Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 7 de 29

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Total War Rome: Destruição de Cartago

Capítulo 3

Na hora marcada, eles ficaram aguardando o centurião entrar na sala para levá-los à arena, onde Brutus treinara firme a tarde toda. Cipião e Caio Paulo estavam usando as túnicas orladas de roxo que vestiam para a cerimônia no templo, mas haviam retirado as guirlandas de louro que os marcavam como viris principes, jovens de suas gentes quase na idade de presidir eles mesmos os rituais. Fábio olhou por cima da balaustrada da arena, uma versão para treino menor do que as arenas ovais cercadas por tribunas de madeira erigidas para os torneios de gladiadores no Campo de Marte. Anteriormente em Roma, as lutas ocorriam na Via Sacra no Fórum, até mesmo no pátio do templo, em qualquer espaço aberto onde espectadores pudessem se reunir entre paredes e galerias. Mas como o espaço no Fórum tornara-se limitado e as multidões eram cada vez maiores, os torneios passaram a ser promovidos no Circo Máximo e depois nas arenas provisórias do Campo de Marte, ao lado do campo de treinamento militar. Nenhum espaço era satisfatório, e falava-se inclusive em construir uma estrutura de pedra permanente, com assentos em camadas e jaulas subterrâneas, para que os animais não tivessem mais de ser arrastados, rosnando pelas ruas, ameaçando a vida dos espectadores tanto quanto a dos gladiadores que os combatiam. Porém a ideia fora menosprezada pelos senadores mais conservadores que controlavam as obras públicas, aqueles que pensavam que construir uma estrutura de tal dimensão unicamente para fins de entretenimento era um uso de dinheiro frívolo e cheirava a efeminação grega; relembraram o tempo em que seus ancestrais etruscos e latinos delimitavam as arenas com o próprio corpo, deleitando-se no suor e no sangue do combate. Disseram que uma estrutura com tamanho suficiente para acomodar todos os que comparecessem aos torneios destruiria a majestade de Roma, desvalorizando os templos do Fórum e zombando dos deuses, da pietas e da dignitas, as bases sobre as quais a cidade foi construída.

Na academia, os gladiadores eram usados como parceiros de luta para os rapazes, e todos traziam as cicatrizes das tardes que passavam lutando, indo de um adversário a outro, testando suas habilidades e armas contra inimigos de Roma que tinham sido feitos prisioneiros nas guerras de conquista: ibéricos e celtiberos, gauleses e germânicos do Norte, arremessadores baleáricos e arqueiros cretenses, e espadachins de todas as regiões do leste englobadas pelo antigo império de Alexandre, o Grande. Hoje o adversário de Brutus era um gigante trácio chamado Brasis, que havia sido capturado como mercenário na Macedônia cerca de dez anos antes, mas poupado devido a suas habilidades de combate por um comandante romano interessado em recuperar um prisioneiro que podia se destacar como gladiador, a fim de aumentar sua popularidade em meio à plebe. Brasis venceu torneios o suficiente para garantir sua liberdade, porém permaneceu na Escola de Gladiadores, e até hoje combatia leões com as próprias mãos e sua cruel faca trácia quando estava sóbrio o suficiente para fazê-lo. Fábio percebera a astúcia por trás dos olhos vidrados e se perguntou se Brasis ainda estava ali porque não tinha mais para onde ir, conforme ele alegava, ou se era pago pela facção do Senado opositora à academia que desejava um homem forte infiltrado para quando chegasse a época de livrar-se dela. A única certeza era que o homem era um lutador extraordinário com a espada e tinha aperfeiçoado as habilidades de Brutus a ponto de chegarem a se igualar, fato evidenciado pelo choque das lâminas e pelos movimentos arrastados que podiam durar horas, sem nenhum dos dois pedir clemência, sendo interrompidos apenas quando o diretor encerrava a luta subitamente e mandava um Brutus relutante para a aula seguinte.

