Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 26 de 29

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Total War Rome: Destruição de Cartago

Capítulo 22

Três horas depois, Fábio estava de volta ao embarcadouro com Cipião e Políbio. Sentia-se esgotado, mas em êxtase. Se Porcus tivesse chegado a Corinto e o fogo da mensagem tivesse sido aceso em Bou Kornine, teria sido Metelo no Acrocorinto e não Cipião celebrando a derrota de Cartago. Fábio se concentrou unicamente na tarefa que tinha e mal teve consciência do próprio papel, mas ele sabia que, ao perseguir e destruir o lembos, a história fora alterada. No momento, só o que importava era a urgência a mais que aquilo impunha à contagem regressiva para o ataque; ele via Cipião começando a demonstrar impaciência enquanto observava os preparativos no mar. As embarcações com as catapultas se reuniram em uma linha fora do quebra-mar, com as barcaças de transporte contendo os legionários encontrando seus lugares atrás, preparando-se para investir e desembarcar a primeira onda de tropas de assalto com arpéus e escadas no cais, prontos para escalar as paredes. Apostava-se que os defensores seriam apanhados de guarda baixa, sem esperar por uma brecha nas defesas do porto, bem como um assalto ao quebra-mar, e assim, com a atenção cartaginesa voltada para um ataque do mar, os legionários reunidos no porto poderiam invadir a praia e avançar à parte superior da cidade e à segunda linha de defesa em torno do Monte Birsa, a oeste.

Um jovem tribuno apareceu na plataforma, tirou o capacete e se colocou em posição de sentido. Tinha olhos azuis impressionantes, cabelos claros e feições angulosas, um rosto que parecia a quintessência do romano, destinado a possuir os traços marcados pela rigidez e a um dia assumir seu lugar no lararium de alguma casa patrícia juntamente às imagens de seus ancestrais. Cipião levantou a cabeça e assentiu para o tribuno, que o saudou.

— Trago notícias de Gulussa, Cipião Emiliano. A força de assalto fora das muralhas terrestres está pronta. Todas as catapultas estão apontadas para o mesmo trecho da muralha, já enfraquecido pelo bombardeio das últimas semanas, e Gulussa acredita que uma brecha será aberta imediatamente. Assim que der a ordem, soltarão os projéteis.

Cipião semicerrou os olhos para a fileira de navios com catapultas que se aproximavam do quebra-mar.

— Diga a ele para assim proceder. Quando voltar a ele, Ênio estará preparado nos navios. O ataque começará em uma hora, quando você ouvir meus sinaleiros soarem as trombetas.

— Liderarei eu mesmo a primeira coorte.

Cipião o olhou de cima a baixo, depois o fitou nos olhos, o olhar se demorando como se tivesse visto alguma coisa no rapaz.

— Tem um bom centurião?

— O melhor. Ábio Quinto Aber, primipilo da primeira legião. Ele combateu em Pidna e na Espanha.

— Que bom. Os centuriões são a espinha dorsal do exército. Respeite-os e eles o respeitarão. Mas eles esperarão que você os lidere no front. Já esteve em ação?

— Passei toda a minha vida preparando-me para este dia. Estudei todas as obras de Políbio. Venci competições de espada para meninos realizadas no Circo Máximo por dois anos consecutivos.

Cipião olhou o cinturão do rapaz, onde Fábio via a linha fina do brilho dos dois gumes da espada, visível poucos centímetros acima da bainha.

— Você tem uma espada de dois gumes.

O jovem tribuno assentiu com entusiasmo, sacando e estendendo a espada, com um aperto forte e seguro.

— Muitos veteranos voltaram da Espanha com espadas celtiberas, e muito de nós pedimos aos ferreiros que criassem versões romanas. Esta foi um presente de meu tio.

— Seu tio?

— O senhor saberá quem é — disse o jovem com orgulho. — Ele serviu com distinção na Espanha. Sexto Júlio César.

Políbio desviou os olhos do plano, espiando por cima de suas lentes de cristal.

— Ouvi alguém mencionar meu nome algum tempo atrás? — Ele viu o menino. — Ah. Este é filho de Júlia. Creio que não o conheceu. Gneu Metelo Júlio César.

