Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 8 de 29

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Total War Rome: Destruição de Cartago

Capítulo 4

Parte 2

O Triunfo de Emílio Paulo, Roma, 167 a.C.

 

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4

Fábio fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o peito inflar sob a couraça e inspirando o aroma inebriante de incenso que preenchia o ar. Ele abriu os olhos e ficou deslumbrado com a vista. Roma inteira parecia em chamas naquela noite, não um fogo de destruição, mas de celebração: mil bacias de óleo queimando e ladeando a rota de procissão desde o portão de Óstia, passando pelo Fórum, ao Campo de Marte. Ali, no pódio abaixo do Templo Capitolino, eles estavam no apogeu da procissão, no final da Via Sacra onde os legionários que marchavam para eles se desviavam a oeste em direção ao espaço aberto do Campo de Marte, rumo aos jogos e espetáculos que seriam realizados por toda a noite.

Ele e Cipião tinham abandonado a frente da primeira legião alguns minutos antes para subir a escada, de forma que Cipião pudesse ficar ao lado do pai Emílio Paulo enquanto a procissão chegava a seu clímax. Políbio também estava lá, atrás de Emílio Paulo, e ao lado deles posicionava-se Marco Pórcio Catão, no pódio, em sua posição de direito como estadista mais velho do Senado, ex-cônsul e censor, e também um dos amigos e partidários mais antigos de Emílio Paulo. Fábio olhou o general, que ergueu a mão direita em saudação e a manteve firme no ar enquanto cada legião passava marchando. Por baixo da armadura polida ele agora era um velho, de pele enrugada e esfolada tal como Catão, ambos veteranos que haviam estado ali presentes como jovens tribunos, assistindo a procissões triunfais muito antes de Fábio e Cipião ao menos terem nascido. Aquele dia seria o último quinhão de glória para a geração que havia combatido Aníbal, para aqueles que sabiam que logo seguiriam Cipião Africano ao Elísio, mas que só descansariam verdadeiramente depois que Cartago fosse enfim derrotada.

Fábio lançou o olhar para o jovem de armadura e para os homens mais velhos de toga que lotavam a escadaria do pódio. As mulheres patrícias estavam ausentes, aguardando nas arquibancadas erguidas por cada gens ao final da via de procissão, para assistir à execução dos desertores, porém Metelo e os jovens de estirpe entre os tribunos estavam todos reunidos mais abaixo, sendo acompanhados pouco a pouco por outros que deixavam a cabeceira de suas legiões e manípulos para subir a escada e ver o espetáculo, tal como Fábio e Cipião haviam feito. A ausência mais notada era do velho centurião Petreu, que tinha pendurado a armadura para sempre depois que Cipião e os outros partiram para a guerra na Macedônia e a academia foi fechada. Para ele, a guerra pertencia ao passado e suas terras nas Colinas Albanas acenavam; era novembro e ele precisava colher o milho e semear o trigo de inverno antes da geada. Ele era um verdadeiro romano, primeiro agricultor e depois soldado, mais fiel às suas raízes de Roma do que qualquer um dos patrícios que competiam entre si, reivindicando a gens mais antiga e a linhagem mais forte desde Rômulo ou outro guerreiro semimítico do passado de Roma.

Mas outros também estavam ausentes. Enquanto marchavam, passando pelo fasti consular na frente do Fórum, Fábio viu a placa de mármore com a inscrição dos nomes de oficiais das gentes patrícias que haviam sido abatidos em Pidna. Entre eles estava Caio Emílio Paulo, tribuno temporário da quarta legião, falecido aos 16 anos apenas. Fábio se lembrou da última vez em que havia estado com Caio Paulo na Itália, vendo seu rosto exausto no final de sua marcha para o sul da baía de Nápoles, em seguida o corpo mutilado que ele e Cipião ajudaram a carregar à pira funerária depois da batalha. O manípulo do garoto tinha sido a primeira unidade da infantaria romana a atacar depois que os Peligni se lançaram à falange, mas depois do embate dos Peligni os macedônios ficaram precavidos para o que veio a seguir; aqueles primeiros legionários não tiveram a menor chance. Disseram alguns que Paulo gritava de pavor e se entregou em frente à falange, outros, que ele berrava como um touro e só se virou para cair sobre o corpo de um legionário ferido e tomar ele mesmo os golpes das lanças macedônias, um ato que lhe teria rendido a corona obsidionalis, se ele tivesse sobrevivido para atestá-lo. Toda a fileira da frente do manípulo se sacrificou nas lanças da falange para que as fileiras seguintes pudessem passar. Fábio lembrou-se da brutalidade de Petreu para com o garoto, não pior do que a brutalidade que todos experimentaram com o centurião, mas diferente devido à juventude de Caio Paulo. Ele se perguntou se naqueles últimos instantes isso o fortaleceu, ou se foi algo que acabou por alquebrá-lo. Talvez nunca fôssemos conhecer a verdade, mas ele tinha esperanças de que o espírito de Caio Paulo fosse capaz de descansar no Elísio e de manter a cabeça erguida junto daqueles que morreram com ele.

