Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 11
O mensageiro que desmontou do cavalo correu até eles, colocando a mão direita no peito em saudação. Era um homem que Fábio conhecia e em quem confiava, Quinto Ápio Probo, legionário experiente da velha guarda que tinha sido feito mensageiro porque sabia cavalgar e se ferira na perna.
— Tenho notícias de Coca. O oppidum caiu.
Ênio olhou para ele incisivamente.
— Caiu? Mas minhas catapultas não estavam prontas. Sem elas, nunca teriam rompido as muralhas.
— Não foi necessário. Foi uma rendição negociada.
— Negociada? Lúcio Licínio Luculo? Essa vai para os livros.
— Não foi o general que se encarregou das negociaçoes. Foi o tribuno maior de seu grupo, Sexto Júlio César.
— Ah — respondeu Ênio. — O irmão de Júlia. — Ele se virou para Cipião. — Ele é linguista e fala o idioma deles. Um de seus escravos domésticos em Roma era um velho chefe tribal celtibero, um guerreiro que Aníbal arregimentou para sua causa quando marchou por aqui com seus elefantes a caminho de Roma. Lembra-se dele, Cipião? Ele nos ensinou a usar a espada ibérica de dois gumes.
Cipião assentiu, depois olhou o homem.
— Você parece incomodado, Quinto Ápio. Há mais a dizer, não? Pode falar com franqueza. Tem a minha palavra.
Quinto deu um pigarro.
— Sexto garantiu a segurança do povo em troca da permissão deles para uma guarnição romana ocupar o oppidum da negociação. O próprio Licínio Luculo os levou para dentro. Mas era um manípulo da nova legião, os homens que o próprio Licínio Luculo havia recrutado do quarto distrito de Roma, prometendo saques e forçando o alistamento daqueles que se recusassem a se apresentar. Fui criado junto daquela região e sei como eles são. Dão os melhores legionários, se treinados com mão de ferro, caso contrário, os piores. A única ação que esses homens viram foram guerras entre gangues em Roma depois das corridas de biga, a única disciplina, o açoite dos procuradores militares quando foram conduzidos para os navios à Ibéria.
O queixo de Cipião estava severamente cerrado.
— E o que houve?
— Licínio Luculo permitiu que pilhassem o oppidum. Mas todos nós sabemos que os celtiberos têm pouco a oferecer. São criadores de ovelhas e de gado, e não comerciantes. Aqueles novos recrutas foram estragados por histórias do saque da Macedônia e pensam que toda cidade estrangeira tem pilhas altas de ouro e prata. Mas quando nada encontraram em Coca, Licínio Luculo lhes deu a segunda opção. Ele é um general bom o suficiente para saber que os homens enviados à guerra que ainda não mataram quererão saciar sua sede de sangue, e então, quando tiverem acabado, isso lhes ocupará a mente pelos dias seguintes, até quererem mais.
Cipião deu um passo para trás, fechando os olhos por um momento e pressionando a ponte do nariz.
— Não me diga.
— Todos os habitantes homens. Foram cercados e despedaçados à morte, depois incendiaram o lugar.
— Por Júpiter — murmurou Ênio.
Cipião respirou fundo e cerrou os dentes.
— Há quanto tempo?
— Seis horas. Vim o mais rápido que pude. Devo alertar você de que Licínio Luculo está a caminho, e seus homens esperam mais do mesmo. Devem chegar ao cair da noite.
— A legião inteira?
Quinto assentiu.
— Inclusive o manípulo que entrou no oppidum. O lugar não precisa mais de uma guarnição.
Ênio grunhiu.
— Pelo menos trarão as balistas. Assim posso começar a bombardear Intercacia adequadamente. Se não se renderem em breve, será a única maneira de forçarmos sua rendição. Será apenas uma questão de tempo antes que eles saibam o que aconteceu em Coca. Eles usam corredores para passar notícias de oppidum a oppidum, e às vezes não conseguimos alcançá-los.
Quinto virou-se para Cipião.