Fábio percebeu de repente o que havia de tão familiar no rapaz: ele tinha os cabelos e os olhos de Júlia. Mas havia algo mais, algo que o fez fitar o menino mais intensamente. Cipião também notou, e, depois de observar o rapaz em silêncio por alguns instantes, voltou a falar, com a voz estranhamente tensa.

— Quando você nasceu?

— Quatro dias antes dos Idos de Março, no ano do consulado de Marco Cláudio Marcelo e Caio Sulpício Galo.

— Um ano depois do triunfo de meu pai Emílio Paulo.

— Nove meses, para ser exato. Minha mãe disse que fui concebido naquela mesma noite, o que foi auspicioso. Quando eu era criança, em todos os anos, nessa data, íamos à tumba dos Emílios Paulos na Via Ápia e fazíamos oferendas.

Fábio se lembrou daquela noite no dia do triunfo, quase 22 anos antes, quando Cipião aceitou a oferta de Políbio para usar seus aposentos e levou Júlia para lá por uma hora, apenas os dois; e mais tarde, no teatro, quando Metelo veio buscá-la. Mas ele também sabia, pela escrava de Júlia, Diana, que ela resistira aos avanços de Metelo naquela noite e que seguira diretamente às Vestais para ficar com a mãe até o casamento, um mês depois. Ela saberia quem era o pai e Metelo por fim deve ter adivinhado. Gneu Metelo Júlio César era filho de Cipião.

De súbito Cipião olhou para o rapaz severamente.

— É fato inédito fazer oferendas na tumba de outra gens. Você deve ter o cuidado de não transgredir a ordem social. Seu pai sabe disso?

— Íamos sem o conhecimento dele. Mas minha mãe queria dizer ao senhor que o fazíamos, assim que eu tivesse chance de lhe contar. Meu pai ficou ausente pela maior parte de minha infância, em campanha ou assumindo postos administrativos nas províncias. Minha mãe nunca o acompanhou. Mesmo em Roma, ele mora em uma casa separada. Convivi com o fracasso do casamento dele por toda a minha vida.

Políbio se voltou para Cipião:

— Sei que você não tinha interesse nos boatos ocorridos entre as gentes durante sua estadia recente em Roma, mas é segredo aberto que Metelo fica mais à vontade entre as protibulae do que com a própria esposa. Ele pouco mudou seus hábitos desde que vocês estavam na academia. Diziam que não dividiam uma cama havia anos.

— Não desde que minha irmã Metela nasceu — disse o jovem, olhando para Cipião. — Ele tentou bater em minha mãe, e eu não sinto amor por ele. Fui criado na casa de meu tio Sexto Júlio César e estou prometido a sua filha Otávia. Minha mãe diz que nosso legado estará na linhagem sanguínea dos Júlios Césares e não na dos Metelos.

Fábio se lembrou das palavras da Sibila: A águia e o sol se unirão, e em sua união estará o futuro de Roma. Ele olhou os símbolos em relevo nas couraças dos dois homens a sua frente: Cipião com o símbolo do sol irradiando-se sobre uma linhagem sólida de seu avô adotivo Africano, representando sua ascendência sobre Aníbal no deserto, e Gneu com o símbolo da águia dos Júlios Césares, a mesma imagem do pingente que Júlia dera a Cipião e que ele ainda usava. De repente ele percebeu o que a profecia significava: não Cipião e Metelo, uma união de generais, mas Cipião e Júlia, uma união de linhagens sanguíneas, de gentes. Por um momento Fábio se sentiu deslocado, como se tudo em sua volta tivesse se tornado um borrão e ele estivesse vendo apenas os dois homens, como se sozinhos fossem a força da história. Em algum lugar no futuro, talvez dali a muitas gerações, tal união de gentes poderia vir a criar uma nova ordem mundial, não devido a alguma profecia divina de Sibila, mas graças ao poder dos homens de moldar o próprio destino, uma força de visão que levara Cipião Emiliano a se postar agora diante das muralhas de Cartago ao lado do futuro que ele criara com Júlia, o filho dos dois.

Gneu se colocou novamente em posição de sentido.

— Serei o primeiro a atravessar a brecha, assim como o senhor fez em Intercacia.

