Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 10
Parte 4
Intercacia, Espanha, 151 a.C.
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10
Uma águia deu um voo rasante sobre as colinas, seu grito ressoando pelos vales, a batida das asas ásperas e duras no ar úmido. Fábio levantou a cabeça de seu trabalho, respirando fundo, sentindo o gosto do suor que escorria pelo rosto a manhã toda. Tirou o capacete, enxugou com as costas da mão a barba por fazer e virou a cabeça para o céu, desfrutando pela primeira vez da umidade fria do lugar. Havia começado a chuviscar novamente, a chuva perene que parecia ter envolvido aquelas colinas baixas por três meses inteiros desde que ele e Cipião desembarcaram de Roma, uma nuvem baixa permanente no abrigo das altas montanhas ao norte que dividiam a Espanha da Gália. Ele se convencera de que realmente gostava da chuva; sentir o sol novamente só o lembraria da última vez que vira Eudóxia e o filhinho dos dois, que completava um ano agora, brincando ao lado das águas espumantes do Mediterrâneo. Ele olhou a encosta, as muralhas do oppidum, a cidadela cercada dos celtiberos. Havia mulheres e crianças ali também, mas ele ainda não as tinha visto, apenas os maridos e pais quando investiam de cabelo desgrenhado e gritando, brandindo as espadas de dois gumes que provocavam medo em todos, exceto nos inimigos mais empedernidos pela batalha.
A catapulta a poucos metros atrás dele liberou sua carga com um solavanco estridente, enviando uma bola de fogo por sobre a muralha, a além do oppidum. Agora já fazia uma semana, dia e noite, a cada hora, que chovia morte e destruição, atormentando lentamente o inimigo à submissão. Antes disso tinham sido disparos de pedra sólida, espancando a muralha até que uma brecha foi aberta, permitindo a entrada dos legionários, obrigando o inimigo a recuar à sua segunda defesa na frente de suas cabanas e casas. A tomada da muralha fez com que o trabalho que realizavam agora parecesse redundante, cavar uma vala abaixo do aclive externo do oppidum. Mas Ênio sabia como manter os fabri felizes, homens recrutados do ramo de construção em Roma que gostavam sobretudo de cavar trincheiras, erguer paliçadas e operar máquinas de cerco que os faziam se lembrar dos grandes guindastes de contrapeso ao lado do rio Tibre, usados para retirar blocos de mármore de porões de navios. Fábio também esteve com muita disposição para contribuir, lembrando-se das horas que passara como jovem recruta, construindo fortificações de treino no Campo de Marte, e de como o velho centurião lhe dizia que a construção fazia parte do trabalho de um soldado tanto quanto o combate. E, apesar de seu desconforto na vala, usar a armadura de legionário novamente ainda lhe provocava uma onda de satisfação, qualquer que fosse a tarefa à mão. Já fazia 17 anos desde Pidna, e, mesmo depois de semanas de trabalho pesado, desde que tinham chegado à Espanha, ele ainda sentia a mesma novidade e empolgação de pegar em armas por Roma que sentira pela primeira vez como jovem recruta na Macedônia havia todos aqueles anos.
Houve um forte urro de satisfação ao lado dele, e um som de água espirrando. Os dois elefantes que haviam trabalhado arduamente na muralha a manhã toda arriaram na poça de lama na base da vala, refrescando-se e usando as caudas para espantar as moscas que enxameavam em volta deles. Mas no alto da encosta o terceiro elefante labutava sob o olhar vigilante de seu condutor númida, usando a tromba para retirar pedras da beira irregular da brecha e limpar o entulho a fim de facilitar a passagem das tropas de assalto. Depois de romper a muralha e forçar a defesa de volta ao oppidum, Cipião consolidou seus ganhos, abrindo rapidamente a entrada principal para permitir o acesso de mais homens; porém, depois de ver as linhas de defesa secundárias, uma paliçada de madeira pelo centro do oppidum cerca de quinhentas jardas à frente, ele decidiu não prosseguir, optando ao invés disso por retirar suas tropas para a brecha e deixando o espaço aberto como um alvo para o caso de o inimigo decidir atacar.
