Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 24 de 29

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Total War Rome: Destruição de Cartago

Capítulo 20

Logo depois do amanhecer, Fábio estava com Cipião e Políbio no cais ao lado do porto retangular. Em volta deles estava todo o arsenal da guerra, pilhas de suprimentos trazidos em barcos nos últimos dois dias: ânforas cheias de vinho, azeite de oliva e molho de peixe, caixas de projéteis com ponta de ferro para balistas, feixes de espadas e lanças novas. As provisões estavam empilhadas onde havia espaço em meio ao entulho e aos depósitos desmoronados que ainda ardiam da batalha três dias antes. Eles abriram caminho até um grupo de legionários despidos até a cintura trabalhando em uma enorme pilha de alvenaria que bloqueava a entrada para a rua principal da cidade. Ênio se separou do grupo e se aproximou deles, a barba por fazer, os braços cobertos por uma poeira branca da alvenaria caída e a testa brilhando de suor. Fábio via o martelo de guerra forjado pendurado do lado esquerdo de seu cinturão, presente de Cipião em sua promoção ao comando da coorte especializada dos fabri, os engenheiros, e do outro lado a cruel espada makhaira com sua lâmina curva que mostrava sua linhagem de guerreiros etruscos da Tarquínia, ao norte de Roma. Ele se postou diante de Cipião e ergueu o punho direito em uma saudação sobre o peito.

— Ave, Cipião Emiliano Africano.

Cipião pôs a mão em seu ombro.

— Ave, Ênio. Você poderia passar uma semana nos banhos de Dioniso em Nápoles.

— Quando este trabalho estiver concluído, Cipião.

— Como estão os preparativos?

Ênio fez um gesto amplo em direção do porto e da muralha maciça que os separava do mar aberto. Através dos espaços na alvenaria, abertos pelos projéteis de balista romanos seis meses antes, eles viam as proas e popas curvas de galés de guerra voltadas para o mar aberto, seus remos virados para a frente, prontos para lançar as embarcações no cais e expelir ondas de legionários para escalar as muralhas. Fábio sabia que agora havia centenas de barcos, quinquirremes, trirremes, galés ligúrias com esporões, todos ancorados em filas diante do quebra-mar, prontos para o assalto final. Ênio virou-se para Cipião.

— Vinte e cinco barcaças especialmente construídas com catapultas estão a dois stades no mar, para além do alcance dos arqueiros cartagineses. Estão ancoradas nos quatro cantos, e os quinquirremes virados para o mar estão posicionados de costado às ondas, formando um quebra-mar para dar a maior estabilidade possível às barcaças. Enquanto conversamos, meus homens misturam os últimos ingredientes do fogo grego. A uma ordem sua, as catapultas farão chover bolas de fogo na cidade e causarão uma destruição que você jamais viu em um cerco.

— E você é capaz de manter a barragem caindo à frente de nossos legionários em avanço?

— Temos observadores escondidos nos pontos mais altos do quebra-mar, celtas alpinos de olhar afiado que podem localizar um cervo na montanha a cem stades. Usarão sinais codificados de bandeira para orientar as turmas das balistas para que ajustem a mira. Temos de agradecer a Políbio por isso, pelo código que ele nos deu.

Cipião mostrou ceticismo.

— Seus homens conhecem verdadeiramente esse código?

— É brilhante. É preciso reconhecer o mérito dos gregos. Todas as vinte e quatro letras do alfabeto latino são organizadas em um quadrado, numeradas de um a cinco vertical e horizontalmente, com uma letra a menos na última repartição. O sinaleiro ergue a mão esquerda para indicar a coluna vertical, a mão direita para a horizontal. Ergue uma tocha em cada mão pelo número correto de vezes para indicar uma letra. Praticamos no deserto por semanas. Temos inclusive uma forma abreviada para indicar mudanças de direção às turmas de balista.

— Muito bem. — Cipião olhou de Ênio para o grego alto ao lado dele, abrindo um sorriso. — É bom saber que você manteve o nariz de Políbio longe de seus livros.

