Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 2
– Cipião! Está pronto! — A voz veio do canto da sala, oposta a Hipólita, de um amplo rebaixo com uma lareira. Fábio conseguia distinguir apenas uma figura na meia-luz, agachada sobre o braseiro, com uma vela de sebo acesa na mão. Viu Cipião olhar ansiosamente a porta por onde o centurião chegaria, e então olhar para os outros.
— Muito bem. Ênio tem alguma coisa para nos mostrar. Mas ao primeiro ruído do centurião andando pelo corredor, todos correm de volta a seus lugares em torno da mesa. Vocês sabem o que o velho Petreu pensa das invenções de Ênio. Preparemo-nos todos para isso.
Eles se agruparam em torno do rebaixo, inclusive Hipólita. Políbio se colocou ao lado de Cipião, de mãos às costas, olhando os outros com interesse, parecendo muito mais um erudito do que um soldado. Nos últimos meses, os experimentos de Ênio deviam muito a Políbio, que o havia apresentado às maravilhas da ciência grega e estimulado seu fascínio pela engenharia militar. Cipião cutucou Políbio.
— E então, o que a magia antiga lhe revelou desta vez, meu amigo?
Políbio deu de ombros.
— Conversamos ontem sobre o relato de Tucídides sobre o cerco de Delos.
Gulussa estava ao lado deles e olhou intensamente para Políbio.
— No ano da 350ª Olimpíada, isto é, 156 anos atrás — disse ele, seu latim acentuado pelo som gutural e suave de númida. — A ação na qual o filósofo Sócrates lutou como um hoplita, quando os atenienses foram mortos pelos beócios. A primeira grande batalha na história a envolver planejamento tático em larga escala, inclusive a coordenação detalhada de cavalaria e infantaria.
Políbio o olhou enviesado.
— Você ouviu bem minhas lições, Gulussa. Nota máxima.
Cipião olhou o rebaixo.
— Então... O que é? Algum mecanismo de guerra?
— Tudo que sei é que, depois de eu contar a ele sobre o cerco, ele fugiu até Óstia, onde tem um amigo em uma viela atrás do porto que lhe fornece toda sorte de substâncias exóticas, trazidas de todos os cantos do mundo — respondeu Políbio.
— Este seria Poliarco de Alexandria — disse Cipião resignadamente. — Em geral isso significa pirotecnia, e normalmente não se consegue despregar o cheiro das roupas por dias.
Ênio estava de costas para eles e moldando alguma coisa no braseiro.
— Deem apenas um minuto — pediu ele, a voz abafada no rebaixo.
Fábio estava atento ao passo distinto do centurião, mas só ouvia o silvo de lâminas e o som de pés se arrastando, e o ocasional grunhido na arena abaixo. Brutus os havia deixado durante o período de estudo e estava treinando com sua espada novamente. Fábio se voltou para a figura agachada no escuro. Ênio se intrigava com toda sorte de geringonças desde que Fábio o conhecera, ainda menino, brincando no Monte Palatino com Cipião: pontes, barcos, guindastes para levar colunas e blocos de pedra pela cidade, os princípios da arquitetura. O velho centurião aprovava isso: quando um legionário não estava combatendo, seu trabalho era cavar fortificações e construir fortalezas, presididas pelos centuriões que se orgulhavam de suas habilidades de construção quase tanto quanto de sua bravura em combate.
Mas a loucura mais recente de Ênio era uma questão inteiramente diferente. Com a apresentação à ciência grega por Políbio, veio um fascínio pelo fogo. Ênio chegou inclusive a acompanhar Ptolomeu quando ele voltou ao Egito no mês anterior, depois que Ptolomeu foi chamado para assumir o trono egípcio. Pretensamente, Ênio o havia acompanhado para os ritos de casamento de Ptolomeu e para caçar crocodilos, mas, sobretudo, queria ir à universidade em Alexandria para conferir em primeira mão o trabalho de cientistas gregos; voltou apenas na semana anterior, transbordando de entusiasmo. Chegou a sugerir a Petreu que o exército romano precisava de uma coorte especializada de fabri, os engenheiros, tendo a ele mesmo como tribuno, com a tarefa de supervisionar e melhorar fortificações e também de desenvolver novas armas de guerra. Cipião nunca vira uma nuvem tão negra descer sobre a face do velho centurião. Sugerir que especialistas deveriam fazer o trabalho tradicional de legionários era uma afronta a à honra deles. Sugerir que novas armas de guerra eram necessárias era não apenas uma afronta aos legionários, mas um insulto ao próprio centurião; Ênio questionava sua capacidade de matar com as armas mais honradas pelo tempo, a espada, o dardo de arremesso e as mãos nuas. Mas mesmo na semana de castigo que Ênio suportara, limpando o esterco do estábulo de elefantes, seu ardor não diminuirá, e ali estava ele novamente arriscando-se à ira do centurião para lhes mostrar outro milagre da ciência.