Cipião estendeu a mão direita e a colocou no ombro do jovem.

— Ave atque vale, Gneu Metelo Júlio César. Mantenha a lâmina de sua espada afiada.

— Ave atque vale, Cipião Emiliano Africano. Que este seja seu dia de vitória.

— Que a vitória seja dos legionários, tribuno. Dos homens de Roma. Não deve jamais se esquecer disso.

Gneu o saudou, virando-se e se afastando, segurando o punho da espada. Cipião se voltou para Políbio.

— Uma noite, 22 anos atrás, você me deu a chave de sua casa, para que Júlia e eu ficássemos a sós por uma preciosa hora. Talvez naquele único ato você tenha moldado o destino de Roma, mais do que todos os seus livros e seus conselhos a mim no campo.

Políbio pôs a mão no ombro de Cipião.

— Meu trabalho é observar a história, não criá-la. Mas até um historiador pode fazer alguns ajustes aqui e ali, possibilitando o que antes parecia impossível. Sua união com Júlia pode ter se encerrado naquela noite, mas vive em seu filho. Neste dia, quando você se postar vitorioso sobre Cartago, poderá ver seu destino cumprido e retornar aos redis de Roma, tendo levado a mais elevada honraria às gentes dos Cornélios Cipiões e dos às gentes dos Emílios Paulos, garantia de seu lugar na história. Ou pode escolher se afastar, ver um mundo se desenrolar diante de você, como fez Alexandre, só que dessa vez com o poder do maior exército do mundo a suas costas. Entretanto, mesmo que se afaste dessa visão, você agora sabe que sua linhagem permanecerá.

Cipião nada disse, encarando o horizonte. Sua expressão era severa e dura, mas Fábio sabia da emoção por trás dela. Cipião era atraído a Roma por apenas um motivo, a possibilidade de um dia estar com Júlia novamente, de seu futuro juntos não se limitar apenas às clareiras do Elísio. Se Cipião se afastasse de Roma, talvez nunca mais voltasse a ver Júlia; se passasse a tocha à sua linhagem, talvez a encontrasse outra vez. Seu amor por ela poderia moldar o futuro de Roma. Mas tudo dependeria do resultado deste dia, do sangue que corria pelas veias de Cipião enquanto visse o que seu exército realizara, na visão que Cipião poderia ter diante de si: uma visão preenchida não apenas pela sede de sangue da guerra, mas pela exultação da conquista.

Um som áspero foi ouvido das embarcações, de uma torção sendo liberada, e eles se viraram para olhar. Uma bola de fogo subiu lentamente ao céu, lançada de uma das catapultas, formando um arco sobre as muralhas da cidade e atingindo uma construção perto do Birsa, espalhando anéis de nafta sobre as ruas da cidade. Ênio estava experimentando seu alcance e testando a volatilidade da substância. Cipião virou-se para Fábio.

— Leve um recado ao strategos da frota. Diga-lhe para fornecer a provisão de vinho aos homens, e para que façam suas últimas libações aos ancestrais. Antes de esta hora findar, eles estarão na guerra.

Vinte minutos depois, Fábio observava Cipião olhar as muralhas caiadas da cidade diante deles, tamborilando no pomo da espada. Lembrou-se da última vez em que se postaram diante de uma cidade sitiada, em Intercacia, na Espanha, quando o próprio Cipião liderou o assalto e foi o primeiro a pisar nas muralhas, de espada em punho. Depois, ele matou o chefe tribal, mas poupou a cidade. A Intercacia pacificada não era ameaça a Roma, e sua destruição não fazia parte do destino dele. Dessa vez era diferente. Dessa vez ele sabia que Cipião não teria piedade: Cartago deve ser destruída.

O centurião da guarda veio de um grupo naval no embarcadouro, onde Fábio percebera uma comoção poucos minutos antes, ao lado de um navio de transporte. O centurião bateu no peitoral em saudação.

— Ave, primipilo. Gostaria de falar com Cipião Emiliano.

— De que se trata?

— Temos um desertor.

Fábio torceu os lábios e o levou a Cipião. O centurião falou rapidamente e apontou para a tripulação do barco, que estava reunida no cais. Dois legionários arrastaram um homem do meio do grupo, colocando-o diante de Cipião. Fábio olhou o homem, assombrado: era um dos marinheiros que o acompanhara na liburna, que lutara ao seu lado quando abordaram o lembos. O centurião virou-se para Cipião.