Fábio retornou para a sala. Na hora do almoço, ouviu boatos na casa de Cipião sobre os eventos na Macedônia, e todos ficaram tensos de empolgação. Todos rezavam para que Emílio Paulo não tivesse derrotado o exército do rei Perseu, pois, mesmo sendo um triunfo para Roma, era uma sentença de morte a suas chances de ver o serviço ativo em breve. Os boatos eram de que havia uma batalha final iminente, mas que Emílio Paulo estava protelando até receber uma nova leva de legionários, bem como de tribunos necessários para liderá-los. Metelo já havia saído a cavalo naquela tarde para se unir a sua legião, e seria seguido pelos outros jovens oficiais que estavam de licença em Roma nos últimos meses durante a trégua no combate. No entanto, colocar aqueles homens no comando de tropas recém-formadas seria precipitado, e Fábio sabia que Cipião e os outros rapazes estariam de dedos cruzados para ser os próximos da fila; exceto por Metelo, que era dez anos mais velho e só estava visitando a academia, nenhum deles havia completado 18 anos ainda, então não podiam receber nomeações oficiais como tribunos de uma legião, porém um general podia fazer nomeações temporárias em seu estado-maior e vinculá-los aos manípulos em caso de emergência.

Seu efetivo na academia já estava esgotado, com Ptolomeu e Demétrio tendo partido para o Egito e a Síria no mês anterior, e Gulussa e Hipólita devendo retornar também às suas cidades natais; todos que ali ficaram, portanto, tinham boa chance de uma nomeação caso o chamado às armas viesse. Fábio já estava com 18 anos, era um ano mais velho do que Cipião e possuía idade suficiente para ser recrutado como legionário. Além disso já havia o treinamento básico no Campo de Marte. Se o chamado às armas viesse, ele seria empossado para proteger Cipião e continuaria como guarda-costas deste, mas sabia que o próprio Cipião não patrocinaria sua ida apenas como servo oficial e insistiria em sua nomeação como legionário na linha de frente, uma exigência que Petreu também apoiaria.

Por ora, eram apenas boatos, e seu foco principal era a academia e as necessidades do dia. Ele tinha ouvido Cipião alertar Caio Paulo de que, sendo o mais jovem dos rapazes, ainda não devia cometer nenhum erro, apesar de ter passado no teste com o gládio naquela manhã. Mas Fábio deprimiu-se ao ver Caio Paulo se separar do grupo e assumir posição de sentido, evidentemente querendo agradar.

— Strategos — disse ele em voz alta, com uma saudação.

Fábio gemeu intimamente, e o centurião fuzilou Caio Paulo com o olhar. Cipião curvou-se para a frente e cutucou o primo.

— Por Júpiter, chame-o de centurião — cochichou.

— Mas o chamam strategos aqui, os escravos que me trouxeram para dentro chamam assim — cochichou Paulo em resposta. — E também os professores gregos.

— É exatamente por isso que ele detesta — disse Cipião, também aos sussurros. — Eles são gregos. Não sabe o que significa o bastão de videira que ele carrega, o vitis, a insígnia da patente de centurião? Bem, saberá em breve, porque você está prestes a experimentá-lo.

— Silêncio! — O centurião avançou um passo, batendo o bastão na frente de Caio Paulo. A cor sumiu de seu rosto, mas ele se manteve firme. Em um movimento habilidoso, o centurião torceu o bastão e bateu com força nas canelas do garoto. Paulo curvou-se para frente, apenas para recuperar o equilíbrio, depois voltou a se colocar em posição de sentido, a centímetros da cara do centurião. Fábio percebia a tentativa de Caio Paulo de não demonstrar emoção alguma, nem dor, reprimindo as lágrimas. O centurião o olhava impiedosamente, procurando por algum sinal de fraqueza. Depois do que pareceu uma eternidade, ele rosnou, bateu o bastão e passou por Caio Paulo, indo até a mesa. A cara de Caio Paulo se contorceu de dor, e Cipião o cutucou outra vez, meneando a cabeça intensamente. O centurião bateu o bastão, e todos se viraram para seguir seu olhar, que apontava o diorama de batalha.

