Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 23
Quinze minutos depois, Fábio estava com Cipião e Políbio novamente na torre. Podia sentir a tensão no ar, o nervosismo, pois sabiam que a hora de entrar em ação se aproximava rapidamente. Políbio apontou a orla a oeste, onde a frota romana se destacava, fora do alcance da linha de tiro das muralhas.
— O vento ainda vem do sul. Ênio está preocupado que vá soprar as chamas de volta a nossas embarcações. Você deve dar a ordem antes que o vento aumente mais.
— É exatamente por isso que não gosto que ele mexa com fogo — grunhiu Cipião. — Venho dizendo isso a ele há vinte anos. Gostaria que se ativesse às catapultas e aríetes.
— A sorte está lançada, Cipião. E quanto aos aríetes, ele também os tem preparados. Veja, já estão oscilando.
Da beira do porto, Fábio olhou as defesas cartaginesas pouco além das muralhas da cidade. Fora de vista, ao sul, para além da grande muralha que protegia a cidade do istmo, a coorte de Ênio havia passado várias semanas construindo um aríete de desenho convencional, uma tora de madeira imensa feita de um único tronco de cedro-do-líbano embarcado especialmente para tal propósito, arrematado por um esporão de bronze no formato da cabeça de um javali, retirado de um trirreme ancorado no mar. Era preciso mais de mil homens para manejá-lo, e seria a única maneira, conforme esperavam, de romper o portão maciço ao sul.
Mas ali, dentro do porto, a questão era diferente: as muralhas que bloqueavam as ruas tinham sido apressadamente construídas pelos cartagineses nas últimas semanas, quando eles sabiam que os romanos estavam chegando. Ênio localizou os pontos fracos estruturais na alvenaria, construída à moda cartaginesa, com pedras verticais espaçadas, as fendas entre elas preenchidas com blocos menores. Os pilares tinham força, mas um aríete apontado entre eles podia rompê-la facilmente. Os cartagineses perceberam isso e posicionaram as muralhas em ângulo pelas ruas, onde pensavam que um aríete não pudesse romper, onde o espaço aberto antes na muralha era pequeno demais para o avanço necessário para abrir um buraco com tamanho suficiente para uma força de assalto passar.
Mas estavam enganados; não contavam com o gênio da engenharia romana. Ênio demonstrara o funcionamento de sua invenção em uma aldeia abandonada com muralhas construídas da mesma maneira, nos arredores da cidade, e Cipião ficou convencido. Ele via as máquinas de Ênio agora, projetando-se acima dos telhados planos, estruturas triangulares de madeira colocadas sobre rodas perto das muralhas, com aríetes de cem pés, suspensos de cordas como pêndulos. Ênio os construía usando material que seus homens recuperaram das embarcações de guerra arruinadas no porto, utilizando mastros, cordas e esporões de ferro, transformando os últimos vestígios do poderio naval cartaginês contra a cidade, enquanto os próprios cartagineses foram reduzidos a usar o cabelo das mulheres para fazer corda para catapultas. E a operação desses aríetes não exigia milhares de homens, apenas algumas dezenas cada um; esses homens eram marinheiros especializados das galés treinados para ajudar os escravos a remar no ataque final à frota inimiga, e depois, enquanto estavam em casa, a saltar dos bancos e investir para o ataque. Depois que os homens que balançavam os aríetes abrissem a brecha nas muralhas e passassem, a massa de legionários aguardando atrás deles os seguiria, e a cidade estaria aberta à conquista.
Fábio olhou os aríetes novamente. Políbio tinha razão. Eles já estavam balançando, marcando o tempo, as turmas esperando pela ordem que faria as cordas se retesarem e os aríetes baterem nas muralhas. Era como se a máquina de guerra estivesse começando a se flexionar, inexoravelmente. Ele sentiu a pulsação se acelerar. Estava quase na hora.
Políbio apontou para uma área aberta, dentro da muralha defensiva cartaginesa, cerca de quinhentos passos ao sul do porto.
— Tem fumaça vindo do Tofete — disse ele.
— Do quê? — respondeu Cipião, ainda olhando os aríetes.
— Sabe o que significa Tofete?
— Não falo cartaginês.
— Significa “assadeira”.
— E então?