— Muito bem. — Ênio afastou-se da lareira e girou para encará-los, mostrando a eles o objeto que estava modelando. Parecia uma esfera de argila úmida, só que preta e reluzente. Diante da lareira, havia potes cheios de pós, um amarelo vivo, os outros, vermelho e marrom. Ênio tossiu, depois os fitou, sua expressão denotando imensa empolgação.
— E então? — disse Cipião. — Não temos o dia todo.
Ênio pegou uma tabuleta encerada e um buril de metal.
— Primeiro, vocês precisam entender a ciência.
— Não. — Cipião ergueu a mão. — Não, não precisamos. Apenas mostre.
Ênio pareceu brevemente desapontado. Baixou a tabuleta e pegou a vela acesa.
— O que sabem sobre o Fogo Grego?
Cipião pensou por um momento.
— Era usado pelos assírios. Criavam-no a partir do alcatrão negro que ferve no deserto.
— Eu mesmo vi o alcatrão, quando visitei a terra dos israelitas, ao lado do mar interior salgado — acrescentou Metelo. — Os gregos chamam de nafta.
— Eles também chamam de fogo da água — murmurou Políbio. — Não é extinto pela água e continuará a arder mesmo que você o atire na superfície do mar.
— Correto — disse Ênio, contorcendo-se de empolgação. — Agora vejam isto. — Ele jogou a vela num leito de cavacos sob o braseiro. As lascas de madeira se incendiaram, e as chamas envolveram a esfera, subindo para a chaminé. De repente a bola estalou e explodiu numa chama violenta que rugiu pela chaminé e desapareceu, seguida por uma sucção de ar, sem deixar nada além das cinzas do braseiro e um cheiro acre. Ênio jogou um pote de água nas chamas, vendo a fumaça desaparecer na chaminé, e se voltou para eles novamente, com um sorriso largo. — E então? Impressionados?
Metelo estava perto do fogo e tapou o nariz.
— O que você colocou nisso, Ênio? Esterco de elefante?
— Não está muito longe disso. — Ênio enxugou a testa, deixando uma mancha preta. — Salitre, feito das fezes curtidas de aves. Um sacerdote egípcio me mostrou como fazer. Mas o cheiro é de enxofre.
— E daí, Ênio? — Cipião tinha a orelha aprumada para qualquer ruído no corredor.
— Viu como o calor que sobe do fogo atrai as chamas da nafta para a chaminé? Quando chegou ao telhado, deve ter explodido em um jato de fogo mais alto até do que o Templo Capitolino.
— Por Júpiter, espero que o velho centurião não tenha visto isso — resmungou Cipião.
— Então acha que pode ser uma arma? — disse Metelo, em dúvida.
Ênio levantou a cabeça.
— Políbio, diga a eles.
Políbio pigarreou.
— No cerco da fortaleza beócia de Delos, os atenienses preparavam tubos de metal para lançar fogo no inimigo. Tucídides os chamou de lança-chamas.
— Estão vendo? — disse Ênio. — Alguém teve a ideia há quase trezentos anos, mas então foi esquecida. É característico de nossa atitude para com a tecnologia. Por quê? Vejam nosso amado centurião. Uma completa inflexibilidade. — Ele meneou a cabeça, frustrado, mas voltou a se animar, gesticulando ao falar. — Vocês precisariam de um tubo de bronze de cerca de seis pés de altura e um palmo de largura, instalado obliquamente de frente para o inimigo. Na base haveria um braseiro com um fogo para criar a carga necessária no tubo. Colocariam uma bola de nafta pelo tubo, depois teriam um arco de fogo de no mínimo cem pés de altura.