Os últimos legionários passaram, deixando a Via Sacra vazia enquanto aguardavam pela fase seguinte da procissão. Fábio olhava em volta agora, para os monumentos e templos circundados pela fumaça e ornados com guirlandas, lembrando-se de ter corrido por ali com Cipião quando eram meninos, e então de acompanhá-lo todos os dias da casa de Cipião no Palatino para a academia, na Escola de Gladiadores. Nunca, nem em sonhos, eles teriam imaginado que apenas alguns anos depois estariam de pé ali, assistindo à maior procissão triunfal já vista, não como meninos boquiabertos e invejosos dos jovens tribunos e legionários da procissão, mas como soldados que retornavam e tinham combatido e matado pela glória de Roma.

Ele sentiu o rosto latejar e passou o dedo na cicatriz pálida onde seu ferimento finalmente começava a se curar. Já fazia um ano desde a Batalha de Pidna, um ano durante o qual ele e Cipião serviram com a força de ocupação na Macedônia enquanto Emílio Paulo tentava estabelecer uma república cliente, uma província de Roma em tudo, exceto no nome. No início, o trabalho deles foi perseguir aqueles que se recusavam a se render depois da batalha, principalmente mercenários trácios que sabiam que enfrentariam a morte quase certa se capturados. Foi um trabalho estimulante, com Cipião no comando de uma unidade de cinquenta homens da cavalaria ligeira, com Fábio como seu companheiro de armas, estendendo-se por toda a Macedônia enquanto perseguiam homens como feras selvagens, encurralando-os e sem piedade. De vez em quando, os inimigos se agrupavam, e os embates tornavam-se confrontos apropriados, de encontros breves e sangrentos de várias dezenas de homens lutando até a morte, mas com mais frequência um combate homem a homem, duelos ferozes travados pelo próprio Cipião e às vezes por Fábio com apenas um resultado possível, enquanto o restante da ala que cercava o campo de matança se preparava para lancear o inimigo, se ele conquistasse alguma vantagem. Cipião e Fábio deram conta de mais de uma dezena de homens dessa maneira, e depois de seis meses sentiam-se mais veteranos de uma campanha do que simplesmente sobreviventes de uma única batalha.

Encerrado o extermínio, Emílio Paulo convocou Cipião novamente a Pella, capital da Macedônia, para adquirir experiência agindo como árbitro em disputas locais, um papel ao qual ele teve dificuldade de se acostumar depois da empolgação dos meses anteriores, mas que desempenhou bem, sua reputação para fides e para jogo limpo tornando-o bastante requisitado por toda a região sob seu controle. Eles tinham voltado à Itália apenas três semanas antes, depois de resolver a alegação espúria de um homem que dizia ser o filho do rei macedônio derrotado, Peleu, e portanto governante por direito da nova república, um equívoco sobre o funcionamento de uma república, o qual Cipião resolveu admiravelmente explicando como Roma havia rejeitado seus reis mais de trezentos anos antes e rompera a linha de sucessão, construindo a República a partir de novos homens eleitos ao posto. Eles deviam retornar à Macedônia depois do triunfo, não para outro trabalho administrativo, mas para uma licença merecida, caçando na vasta extensão da Floresta Real Macedônia que margeava a alta cadeia montanhosa ao norte.

De repente soou uma trombeta, uma nota aguda e estridente de algum lugar atrás deles, e a multidão que ladeava a Via Sacra ficou em silêncio, prendendo a respiração em expectativa ao que viria a seguir. De um pedestal a meia altura do Monte Palatino, um gigantesco escravo núbio arremessou uma vela acesa no ar, mirando um caldeirão de metal na tribuna abaixo do pódio. A vela girou languidamente, a chama sibilando enquanto descia e desaparecia no caldeirão, aparentemente extinta, mal tocando suas laterais. A multidão explodiu em aplausos, assombrada com tal façanha prodigiosa de pontaria. Mas Fábio sabia que não havia acabado. O barulho da multidão esmoreceu, e todos os olhos se voltaram para a extremidade da Via Sacra, onde a procissão recomeçaria. De repente uma nova explosão surgiu do caldeirão, lançando uma bola de fogo no ar até que ela também explodiu, banhando a multidão em uma chuva de faíscas e deixando uma nuvem negra que escureceu o céu acima do Fórum, destacando ainda mais as chamas ao longo da rua. Dessa vez a multidão ficou perplexa demais para aplaudir, olhando boquiaberta para algo que nunca tinham visto, um presságio das visões futuras que Fábio sabia que eles logo pediriam aos urros.