— Ainda pode haver uma chance de você negociar uma rendição antes da chegada de Licínio Luculo. Os prisioneiros celtiberos que nos serviram de intérpretes nos postos de comando disseram-me que só há dois romanos conhecidos do exército na Espanha que merecem sua confiança, Sexto Júlio César e Cipião Emiliano. Sexto negociou a paz com eles no ano passado, antes de Licínio Luculo chegar e começar a própria guerra, mas agora, evidentemente, eles terão perdido toda a fé na capacidade de Sexto de fazer seu general cumprir o lado romano do trato. Com você, porém, pode ser diferente. Você não fez parte da campanha anterior, assim eles não conhecem seus padrões. Só o conhecem como alguém que partilha o nome de Cipião Africano, o grande general que derrotou Aníbal e foi magnânimo com os guerreiros celtiberos do exército derrotado de Aníbal, mantendo apenas alguns como escravos em Roma e executando somente os chefes tribais. É possível que eles ainda deem ouvidos e confiem em você.
— Somente se eu mostrar a eles que posso apoiar minhas palavras com a força — murmurou Cipião, semicerrando os olhos para as muralhas em meio à garoa. — Preciso atacar o oppidum e colocá-los de joelhos. Apenas quando virem que os legionários estão sob meu comando acreditarão em minha palavra.
Ênio o fitou.
— Tenha cuidado ao assumir tais questões para si, Cipião Emiliano. Lembre-se de que Licínio Luculo é seu general e seu patrono. Pense em onde você estaria sem ele.
— Sei muito bem — disse Cipião. — Eu estaria de volta à Macedônia, em um edil provincial subserviente a Metelo, estabelecendo um tribunal de uma cidade tão obscura que mal valeria Metelo tentar me fazer desaparecer para sempre, com minha sobrevivência contínua como oficial empacada, dando a ele algo pelo qual se gabar. Tenho de agradecer à rudeza de Licínio Luculo, uma natureza que permitiu que ele não tivesse consideração nenhuma pelo Senado quando me apresentei voluntariamente para a Espanha e consegui que adiassem minha nomeação à Macedônia. Mas também sei como isso funciona em Roma. Licínio Luculo é cônsul, mas apenas por um ano. Ele é um novus homo, um novo homem de uma família desconhecida. Já foi colocado em prisão domiciliar pelos tribunos por sua mão pesada no recrutamento para sua legião em Roma, e agora contraria instruções expressas do Senado ao reacender a guerra, quando devia apenas vir aqui estabelecer uma guarnição. Tenho de ser grato a Licínio Luculo e a sua guerra por dar minha primeira nomeação em campo desde Pidna. Mas um Licínio Luculo não é patrono para um Cipião. Nunca ascendi acima de tribuno militar, e daqui a um ano estarei recapitulando uma carreira militar que não seria digna da inveja de ninguém, uma promessa não cumprida.
— E o que fará? — perguntou Ênio.
Cipião fez uma pausa antes de responder.
— Sempre me lembro das palavras de meu pai. O único caminho verdadeiro para a glória é por seus próprios feitos no campo de batalha, como guerreiro e como líder de homens, e só esses feitos lhes garantirão sua reputação. Conquistarei a estima de meus homens e a confiança de meus inimigos. Se houver um futuro para Cipião Emiliano, será conquistado por sua reputação e por sua fides, sua palavra de honra.
Ênio o olhou, depois apontou as muralhas com a cabeça.
— Levará uma força de assalto pela brecha?
— Temos cinco horas até o poente, então chegará a legião. Os celtiberos estão sempre atentos, mas não estarão esperando um ataque tão tarde. Quando estaremos prontos?
Ênio o olhou atentamente.
— Temos quinhentos homens esperando por cada palavra sua. Estão ansiosos para ir. Podemos lançar um ataque dentro de uma hora.
Cipião assentiu, então olhou para Quinto. Sua expressão era tensa, e ele tinha fogo nos olhos.
— Encontre um pilo e afie sua lâmina. Vamos à guerra.