— Este homem era marinheiro de uma unidade especial de ataque, mas sua verdadeira identidade foi revelada quando um veterano da Guerra Macedônia o identificou. Ele então fugiu, descartou sua armadura e as armas e tentou se juntar àquela tripulação de transporte, disfarçado, no entanto foi reconhecido. Por acaso ele havia desertado na Batalha de Pidna, há 22 anos. Mudou de nome e teve uma vida tranquila como pescador perto de Óstia, mas disse que não suportava o remorso e se alistou novamente três anos atrás, quando viu que as galés se preparavam para o assalto a Cartago. Seu optio nos marinheiros disse que ele foi um combatente corajoso em várias ações navais, matando muitos inimigos e se colocando na frente de outros homens, inclusive na ação com Fábio.

Fábio olhou o homem, depois para Cipião. Eles tinham aproximadamente a mesma idade: homens rijos e musculosos, de cabelos grisalhos, o marinheiro de pele mais morena e mais queimado devido aos anos passados no mar, no entanto ambos de olhos duros e fortes. Eram homens cujas vidas haviam sido moldadas por aquelas batalhas que vivenciaram quando adolescentes: Cipião para viver à altura dela e da reputação de seu pai, o outro homem para se corrigir pela culpa da deserção que nublava sua vida. Ambos estavam juntos agora, diante das muralhas de Cartago, assim como estiveram diante da falange macedônia todos aqueles anos antes, um deles resoluto e sem vacilar, o outro hesitante por abandonar seus camaradas.

Cipião virou-se para Fábio.

— O que tem a dizer por este homem?

— Ele deu conta de muitos inimigos pessoalmente. Em uma ocasião colocou-se sobre o camarada caído para protegê-lo. Se eu tivesse patente para tanto, o recomendaria para a ornamentalia. Ele lutou corajosamente e com honra.

— Então deve ser poupado da morte por espancamento e será seu, para que você, como primipilo, cuide dele. — Cipião assentiu para o arauto, que ergueu a trombeta e soprou três notas curtas em rápida sucessão, repetidas vezes, um sinal que provocava pavor e fascínio em qualquer legionário: o chamado a testemunhar uma punição em campo. Quando o último toque esmoreceu, Fábio ordenou que os dois legionários arrastassem o homem ao centro do embarcadouro, à plena vista de vários milhares de homens pelo porto, inclusive sua antiga unidade de marinheiros que fora reunida para assistir. Fábio sabia o que devia fazer: ele agora era primipilo. Os legionários seguravam o homem com os braços presos às costas, e Fábio se colocou diante dele.

— Tem alguma coisa a dizer em sua defesa?

— Tenho esposa e filho, na Sicília — disse o homem com a voz rouca. Ele mexeu em uma bolsa de couro na cintura e pegou uma pequena escultura de cachorro, a mão trêmula. — Meu filho fez isto para mim. É nosso cão. É para me trazer sorte, para que Netuno me poupe.

Os joelhos do homem cederam e os dois legionários o mantiveram de pé, a cabeça tombada. Ele largou o cão, que bateu na pedra com um baque pesado. Fábio se colocou acima dele, sem pestanejar. Todos eles têm esposas e filhos. Esse sempre foi o destino dos soldados, em qualquer lugar. Às vezes eles retornam à família, às vezes não. Ele estendeu a mão, abaixou-se e pegou o cão, lembrando-se de seu cachorro Rufo, e o colocou na mão do homem, fechando-lhe o punho em torno da escultura.

— Netuno pode tê-lo poupado da morte no mar, mas Marte não o poupará, agora que está em terra — disse ele. — As orações de seu filho o levarão mais rapidamente ao Elísio, onde deve esperar por ele, como aqueles que caíram na Batalha de Pidna esperam por seus entes queridos. Àqueles camaradas que você desertou em sua hora de necessidade, você deve responder por si.