Cipião virou-se e o cutucou.

— Ênio ficará satisfeito. Eu disse que, se ele ainda não era capaz de fazer de sua mistura de nafta uma arma explosiva, pelo menos podia fazer dela um espetáculo para o triunfo. Ele trabalhou nisso por meses.

Emílio Paulo virou-se para Cipião e pôs a mão em seu ombro.

— Desfrute deste espetáculo, mas não se deixe seduzir por ele — disse ele rispidamente. — Lembre-se: existem os verdadeiros e os falsos triunfos. Um general vitorioso pode ser tratado como um deus em um dia como este, depois ser o flagelo dos tribunos no dia seguinte, expulso da cidade feito um cão. Mesmo hoje os tribunos do povo tentaram evitar meu triunfo, agitando a plebs e tentando fazer com que esta acreditasse que meus legionários eram imorais e descontrolados, que voltariam para saquear Roma tal como saquearam a Macedônia. E há triunfos ordenados pelos cônsules que exageraram suas vitórias, com a intenção de criar para si uma glória onde não havia nenhuma, desesperados para alegar um êxito militar durante seu ano no posto.

— A derrota de Perseu é o maior triunfo já celebrado em Roma — respondeu Cipião, elevando a voz devido ao barulho. — Com a vitória em Pidna, o senhor passou a Roma o legado de Alexandre, o Grande, e abriu o leste à conquista romana.

— Tal deve ser o julgamento da história, de homens como Políbio — disse Emílio Paulo. — Mas o julgamento de Roma sobre as realizações de um homem em vida é algo volúvel, oscilando de um lado a outro como o vento que circula por estas sete colinas. Ouça hoje minhas palavras. Catão e eu discutimos isso e vimos tempos sombrios à frente. Até que Roma desperte verdadeiramente para a ameaça de Cartago, haverá anos em que a guerra poderá parecer uma lembrança distante, na qual seu próprio destino poderá parecer obscuro e incerto. Você deve ser fiel a si e lembrar-se do que disse Homero: melhor se realiza na vida aquele cuja sorte oscila para um lado e outro. Quando a sorte estiver a seu favor, sua capacidade de se distinguir será incitada pela força que você terá adquirido em épocas de adversidade.

Emílio Paulo voltou-se para a Via Sacra, e Fábio flagrou um olhar de Políbio, vendo a alusão de sorriso em seus lábios. Na noite anterior, caminharam juntos pela margem do Tibre, e Políbio previu que no momento do maior espetáculo haveria uma mensagem moral solene de pai para filho. Disse que era o que ele mais admirava nos romanos, sua retidão moral, algo que o fez dar as costas à Grécia e fixar residência entre aqueles que tinham sido seus algozes. Ele acreditava que era isso que tornava os romanos tão bons generais e tão diferentes de Alexandre, o Grande, cujo brilhantismo como líder de guerra era reduzido pelos excessos e pela imoralidade que felizmente pareciam muito distantes do caráter romano.

Fábio seguiu o olhar do general e viu os estandartes dos legionários tremeluzindo ao longe, onde se erguiam acima das construções das redondezas no caminho para o Campo de Marte. Emílio Paulo tinha razão sobre a inimizade do povo. Depois de partir com Políbio naquele fim de tarde, Fábio passara a maior parte do tempo nas tabernas com camaradas do primeiro manípulo da segunda legião, a unidade com a qual ele havia treinado antes de partir para a Macedônia, e vira a fúria deles. Os homens que voltavam a Roma da batalha gloriosa foram rejeitados pelas esposas em seus lares, e seus filhos os evitavam. Ele sabia, por Políbio, qual era a causa daquilo: não os tribunos do povo, mas aqueles que os subornaram para disseminar a inimizade, o mesmo grupo de senadores que se opunha à formação de um exército profissional e à fundação da academia. Era a primeira vez que Fábio percebia o poder que aqueles homens possuíam e como podiam levar a plebe para seu lado. Ele também percebeu que Metelo e seus seguidores podiam usar a inimizade daquela facção do Senado para com os Cipiões e os Emílios Paulos em proveito próprio, envenenando a opinião pública contra Cipião. Aquilo representava parte da mensagem de seu pai, sobre os tempos sombrios à frente, causados não por um inimigo externo e sim por um inimigo interno. Metade daqueles homens que estavam de pé e usando toga no pódio, desfrutando da estima do povo, logo veria Emílio Paulo banido de Roma e seu triunfo desacreditado. O general também tinha razão a respeito disso. Neste dia os ventos sopravam a seu favor, mas no dia seguinte talvez não.