— Foram os livros que me ensinaram o código, Cipião, como você bem sabe — disse Políbio. — Para ser específico, um antigo pergaminho hieroglífico de posse de um velho sacerdote no templo de Saïs, no delta do Nilo. Descrevia como os primeiros sacerdotes usavam essa técnica para sinalizar de uma pirâmide a outra.

— Há mais alguma coisa que você precise me dizer? — perguntou Cipião a Ênio, olhando o céu e sentindo o vento, depois de volta à torre de observação de madeira na ilha no centro do porto. — Talvez tenhamos duas horas até que eu dê a ordem de ataque.

— Então há tempo de dar uma rápida olhada nisto. Políbio me pediu para ficar atento a quaisquer inscrições que possam ajudar em sua história de Cartago. Encontramos esta placa de bronze com caracteres, usada para reforçar uma porta. Estamos prestes a derretê-la para fazer pontas de flecha para os auxiliares númidas, por isso Gulussa está aqui.

Políbio pegou a placa de bronze das mãos de Ênio. Tinha aproximadamente dois pés de largura, e os caracteres tinham sido alisados pelo polimento. Ele olhou para Gulussa, que havia acabado de se juntar a eles.

— Consegue ler? Creio que a escrita é uma antiga versão de líbio-fenício.

Gulussa ajoelhou-se ao lado da placa, passando as mãos nas letras.

— Duas destas placas costumavam ficar instaladas em frente ao templo de Baal Hammon na Acrópole. Eu as vi quando meu pai Massinissa me permitiu acompanhar uma embaixada númida a Cartago quando eu era menino. São o relato de um navegador chamado Hanão, de uma expedição cartaginesa pelas Colunas de Hércules e pela costa oeste da África, há mais de trezentos anos. No mesmo pilar estavam pregados restos de pele ressecada, como um velho couro de camelo, porém coberto de pelos pretos grossos, que Hanão cortara de um selvagem que ele chamou de gorila. Os cartagineses tentaram raptar suas mulheres, mas ninguém era páreo para eles em termos de força.

— Até onde foi essa expedição? — perguntou Ênio.

Gulussa apontou para a base da placa, onde a última linha de texto terminava abruptamente.

— Diziam que os governantes de Cartago ordenaram a remoção da parte inferior porque tinham medo de entregar segredos cartagineses a estrangeiros que pudessem ler isto — respondeu ele. — Mas meu pai soube por um sacerdote que Hanão circum-navegou a África e voltou para o Egito pelo mar da Eritreia.

Ênio olhou para Políbio.

— Quando eu estava na Alexandria aprendendo sobre o fogo grego, falei com o capitão de uma embarcação que havia navegado para além do mar da Eritreia, a leste, e alegou ter visto montanhas de fogo saindo do mar no horizonte, à beira do mundo.

— Se o mundo é esférico, não pode haver uma beira — disse Políbio com paciência.

Ênio se levantou, as mãos nos quadris.

— Como sabe que é uma esfera?

— Se você estivesse atento na Alexandria, teria visitado a escola de Eratóstenes de Cirene e aprenderia como ele determinou a circunferência da Terra observando a diferença no ângulo do sol do zênite no dia do solstício de verão na Alexandria e em Assuã, no alto Egito, uma distância conhecida. — Políbio pegou uma lasca de madeira e usou para desenhar uma imagem rudimentar na terra. — Este é um mapa-múndi de Eratóstenes. Pode ver o mar Mediterrâneo no centro, cercado por Europa, África e Ásia, e a faixa fina de oceano cercando isso. Mas a beira do mapa não é a beira do mundo. É a beira de nosso conhecimento. O que está além permanece aberto à exploração.

— E à conquista — disse Ênio.

Cipião pôs o pé com a sandália na linha que representava a costa ao Norte da África, e depois na Grécia.

— Estamos aqui, em Cartago, e Metelo está ali, em Corinto — murmurou. — O mundo está dividido entre nós.

Gulussa apontou o mapa.

— Se o cartaginês Hanão foi para o sul pela costa da África, certamente outros terão passado pelas Colunas de Hércules ao norte, não?