Cipião estava cético.
— A operação de tais máquinas exigiria que homens valiosos se afastassem da linha de frente, homens que poderiam matar mais inimigos com as próprias mãos do que com esta engenhoca.
— Eles não seriam legionários. Seriam recrutas de terceira ou quarta classe, inadequados para a ação na linha de frente. Seria um manípulo especializado em lança-chamas.
Cipião contraiu os lábios.
— Você pode usar isso contra as paliçadas de madeira dos celtas, mas não seria de muita utilidade contra uma muralha de pedra. Teria de se aproximar o suficiente para projetar o fogo acima dos baluartes, e assim ficaria ao alcance fácil das flechas e dos dardos da defesa. Como arma de campo de batalha, a nafta ardente caindo sobre os homens causaria danos terríveis, isso eu lhe garanto, mas um assalto sob escudos unidos, o testudo, proporcionaria uma barreira, e, avançando rapidamente, a força de ataque logo estaria em relativa segurança, sob o arco de fogo. — Cipião colocou as mãos nos quadris, pensando. — Vejo isto em uso na guerra naval, desde que o vento esteja na direção correta e você não queime o próprio navio. Mas para o combate terrestre, nisso eu me ponho ao lado do centurião. Seria pouco mais do que um espetáculo. Venham, vamos voltar à mesa antes que ele chegue.
— Espere um momento — disse Ênio, agitado. — Só estamos pensando em uma versão rudimentar, e concordo com você. Precisamente por isso não foi a lugar nenhum trezentos anos atrás. Mas minha ideia é diferente. Supondo que você lacre uma extremidade do tubo, deixando apenas um pequeno buraco na base para introduzir a chama. E supondo que você compacte a nafta pelo tubo e largue uma pedra ou bola de chumbo pelo alto, com tamanho para caber confortavelmente no tubo e impedir que os gases emanem para fora. Os cientistas gregos em Alexandria me mostraram que as substâncias voláteis podem queimar mais violentamente quando comprimidas em um espaço pequeno. Com este tubo, a arma não seria o fogo, mas o projétil. Uma bola pesada projetada do tubo com velocidade suficiente pode danificar muralhas de madeira, até as de pedra. Projéteis menores podem ser usados no campo de batalha, esferas de chumbo ou ferro, pesando menos de uma libra. Lançada a alta velocidade, tal bola pode decapitar um homem, ou cortá-lo ao meio. Como armas individuais, os tubos de fogo podem não fazer muita diferença no resultado da batalha. Mas reunidos, disparados em salvas como flechas ou dardos, podem causar um caos. Até homens de armadura podem ser mortos pelo choque do impacto.
Cipião o encarou.
— Bem, você já experimentou?
Ênio baixou os olhos, desanimado de repente.
— A bola subiu apenas até a metade do tubo. A força da nafta não é suficiente. Preciso de algo que queime rapidamente e faça com que a mistura realmente estoure.
Fábio aprumou o ouvido. Com o passar dos meses, havia ficado sintonizado com o passo distinto do centurião e a batida de seu bastão. E lá estava. Tump tump bang. Tump tump bang. Logo haveria o retinir da armadura, o chocalhar de condecorações no peitoral.
— Rápido — cochichou ele a Cipião. — O centurião!
Cipião bateu palmas e todos correram para se reunir em volta da mesa, olhando atentamente o diorama de batalha. Ênio espanou a fuligem de si e de suas roupas o melhor que pôde e jogou um pano sobre os recipientes perto da lareira, juntando-se a eles em seguida. Cipião tocou o pequeno gorjal de bronze pendurado no pescoço que era a insígnia de autoridade sobre os outros, dada a ele pelo centurião, e endireitou a espada. Fábio farejou o ar cautelosamente e se deprimiu. O cheiro de ovos podres do enxofre era inconfundível. O centurião perceberia, e Ênio seria colocado de plantão com Aníbal, o elefante, pelo mês seguinte.