— O santuário usado para cremar e sepultar crianças mortas, mas que no passado era utilizado como local de sacrifício. Não tem sido utilizado para esse fim há gerações, desde antes da guerra com Aníbal. Mas dizem os boatos que em épocas de grande dificuldade um sacrifício é oferecido ao deus Baal Hammon, que supostamente mora nos picos gêmeos da montanha a leste. Quando o sol da manhã subir acima da montanha, lançará um feixe de luz pelo Tofete, quando então o sacrifício deve acontecer.
— Não creio que um sacrifício possa salvá-los agora. E esse primeiro raio de luz na verdade sinalizará o início do ataque.
Políbio retirou um tubo de bronze de cerca de um pé de extensão, com cristais em forma de disco nas duas extremidades, e olhou em direção à fumaça.
— Há dois sacerdotes de mantos brancos na plataforma de pedra no meio do santuário, cada um deles carregando uma corrente enrolada e usando o que parecem ser luvas grandes feitas de couro, e eu não me surpreenderia se fossem de elefante. E a estrutura estranha que parece uma grande fornalha atrás é a origem da fumaça. Há escravos na base manejando foles, alimentando o fogo. Se você já se perguntou onde Asdrúbal colocou as oliveiras que mandou seus homens cortarem dos campos circundantes, eis sua resposta. Pilhas delas atrás da fornalha, claramente lenha para o fogo. E há homens com martelos de forja batendo na fornalha, só que não é de forma alguma uma fornalha. É algo inteiramente diferente, escondido por trás.
Ele passou as lentes a Fábio, que semicerrou os olhos por elas, vendo apenas um borrão distorcido, e as devolveu. Todos encararam o que estava sendo revelado. Era escurecido pelo fogo e mosqueado na superfície, mas claramente feito de bronze. Enquanto os homens batiam as últimas partes de argila, a forma entrou em vista. Era uma gigantesca figura agachada, do tamanho de vários elefantes, de aparência humana, mas de proporções monstruosas. Seus braços imensos estavam erguidos com as palmas para cima e a cabeça barbada tinha a boca escancarada, com tamanho suficiente para caber um homem. Podiam ver a fumaça saindo da boca e uma chama ocasional do fogo abaixo.
— Extraordinário — murmurou Políbio. — É mencionado pelos historiadores, mas ninguém realmente acreditou. Se não me engano, pretende representar o deus cartaginês Baal Hammon. — Ele espiou pelas lentes novamente. — Asdrúbal acaba de chegar e está subindo a escada para a plataforma, onde os dois sacerdotes aguardam. Ele também usa luvas.
Fábio pôs a mão acima dos olhos para ter uma visão mais nítida. Lembrou-se da primeira vez que vira o general cartaginês, quando ele e Cipião fizeram o reconhecimento na cidade três anos antes; Asdrúbal também estivera vestindo a cabeça de leão sob sua armadura naquela época. Ele viu Cipião olhando as embarcações e o porto, esperando pelo sinal de Ênio, depois voltou os olhos ao Tofete.
— Onde está o animal sacrificial? Pensei que a essa altura já tivessem devorado tudo, inclusive ratos e baratas.
Políbio baixou as lentes outra vez e falou com o distanciamento de um erudito.
— Se eu não estiver enganado, estamos prestes a testemunhar um sacrifício de uma criança cartaginesa.
Cipião ficou perplexo.
— Por Júpiter. O quê?
— O sacrifício de crianças tem uma longa história entre os povos semíticos do leste do Mediterrâneo, os ancestrais dos cartagineses. Os escritos dos israelitas falam de como seu antigo profeta Abraão ofereceu um menino chamado Isaac a seu deus.
Um tambor começou a bater, lenta e insistentemente, de algum lugar dentro do santuário.
— A batida de tambor originalmente era realizada para abafar os gritos da vítima — disse Políbio. — Mas duvido que dessa vez queiram que faça isso. Creio que o que estamos prestes a ver está sendo feito principalmente para nós. Sendo assim, quanto mais gritos melhor.
Um menino de túnica branca, talvez com 10 anos, saiu do santuário, depois subiu a escada de pedras até os três homens parados no alto. Assim que se aproximou da plataforma, Asdrúbal acenou para ele e o menino pulou e o abraçou, agarrando-se aos braços da pele de leão. Asdrúbal o baixou gentilmente e segurou sua mão. O menino não tinha como saber o que estava prestes a acontecer. O estômago de Fábio se revirou quando ele percebeu a verdade. O menino era filho de Asdrúbal.