Agora eles estavam aguardando havia quase uma semana, uma semana durante a qual os celtiberos suportaram ainda mais fome e infelicidade, bombardeados pelo granizo e pela chuva que haviam transformado o lugar em um lodaçal e pelas bolas de fogo que os artilheiros de Ênio lançavam às casas por sobre as muralhas, onde até mesmo sob chuva o breu e o óleo ardentes incendiavam os telhados de palha das habitações e obrigavam as pessoas a saírem a campo aberto, desprotegidas dos elementos e das cargas das catapultas. Era difícil acreditar que aguentariam por tanto tempo, mas Fábio soube por outros legionários da resistência celtibera e de como um cerco como aquele podia durar até cada pessoa ali dentro morrer de inanição ou por sua própria espada.
Ele olhou de soslaio para Cipião, que estava recurvado sobre o diorama tático que ele e Ênio tinham criado usando lama e pedras da margem do rio. Cipião agora tinha quase 35 anos, o rosto mais áspero do que da última vez em que foram juntos à guerra, a barba por fazer e o cabelo bem curto pontilhado de grisalho. Já fazia seis anos desde que tinham partido da Macedônia, seis anos que Cipião se dedicara aos tribunais e às câmaras de debate de Roma com relutância, um fardo que conseguiram atenuar passando meses de cada ano caçando no sopé dos Apeninos e nas altas encostas das montanhas Cisalpinas, ao norte, e em Roma, trabalhando diariamente com os gladiadores para mantê-los em forma e preparados para a batalha. Ao contrário de seus contemporâneos em Roma, que haviam sucumbido ao comodismo, Cipião estava tão musculoso e robusto quanto os fabri que trabalhavam agora em volta deles, tão à vontade cavando uma vala como ficava participando dos combates de espada ou corpo a corpo que mantinham os legionários em forma enquanto esperavam que o cerco esgotasse os celtiberos e os obrigasse ao combate novamente.
A couraça de Cipião era moldada no mesmo formato da musculatura do tronco humano, um legado dos Emílios Paulos que antigamente era um exemplo esplêndido do trabalho etrusco com metal, mas que agora estava marcada e amassada pela guerra. Fora usada pelo pai de Cipião quando jovem tribuno na guerra contra Aníbal e por seu avô na guerra anterior, o primeiro grande embate contra Cartago, mais de cem anos antes. A guerra contra Cartago nunca se distanciara de seus pensamentos, nem mesmo quando ele se afastava de Roma. Eles só estavam combatendo ali, agora, porque os celtiberos haviam apoiado Aníbal em sua marcha pela Espanha a Roma mais de sessenta anos antes, e desde então se mostraram um obstáculo às tentativas romanas de alcançar os distritos de mineração de ouro mais além, a noroeste. A guerra foi deflagrada três anos antes e suprimida pelos romanos somente depois de uma árdua campanha naqueles sopés isolados, esgotando a energia de atacantes e defensores. Mas então, com a paz iminente, Licínio Luculo foi eleito cônsul e decidiu criar uma nova legião e terminar o trabalho na Espanha do seu jeito, renegando as promessas feitas aos celtiberos por seus predecessores. Todos sabiam que a campanha caminhava para um triunfo fácil, a primeira oportunidade em quase duas décadas de um cônsul liderar um desfile de vitória por Roma, e que os celtiberos foram tratados com um desdém que enfureceu aqueles que haviam combatido contra eles e aprendido a respeitar seu senso de honra como guerreiros.