Ele pensou na mistura de Ênio. E de repente se lembrou de Júlia, da cerimônia à qual ela comparecia hoje com a mãe. Dos lictores que levavam as Virgens Vestais ao templo lançando nuvens de poeira de carvão no ar, depois jogando velas acesas. A poeira se incendiava, crepitando e cintilando num arco-íris de cores. Ele olhou para Ênio, mas pensou melhor. A última coisa que queria era que Ênio explodisse a Escola de Gladiadores. E ele precisava aprender seu lugar; havia um motivo para o centurião tratá-lo com severidade. Antes de levar seus experimentos adiante, Ênio precisaria ganhar suas credenciais com o sangue no campo de batalha, como todos eles. Então, e somente então, homens como o centurião lhe dariam ouvidos. Fábio deixou o pensamento de lado e voltou-se para a porta, retesando-se e colocando-se em posição de sentido quando viu a figura parada ali. Agora é que o treinamento do dia realmente começaria.
Marco Cornélio Petreu, primipilo da primeira legião em três campanhas, era o soldado mais condecorado do exército romano. Parado à soleira da porta, parecia tão velho e rijo quanto uma antiga oliveira, suas pernas e seus braços eram massas nodosas de músculos e veias, o rosto vincado e bronzeado. Na mão esquerda, carregava um capacete de bronze dourado, arrematado pela crista transversa, a crista do centurião composta de penas de águia, e na mão direita trazia a outra insígnia de centurião, o bastão de videira. Sobre o cabelo branco cortado bem curto, usava a coroa de louros da corona obsidianalis, a mais alta condecoração militar romana, dada a ele na Macedônia por matar seu próprio tribuno quando o homem falhou e por em seguida assumir seu manípulo e liderá-lo à vitória. Em seu peitoral musculoso havia outras condecorações, os ornamentos de mais de quarenta anos de guerra. Sempre que Fábio o via à porta, era como se estivesse confrontando uma aparição de seu passado glorificado, como se o próprio Marte, o deus da guerra, tivesse entrado em sala de aula. Suas credenciais de batalha equivaliam às dos melhores: o centurião havia combatido ao lado do pai de Fábio e do avô adotivo de Cipião contra Aníbal em Zama, no Norte da África, a batalha exata representada pelo jogo de guerra na mesa diante deles.
Todos sabiam que o centurião pretendia interrogá-los sobre a ordem de batalha. De soslaio, Fábio via o recém-chegado Caio Paulo murmurando nervosamente os nomes da formação para si, sabendo que Cipião o instruíra a responder às primeiras perguntas. Mas então Petreu contorceu o lábio, farejando.
— Mas o que é esta fedentina? — grunhiu. Sua voz era rouca, e o sotaque era um dialeto rude e rural das Colinas Albanas. Ele inspirou ar novamente, torcendo o nariz. Ênio tossiu e baixou a cabeça. Fábio fechou os olhos, esperando pelo pior. O centurião grunhiu, farejando ruidosamente. — Alguém está com flatulência? — Seus olhos encontraram os de Gulussa. — Você não andou comendo camelo cru de novo, não, Gulussa? Lembro-me bem que seu pai Massinissa nos deu isso para comer na noite anterior à Batalha de Zama. Naquela noite, nossa tenda fedia a uma mina de enxofre. Se alguém acendesse um fogo, a tenda teria se incendiado e se erguido no ar como uma pirotecnia grega. — Ele gargalhou e gesticulou para o diorama. — É o que vocês não aprendem aqui. Os fundamentos da guerra. O cheiro da vitória.
Fábio soltou o ar lentamente. Ênio escapara, mas todos sabiam que o recém-chegado Caio Paulo estava prestes a ter seu dia de julgamento. Estava rigidamente em posição de sentido, olhando o centurião. Quando Petreu ficava assim, nostálgico com as batalhas do passado, sua mão se fechando no bastão, parecia um homem se preparando para uma noite na taberna; só que não era a perspectiva do vinho que conferia aquele brilho a seus olhos, mas a perspectiva de sangue. Hoje era o dia do mês em que os criminosos que tinham recebido pena capital desfilavam na arena e em que os rapazes podiam usar as armas em vítimas vivas. Hoje, Caio Paulo se tornaria um matador, se tivesse estômago para tal. Cipião sabia que o centurião seria tão impiedoso com Caio Paulo quanto tinha sido com cada um dos outros quando os fez pressionar o ferro frio no peito de um homem vivo.