Cipião virou-se para Fábio e falou junto ao ouvido deste, lutando contra o barulho:

— A exibição pirotécnica de Ênio foi o sinal. Dê uma olhada na Via Sacra. — Ele ouvia agora os tambores, uma batida lenta, insistente e surda ao longe, marcando a segunda parte da procissão, o desfile de tesouros da Macedônia que seriam trazidos em carroças até os pés do pódio e dedicados nos templos que ladeavam a Via Sacra.

Para Fábio, a maior visão não eram os despojos da guerra, mas o próprio Cipião, corado de empolgação e resplandecente na couraça e no capacete de plumas herdado de seu avô adotivo Cipião Africano, o homem em cuja memória Fábio jurou que protegeria resolutamente o jovem Cipião, colocando-se a seu lado onde quer que o destino lhe ditasse. Hoje era o ponto culminante da vida de Cipião até o momento; a primeira vez que ele ficava ombro a ombro com os maiores estadistas e guerreiros vivos de Roma e podia apreender seu próprio destino. Fábio tentava se esquecer do lado sombrio; este também era o último dia que Cipião teria com Júlia, o dia que marcava o início de seus ritos formais de purificação com as Virgens Vestais antes de seu casamento com Metelo. A guerra pode ter endurecido Cipião, mas não a esse ponto. Fábio olhou adiante, vendo a primeira carroça de tesouros se revelar em meio à fumaça, puxada por uma parelha de bois. Por enquanto, pelo menos por algumas horas, ele esperava que Cipião pudesse deixar o futuro em suspenso, enquanto se deleitavam no maior espetáculo que Roma já vira.

Três horas depois, o espaço na frente do pódio tinha uma pilha alta de um tesouro deslumbrante de obras de arte, carregado para lá por mais de duzentos e cinquenta carroças e bigas; em destaque entre eles, uma pilha imensa de prataria, pela qual os macedônios eram famosos, incluindo taças magníficas no formato de chifres, decoradas com folhas de ouro e pedras preciosas, amontoadas em um tonel de libação que Emílio Paulo encomendou, feito de mais de vinte talentos do mais puro ouro montanhês macedônio. Fábio tinha ficado mais interessado nas carroças de armas e armaduras, nos milhares de capacetes, escudos, couraças e grevas, todos amontoados e sujos de lama e sangue seco, tal como estavam quando recolhidos do campo de batalha; entre eles Fábio identificou escudos redondos cretenses, escudos trácios, lanças macedônias e aljavas de flechas citas, uma fração da força mercenária formada contra eles em Pidna, junto à falange macedônia. Em seguida veio uma centena de bois com chifres dourados, destinados ao sacrifício naquela noite no Campo de Marte, e então a família e os escravos domésticos de Perseu e o rei deposto em pessoa, despido de sua armadura, caminhando pesadamente de manto preto, parecendo confuso e taciturno na derrota. Depois que ele passou, houve um intervalo enquanto o último espetáculo era preparado; vinho e frutas eram distribuídos entre os espectadores por escravos que tinham sido instruídos a providenciar a bebida ao povo moderadamente, mas não tanto a ponto de ficarem turbulentos antes de a procissão findar e os sacrifícios acontecerem no Campo de Marte naquela noite.