Secretamente, Cipião desprezava Licínio Luculo, um novus homo rude com pouca formação militar, e considerava a guerra renovada na Espanha uma distração da ameaça iminente de Cartago. Mas Cipião tinha acabado de ser eleito senador e vira seu futuro preso em Roma, sem outra oportunidade de alcançar a reputação militar de que precisaria para ser nomeado ao comando de uma legião ou do exército quando chegasse a época de um ataque a Cartago. Pela primeira vez, Políbio estava ausente, longe, na Grécia, aconselhando a Liga Aqueia sobre sua organização militar, e Cipião se viu forçado a ruminar a questão sozinho, ponderando as próprias ambições e o senso de destino contra sua consciência por se unir a uma guerra desonrosa. E então, alguns dias antes de Licínio Luculo e sua legião partirem de Roma, chegou a ele a notícia de que um grupo de senadores mais velhos, adversários de Catão e desconfiados de qualquer um com o nome Cipião, estava engendrando uma nomeação para ele como edil na Macedônia, um posto que teria sido uma folga bem-vinda de Roma, exceto pelo fato de o novo governador provincial ser seu arquirrival Metelo. Ele discutiu o assunto com Fábio, e a sorte foi lançada. Eles se lembraram do que havia ocorrido na floresta da Macedônia seis anos antes, e não desejavam terminar seus dias sendo apunhalados em algum beco de Pela.
Cipião procurou Licínio Luculo quando estava formando a legião no Campo de Marte e se apresentou como voluntário. Aceitou a nomeação de tribuno militar, não para ficar entre os jovens que lideravam os manípulos e as coortes, mas como um oficial do estado-maior de Licínio Luculo, para agir como emissário quando chegasse a época de discutir as condições com os celtiberos novamente. Licínio Luculo tirou partido da reputação de fides de Cipião, de cumprir com sua palavra, um papel que Fábio sabia pesar na consciência de Cipião, dada a dubiedade de Licínio Luculo para com os celtiberos. Cipião e Fábio só estavam ali, na Intercacia, enquanto esperavam que a chuva cessasse e a estrada para o litoral voltasse a ser transitável, tendo marchado para o campo dez dias antes com uma centúria reduzida do oppidum de Coca, onde Licínio Luculo ficou acampado com sua legião. Ênio já estava ali, comandante da pequena força de cerco, e submeteu-se a Cipião porque sabia o quanto este ansiava por ver a ação, lembrando-se de sua superioridade nos anos de academia. A principal força de Ênio era uma coorte de fabri que pretendia concluir as fortificações antes da chegada da legião de Licínio Luculo, momento em que este último esperava que o oppidum se rendesse e outra vitória fosse acrescentada a seu cesto sem qualquer necessidade de arriscar a própria pele liderando seus homens na batalha.
Fábio observou Cipião ficar de pé, espiando as muralhas. Ele não estava usando o disco de prata phalera que o pai lhe dera por bravura em Pidna. Cipião disse a Fábio que Pidna fora combatida quando a maioria dos legionários ali presentes eram meninos e seria uma antiga história de guerra contada por seus pais. Todos sabiam que ele era filho do lendário Emílio Paulo e neto adotivo de Cipião Africano; todos sabiam que os príncipes costumavam usar condecorações conferidas a eles pelos reis, mesmo nunca tendo visto a ação. Ele não descansaria nos louros do passado, mas conquistaria seu respeito perante seus olhos. E foi o que ele fez uma semana antes, irrompendo pelas muralhas à frente dos legionários, o primeiro a subir nos escombros e ver os guerreiros celtiberos recuarem a sua segunda posição defensiva, a muralha atravessando o centro do oppidum que cercava as cabanas e corredores de madeira de seu povoado. As marcas recentes que brilhavam no peitoral de Cipião, daqueles poucos momentos de combate feroz no alto das muralhas, tinham um significado muito maior para ele do que qualquer condecoração que Roma pudesse lhe conferir. E ali, onde jamais aconteceriam batalhas já encenadas, onde a guerra significava dias e semanas de cerco tedioso pontuado por momentos apavorantes de violência, quando os celtiberos atacavam repentinamente, o combate individual era a chave para a reputação de um homem. Nenhum general um dia chegaria a liderar uma legião plenamente formada na batalha naquela parte da Espanha, onde a topografia de colinas e vales pluviais confinados era adequada apenas para a ação de pequenas unidades, de manípulos e coortes liderados por centuriões e tribunos, ou durante cercos em lugares onde os próprios celtiberos estavam preparados para dar combate, em terreno íngreme, abaixo dos oppida, ou em espaços confinados pelas muralhas que mais pareciam arenas para duelos de gladiadores do que campos de batalha para exércitos.