O centurião bateu seu bastão, pôs o capacete e segurou o punho da espada. Passou os olhos pela sala, com a respiração áspera e acelerada.
— Ora, então — rosnou ele. — Estamos prontos para agir?
Ele estalou os dedos e apontou para o mais próximo dos três escravos parados junto à parede, segurando bandejas, um jovem de músculos firmes e pele escura que parecia assírio, com o cabelo preto e crespo e os ralos primórdios de uma barba no queixo. O escravo parou por um momento, sem saber o que fazer, e o centurião acenou para ele se aproximar.
— Largue a bandeja — grunhiu. — Venha cá. — O escravo obedeceu, e o centurião apontou Cipião e Fábio. — Segurem os braços dele.
Fábio pegou o pulso esquerdo do escravo, sentindo o músculo forte do braço, e torceu às costas como aprendera a fazer com os prisioneiros na arena; Cipião fez o mesmo do outro lado. Ele sentia o escravo tenso, esperando apanhar. Não seria a primeira vez que o velho centurião usaria escravos para demonstrar um golpe de luta de paralisação ou nocaute, um risco ocupacional para os escravos que tinham o azar de trabalhar na Escola de Gladiadores.
O centurião sacou a espada. Era um gládio, mas com uma ponta em formato de folha mais alongada do que a costumeira romana, uma forma que eles sabiam ter sido copiada, por ordem do centurião, de lâminas ibéricas que este havia encontrado em campanhas contra os cartagineses na Espanha, antes de Aníbal atravessar os Alpes e entrar na Itália. Ele a ergueu e colocou o indicador na ponta, tirando sangue, em seguida pôs a face da lâmina na palma da mão, apontando para a parte superior do abdome do escravo.
— Não no coração — disse ele. — Quero que ele viva por tempo suficiente para vocês verem como os músculos do corpo reagem a uma lâmina enterrada fundo. É assim que vocês aprendem.
O escravo arregalou os olhos de pavor, boquiaberto, babando. Gritou algo que Fábio não compreendeu, palavras em sua língua nativa, e os olhou, suplicante. O centurião grunhiu, olhou em volta e pegou um pergaminho que Políbio estivera segurando, rasgou-o, metendo o carretel de madeira atravessado na boca do escravo para funcionar como mordaça. O homem soltou um grunhido terrível e teve ânsias, soltando uma baba de vômito que emanou um odor desagradável na sala. Sua cabeça tombou para frente, e o centurião gesticulou para Fábio e Cipião segurarem cada ponta do carretel com a mão livre e mantivessem a cabeça do escravo erguida. Seus joelhos tremiam e vergavam, e Fábio sentiu o peso do corpo dele. Viu um fio de líquido marrom descer pela parte interna da perna do homem e sentiu seu cheiro, virando a cara e engolindo em seco.
Caio Paulo colocou-se na frente, mais baixo e mais magro do que os outros, mal parecendo ter idade suficiente para estar ali, preso ao chão, encarando o escravo. O centurião apontou para ele.
— Você, novato — rosnou. — Não pense que não sei quem você é: Caio Emílio Paulo, sobrinho de Lúcio Emílio Paulo, pai de Cipião e o maior general romano vivo. Servi sob o comando de seu pai quando ele era tribuno. Ele começou como um frangote mirrado exatamente como você, mas logo o endurecemos. Veremos se você possui a mesma coragem.
Ele avançou, segurou a mão direita de Caio Paulo e pôs o punho da espada nela. Recuou, e Paulo estendeu a lâmina para frente, a ponta oscilando. Por um momento ficou imóvel, e só o que Fábio ouvia era a respiração áspera do escravo, que estava tossindo e vomitando novamente. Caio Paulo desviou a visão dos olhos apavorados do escravo, e o centurião avançou, rasgando a túnica do homem, revelando os músculos retesados no abdome. Voltou-se para Caio Paulo, curvando-se para perto dele, com a cara vermelha e contraída.
