Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 12
Meia hora depois, a força de assalto romana se alinhava por dentro da muralha, cerca de quatrocentos homens distribuídos em três filas que se estendiam por um trecho de cerca de 500 jardas. Cipião e Fábio estavam algumas jardas à frente da fila, ao lado do primipilo dos fabri, enquanto Ênio permanecia junto a uma reserva de cem homens na muralha, de onde também podia ver seu acampamento e orientar o fogo de sua única catapulta.
O plano de montar um assalto preventivo fora frustrado pelos celtiberos, que claramente estavam observando com atenção e arremeteram de sua paliçada assim que viram os legionários entrarem em formação. Agora estavam ali, talvez trezentos deles, berrando em desafio, gritos penetrantes e solitários que se elevavam constantemente a um só urro, uma linha irregular a cerca de mil pés dos romanos, em um campo que caía das duas fileiras de soldados a um leve declive para uma faixa de terreno plano no centro, a cerca de quinhentos pés de onde Fábio se encontrava.
Ele sentiu o cabo de sua espada pesando na mão. Ele e Cipião viram o sangue celtibero pela primeira vez nas lâminas de suas espadas uma semana antes, quando investiram pela brecha e tomaram a muralha. Agora sua adrenalina disparava novamente, e ele ansiava por mais. Chegou a hora.
Cipião virou-se para o primipilo, depois para Fábio. Ergueu a espada, e a boca se abriu em um rosnado. Por alguns segundos, Fábio só conseguiu escutar o martelar do sangue nos ouvidos, e então arremeteu, correndo com a maior rapidez possível para os celtiberos, de espada erguida, gritando a todo volume.
Agora ele via o meio do campo com mais clareza, uma faixa de terreno plano de cerca de trinta pés de largura, aonde duas encostas convergiam. Havia poças de água parada criadas pelas chuvas recentes e trechos de terreno manchados pela lama. Era um aspecto natural, uma área pantanosa que normalmente estaria coberta de relva, mas algo que poderia ter sido protegido e mantido para dar a ilusão de terreno firme e contínuo. Naquele instante Fábio percebeu que havia alguma coisa errada. Era uma armadilha. Os celtiberos podiam estar reduzidos pela fome e pela exaustão, mas o que parecia um ataque desesperado e desorganizado na realidade era um truque, ludibriando os romanos a pensar que podiam encontrar os celtiberos na metade do caminho e destruí-los facilmente. Eles estavam sendo atraídos para um massacre, assim como ele e Cipião uma vez conduziram um búfalo enfurecido para um leito de rio seco e fundo lodoso, deixando o animal atolado chafurdando, uma presa fácil para suas lanças. Se continuassem sem controle, os legionários atolariam da mesma maneira, lançados em uma confusão, distraídos pela necessidade de ficar de pé, momento em que tirariam os olhos do inimigo e os celtiberos teriam uma vantagem.
Fábio sabia que o chefe celtibero os estaria observando com olhos de águia; se Fábio tentasse deter os legionários agora, mostrando que tinha visto a armadilha, o chefe tribal também interromperia o ímpeto da própria investida. Mas Fábio podia fazer o jogo deles: iria levá-los a pensar que os romanos seguiam diretamente para o lamaçal, ignorando seus perigos. Ele correu mais à frente, com a maior rapidez possível, de espada bem erguida. Tudo parecia estar acontecendo lentamente. Os celtiberos pareciam uma maré alta e espumante descendo a encosta, agitando espadas e braços, espirrando a água lamacenta no alto, como um chuvisco salpicando a crista de uma onda furiosa. Agora Fábio estava a menos de cem pés da lama e contava os segundos. Um. Dois. Três. Parou subitamente e se virou, cambaleando de lado para recuperar o equilíbrio, e berrou a plenos pulmões:
— Alto. Manter posição!
O primipilo dos fabri viu, entendeu e repetiu o comando, que foi transmitido pela linha de centuriões e optios de cada lado. Em poucos segundos, toda a força romana tinha estacado, em terreno firme, bem na beira do lamaçal.
Os centuriões berraram outra ordem:
— Posição defensiva.
Os homens à frente se agacharam e colocaram a base dos pila no chão, virando-os para o inimigo e agarrando-se firmemente a essas lanças romanas com as mãos. Entre eles, a linha seguinte de homens mantinha seus pila na horizontal, aproximando-se para formar um paredão eriçado de lanças, de pernas entreabertas e flexionadas para resistir ao ataque iminente. Atrás deles, a terceira linha permanecia de pé, com os pila posicionados para o arremesso e as espadas em riste, prontos para cortar qualquer um que conseguisse passar.
