Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 17 de 29

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Total War Rome: Destruição de Cartago

Capítulo 13

Vinte minutos depois, Cipião estava diante de Ênio, que descera de seu posto nas muralhas e se dirigia a ele.

— Sou o único oficial com a patente de tribuno que viu o que você fez hoje. Eu o recomendarei à spolia opima, por derrotar um líder inimigo em combate corpo a corpo. Você deve tirar a armadura de seu adversário e prender a um carvalho, depois levar a Roma e dedicar no templo de Júpiter Ferétrio. Você será apenas o quarto na história romana a receber tal honra, como Rômulo recebeu por derrotar Acro depois do rapto das sabinas. Será o maior herói vivo de Roma. Sua reputação militar estará garantida.

Cipião colocou a mão ensanguentada no ombro de Ênio, curvando-se para ele e respirando com dificuldade. Limpou a lama e a saliva da boca com a outra mão, depois o rechaçou, virando-se e olhando o corpo do chefe tribal.

— Lembra-se do que Aquiles fez em Troia? Ele despiu Heitor caído e arrastou o corpo pelas muralhas, provocando o inimigo e afligindo a esposa e os filhos de Heitor. E então, apenas dias depois, o próprio Aquiles estava morto, tombado por uma flecha no calcanhar, o único lugar onde era mortal. É uma alegoria, ou assim me disse Políbio. Aquiles deixou que o orgulho e a exaltação o dominassem e se esqueceu de proteger seu ponto vulnerável, assim como Ícaro voou perto demais do sol e a cera de suas asas derreteu. — Ele enxugou o rosto novamente, depois se aprumou, olhando o círculo de soldados romanos que estiveram assistindo ao combate, e os celtiberos restantes do outro lado. — Receberei a corona muralis por ser o primeiro nas muralhas de Intercacia no assalto ao oppidum na semana passada. Receber a spolia opima no dia do triunfo de Licínio Luculo em Roma seria eclipsar sua glória e angariaria a mim desconfiança e inveja que poderiam se tornar vantajosas nas mãos de Metelo e seus seguidores, aqueles que nunca me veriam comandar uma legião. Hoje, há muitos entre os legionários que travaram as próprias batalhas dignas da spolia opima. Pouco me importa a estima de Roma, mas importa-me muito a estima desses legionários. Você e sua coorte de fabri formarão a essência do exército que um dia liderarei. Quando seus homens avançarem para a batalha, sempre se lembrarão desse dia diante das muralhas de Intercacia. Essa será minha recompensa.

Ele voltou ao corpo do chefe tribal, pegou a espada e a colocou junto dele. Arriou-se em um joelho, na lama, e baixou a cabeça brevemente, depois se levantou. Uma mulher de cabelos desgrenhados apareceu com duas crianças pequenas à beira da lama, seguindo para o corpo. Cipião voltou e se colocou novamente ao lado de Ênio.

— Mande o optio soar a retirada. Daremos a eles tempo para homenagear e queimar seus mortos. Ordene ao intendente que traga duas carroças de grãos e deixe na entrada de sua paliçada. Este povo sabe que está derrotado. Mas se confiam em minha palavra, devem saber que sou magnânimo na vitória. Cumprirei a palavra que dei ao chefe.

— Alguns guerreiros sobreviventes se matarão. Já vimos isso ocorrer entre os celtiberos.

— Que assim seja. Eles combateram bem e merecem partir desta vida com honra. É melhor do que ser colocado na espada, como sem dúvida Licínio Luculo deseja fazer àqueles que se recusarem a se render, mesmo em cativeiro. Mas não são estes que levaremos a Roma. Queremos seus filhos, aqueles que podem ser treinados e nutridos para ser nossos aliados. — Ele olhou para a mulher e os meninos novamente. — Os filhos dela devem viver. Logo saberão do massacre em Coca. E não devem pensar que os legionários de Licínio Luculo terão rédeas soltas em seu oppidum e que sofrerão o mesmo destino.

— E por falar em Licínio Luculo, recebi a mensagem de que a legião está a menos de uma milha daqui. Ao cair da noite, chegarão ao acampamento. O que quer que eu faça?