Políbio lamentou a pilhagem da Macedônia, comentando com Fábio quantos daqueles tesouros, despojados dos templos e santuários, tinham perdido seu significado e se tornariam meros ornamentos nas casas dos ricos de Roma. Mas agora Fábio era capaz de enxergar como a maior daquelas obras, trazida ali em triunfo e oferecida nos templos, tinha adquirido um novo significado, havia recebido um novo selo de propriedade enquanto era absorvida em Roma como símbolo de conquista e poder. De agora em diante, a arte e os próprios artesãos trabalhariam segundo o gosto romano, modelando uma nova Roma assim como Políbio e os outros professores gregos da academia tinham influenciado o pensamento da geração seguinte de líderes de guerra romanos. Aquilo tornava Roma mais cosmopolita, afastando-a de suas tradições há muito estabelecidas: uma evolução perigosa para aqueles do Senado que se preocupavam com a solidez da própria base de poder em Roma, fundamentada, como era, na manutenção da antiga ordem estabelecida. Ele pensou na ironia do velho centurião, conservador até a medula, presidindo parte daquela mudança, escolhido por Cipião Africano para conduzir essa geração de rapazes a um novo formato de guerra, uma guerra em que a conquista e a dominação só seriam possíveis se fossem libertados da constituição que prendia e abreviava a ambição militar pessoal em Roma desde os dias mais tenros da República.

Enquanto esperavam, Catão passou ao lado de Cipião, o rosto rijo e vincado, vestido austeramente na toga antiquada de seus ancestrais, olhando com reprovação o grupo de professores gregos barbados no rostro abaixo, que tentavam manter uma turma de jovens indisciplinados em ordem. Até onde Fábio sabia, o único grego que Catão realmente aprovava era Políbio, e mesmo assim só porque Políbio era o historiador militar mais importante da época e um dos proponentes mais sonantes de Roma, tanto que o próprio Catão apelou para que ele fosse formalmente liberado de seu status de cativo e transformado em cidadão romano. Catão falou junto à orelha de Cipião, mas Fábio entreouviu.

— Quando eu tinha sua idade, estive exatamente neste local, quase cinquenta anos atrás, quando Aníbal atravessou os Alpes com os elefantes e ameaçou Roma. Seu pai, que está a nosso lado agora, era como um desses rapazes abaixo, embora na época usássemos centuriões endurecidos pela batalha para mostrar a nossos rapazes como ser homens, e não esses gregos efeminados.

— Agiu bem ao apoiar a academia, Catão — respondeu Cipião, colocando a mão em concha na orelha do velho para se fazer ouvir. — Aqueles de nós que lá aprendemos sempre lhe seremos gratos. O centurião Petreu nos ensinou o mos maiorum, o costume ancestral.

— A academia foi ideia de seu avô adotivo, Cipião Africano — respondeu Catão. — Só o que fiz foi garantir que os rapazes das famílias que apoiam nossa causa contra Cartago tivessem a oferta de uma vaga, e que o tesouro dos triunfos de Cipião, legados por ele para esse fim, fosse usado no emprego dos melhores mestres na arte da guerra. Mas a academia está fechada, e temo que não será reaberta. Tudo o que vejo à minha volta são senadores que optariam por conciliar e negociar em vez de se preparar para a guerra. Até aqueles que nos apoiam passaram a acreditar que, com a Macedônia agora derrotada, as guerras de conquista de Roma chegaram ao fim, que seu futuro está não na glória militar, mas nos tribunais e no Senado. Nós dois sabemos o quanto estão enganados. A paz pode estar à nossa frente, porém será uma paz transitória, uma calmaria antes da tempestade. Guarde minhas palavras, Cipião.

— Aqueles de nós que passaram pela academia garantirão que seu caráter sobreviva — respondeu Cipião gravemente. — Não precisa temer nada.

Catão olhou para Metelo e para os outros jovens oficiais que se pavoneavam no pódio abaixo.

— Lembro-me de como era na sua idade, quando senti pela primeira vez o gosto da batalha e estava ansioso por sair novamente. Para mim, foram quinze anos à frente da difícil campanha antes de Aníbal finalmente ser derrotado em Zama, todo o sangue e a glória que um jovem poderia desejar. Mas, para vocês, o caminho para a próxima guerra é menos seguro, e vocês têm o fardo da expectativa. Não deve permitir que a armadura de Cipião Africano lhe pese. Um dia você a conquistará por mérito e se colocará onde agora está seu pai.

— Se os deuses quiserem, assim como o povo de Roma.

Catão contraiu os lábios.

— Chegará o tempo em que os homens não apenas esgotarão suas ambições uns contra os outros na câmara de debates, mas buscarão refúgio na intimidação e no assassinato. Quando isso acontecer, a luta pelo poder será longa e amarga. Exércitos serão erguidos uns contra os outros, e haverá uma guerra civil. E quando Roma ressurgir, se Roma ressurgir, não será mais uma república. O homem que conseguir domar a nova Roma será aquele que for capaz de se livrar dos grilhões do passado e enxergar Roma como realmente é: a essência de um poderoso império, não apenas um palco de teatro de intrigas, disputas mesquinhas e discursos grandiosos no Senado, cheios de uma retórica inteligente que nada significa.