Cipião alcançou Fábio, então os dois ficaram à cabeceira da linha, ofegantes, com todos os músculos do corpo tensos, segurando as espadas firmemente. O cálculo de Fábio tinha funcionado: era tarde demais para os celtiberos pararem. Seus chefes só podiam incitar os homens a avançar ainda mais, aumentar o ímpeto do ataque para que conseguissem passar pelo lamaçal antes que atolassem.
Os centuriões berraram novamente:
— Firmes! Manter posição!
As linhas de pila pareceram estremecer em uníssono, abaladas pela aproximação ameaçadora do inimigo. Um ou outro guerreiro agora se distinguia com mais clareza enquanto descia a encosta, os mais rápidos correndo à frente, gritando e agitando os escudos, depois os descartando para correr a passo ainda mais acelerado. Alguns usavam antigos capacetes corintos e couraças romanas tomados de batalhas passadas, outros, nada mais do que a túnica de lã áspera. Mas todos portavam dardos ou a espada curva de dois gumes celtibera. Os gritos e berros tornaram-se um urro constante novamente, golpeando os ouvidos de Fábio, e, enquanto se aproximavam da lama, ele sentia um frio no rosto, como se o deus da guerra estivesse correndo pelo pântano em sua biga, roçando neles o vento frio da morte.
Fábio mal conseguia respirar. Segurou a espada com a maior firmeza possível, tentando manter o controle. E então o primeiro guerreiro voou para a lama, escorregou e investiu loucamente, correndo para um dos pila a poucos pés à esquerda de Fábio, quebrando-a quando a ponta passou por seu pescoço e caindo em meio a um borrifo de sangue. Outro o seguiu, e mais outro, cada um deles lancetado e golpeado até a morte pela linha de legionários da retaguarda. Um dardo errou Cipião por pouco, mas pegou a parte superior da coxa do primipilo, cortando a artéria e fazendo o sangue esguichar em uma fonte pulsante, ensopando Cipião e Fábio. O primipilo caiu com um grunhido, a mão apertando a ferida, e seu lugar foi tomado pelo segundo centurião da coorte, que se virou e berrou para a linha de legionários da retaguarda:
— Preparem-se com seus pila.
Ele viu a massa principal de celtiberos chegar à lama e berrou novamente:
— Lancem.
Os pila zuniram pelo ar acima de Fábio como flechas, algumas sendo rechaçadas por armaduras, outras encontrando seu alvo, derrubando dezenas de guerreiros em uma massa confusa na qual os muitos que vinham atrás tropeçavam. Toda a massa pareceu deslizar para a frente, pela lama, e se espremer na linha romana, os guerreiros contorcendo-se e gritando enquanto os legionários golpeavam mortalmente qualquer um que não tivesse sido morto pelos pila da linha de frente.
Fábio sentiu o coração disparar. Era chegada a hora de avançar. Cipião rugiu e mergulhou no atoleiro. As duas linhas de frente de legionários baixaram os pila e o seguiram, com espadas em riste. Depois Fábio também seguiu para o pântano, arrastando-se adiante com lama até os joelhos, golpeando e apunhalando. Um celtibero de cabelos ruivos trançados voou para ele assim que Fábio retirou a espada de um corpo, e ele deu um golpe ascendente com toda sua força, pegando o homem sob o queixo e cortando toda sua mandíbula até a testa, deixando um montinho de sangue, muco e cérebro onde antes estivera seu rosto. O homem caiu com um grito, e Fábio avançou, cravando a espada na cabeça de outro homem, depois cortando um pescoço exposto com a ponta, as jugulares explodindo em uma cortina de sangue, borrifado em seu rosto e nos olhos. Ele piscou intensamente, golpeando a espada às cegas, e quando sua visão clareou viu que os legionários já haviam avançado, atrás de Cipião, que seguia pelo pântano de lama e sangue em direção à encosta distante.
De repente uma trombeta soou, grave e ressonante, não romana, mas de algum lugar nas linhas celtiberas. O guerreiro que Fábio estivera perseguindo bateu em retirada rapidamente, e ele viu outros fazerem o mesmo, à direita e à esquerda. Os legionários que haviam avançado para combater o inimigo cambalearam, ofegantes, olhando os celtiberos em retirada, alguns com a cara vermelha e cuspindo, outros pálidos devido ao choque do combate. Havia durado apenas alguns minutos, mas dezenas de corpos jaziam amontoados na lama, a maioria de celtiberos, embora fosse possível ver entre eles o brilho de uma armadura romana aqui e ali. Fábio tateou a mão esquerda, percebendo pela primeira vez que havia um corte de espada, e então levantou a cabeça. Os centuriões berravam pela linha, ordenando que os homens voltassem para terreno firme e que aqueles que tinham ficado na linha se aprumassem e pegassem seus pila mais uma vez, de prontidão para outra investida.