Quinto o saudou e saiu. Fábio se virou para Cipião.
— Deve saber que há insatisfação entre os centuriões.
Cipião o fitou.
— Fale com franqueza.
Fábio fez uma pausa.
— Trata-se de Licínio Luculo ser um novus homo. Esse é outro motivo pelo qual ele necessita oferecer pilhagens e sangue a seus homens. Eles sabem que ele veio do nada, que é um deles, que há duas gerações seus familiares eram açougueiros no Fórum Boário. Os legionários esperam que um dos seus ascenda ao posto de primipilo, mas não a comandante de exército. Ele é um demagogo, como um dos tribunos do povo em Roma, aproveitando-se desses homens como se ainda fossem os bandidos de rua indisciplinados que eram quando ele os cercou, e não legionários. Os legionários esperam que seus oficiais sejam patrícios com uma linhagem venerável de serviço militar em suas famílias, homens que liderarão a partir do front. Licínio Luculo não é nenhuma dessas coisas. Você pode pensar que ainda precisa se provar digno de sua linhagem, Cipião, mas os centuriões experientes o seguirão em detrimento de Licínio Luculo, sempre.
Ênio falou em voz baixa.
— Guarde essas reflexões para si, Fábio. Cipião é apenas um tribuno, e temos um manípulo de quinhentos homens, a maioria de fabri. É aqui, diante das muralhas de Intercacia, que ele deve conquistar sua reputação, e não como um usurpador reagindo à insatisfação de alguns centuriões. Quando ele for legado, talvez, mas não agora. Roma o destruiria por infringir as regras.
— Não culpo Licínio Luculo por ordenar o recrutamento — disse Cipião pensativamente. — Ele foi punido porque conduziu o assunto como deve ser feito, sem favoritismo, e recusou-se a dispensar aqueles que ouviram promessas dos tribunos. Ele pode ser rude e um general fraco, mas não é corrupto. Os tribunos do povo tratam Licínio Luculo com severidade porque ele é um novus homo, um deles, um homem de origens plebeias que renegou suas raízes e almejou se tornar patrício. Não o culpo tampouco por isso. Mas o culpo por induzir os homens a se alistarem oferecendo-lhes recompensas, e por trazê-los até aqui sem treinamento básico. Como não houve outra guerra desde Pidna, a maior parte dos veteranos existentes já estava com o exército na Espanha, e essa nova legião é compreendida quase inteiramente por homens não versados na guerra, desprovidos de disciplina ou de habilidades, ou do ceticismo do veterano que recebe as promessas de pilhagens com cautela. — Cipião pôs a mão no ombro de Fábio. — Nosso tempo para coisas maiores virá, Fábio. Até lá, devo mostrar minha lealdade para com meu general. E, por ora, temos outros oppida a tomar.
Quinze minutos depois, eles subiam um caminho acidentado onde fragmentos maiores de pedras caídas da brecha tinham sido afastados pelos elefantes. No alto, os dois sentinelas junto à muralha se puseram de lado e olharam pela abertura. Bem à frente havia uma grande área aberta, sem vegetação ereta e marcada por poças de lama, ocupando talvez um terço do espaço dentro das muralhas externas do oppidum. Para além dali, havia uma muralha interna, construída com pedras irregulares como as da muralha onde estavam em pé e cercada por uma paliçada de madeira que ainda sobrevivia em certos lugares em sua altura original, com uma torre de observação parcialmente queimada ainda intacta acima da entrada. Pelos espaços calcinados da paliçada, criados pelas bolas de fogo de Ênio, eles viam as casas rudimentares dos celtiberos, de telhado de palha e circulares como as antigas cabanas de Rômulo no Monte Palatino em Roma. Fábio virou-se para o optio encarregado do destacamento de sentinela, o veterano grisalho com apenas uma orelha que ele pensou ter reconhecido de uma convocação de jovens recrutas anos antes em Pidna.
— Quantos calcula que ainda estão lá dentro?
O optio olhou a paliçada.