— Timeu escreve sobre isso — disse Ênio. — E Píteas, o navegador grego em Massália, diz ter ido à extremidade norte das Cassitérides, as Ilhas de Estanho, a um lugar chamado Ultima Thule. Se os cartagineses descobriram essas rotas, também guardariam segredo a respeito.

Políbio torceu o lábio com desdém.

— Timeu alega ser o mais importante historiador do Ocidente, mas nunca deixou o conforto de sua biblioteca na Alexandria. Quando decidi escrever minha história da guerra contra Aníbal, não falei apenas com aqueles que viram as guerras com seus próprios olhos? E não tracei a rota de Aníbal com meus próprios pés, marchando da Espanha, atravessando os Alpes, no caminho de seus elefantes?

— E você não limpou o esterco do último elefante de Aníbal com as próprias mãos, quando éramos jovens guerreiros na academia em Roma? — disse Gulussa, zombeteiramente. Ele gesticulou para o lombo coriáceo da fera amarrada do outro lado do porto. — E não estou sentindo o cheiro daquele mesmo estrume aqui conosco agora?

Políbio lhe lançou um olhar seco.

— Escrevo a história que vi com meus próprios olhos. Não sou nem um mitógrafo como Heródoto nem um escritor de fábulas como Timeu. Minha história não é para diversão. É para nos ensinar táticas e estratégias melhores. É para guiar nosso curso de ação no futuro.

Fábio pôs o bastão de centurião no mapa acima da Europa e falou em voz baixa.

— As Cassitérides existem, só que o povo de minha esposa chama de Pritani, terra do povo pintado, e outros a chamavam Albion. Ela era filha de um chefe tribal gaulês que embarcava vinho para Pritani a partir da Massália, trocando-o por escravos e estanho.

Políbio olhou para Fábio com astúcia, assentindo, então se voltou para Cipião.

— Não é para o Oriente que devemos olhar, mas para o Ocidente. E não são escravos nem estanho que me interessam, mas a estratégia. — Ele colocou a vareta no mapa, ao lado do bastão de Fábio. — Devemos procurar uma rota para nossas embarcações de transporte navegarem em torno da Ibéria e desembarcarem nossas legiões na Gália, para varrer o sul pelo trecho de terra ocupado pelas tribos celtas. Já lutamos contra elas e sabemos que são inimigos formidáveis. Durante minhas viagens pelos Alpes, eu soube de tribos temíveis ao norte das montanhas, nas florestas rio acima. Se não conquistarmos essas tribos, elas ficarão ainda mais fortes e nos próximos anos cairão sobre Roma, como fizeram os celtas do norte da Itália dois séculos atrás. Uma vez que controlarmos o Ocidente e conquistarmos essas tribos, o mundo estará verdadeiramente aberto a nós.

Cipião colocou a mão no ombro do amigo.

— Quando tivermos destruído Cartago, darei a você um barco para navegar a oeste através das Colunas de Hércules a fim de encontrar essas ilhas fabulosas e uma rota no mar do Norte até a Gália.

— Isso vai me agradar mais do que tudo — disse Políbio com fervor.

— Mas agora não é hora de estratégias futuras. Agora é hora da guerra. — Cipião lançou um olhar penetrante a Ênio. — Lembra-se do que eu lhe disse quando permiti que criasse esta coorte especial de fabri?

Ênio segurou a cabeça do martelo de guerra.

— Você disse que eu devia ser primeiro soldado, depois engenheiro. Minha armadura está à mão, pronta para ser vestida quando o trabalho na muralha estiver concluído. E depois que as balistas forem disparadas, liderarei minha coorte de fabri pela brecha na muralha no lado norte. Lutaremos nas ruas e destruiremos o inimigo. Conquistaremos mais coroas e louros e teremos mais cicatrizes de batalha do que qualquer unidade no exército. Meu martelo e minha espada serão mergulhados em sangue cartaginês.

— Que bom. — Cipião lhe deu um tapa no braço. — Agora, aos preparativos para a guerra.

 

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