Mas, em vez disso, um único guerreiro veio avançando, um velho de cabelos compridos e raiados de cinza que ainda não tinha participado do combate, com armadura e armas ainda reluzentes e limpas. Usava uma couraça musculosa que parecia etrusca, e seu capacete era como um dos gregos que Fábio vira entalhado no Parthenon, em Atenas. Ele se lembrou de que muitos celtiberos haviam servido como mercenários em épocas de paz em sua terra, lutando por Cartago na última guerra, e que as cicatrizes de batalha e as armaduras saqueadas foram o único pagamento que quiseram. Aquele homem não tinha idade suficiente para ter servido a Cartago, mas poderia ter estado entre os mercenários no lado macedônio em Pidna. A órbita de seu olho esquerdo era vazia, e ele tinha um vergão claro no rosto, provavelmente provocado por um golpe selvagem décadas antes, quando era jovem. Atrás dele, um rapaz magricela portava o grande chifre curvo de touro que havia sinalizado a retirada. Fábio percebeu que o homem devia ser o chefe tribal. Ele parou à beira da lama, resplandecente na armadura, os pés plantados em desafio, olhando para os romanos e concentrando-se em Cipião, que estava de pé, pingando lama, a uma curta distância, observando-o atentamente.
O homem apontou para ele.
— Você é Cipião — berrou com a voz rouca, falando em latim com sotaque acentuado. — Meu avô combateu um Cipião em Canas, e agora lutarei contra um Cipião em Intercacia.
— Desafia-me? — berrou também Cipião em resposta.
— Sob meu comando, meus guerreiros voltarão e lutarão até a morte, e muitos outros romanos morrerão. Ou a contenda pode terminar com um único combate.
— Quais são suas condições?
— Que meus homens possam baixar as armas e sair livres, que as mulheres e crianças de Intercacia não sejam molestadas e as casas que restam não sejam queimadas. E que eles sejam alimentados. Eu soube que a palavra de um Cipião é uma palavra de honra. Assim é?
Cipião semicerrou os olhos para ele.
— Assim é.
— Então tenho sua palavra?
— Eu lhe dou minha palavra.
— Assim, que comece o combate. — Ele largou o escudo, cravou a espada no chão e retirou o capacete, pegou uma correia estendida a ele pelo menino e prendeu os cabelos. O rapaz desamarrou sua couraça e a tirou.
Ele usava apenas seu kilt, revelando o tronco que antigamente era bem musculoso, mas agora mostrava a idade, as cicatrizes de muitas guerras destacando-se como vergões vermelhos na pele clara. Cipião tirou a própria armadura enquanto o chefe pegava a espada e mancava pela lama, arrastando uma perna. Fábio entendia por que o homem não havia se juntado antes à luta: teria achado praticamente impossível permanecer de pé. Enquanto seus guerreiros se fechavam em um semicírculo atrás deles, Fábio sentiu que já haviam feito aquilo antes, assistindo a duelos pela honra, por mulheres e pelo poder naquele mesmo lugar, contendas das quais o chefe tribal, em seus anos de juventude, sem dúvida nenhuma se saíra muitas vezes vitorioso. Dessa vez seria diferente. O combate contra Cipião só podia ter um resultado, e todos sabiam qual era. As condições nem mesmo consideravam a vitória do chefe, e, se chegasse a tal ponto, ele mesmo não poderia dar um golpe mortal em Cipião. Se o fizesse, resultaria apenas em um ataque por parte dos soldados romanos, que causariam um alvoroço e massacrariam o povo celtibero, cujo futuro, portanto, dependia da sobrevivência de Cipião e do cumprimento de sua promessa. O chefe tribal estava se sacrificando por suas mulheres e crianças, de uma forma consagrada que também deixaria seus guerreiros satisfeitos por a honra ter sido feita e seus rituais, observados.