— Talvez duas centenas de guerreiros e o mesmo número de civis, a maioria mulheres e crianças. Mas o número cai a cada hora. Dê uma olhada naquela pequena procissão à esquerda.
Fábio seguiu o olhar do outro até uma pequena abertura no muro interno, cerca de cinquenta pés à esquerda da entrada, abaixo da torre. No terreno aberto à frente havia um fogo que bruxuleava baixo, e ele percebeu que devia ser a origem do leve odor de carne queimada que vagava pela brecha na muralha. Ele distinguia várias figuras através da fumaça, arrastando algo para o fogo, e mais outros em volta, aparentemente correndo ao acaso de um lado a outro.
— É alguma espécie de ritual? — disse Fábio. — Um terreno sagrado?
— É sagrado, é bem verdade — disse o optio severamente. — Um dos prisioneiros disse que a área aberta diante de nós é usada para combates homem a homem entre guerreiros, para resolver disputas e selecionar o próximo chefe tribal. Mas o que ocorre ali agora é um ritual diferente.
Ênio olhava por um longo tubo com lentes de cristal em cada extremidade o qual Fábio se lembrava de tê-lo visto montando na academia. Ele o passou a Cipião, que estava equilibrado em uma pedra, e o apontou para o fogo e as pessoas, fechando um olho e semicerrando o outro pela lente.
— Por Júpiter — murmurou ele. Baixou a cabeça, depois passou o tubo a Fábio, que se apoiou na borda estilhaçada da abertura e olhou por ele.
A imagem oscilava, distorcida, borrada nas bordas com explosões de cores, como um arco-íris entrando e saindo de foco, mas depois de alguns instantes ele percebeu que o centro da lente não era distorcido e fixou o olho na visão, ampliada quatro ou cinco vezes em relação à imagem que ele conseguia ver a olho nu.
O que ele viu foi o retrato do horror. As pessoas que iam ao fogo arrastavam corpos humanos, cobertos de lama, formas emagrecidas que mal podiam ser distinguidas dos vivos, vestidos apenas em trapos e com os cabelos longos e embaraçados. Uma vez perto da fogueira, atiravam os corpos nas brasas e esperavam até que se incendiassem. Mas outros também estavam ali, rondando a pira feito abutres. Fábio viu um deles investir e puxar um cadáver, cortando-o freneticamente com um machado e se afastando, trôpego, segurando um braço, enterrando os dentes na carne. Aqueles que haviam trazido o cadáver correram atrás dele quando ele tentou fugir e o derrubaram, atacando-o na lama até que ficasse imóvel. Em torno da cena, Fábio via outros que haviam escapado com seu prêmio, agachados na lama feito cães, mordendo os nacos de carne desmembrada. Fábio baixou o tubo e o ofereceu ao optio, que balançou a cabeça.
— Estive vendo isso o dia todo — disse ele. — Não quero ver mais.
Ênio virou-se para Cipião.
— Podemos dizer o quanto gostamos de sujeitar uma cidade pela fome, traçando linhas de batalha na areia e empurrando soldados de brinquedo por paisagens modelo na academia. Mas esta é a realidade. Podemos deixar que a fome vença a guerra por nós, mas não há honra em assistir a um povo orgulhoso reduzido a isto.
Cipião se ergueu, de joelhos, expondo o corpo pela brecha por um instante. Uma flecha passou sibilando de repente e bateu em sua couraça, dando cambalhotas para longe. Todos se abaixaram atrás da linha da muralha, e Cipião olhou a marca onde a flecha havia batido em seu peito. Ele olhou para Fábio, depois para Ênio.
— Muito bem. Já vi o bastante. Com os seus fabri e a minha centúria, teremos trezentos homens para romper por esta brecha. Entraremos em formação naquele espaço aberto e desafiaremos seus guerreiros a saírem e nos encontrarem. — Ele se virou para o optio. — O que me diz, legionário? Seus homens estão prontos?
— Aguardamos seu comando — grunhiu o homem, puxando parte da espada da bainha. — Acabemos com isto.
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