— Pegue seus fabri e conserte a brecha na muralha. Ponha homens lá e na entrada do oppidum. Eles devem manter os homens da legião de fora e os celtiberos dentro dela. Depois que você vir o fogo das piras funerárias e souber que os celtiberos terminaram seus ritos, leve em marcha o restante de sua coorte para ocupar a cidade. Ninguém tem permissão para sair de seu posto até que a legião tenha partido.

— O que sabe dos planos de Licínio Luculo?

Cipião observou os legionários se afastarem das muralhas e voltarem à entrada do acampamento, e viu as outras mulheres celtiberas começarem a procurar pelos cadáveres de seus homens na lama. Não havia nenhum som, nenhum grito de lamentação, apenas o sussurro do vento sobre as muralhas e o crepitar distante do fogo das casas que ainda ardiam no oppidum. No campo de batalha, o calor subia dos corpos e se misturava à umidade do ar, formando uma névoa fina, flutuando alguns pés acima do chão, como se as almas dos mortos estivessem sendo arrancadas em um miasma espectral. Fábio viu Cipião encarando a cena atentamente, e então se virando para Ênio.

— Licínio Luculo reacendeu uma guerra que ainda ferverá por muito tempo no futuro, como aquelas brasas ardentes no oppidum, e só terminará quando a própria Numância cair. Se seus fabri não perceberam o que fizeram hoje, esta campanha poderia ter se estendido como as outras, por meses, provavelmente anos. Mas agora que temos a Intercacia para somar à Coca, Licínio Luculo terá o que veio buscar. Tem vitórias suficientes para um triunfo.

— E você?

Cipião abriu um sorriso.

— Um rio para lavar a lama e o sangue, depois algum vinho e comida. Mas não neste lugar. Licínio Luculo enviou-me em uma missão e não quero que ele mude de ideia quando vir que terminamos o trabalho aqui por ele.

— Uma missão? Você ainda não me contou.

— Encontrar mais elefantes para esta campanha. Ele sabe de minha amizade com Gulussa e seu pai Massinissa. Ele pensa que o nome Cipião é mágico na África e que os elefantes surgirão das dunas de areia de Numídia assim que eu chegar. Quer cinquenta deles, elefantes que serão inúteis aqui se ele voltar para casa agora.

— Você pode enviá-los diretamente a Roma, para seu triunfo. Ele pode fingir que nossos três elefantes eram cinquenta, e que ele esteve à cabeceira deles.

— Ele pode atravessar os Alpes com eles, tal como Aníbal, que isso não me diz respeito. Com a queda de Intercacia e esta campanha encerrada, procurarei outra nomeação como enviado especial à Numídia. Há grandes coisas em ação na África. Políbio sugeriu isso seis anos atrás na Macedônia, quando era apenas um boato. Mas ontem recebi um recado de Gulussa. Os cartagineses estão se rearmando. Seu novo porto circular está concluído, e foram construídas galés nos estaleiros. Eles recrutaram mercenários da Gália e os mandaram às fronteiras do território cartaginês. É apenas uma questão de tempo até que tenham um embate com as forças de Massinissa. Se Roma der apoio e jogarmos nossas cartas corretamente, poderá ser o início do último confronto contra Cartago, o qual Catão reivindicava em Roma há duas gerações.

Ênio segurou a mão de Cipião, os tendões de seus braços duros e fortes.

— Ave atque vale, Cipião Emiliano Africano. Que a Fortuna sorria para você.

— Talvez agora eu possa ter direito a esse agnomen. Mas será necessário Marte Ultor, o deus da guerra, e não apenas Fortuna.

— Lembre-se do que nos ensinou Políbio. Não são os deuses que vencem as guerras, apenas os homens.

Cipião apontou o campo com a cabeça.

— Não apenas homens. Legionários romanos.

— Quando nos convocar, nós nos uniremos a você.

— Talvez não este ano, nem mesmo no seguinte. Mas será em breve. Posso sentir o cheiro, o odor de areias do deserto da África soprando para o norte, do mesmo jeito que sopravam nos tempos de meu avô. Haverá guerra novamente antes que você e eu estejamos velhos demais, e é essa guerra que está em nosso destino.

— Agora vá. Ouço o martelar da legião que se aproxima.

Cipião soltou a mão de Ênio, deu-lhe um tapa no ombro e se virou para Fábio.

— Uma galé ligeira espera por nós em Tarraco. Se cavalgarmos agora, chegaremos lá ao amanhecer e estaremos com Gulussa em quatro dias. Não temos tempo a perder.

 

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