Cipião voltou-se para ele.

— Mas esses grilhões são o mos maiorum, o costume ancestral.

— O mos maiorum são a honra e o dever, e não o clientelismo e o privilégio, angariados com subornos, intriga e casamentos dinásticos — rosnou Catão. — Sou o republicano mais ferrenho que Roma já conheceu, mas se ela perder os antigos costumes de vista, prefiro que seja governada por um homem que conhece o mos maiorum do que por muitos que não o conhecem. Esse foi outro motivo para termos criado a academia; não era apenas para treinamento militar. Tratava-se de restaurar a honra e o dever naqueles que liderariam Roma, não só na guerra, mas também na paz. — Ele olhou para Metelo e os outros tribunos, de rosto vincado e testa franzida. — Tivemos sucesso com alguns, com você, Ênio e Brutus, com os aliados estrangeiros Gulussa e Hipólita; com outros, temo que não. São eles os perigosos, tão perigosos para você quanto qualquer inimigo estrangeiro, e você deve ficar atento. Devo partir agora. Tenho um último papel a desempenhar, no último grande triunfo que testemunharei em minha vida.

Cipião fez uma reverência para ele.

— Ave atque vale, Marco Pórcio Catão. Até que nos encontremos novamente. Eu me lembrarei de suas palavras.

Ele se virou para o pai, resplandecente em sua couraça dourada e seu capacete de plumas, sabendo que a essa altura do triunfo o filho daria os parabéns ao pai formalmente.

— Saudações, Lúcio Emílio Paulo Macedônico — disse Cipião, pela primeira vez usando o agnomen dado a ele no dia da derrota dos macedônios. — Jamais um triunfo de tal glória foi celebrado em Roma. Marte Ultor brilha sobre você.

Por tradição, o triumphator permanecia digno e em silêncio, presidindo o triunfo como um deus, mas Emílio Paulo permitiu-se virar e sorrir.

— Que Marte Ultor brilhe também sobre meu filho pela bravura em batalha, e sobre toda Roma neste dia. Darei as graças no santuário de nossos ancestrais em minha casa esta noite, quando os jogos findarem. Pode se juntar a mim?

Cipião ergueu o braço em saudação para que o vissem homenagear o pai e baixou a cabeça.

— Irei, meu pai. Depois farei o sacrifício no lararium de meu avô adotivo Públio Cornélio Cipião Africano, que testemunha sua glória do Elísio.

Emílio Paulo fez uma mesura, mostrando o devido respeito à memória venerada de Cipião Africano, depois voltou a olhar a Via Sacra pelo Fórum. Do outro lado do Templo da Fortuna, os sacerdotes dedicavam uma estátua de Atena do venerado escultor grego Fídias, erguida no pátio do templo, e então a acompanhavam por entre as colunas. Fábio via a estátua cambalear, carregada por escravos gregos capturados em cima de uma armação, seu capacete dourado e sua túnica vermelha mais vívidos do que as cores sóbrias da escultura romana. Em todos os templos do Fórum, os deuses e deusas da Grécia estavam sendo feitos subordinados a Roma, assim como as casas dos ricos se enchiam de estatuetas de bronze e pinturas saqueadas e trazidas pelos oficiais das legiões que tinham combatido na Macedônia, despojos de guerra que eram de direito dos vitoriosos desde tempos imemoriais.

Havia, porém, mais do que apenas o saque; Emílio Paulo também encomendou ao artista grego Metrodoro pinturas dos principais eventos da campanha e ordenou que fossem afixadas nas laterais dos carros de boi repletos de tesouros que passavam pelo Fórum. Fábio sabia, por intermédio de Políbio, que Metrodoro tinha guardado sua maior realização para o final, a qual estava chegando para eles agora, uma estrutura elevada, coberta com um manto e carregada em mastros por lanceiros macedônios da falange capturada em Pidna. Eles a baixaram no espaço que restava ao lado do púlpito e marcharam para o Campo de Marte, o chicote dos feitores que estalava em seus músculos tesos provocando disparos agudos pelo ar imóvel do Fórum. O próprio Metrodoro apareceu por fim na procissão, alto e barbado, fazendo uma reverência a Emílio Paulo e pegando uma corda presa ao manto que cobria a estrutura. De repente trombetas soaram dos degraus do Templo Capitolino atrás deles, uma explosão estridente que deve ter sido audível por toda a cidade. A multidão aguardava, prendendo a respiração, vendo Emílio Paulo lhe dar o sinal. Cipião virou-se e cochichou para Fábio.