Fábio sabia que havia outro motivo para Cipião não usar a phalera. Ele não a usava desde a noite do triunfo de seu pai em Roma, quando fora escarnecido por Metelo e Júlia estivera a seu lado pela última vez. Foi a noite em que Cipião entendeu que tinha perdido Júlia, e quando endureceu sua decisão de não permitir que o desprezo dos outros e as convenções de Roma borrassem o foco que tinha em seu destino. A Espanha deveria ser seu campo de prova, e ele se provaria não como filho de Emílio Paulo, ou neto de Cipião Africano, mas como um soldado, combatendo o inimigo de perto tal como faziam os legionários, quando a luta era pela sobrevivência e por seus camaradas, e não por qualquer outra glória ou honra.
Fábio pulou da vala e se aproximou de Cipião e Ênio. Olhou o diorama, as marcas na lama que Cipião tinha feito com sua vareta, e apontou um sulco comprido.
— Se isto significa o rio, não está muito certo — disse ele. — Ele faz uma curva para o sul, para além do campo dos fabri.
Cipião meneou a cabeça.
— Isto não é Intercacia, mas a Numância. Se conseguirmos derrotar os celtiberos, precisaremos tomar a Numância.
— É o maior baluarte deles — disse Ênio.
Cipião franziu os lábios, olhando pensativamente.
— O maior ponto fraco dos celtiberos é sua estrutura de clãs, o que significa uma ausência de controle estratégico geral. Eles são pastores de ovelhas, assim como em Roma éramos condutores de gado nos tempos de Rômulo, leais a nossas famílias e a nossos clãs em cada uma das sete colinas, mas partilhando a aliança com elas apenas quando éramos atacados por uma confederação das tribos latinas. É um ponto fraco dos celtiberos, mas é também o que torna a guerra árdua para nós, pois precisamos combater cada tribo pouco a pouco e fazer o cerco a cada oppidum por vez, sem garantias de que a queda de qualquer oppidum tornará menos complicado o cerco à seguinte, pois seus habitantes podem ser de diferentes clãs e normalmente hostis entre si.
— É como se estivéssemos combatendo várias pequenas guerras sucessivamente — murmurou Ênio. — Você pode encerrar cada guerra negociando a paz e cumprindo sua palavra, dando ao chefe um senso de derrota honrada, até a indiferença das outras tribos que continuam em guerra. Mas se descumprir sua palavra, a história é outra; os clãs podem reagir se unindo e representando uma oposição mais unificada. É o que parece ter acontecido agora com a chegada de Licínio Luculo e seu repúdio ao acordo que pacificou os celtiberos no ano passado.
Cipião assentiu.
— A dinâmica da guerra contra os celtiberos mudou. Os arévacos são a maior tribo e Numância encontra-se no mapa como principal oppidum da região. Tome a Numância e demais oppida dessa tribo podem cair diante de você sem resistência, e a guerra estará encerrada.
— É esse o plano de Licínio Luculo? — perguntou Fábio.
A expressão de Cipião era impassível.
— Ele possui apenas uma legião, recém-formada e inexperiente. Pretende vencer cercos suficientes para ter um triunfo, depois partir. Mas, ao entrar na Espanha tendo apenas a glória pessoal em mente, ele deu início a uma guerra contra Roma que só será extinta com a tomada da Numância, talvez daqui a anos. É isso que Ênio e eu estivemos projetando.
— E o que você faria? — perguntou Fábio.
Ênio apontou com sua vareta.
