passar marchando diretamente por elas pelas ruas em direção ao Fórum. Se houvesse alguma resistência, você poderia simplesmente incendiá-las porque são feitas principalmente de madeira e gesso. Nenhum defensor que se preze montaria posição ali, mas em vez disso se protegeria atrás das construções de pedra do Fórum.
— Mas Cartago deve ser diferente — disse Políbio pensativamente. — Há menos madeira disponível na África, sendo assim há um uso maior da pedra até mesmo na mais rudimentar das habitações.
Cipião assentiu, entusiasmado.
— Exatamente. Aquelas casas vistas por Terêncio são de pedra: as paredes de pilares retos, os espaços entre eles preenchidos com alvenaria. Terêncio disse que instalaram vigas de madeira como assoalho, mas você não conseguiria queimá-la facilmente, a menos que fizesse chover fogo pelo teto. Para tanto, precisaria de máquinas de cerco, ou de catapultas em barcos ancorados próximos ao quebra-mar. E as casas em si parecem tocas de coelho, não são dispostas em blocos regulares, mas possuem vielas estreitas e passadiços nos telhados, bem como cisternas subterrâneas em cada casa onde a defesa pode ficar de emboscada. Foi o que Terêncio quis dizer com esconde-esconde. Uma força de ataque à distância de um arremesso de pedra da Birsa poderia pensar que ganhou o dia, mas estaria redondamente enganada. As forças de elite dos mercenários e da guarda especial, que em geral são os últimos a resistir em um cerco, aqueles que sabem que não receberiam qualquer compaixão caso se rendessem, poderiam organizar uma defesa a fundo e fazer com que a força de ataque pague caro, precisamente na hora em que os legionários começariam a voltar seu pensamento para a vitória e a pilhagem. O comandante do ataque precisaria garantir que mantivessem o ímpeto e avançassem para aquelas casas com a sede de sangue ainda intensa. Esta é uma visão tática que eu queria compartilhar com você. Estive pensando em Cartago novamente, Políbio. Preciso agradecer a Terêncio por isso.
Políbio abriu um sorriso irônico.
— Bem, eu sempre fui cético com os dramaturgos. Mas agora vejo que têm sua utilidade. — Ele se levantou e olhou pelas colunas da entrada, para as massas de soldados latinos que começavam a marchar por eles ao longo da Via Sacra, o início de uma longa procissão de aliados vitoriosos que seguiam atrás dos legionários e dos despojos da guerra. — É melhor você ir e ter sua dose de teatro antes que as festividades da noite realmente comecem. Acabo de ver Demétrio da Síria com seus guarda-costas e quero alcançá-lo para ter informações sobre outro arrivista que reivindica a sucessão de Perseu na Macedônia. Não é sempre que se tem tantos aliados de Roma na cidade na mesma época, e preciso aproveitar a oportunidade.
— Temos pouco mais de uma hora até o início da peça — retrucou Cipião. — Queria me dizer alguma coisa também?
Políbio voltou o olhar para Júlia e Cipião, e Fábio viu algo mais nos olhos dele, uma expressão hesitante, até mesmo uma tristeza.
— Hoje é uma oportunidade para vocês ficarem juntos sem que os outros os vigiem, ou saibam onde estão. Quero lhes dizer que as portas de minha pequena casa ao pé do Palatino estão abertas, e minha escrava Fabina sabe que vocês podem aparecer. Vocês não sabem quando terão essa chance novamente. Quanto a mim, irei. Ave atque vale. E lembrem-se do que eu disse. Aproveitem o dia.
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