— É feito de madeira, mas é o modelo para um monumento de pedra que será erigido em Delfos, na Grécia, na frente do Templo de Apolo. Quando meu pai viajou para lá depois de Pidna, encontrou um monumento semiacabado como este, encomendado pelo rei Perseu antes de sua derrota, e parecia adequado que o vitorioso o concluísse com os próprios ornamentos.

Emílio Paulo levantou o braço e o deixou cair. Com uma rotação, Metrodoro puxou o manto. A multidão arfou. Era um pilar retilíneo, com pelo menos cinco vezes a altura de um homem, afilado no topo e construído com blocos de madeira pintados de branco. Na base havia uma inscrição em caracteres dourados, e no alto, um friso esculpido abaixo de uma estátua dourada magnífica de um general em um cavalo empinado. O friso estava na altura dos olhos no lugar que ocupavam no pódio, posicionado engenhosamente àquela altura para que Emílio Paulo pudesse vê-lo com clareza, e todos o olhavam. Mostrava uma cena de batalha, com homens em tamanho natural pressionando e avançando, cortando e apunhalando. Era tão realista que Fábio sentia ser capaz de entrar nela. Soldados moribundos apareciam no chão com as feridas à mostra, pingando um sangue que provavelmente fora aplicado por Metrodoro pouco antes da procissão. No centro da peleja havia um cavalo sem cavaleiro que fez Fábio se lembrar de Pidna, aquele que se libertou das fileiras romanas e galopou entre as linhas, incitando-os à batalha. Ele olhou para Políbio, sabendo que Metrodoro podia ter mostrado o próprio Políbio com igual facilidade, cavalgando heroicamente pela linha da falange para quebrar suas lanças; mas Políbio trabalhara intimamente com Metrodoro para garantir um retrato fiel e deve tê-lo aconselhado a não o fazer, julgando corretamente que os romanos podiam aceitá-lo em seu meio, porém se rebelariam contra uma representação que mostrasse a batalha dependente dos atos de um grego cativo que oficialmente não estava presente nas linhas romanas.

O cavalo fez Fábio se lembrar de outro cavalo que ele e Cipião tinham visto na escultura do frontão do Parthenon em Atenas, girando e se empinando, como se estivesse se preparando para se libertar da pedra; só que, ao contrário daquelas esculturas gregas, esta não era uma batalha mitológica, mas real. Ele reconhecia a armadura e as armas dos macedônios, e seus aliados gauleses e trácios, bem como dos legionários. E a estátua equestre exagerada não era de um deus, era de um homem, claramente o próprio Emílio Paulo, sua face vincada e a cabeça de calva incipiente imediatamente reconhecível até mesmo daquela distância.

Ele leu a inscrição em ouro ao longo da base:

L. AEMILIUS L.F. IMPERATOR DE REGE PERSE

MACEDONIBUSQUE CEPET

Lúcio Emílio, filho de Lúcio, Imperador, obra criada a partir dos despojos que tomou do rei Perseu e dos macedônios. Essa seria a mensagem que os emissários gregos veriam quando fossem a Delfos para prestar suas homenagens a Apolo. Para Fábio, o monumento parecia o símbolo culminante do triunfo. Não apenas uma obra de arte saqueada e trancada em um templo em Roma, mas uma escultura feita à moda grega e erigida no santuário mais sagrado dos vencidos, com uma nova mensagem distinta: os homens, e não os deuses, conquistariam tudo, e aqueles não eram homens quaisquer, mas romanos. Fábio se sentiu enaltecido. O futuro podia ser incerto; a sorte poderia sorrir para eles no dia seguinte, ou não. Mas, depois deste dia, qualquer coisa parecia possível.

Um dos servos lançou uma vela acesa no caldeirão de Ênio, então outro jato de fogo explodiu acima do Fórum, iluminando a estátua equestre de Emílio Paulo como se estivesse cavalgando nos céus. Mesmo depois que o clarão de luz cessou, a imagem permaneceu impressa na visão de Fábio, e então a estátua pareceu envolta em fumaça, com a luz do anoitecer destacando sua silhueta contra o céu que escurecia, uma visão igualmente assombrosa que deixou a multidão boquiaberta e em silêncio.

Depois de alguns minutos de reverência o povo começou a se agitar, ansioso para passar à próxima atração. Cipião pegou um cilindro de couro contendo um pergaminho que estivera carregando e se virou para Fábio.