— Este é o rio Douro. Eu construiria torres em cada margem do rio, em dois lugares, distando quinhentos pés. As torres do lado mais próximo do rio seriam próximas o bastante para os arqueiros despejarem flechas dentro do oppidum. Eu cercaria o oppidum com uma fossa profunda e uma trincheira, e as dobraria perto da entrada principal, onde uma grande força de ataque seria capaz de sobrecarregar um único sistema de valas.
Cipião sorriu para ele.
— Falou como o verdadeiro engenheiro. Você construiria mais um conjunto de muralhas em volta de Roma se tivesse a oportunidade.
— Isso não é uma pilhéria. A cidade está ficando grande demais para as Muralhas Servianas. Agora elas somam mais de duzentos anos. E quanto mais casas de madeira se espremerem fora de suas paredes, mais provável que sofram um incêndio arrasador.
— Políbio e um de seus amigos cientistas da Alexandria fizeram um cálculo matemático sobre as muralhas da cidade — disse Cipião. — Determinaram que, a menos que se tenha uma população ainda mais densamente aglomerada do que a de Roma, vivendo em habitações que precisariam ter oito ou dez andares de altura, você simplesmente não teria efetivo suficiente em uma cidade para defender seus limites exteriores.
Ênio assentiu.
— As muralhas da cidade servem apenas para exibição.
— É preciso uma defesa a fundo, com uma área menor de fortificação para onde se recuar. Foi o que os celtiberos fizeram aqui em Intercacia uma semana atrás.
— Lembra-se de Políbio nos levando a Atenas e mostrando a Acrópole? É algo que os gregos fizeram bem, nós, não.
— Porque o espírito romano é ofensivo, não defensivo. Mas os celtiberos, como os gregos, geralmente se voltam para dentro; é incomum que se expandam para além de suas fronteiras e tomem demais oppida adjacentes. Roma, por sua vez, tem se voltado para fora por séculos, devorando as tribos circundantes e depois as cidades-estados dos gregos e dos cartagineses, expandindo-se eternamente.
Ênio o fitou com ironia.
— Sim, e veja o que acontece quando invasores alcançam Roma: os gauleses duzentos e cinquenta anos atrás e, por muito pouco, Aníbal no tempo de nossos avós. O Monte Capitolino, onde o povo se refugiou dos gauleses, foi dominado facilmente e continua sem fortificação. Um dia Roma chegará ao limite da expansão e sofrerá da mesma fraqueza do cálculo de Políbio, por não ter efetivo suficiente para defender as fronteiras. Todavia, grandes esforços serão feitos para fortificar as fronteiras em detrimento da própria Roma, que continuará vulnerável e cairá.
Cipião resmungou.
— Os celtiberos consideram os oppida seus refúgios, assim como os gauleses. As porções mais baixas de suas muralhas são feitas de pedra; a estrutura superior é de madeira com telhados de palha, vulneráveis ao fogo. Esse é seu maior ponto fraco na defesa. Eles nada sabiam sobre as máquinas de cerco quando as muralhas foram projetadas.
Ênio assentiu.
— Eu traria baterias de balistas e catapultas, para disparar sólidos e bolas de fogo.
Cipião franziu os lábios.
— O rio ainda é o ponto fraco.
Ênio olhou por um instante, depois traçou uma linha atravessando o sulco entre as duas pedras.
— Que tal isto? Você prende um cabo grosso entre as torres dos fortes, retesando para que se estenda na superfície da água. Através dele, passa pedaços ocos de tronco de árvore para que formem uma barragem. Assim não há como os barcos serem despachados do oppidum e alcançarem a segurança.
Fábio olhou para ele.
— Tenho uma sugestão.
— Diga o que pensa.
— Já esteve nas corridas de biga no Circo Máximo, quando prendem lâminas nas rodas?
— Um ótimo espetáculo, carnificina total — disse Ênio. — Não apenas pelo que as lâminas fazem às bigas quando se travam, mas aos condutores que caem entre elas.