Ele sacou a espada e passou o dedo pela lâmina, sentindo-a afiada. Deu um passo para trás e se virou lentamente, de espada erguida, para que todos os soldados reunidos pudessem ver. O homem se curvou para trás contra os dois legionários, que giraram seu corpo e prenderam suas pernas com as próprias para impedir que ele esperneasse. Estava de olhos arregalados, ofegante e espumando pela boca, e Fábio viu escorrer pelas pernas o fluido marrom que com tanta frequência vira nas execuções, sentindo o odor desagradável. Por uma fração de segundo ele se lembrou de Caio Paulo, outra baixa em Pidna todos aqueles anos atrás que, covarde ou herói, caso tivesse sobrevivido poderia ter se provado tão corajoso quanto o homem diante dele havia sido em batalha; a verdade jamais seria conhecida, era sabido apenas que a sorte em uma guerra poderia quebrar um homem com a mesma facilidade que poderia moldá-lo. Ele se postou em frente ao homem e falou em voz baixa.

— Lembre-se de seu filho. Não o desonre. Lembre-se de quem você é. É um legionário de Roma. Coloque-se em posição de sentido. Saúde seu general.

Fábio assentiu para os dois legionários, que o olharam com insegurança e então soltaram o sujeito, deixando que cambaleasse para trás, escorregando nas próprias fezes e urina. Ele caiu pesadamente sobre uma das mãos e ali ficou, ofegando e exibindo uma careta. Fábio gesticulou para que os dois legionários recuassem e dessem ao homem a oportunidade de se levantar sozinho, para permitir que aqueles seus camaradas que observavam tivessem a chance de contar à esposa dele que o marido enfrentara a morte com dignidade. O homem enxugou o rosto com as costas da mão, depois se ergueu sozinho, lentamente, cambaleando para o ponto onde estivera e erguendo a mão em saudação a Cipião, os dedos ainda fechados em torno do pequeno modelo de cachorro.

Fábio pegou-o pelo pescoço, com a mão esquerda, e com a outra enfiou a espada abaixo de sua caixa torácica, empurrando-a pelo coração e pelos pulmões até que a ponta varou pela nuca. O homem expirou uma vez, um gorgolejar cheio de lamento, e então morreu, de olhos bem abertos e a boca esguichando sangue em pulsações sincronizadas à batida derradeira de seu coração.

Fábio o deixou cair, retirando a espada. Ergueu a lâmina, pingando sangue, e olhou em volta. Todos os homens pelo porto o observavam. Ele sabia o que precisava fazer agora. Tinha mostrado compaixão ao homem em vida; não poderia haver nenhuma na morte. Ele gesticulou ao mais próximo dos dois legionários.

— Dê-me a túnica dele. — O homem se curvou e rasgou as roupas do cadáver, deixando que rolasse no próprio sangue e nas próprias fezes, e a entregou a Fábio. Ele limpou a espada nela, com cuidado e deliberadamente para que todos pudessem ver, depois a embainhou e jogou a túnica ensanguentada de volta ao corpo.

Ele voltou a Cipião, que se virou e falou ao centurião:

— Pegue aqueles navi do barco de transporte, aqueles que ajudaram a escondê-lo, para limpar essa sujeira e jogar o corpo naquela pilha de cadáveres cartagineses perto da entrada do porto. Pregue uma tábua em sua cabeça dizendo “desertor” e faça com que toda a coorte passe marchando por ele, perto o suficiente para sentir o cheiro, antes do pôr do sol de hoje. Os navi da embarcação estão rebaixados e serão substituídos, colocados no serviço de cremação. O capitão e seus oficiais devem ser acorrentados no porto externo, despidos, e devem receber cinquenta chibatadas à plena vista da frota. Se sobreviverem, serão distribuídos entre as liburnae e acorrentados como escravos na galé. Isso é tudo.

O centurião o saudou e marchou enquanto o porto voltava à vida. Uma grande balista de cerco rangeu pela praia, puxada por duas filas de escravos núbios, seu contrapeso oscilando precariamente em uma amarra frouxa. Ênio viu, gritou para o condutor de escravos parar e correu para supervisionar. Fábio pôs a mão no punho da espada e se colocou ao lado de Cipião.

— Como foi? — perguntou Cipião.