— Prometi a Júlia que a encontraria na frente do Campo de Marte. O pai dela tem uma tribuna para sua família e seus clientes com vista para o final da via de procissão, e quero me assegurar de que verei os legionários marchando ao seguirem para os jogos de meu próprio manípulo. Se não formos agora, vamos perdê-los. Venha.

— Espere um momento — disse Fábio, apontando a Via Sacra. — Tem algo mais vindo aí.

A multidão também já havia visto e voltava a se calar, e os dois olharam. Para além da fumaça surgiu uma fera solitária, de lombo recurvado pela idade e pernas inchadas, a tromba se agitando de um lado a outro, os olhos vermelhos e tristes, avançando com dificuldade.

— Por Júpiter — murmurou Cipião. — Se meus olhos não estiverem me enganando, é o velho Aníbal.

Fábio olhou atentamente. Ele tinha razão. Era o elefante que Cipião Africano havia capturado do exército de Aníbal, aquele que os rapazes alimentaram e cujo estábulo limparam na Escola de Gladiadores. Ao se aproximar ainda mais, viram os riscos brancos nas laterais, onde as espadas romanas o tinham golpeado quarenta anos antes, e as marcas e os calombos em sua tromba onde pedaços da carne haviam sido arrancados. Mas ainda avançava, um testamento desajeitado às cicatrizes de guerra. Quanto mais perto chegava, mais forte parecia; os olhos não estavam tristes mais, e sim reluziam um brilho vermelho, as pernas não mais de chumbo e sim postadas para atacar, como se a força que o mantivera vivo por todos aqueles anos de repente tivesse ressuscitado a fera de guerra dentro dele, aqui, no lugar mais sagrado de um inimigo que jamais o havia derrotado verdadeiramente.

E então, quando ele se pôs diante do pódio, viram algo ainda mais extraordinário. Alguns passos atrás, segurando uma corda presa ao elefante como se estivesse acorrentado a ele, surgia também uma única figura, de cabeça baixa. Fábio nem acreditou em seus olhos: era Catão. Juntos, homem e animal passaram pelo pódio, nenhum dos dois levantando a cabeça, ambos se arrastando para frente de maneira resoluta e desaparecendo de vista. O elefante abanando sua cauda, Catão ainda cabisbaixo. Por alguns instantes a multidão permaneceu sob um silêncio perplexo, como se nervosa, sem saber o que pensar ou fazer.

Fábio olhou para Emílio Paulo. Ele estava impassível, olhando para frente. Fábio entendeu de repente o que tinha acontecido. Haviam planejado aquilo juntos, Emílio Paulo e Catão, dois velhos que olhavam o passado mas que também partilhavam um senso de responsabilidade para com o futuro. Aquilo iria enfurecer a facção do Senado que a eles se opunha; Fábio já podia ver um movimento impaciente e ouvir bufares de escárnio vindo dos homens de toga abaixo deles. Em seu momento de maior triunfo, Emílio Paulo escolhera deixar um alerta ao povo de Roma: Cartago ainda estava lá, ferida pela batalha, porém forte, liderando Roma como o elefante puxava Catão, renovando suas forças mesmo enquanto Roma observava e nada fazia. A conquista no Oriente era uma vitória superficial enquanto Cartago ainda os desafiasse. Perseu e os macedônios jamais seriam uma ameaça a Roma; os elefantes de Aníbal pisavam e urravam nos limites da própria cidade.

Algo mais tinha acontecido. Era como se a luz que havia brilhado em Emílio Paulo tivesse mudado para Cipião. Todos conheciam o legado de seu avô adotivo e o fardo que fora posto sobre Cipião quando ele assumira esse nome. O que começara como uma celebração da vitória, na qual ele tivera um papel, tornou-se um presságio de incertezas e expectativas; e a lealdade dos legionários que viram seu valor em batalha não seria a garantia da afeição do povo de Roma, que podia ser convencido a transferir sua lealdade por simples capricho. Fábio sabia que a armadura do avô adotivo estaria pesando especialmente agora em Cipião, e que o que estava por vir nos anos seguintes seria um teste maior de sua determinação do que qualquer coisa que já tivessem vivido nos campos de batalha na Macedônia.

Cipião virou-se e pôs a mão em seu ombro, ostentando uma expressão irônica.

— O que dizem mesmo os epicuristas? Carpe diem. Aproveite o dia. Pela primeira vez, tentarei esquecer o futuro. Júlia está esperando por nós ao lado do Campo de Marte para assistir à execução dos desertores, e é meu dever como oficial do exército estar presente. Vamos.

 

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