— O que quer dizer, Fábio? — perguntou Cipião. — A Numância fica muito longe do Circo Máximo, e as bigas simplesmente atolariam aqui.
— Não as bigas, Cipião, mas aqueles troncos flutuantes. Uma semana depois de chegarmos à Espanha, fui com uma patrulha de reconhecimento à Numância, para avaliar as defesas. Agora que sei que seu modelo pretende representar o oppidum, reconheço o trecho do rio. Nos pontos onde você colocou as torres, ele corre especialmente veloz, ficando mais estreito, em particular quando é inchado pelas chuvas que parecem cair aqui o tempo todo. Em vez de ver esse clima como um impedimento, podemos voltá-lo para nosso proveito. Remos afixados como os raios de uma roda em cada extremidade das toras as farão girar com a corrente.
— Entendi — disse Ênio com entusiasmo. — Prenda lâminas se projetando para fora pela extensão das toras e elas ceifarão como as rodas de uma biga. Não só os barcos serão incapazes de atravessar, como também nenhum nadador.
Fábio pegou a vareta de Cipião e traçou duas linhas pelo sulco.
— O rio é quase vadeável nestes trechos. Coloque suas torres e as barragens de troncos ali e as lâminas praticamente roçarão o leito. Quem estiver a nado será incapaz de mergulhar por baixo.
Ênio assentiu, olhando para a lama.
— Uma sugestão brilhante, Fábio. Merece entrar no livro de Políbio. Se os intercacianos continuarem a cobrar de nossa paciência e resistirem por mais tempo, manterei meus fabri ocupados, fazendo-os construir uma barragem experimental no rio para ver como funciona.
Cipião deu um tapa no ombro de Fábio.
— Vamos torná-lo general já.
— Centurião servirá, Cipião. Um dia, quando o merecer.
Ênio olhou para Cipião.
— Desde que nosso cerco funcione. Como você disporia seus homens?
— Um terço para forças de assalto, um terço na reserva. Um terço da reserva para subir e guarnecer as muralhas do inimigo depois que a força de assalto tiver cruzado as brechas feitas pela artilharia, inclusive todos os arqueiros e arremessadores disponíveis. A linha de vanguarda da reserva incluirá fabri prontos para avançar e providenciar escadas e equipes de demolição, se necessário. O terço restante da força compreenderá a balista e as turmas de catapulta, a cavalaria pesada para repelir qualquer investida do inimigo e a cavalaria ligeira para perseguir qualquer um que escape do oppidum a fim de procurar ajuda.
Ênio sorriu para ele.
— Ora, isso vai diretamente para o livro.
— Tive muito tempo para preparar. Quando não estava caçando e treinando, estive planejando jogos de guerra. Os tribunais e a câmaras de debate só me tomavam algumas manhãs por semana. Eles fecharam a antiga Escola de Gladiadores onde mantínhamos a academia, mas Fábio e eu conseguimos recuperar a mesa de diorama, onde estudávamos as batalhas. Sempre que Políbio e qualquer um dos outros estavam por perto, nós nos reuníamos em uma sala que anexei especialmente à minha casa no Palatino para recriar as grandes batalhas do passado, alterando as variáveis, tentando mudar o resultado, como nos ensinaram a fazer. Provavelmente simulamos Zama umas cinquenta vezes, o mesmo número de Canas. Mas meu fascínio especial sempre foi pelos cercos.
— Por que será? — disse Ênio olhando para Cipião. — Deixe-me adivinhar. Uma grande cidade na margem sul do Mediterrâneo, com portos cercados e uma acrópole elevada abrigando um templo a Baal Hamon, e um lugar onde sacrificam crianças. O maior inimigo de Roma, ainda não conquistado.
— É só nisso que penso. É meu destino.
— Bem, Intercacia não é Cartago, e você tem apenas quinhentos homens aqui, dois terços dos quais são fabri.
— Os fabri também são legionários.
— Claro, os melhores.
— Então eles formarão a força de assalto, e a centúria que eu trouxe comigo de Coca aguardará na reserva.