— Ande, homem — berrou. — O que está esperando? Crave bem aqui até a espinha. Isso o matará em alguns segundos, mas não com a mesma rapidez do que no coração.
Caio Paulo apontou a lâmina e recuou um passo. O escravo lutava, sua respiração saindo rouca e acelerada, e Fábio e Cipião o mantiveram ereto. A ponta da espada tocou o abdome pouco acima do umbigo, mas o braço do garoto estava estendido demais para que a lâmina tivesse bom impulso; ele precisava se aproximar, porém parecia incapaz de fazê-lo. Caio Paulo olhou para Fábio, e numa fração de segundo viu tudo, o rapaz e o homem, o medo e a determinação. O centurião bufou de impaciência, batendo a mão direita na mão de Caio Paulo e incitando-o para frente, e juntos eles cravaram a lâmina bem fundo no corpo do escravo. O homem soltou um grunhido horroroso e vomitou mais uma vez, respingando sangue e bile sobre o carretel em sua boca. Caio Paulo manteve o autocontrole, cravando ainda mais até que a ponta ensanguentada saiu pelas costas do escravo, abaixo da caixa torácica. As pernas do homem arriaram, mas seu tronco e seus braços permaneceram rígidos, como se o corpo estivesse fazendo uma derradeira tentativa de resistir, agarrando-se uma última vez à vida que, Fábio sabia, estaria nos estertores da morte segundos depois.
O centurião olhou os demais.
— Veem que ainda não sai sangue do ferimento de entrada? — Ele se voltou para o garoto. — Tente puxar a espada. — Caio Paulo puxou com força, porém mal foi capaz de movê-la. O centurião grunhiu. — Neste mês, até agora lhes ensinei golpes mortais, no pescoço e no coração, que trazem a morte imediata. Mas um golpe no abdome, onde existem paredes de músculo, é diferente. Os músculos se contraem em volta da lâmina. Se estiverem em batalha, precisam ser capazes de retirar a lâmina rapidamente, ou serão mortos. Precisam torcê-la, usar o pé. Observem atentamente.
Ele empurrou Caio Paulo de lado e ergueu o pé direito contra o abdome do homem, segurou o punho da espada e a torceu com força, depois puxou de um só golpe. O sangue esguichou da ferida, e o corpo do escravo ficou flácido, as mandíbulas soltando o carretel e a cabeça arqueando para trás, boca e olhos bem abertos. Fábio e Cipião o soltaram, e o corpo caiu na poça de sangue e bile que havia se formado no chão, a cabeça rachando ao bater com força na pedra. O centurião estalou os dedos para os dois escravos restantes, apontando o corpo, depois indicou Ênio e Gulussa.
— Vocês dois, limpem esta sujeira. Quero este chão sem qualquer mácula quando eu voltar. Este sujeito não era apenas um escravo. Era um prisioneiro de guerra, um ex-mercenário, e a vida dele já estava perdida. Todo o novo lote de escravos trabalhando na Escola de Gladiadores se enquadra nessa categoria. Se qualquer um de vocês quiser praticar em um antes de confrontar os criminosos condenados, não precisa solicitar minha autorização. — Ele limpou a lâmina da espada no pedaço rasgado da túnica do homem, embainhou-a e os olhou. — Nós nos encontraremos aqui novamente uma hora antes do pôr do sol. Os prisioneiros que serão executados este mês incluem duas jovens iniciadas para as Vestais, apanhadas in flagrante delicto com um escravo. Caio Paulo pode levar sua própria espada e nos mostrar o que aprendeu da lição de hoje. — Ele saiu da sala pisando duro e desceu pelo corredor, a batida de seu cajado de centurião esmorecendo no escuro enquanto ele seguia para a arena.
Caio Paulo ficou completamente imóvel, com o rosto e a túnica salpicados do sangue do homem, encarando o que tinha acabado de fazer. Cipião trouxe um balde de água da porta e uma toalha molhada, que jogou para ele.
— Limpe-se. Você e eu precisamos estar apresentáveis para uma consagração à gens dos Emílios no Fórum em uma hora. E, a propósito, bem-vindo à academia.
OceanofPDF.com