A batida de tambor ficou mais lenta. Os dois sacerdotes ergueram o menino do chão de repente, um pegando pelos braços e o outro pelas pernas, envolvendo seus pulsos e tornozelos nas correntes sem pestanejar. Bem abaixo, na base do deus de bronze, os escravos penduravam-se nos braços dos foles, prontos para empurrá-los. Asdrúbal tirou o menino dos sacerdotes e o segurou na frente da boca escancarada da fera; o calor que emanava dela já era visível, tremeluzindo no ar. Fábio via a cabeça do menino ao lado de Asdrúbal, olhando em volta freneticamente, sentindo o horror que estava prestes a cair sobre ele. Por um momento Fábio lamentou pelo homem. Em algum lugar debaixo daquela pele de leão, sob o ódio, a crueldade, a autodestruição, havia o completo desespero de um pai que sabia que seu filho o amava, sentira seu abraço e, no entanto, fora impelido a realizar o impensável, o pior que a guerra poderia obrigar um homem a fazer.
Asdrúbal avançou um passo e jogou o menino na boca da fera. Ouviu-se um ruído de queda e tinidos, ampliado e recuando, enquanto os sacerdotes soltavam as correntes e o menino rolava para baixo. Um grito agudo cortou o ar, depois um berro terrível subiu de algum lugar atrás dos muros do Tofete, o grito da mãe do garoto, seguido por um gemido de lamentação que pareceu ondular pela cidade. O deus de bronze eclodiu em um rugido de fogo, como se o próprio deus estivesse despertando; um manto de chamas foi expelido ao alto. Bem abaixo, os escravos trabalhavam nos foles gigantes, o açoite dos sacerdotes caindo em suas costas. O cheiro de carne queimada começou a vagar para o porto. Depois a batida do tambor mudou, agora mais rápida, e os escravos cessaram seu trabalho. Os dois sacerdotes na plataforma começaram a puxar as correntes, elo por elo, mantendo-se de cada lado da boca da fera para evitar o calor abrasador. Trouxeram para fora seu fardo horripilante, e Asdrúbal o pegou.
Ele se virou, e Fábio viu o corpo calcinado e encolhido do menino, as pernas e braços contraídos e a boca escancarada, presa em um grito. Asdrúbal estendeu o cadáver para os picos gêmeos da montanha, para Bou Kornine. Mas então se virou para o porto, erguendo o corpo do filho o mais alto que pôde.
Fábio encarou, horrorizado. Asdrúbal não estava oferecendo seu sacrifício ao deus. Estava oferecendo a eles.
Políbio pôs a mão no braço de Cipião.
— Ele está nos provocando. Sabe que nenhum romano que ama seu filho suportaria isso. Ele está tentando fazer com que você ordene o ataque antes que estejamos prontos. Mantenha o controle.
— Cipião Emiliano — berrou Asdrúbal, a voz atravessando até o porto, por sobre as fileiras de legionários que olhavam, petrificados. — Carthago delenda est.
Foi o grito daqueles no Senado romano que haviam enviado Cipião para lá, palavras agora usadas por um homem que podia não ver nenhum propósito em continuar vivendo. Carthago delenda est. Cartago deve ser destruída.
Um raio de sol irrompeu pelos picos gêmeos da montanha e iluminou o Tofete, então ardeu pela cidade como se tivesse sido atingido por um raio. Um instante depois ouviu-se o baque surdo das embarcações de catapulta de Ênio e uma bola de fogo subiu, demorando-se por um momento sobre a cidade como uma estrela gigante em chamas, caindo então na plataforma do templo, espalhando bocados de fogo pelas ruas abaixo.
Era o sinal.
Cipião virou-se para Políbio.
— Asdrúbal terá o que deseja. — Ele ergueu o braço esquerdo e o manteve estendido diante de si.
Bem abaixo, viu os arautos levarem suas longas trombetas aos lábios, observando-o. A batida de tambor parou, e por um momento fez-se silêncio. Fábio sentiu um fiapo de vento no rosto e olhou o horizonte novamente, agora semicerrando os olhos contra o sol. Enxergava apenas o tom vermelho.
Cipião baixou o braço.
— Que comece a guerra — rosnou ele.
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