— Isso é sensato. Aprendi, em meus três anos na Espanha, que o general sempre deve usar os homens de que dispõe como sua força de cerco para realizar um último ataque. Usar tropas recentes provocaria insatisfação entre aqueles que passaram semanas e meses diante das muralhas e desperdiçaria o conhecimento que eles colheram dos costumes do inimigo, de seus pontos fracos. Mesmo legionários que parecem esgotados encontram uma energia renovada com o fim em vista e lutarão com mais selvageria do que as tropas recém-formadas.
— Então aqueles que estavam primeiro nas muralhas comigo na semana passada formarão a linha de frente da força que usarei para entrar no oppidum.
— E há algo mais que não aprendemos na academia. O comandante de cerco não deve permitir que as próprias tropas ou o inimigo pensem que ele está em retirada por covardia ou falta de agressividade. Seu plano para o cerco da Numância é sensato porque mostra determinação e esforço, que você almeja o longo prazo e pretende seguir até o fim. O comandante mais fraco que pretende apenas dar um espetáculo de força pode deixar um rio sem defesa, dependendo de seu fluxo como uma fronteira natural, ou colocar linhas de piquetes onde você cavaria valas e construiria um fosso. Você pode convencer alguns de Roma de que tentou ao máximo combater um inimigo inexpugnável, mas seus soldados pensariam o pior de você, e assim também o inimigo. Eles podem pensar que você não tem nervos para um assalto, ou que você crê que seus soldados não o possuam. Se seus soldados acreditam que você não tem fé neles, você jamais os liderará à vitória.
Cipião abriu um sorriso.
— Mas o que você realmente gosta em meu plano é que ele envolve muito trabalho inventivo de engenharia para você e os seus fabri.
— O que representa mais uma vantagem. Mantém os homens ocupados. É para isso que foram treinados, e não para se sentar o dia todo, esperando por um inimigo. Eles gostam sobretudo de ver fortificações brotando em volta deles, isso intimida o inimigo.
Fábio olhou a brecha nas muralhas a cem jardas acima das encostas, vendo as sentinelas no meio do entulho, em guarda por qualquer sinal de atividade inimiga. Lembrou-se do velho centurião em Roma rosnando para os rapazes, refreando seu entusiasmo por se unir à batalha na primeira oportunidade. Não combata homens desesperados, dissera ele. Deixe que se esgotem pela fome e pela sede. Tome uma cidade sitiada apenas se estiver certo da vitória.
Cipião olhou para Ênio.
— Lembra-se de uma vez quando fomos levados para ver os leões e o que o chefe da Escola de Gladiadores nos disse sobre preparar animais selvagens para os jogos?
Ênio assentiu.
— Ele disse que os gladiadores experientes devem se recusar a travar combate com as feras até saber que elas foram tomadas pela fome, esse inimigo invencível.
— Ele disse que a fome enfurece a fera, mas também a enfraquece. Um leão faminto dará um espetáculo maior, porém é mais fácil de matar. Disse que você deve escolher o melhor momento para o espetáculo, quando a fera estiver enfurecida pela fome, mas ainda forte o suficiente para dar combate, entretanto de guarda baixa e com a fome deixando-a vulnerável a seu golpe mortal.
— Mas a guerra não é uma disputa de gladiadores — argumentou Fábio.
— Não tenha tanta certeza disso — respondeu Ênio. — Você ainda não entrou em campanha contra esse inimigo por tanto tempo quanto eu. Não pode escolher entre forçar uma cidade à fome e atacar, uma ou outra. Deve satisfazer seus próprios homens, que esperarão por um final sangrento, e também a honra de um inimigo que só se permitirá ser conquistado depois de ter sido derrotado em batalha. Só então eles se sujeitarão.
— Deixemos que a fome faça seu pior, em seguida ofereceremos as condições — disse Cipião.