— Eu estava ali, na linha de frente da primeira legião — disse Petreu bruscamente, apontando os blocos de madeira que representavam a infantaria romana. Ele semicerrou os olhos para Caio Paulo, depois olhou de lado para Cipião. — Na época eu era porta-estandarte de seu avô adotivo. Após mais dez anos nas fileiras, me tornei centurião, depois primipilo, centurião maior de minha legião. Por três vezes tive essa patente, três vezes enquanto novas legiões eram criadas para novas guerras. Depois não ascendi mais porque meu pai era um mero camponês, um romano honesto que labutou a vida toda com seu gado na encosta das Colinas Albanas: o tipo de romano que os cônsules adoram elogiar, a espinha dorsal do exército, entretanto incapaz de comandar unidades maiores do que uma centúria. Porém seu avô enxergou de outra forma. Ele promoveu alguns de nós, centuriões maiores, ao comando de coortes auxiliares. Meu quinhão foram os elefantes. — Ele olhou feio para Ênio, que novamente tinha a tarefa de limpar o esterco do velho Aníbal naquele dia. — Os elefantes, observe.

— Centurião — disse Ênio com a voz trêmula.

— E então, quando ele se tornou pretor, general do exército, colocou-me no comando de suas tropas pessoais, a Guarda Pretoriana. E antes de partir para o além, escolheu-me para cuidar de vocês, rapazes. Havia tantos gregos ensinando aqui que eles começaram a me chamar de strategos. O nome pegou.

Políbio pigarreou.

— Tem uma linhagem ilustre. Pense nos heróis das Termópilas, da Maratona. Em Alexandre, o Grande, e seus generais. Em Perseu e sua falange macedônia.

O velho bufou.

— Quando volto à aldeia de meus antepassados, sou chamado de centurião. É assim que serei chamado quando me aposentar.

— O senhor só se aposentará quando os deuses o chamarem ao Elísio, centurião. Nasceu soldado e morrerá soldado.

Petreu bufou novamente, mas pareceu satisfeito. Políbio sabia adular. O centurião não havia chegado onde estava unicamente por sua força física: era um estrategista habilidoso que foi capaz de enxergar a capacidade incomum de Políbio na estratégia, apesar da postura que os precedia antes de adentrarem a arena.

— Já basta — disse ele, rabugento, como se respondendo a uma deixa. — Só há um modo de vencer uma guerra, e é fazendo o que nós romanos fazemos melhor: matar a curta distância, com a lança, com a espada, com as próprias mãos. Toda essa conversa de estratégia está amolecendo vocês. É hora de descermos para ajudar Brutus a executar os criminosos.

— Ave, centurião. — Todos se colocaram frouxamente em sentido, esperando que ele batesse o bastão e fosse na frente. Mas, antes que pudesse fazê-lo, Cipião avançou alguns passos e se colocou diante do centurião, dirigindo-se formalmente.

— Gneu Petreu Atino, amanhã irei à tumba da família dos Cipiões na Via Ápia para homenagear meus ancestrais. De lá, marcharei por três dias pelo litoral até Literno, à tumba de meu avô adotivo Públio Cornélio Cipião Africano. O senhor sabe que ele optou por dar fim a seus dias e quis ser enterrado longe de Roma porque se sentia abandonado pelo Senado, por aqueles que invejavam sua fama e se recusavam a ouvir seus conselhos. Agora, quinze anos após sua morte, os cônsules finalmente permitiram que uma lustratio completa fosse realizada em sua tumba, concedendo-lhe a mais alta honraria como romano.

Petreu grunhiu.

— Assim dizem eles. Não confio no Senado. E Cipião Africano só descansará depois que Cartago for destruída.

Cipião colocou a mão na bolsa que carregava e dela tirou um traje dobrado, branco com bordas roxas.