Fábio sacou a espada novamente e olhou sua lâmina, seu desenho de dois gumes copiado das espadas celtiberas que eles haviam tomado do campo de batalha em Intercacia, mas ainda com o formato curto do gládio romano.

— Desliza com facilidade e não se verga. Servirá também como espada de corte. Parece boa.

— Bem, Fábio — disse Cipião, olhando as defesas de Cartago. — Será você o primeiro nas muralhas de Cartago, ou serei eu?

— Você é o general, Cipião Emiliano. Eu sou um mero centurião.

— Mas já tenho a corona muralis, por Intercacia. É hora de outro receber a glória.

Fábio pensou por um instante, depois colocou a mão na bolsa de couro em seu cinto.

— Bem, então, devemos atirar uma moeda, de um soldado para outro.

Cipião abriu um sorriso.

— Aprovo.

Fábio pegou um denário de prata reluzente e o ergueu. De um lado estava a cabeça da deusa Roma, de nariz reto e olhos claros, usando um capacete alado, com o nome ANTESTIUS pela beira. Do outro lado estavam a palavra ROMA e acima dela dois cavaleiros lutando com lanças, um cão saltando nas pernas traseiras abaixo deles. Ele entregou a moeda a Cipião.

— Esta é nova em folha, dada a mim por meu amigo moedeiro Antéstio pouco antes de eu embarcar em Óstia. Ele queria que eu a atirasse nas ruínas de Cartago, em memória de seu avô que tombou em Zama. Mas acredito que, se a jogarmos e deixarmos aqui, terá o mesmo efeito.

Cipião virou a moeda na mão.

— Seiscentos e oito anos ab urbe condita, no ano do consulado de Lêntulo e Múmio — murmurou ele. — Será que a história se lembrará deste ano dessa maneira, ou como o ano da queda de Cartago?

Fábio ficou em silêncio por um momento, depois apontou para o cavaleiro na moeda.

— Se você perguntasse a Antéstio, ele diria que estes são Dióscuros, Castor e Pólux — disse ele. — Mas Antéstio fez este desenho na taberna depois que voltei da Macedônia e contei sobre nossas caçadas juntos, e os bons tempos que tivemos antes de meu cão Rufo ser morto.

Cipião a olhou atentamente, balançando a cabeça e rindo.

— Quem precisa conquistar cidades quando um mero moedeiro de Roma pode lhe conferir a imortalidade desse jeito?

— Antéstio me contou outra coisa sobre essa moeda. Disse que um dia, quando era menino, passou pela menina mais bonita que já tinha visto, caminhando com você no Fórum. Era Júlia, da gens dos Césares. Quando ele desenhou esta imagem da deusa Roma, na realidade era Júlia que estava retratando.

Cipião olhou a moeda, com a voz abafada:

— Esta é ela?

— Antéstio disse que as pessoas não querem mais deuses e deusas em suas moedas, mas homens e mulheres reais, aqueles que estão moldando Roma e seu futuro, em nossa vida e na vida de seus filhos e netos.

Cipião engoliu em seco, e seus lábios tremeram. Ele ergueu a moeda contra Cartago como pano de fundo, depois se virou para Fábio, a voz rouca de emoção:

— Abri mão dela por isto, você sabe. Para que pudesse me postar diante das muralhas de Cartago com um exército, prestes a ordenar sua destruição.

— Você abriu mão dela por Roma e por seu destino. E Júlia vive agora com você, representado em seu filho.

Cipião olhou novamente a imagem na moeda e se preparou para arremessá-la.

— Se esta é Júlia, então escolho sua face.

— E a minha é a de Rufo.

Cipião bateu o polegar na moeda e a fez girar no ar, faiscando prateada no céu, depois caindo e quicando no pavimento de pedra da frente do porto, o cavaleiro e o cão virados para cima.

Cipião se virou e olhou para ele.

— É Rufo. Você liderará o primeiro manípulo pela brecha na muralha. Finalmente terá uma chance àquela coroa.

Fábio chutou a moeda para uma rachadura entre as pedras e virou-se para Cipião, em posição de sentido.

— Ave atque vale, Cipião. Até que nos encontremos novamente, neste mundo ou no próximo.

Cipião deu um tapa no ombro dele.

— Ave atque vale, Fábio. Agora vá e cinge-te para a guerra.

 

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