— Os intercacianos só se sujeitarão quando não puderem mais lutar. Comerão couro fervido, as próprias roupas. As esposas e crianças os estão observando e esperarão que lutem até a morte diante dos olhos. Aqueles que sobreviverem pedirão a morte em lugar de se submeterem à escravidão.
— Então terão seu desejo realizado — disse Cipião.
Ênio apontou o diorama.
— Assim, a última fase na Numância. O que você faria depois de eles se renderem?
— Não cometeria o erro cometido em Cartago sessenta anos atrás. Eu arrasaria completamente a Numância. Dividiria seu território igualmente entre cada oppidum ao redor, para fazer amizade com aqueles que antes foram nossos inimigos. Pelo mesmo motivo, levaria os filhos dos guerreiros sobreviventes a Roma, não para humilhá-los, mas para exibi-los em minhas procissões triunfais como os adversários nobres e dignos que são. E os educaria como oficiais romanos, como Gulussa e Hipólita, e os colocaria encarregados de uma força celtibera auxiliar para lutar com Roma enquanto avançamos ao norte pelas montanhas em território gaulês, que é para onde eu iria depois de conquistá-los. O legado do cerco da Numância não seria o triunfo vazio de um inimigo tão derrotado que jamais poderia se reerguer, mas a celebração de um inimigo transformado em um combatente por Roma.
Ênio sorriu para ele.
— Você parece ter acabado de sair da academia. Políbio teria orgulho de você. Mas eu servi contra os celtiberos por três longos anos, e uma longa campanha esgota um comandante, Cipião. As intenções nobres se perdem na lama e na sordidez. Você pode ficar menos magnânimo na derrota, menos inclinado a atentar para o futuro. Quando vir seus próprios homens sofrendo e morrendo por ganhos pequenos, o desejo de encerrar a guerra pelos meios que forem possíveis estreitará sua visão do inimigo e o deixará menos misericordioso. E depois de um longo cerco, você deve também ceder aos desejos de seus homens. Um general fraco pode concordar que saqueiem e massacrem. Um general mais forte os impedirá de passar dos portões da cidadela conquistada, mas será um homem que seguirão por nenhum outro motivo além de encontrar forças em sua virtude e em sua honra. Você seria tal general?
Cipião pegou seu protetor de couro para o pulso e o afivelou, semicerrando os olhos para as muralhas do oppidum.
— Bem, só o que posso lhe dizer é que Licínio Luculo definitivamente não é tal general. O que dizem os centuriões, Fábio?
Fábio ajudou Cipião a amarrar as tiras de couro do protetor de pulso.
— Aqueles que serviram aqui, como Ênio, dizem que a paz com os celtiberos foi duramente conquistada, e que Licínio Luculo só reacendeu o conflito na esperança de uma vitória fácil para dar a impressão de que a guerra foi vencida durante seu consulado. Dizem que ele atiçou sua nova legião com promessas de saques que os veteranos sabem não poder ocorrer entre os celtiberos, ato que pode levar apenas a destruição e carnificina por legionários maltreinados que procuram retribuição depois de nada encontrar para pilhar. Os veteranos respeitam os celtiberos como guerreiros e preferem que sejam nossos aliados e camaradas em armas. Esperam muito de você, Cipião. Os poucos que estiveram em Pidna sabem de sua coragem em batalha, mas é seu nome que lhes dá esperanças. Um filho de Emílio Paulo e neto do grande Cipião Africano só pode liderá-los a uma glória maior. Eles não anseiam por uma campanha na Espanha, mas na África.
Cipião ergueu o outro braço, e Fábio pegou o outro protetor de couro.
— Primeiro preciso provar minha capacidade aqui. Pidna foi há 17 anos e tenho o dobro da idade que tinha na época. Poucos centuriões devem ter estado lá.
Ênio meneou a cabeça repentinamente para a trilha acidentada que levava à tenda, onde um homem a cavalo aparecera ruidosamente e desmontara ao lado do posto da guarda.
— E por falar em Licínio Luculo, parece um de seus ordenanças. Ouçamos o que ele tem a dizer.
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