Fábio virou-se e olhou para Cipião, seu tronco endurecido e a espada preparada ao lado, a expressão severa e sem emoção. Ele era capaz de adivinhar os pensamentos que passavam pela mente do outro. Quando meninos, sonhavam com as guerras como contendas gloriosas, como batalhas entre exércitos e guerreiros em que os melhores combates eram aqueles travados de igual para igual, não só pela glória e por Roma, mas como testes de virilidade em que o vitorioso podia sair enaltecido por matar um oponente que poderia ter vencido facilmente. Porém a realidade da guerra raras vezes era assim. Era desigual e desorganizada. Podia haver honra na palavra de Cipião, em sua fides, mas não haveria glória para ele naquele combate. Cipião estava fazendo o necessário para permitir que os guerreiros inimigos saíssem com dignidade, uma decisão que podia aumentar a probabilidade de se tornarem aliados de Roma no futuro e salvar seus legionários da morte desnecessária. Mas isso seria pouco mais do que uma execução, o destino do chefe tribal tão certo como as mortes dos desertores que eles viram ser atacados pelos leões nos jogos triunfais depois da Batalha de Pidna. Após anos ansiando para voltar à guerra, Cipião via um fim horrível, e Fábio sabia que ele estaria endurecendo para demonstrar a completa determinação no que precisava fazer.
Ele sabia que Cipião não fingiria a luta, que respeitaria o orgulho do velho guerreiro, lutando contra ele de homem para homem com toda sua força pelo tempo que durasse. O chefe mancou na lama e parou a pouca distância de Cipião, de pernas separadas e a espada estendida diante de si, segura por ambas as mãos, a lâmina voltada para baixo. Cipião assentiu e de repente o homem lançou a espada como uma foice em seu peito, cortando a pele e fazendo-o cair para trás, cambaleando um pouco. O homem ainda tinha força nos braços e habilidades de uma vida inteira com a espada celtibera, sua lâmina mais longa do que o gládio romano, porém menos versátil em combates corpo a corpo. Seu ponto fraco estava na pouca mobilidade, e Cipião precisaria contorná-lo e passar sob o arco da lâmina, esquivando-se dela e atacando. Cipião avançou, dessa vez agachando-se com a espada preparada, erguendo-a apenas a tempo de aparar outro golpe cruel do chefe que quase derrubou seu gládio. Ele recuou novamente e se agachou ainda mais, disparando de lado repentinamente e pegando o chefe desequilibrado enquanto tentava girar o corpo para confrontá-lo. Cipião investiu com rapidez e passou a espada com força na perna saudável do homem, afastando-a da panturrilha a tempo de evitar outro golpe. O homem vacilou, praticamente caindo, a lama abaixo dele brilhando de sangue fresco do ferimento, fumegando no chão frio.
O chefe mostrara habilidade e coragem diante de seus guerreiros, mas agora não esperariam mais nada. No golpe seguinte, Cipião aparou a lâmina, desviando-a, depois saltou, e dessa vez cravou a própria espada no abdome do homem, atravessando-lhe o corpo até chegar no punho e prendendo-o junto a si, oscilando com ele na lama. O chefe vomitou uma bile amarela manchada de sangue, então Cipião o empurrou para trás e moveu a espada para cima e para baixo, abrindo um corte imenso da pélvis do homem até a caixa torácica. Retirou a espada, e o chefe tribal caiu de costas, cambaleando e se contorcendo. Com isso o corte se abriu e seus intestinos se derramaram, azulados, vermelhos e fumegantes, pingando sangue. Ele baixou a cabeça com seu único olho, o rosto branco como um lençol, a expressão de quem não compreendia nada. Seus intestinos caíram em alças no chão, e ele tropeçou, estatelou-se de frente e se ergueu de joelhos, pegando-os em meio à lama, tentando recolocá-los no lugar.
Fábio olhou para Cipião. Era hora de acabar com aquilo. Cipião baixou a espada e se pôs sobre as costas do chefe, achatando-o e o prendendo ali, empurrando sua cabeça para a lama fluida. O homem tossiu e balbuciou, arqueando o corpo subitamente em uma última exibição de força, tirando o equilíbrio de Cipião e levantando-se, trôpego, de braços estendidos e cabeça erguida, berrando algo para o céu. Ele viu sua espada na lama e cambaleou para ela, arrastando as entranhas consigo. Cipião saltou novamente e o derrubou, dessa vez sem tentar afogá-lo, mas segurando sua cabeça firmemente em uma chave de braço. O homem entendeu o que ele tentava fazer e resistiu, seu pescoço e a cabeça rígidos contra a pressão. Depois cedeu, sua energia esgotada. Naquele instante, Cipião torceu a cabeça do outro rapidamente e o corpo ficou flácido. Cipião puxou a cabeça do chefe tribal pelos cabelos, voltou a se ajoelhar e a cortou com um único golpe de espada, segurando-o no alto por um momento para que todos vissem, largando-a na lama em seguida.
Fábio estava tonto, como se tivesse se esquecido de respirar. Ele relaxou, depois inspirou profundamente. Acabou.
Cipião se colocou de joelhos, depois de pé, cambaleando para trás e quase caindo novamente. Estava coberto de sangue da cabeça aos pés. Estendeu a mão a uma poça de lama ao lado do corpo do chefe tribal e lavou a cara, depois pegou um tecido atirado a ele por um dos fabri. Limpou os olhos e se virou de frente para os guerreiros celtiberos que ainda estavam em semicírculo, em silêncio, olhando. Por alguns momentos nada aconteceu, e Fábio deixou que a mão caísse no punho da espada novamente. Em seguida os guerreiros começaram a baixar as armas e a se virar para a colina, onde a entrada para a paliçada estava aberta e as mulheres e crianças saíam, também testemunhas do combate. Cipião ficou onde estava até o último deles deixar o local, depois se virou e saiu da lama, chapinhando e escorregando até chegar a terreno firme. O legionário que tinha dado a ele o tecido entregou-lhe um odre de vinho, ele o virou e bebeu, grato, depois fechou os olhos enquanto despejava vinho no rosto e no pescoço, deixando que pingasse no chão. Enxugou a cara novamente, devolveu o odre e olhou para Fábio. Seus olhos estavam duros, ardiam de fervor. Ele passou os olhos pelos legionários e ergueu o braço direito.
— Homens, aproximem-se. — Os legionários chegaram mais perto, formando uma roda em torno dele, várias centenas de homens exaustos e sujos de lama.
Dentro do espaço, o segundo centurião estava recurvado sobre o corpo do primipilo, cruzando sua espada no peito deste. Fábio o encarou, a mente vazia. Haviam se passado menos de quinze minutos desde que o primipilo tinha levado o golpe de dardo na perna, porém parecia pertencer a um passado distante demais para ser lembrado.
Cipião os saudou com a mão erguida.
— Hoje vocês travaram um duro combate com honra, contra um inimigo digno que será honrado na derrota, permitindo-se que os guerreiros sobreviventes voltem ilesos a suas famílias. — Ele se virou para o corpo no chão e para o segundo centurião. — Ao primipilo, ave atque vale. Ao novo primipilo, você é um sucessor digno. A todos que tombaram aqui hoje, nós nos encontraremos novamente no Elísio. — Ele se virou para Fábio e colocou a mão ensanguentada em seu ombro, os olhos faiscando. — Legionário Fábio Petrônio Segundo, você conquistou a insígnia de um centurião. Como comandante de nossa força, Ênio deveria promovê-lo, mas ele estava observando das muralhas e terá visto você em ação neste dia. Ao localizar o perigo e impedir nosso avanço, como fez, você venceu a batalha para nós e salvou a vida de muitos romanos.
Ouviu-se o grito de aprovação dos legionários. Fábio virou-se para Cipião.
— Você conquistou a estima de seus homens, Cipião Emiliano. Nenhum legionário se esquece do comandante que luta contra um chefe inimigo em combate homem a homem.
Cipião enxugou a boca com as costas da mão e olhou os legionários reunidos.
— Um dia, em breve, poderei liderar um exército. Vocês, homens, serão minha guarda pessoal? Não posso lhes prometer pilhagens. Mas posso prometer glória. E para aqueles que são fabri, posso prometer muita escavação, construção e trabalhos de cerco.
O novo primipilo colocou-se em posição de sentido.
— Conhecemos seu destino, Cipião Emiliano. Sabemos onde liderará seu exército. E o seguiremos a qualquer parte, neste mundo ou no próximo.
Cipião assentiu e deu um tapinha no ombro dele também.
— Que bom. E agora creio que há uma carroça de vinho falerno lá embaixo, enviada antes de a legião para estar pronta para o estado-maior de Licínio Luculo. Creio que descobrirão que a carroça sofreu um acidente e as ânforas se quebraram, não acham? Mas tratem de diluir com muita água do rio. Precisamos manter a mente lúcida para os ritos funerários de nossos companheiros abatidos em luta e para construir uma pira alta o suficiente para mandá-los a seu lugar de direito junto ao próprio deus da guerra. Só então, quando o fogo estiver aceso, poderemos deixar que o vinho corra livremente e relaxaremos.
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