— Quando meu pai, Emílio Paulo, estava ao leito de morte de meu avô adotivo, Cipião Africano disse-lhe que havia um lugar para o senhor em sua tumba, que o senhor levaria o estandarte para ele no além, como fez neste mundo. Minha família ficaria honrada se o senhor usasse esta toga praetexta e realizasse a lustratio em sua tumba, o sacrifício da purificação. Como centurio primipilus que ganhou a corona obsidionalis, tem permissão legal para realizar o rito.

O centurião ficou paralisado, mas Fábio viu que seus lábios tremiam de emoção. Ele segurou o bastão com força, então estendeu a mão direita rigidamente, pegando a toga. Pigarreou.

— Públio Cornélio Cipião Emiliano, aceito esta honra. Servi a seu avô neste mundo e o farei também no próximo. — Ele segurou a toga contra o peitoral e olhou para Cipião. — Literno fica a apenas uma hora de marcha dos Campos Flegrei, onde Eneias visitou o inferno. Você sabe quem mora lá.

Fez-se silêncio, uma tensão desagradável e repentina. O centurião bateu o bastão.

— Vamos, parem com isso. Ela é apenas uma bruxa velha em uma caverna.

— A Sibila — disse Políbio em voz baixa.

O centurião grunhiu.

— Ela pode ser uma bruxa velha, mas fala as palavras de Apolo em seus enigmas. Cinquenta anos atrás, estive lá com Cipião Africano, quando ele era um rapaz como vocês, e eu era seu guarda-costas. A Sibila previu o dia em que o deus se revelaria a outro Cipião, nos Idos de Março, 585 anos ab urbe condita. Será daqui a quatro dias, e nesse dia Cipião deve esperar por ela na caverna.

Foi a vez de Cipião olhar.

— Quer dizer eu?

— Foi vaticinado. — Ele parou. — Outro terá ido lá antes de você, parando ao cavalgar ao sul para Brindisi, aquele que traz a marca da águia.

Cipião o fitou.

— Quer dizer Metelo?

— A Sibila vaticinou isso, sobre aquele que traria a marca do sol, o símbolo dos Cipiões, e o outro, da águia. Disse que vocês eram dois jovens guerreiros de Roma, e Metelo é o único entre vocês que traz tal marca.

— E o que mais ela previu?

— De algum modo o futuro de vocês está interligado, mas como só a Sibila poderá dizer.

Cipião desviou o olhar, pensativamente. Seu futuro já estava vinculado ao de Metelo por intermédio de Júlia, e ele sabia muito bem quem seria o perdedor em tal situação. Fábio sabia que ele não iria querer viajar aos Campos Flegrei para ouvir uma bruxa velha recitar um enigma obscuro que seria interpretado por alguns como prova de que ele não tinha futuro com Júlia, um fato que Sibila podia deduzir facilmente fazendo uso de sua rede de espiões em Roma, que lhe fornecia informações as quais ela utilizava para convencer os crédulos de que possuía algum tipo de clarividência. Mas depois Fábio olhou o velho centurião e se lembrou de Políbio naquela manhã, dizendo que os soldados deviam seguir suas superstições. Petreu sabia melhor do que qualquer um deles que as guerras eram vencidas por estratégia e tática, e não por oráculos divinos, mas, como muitos que haviam sobrevivido à batalha, ele passara a acreditar que havia mais na vida do que acaso e habilidade, que a sorte era concedida pelos deuses. E a visita de Cipião a Sibila iria significar mais do que isso a Petreu; iria ser parte de uma peregrinação para honrar a memória do venerado Africano. Foi Cipião que convidou Petreu a Literno, e agora ele teria de ceder à sua vontade.

Ênio se pronunciou.

— E nós poderemos ir? À tumba de Cipião Africano, ao rito de purificação?

O centurião o fuzilou com os olhos, depois fungou exageradamente. O odor distinto de esterco de elefante vagava até eles da janela já havia algum tempo.

— Depois do que fizer esta tarde pelo velho Aníbal, não haverá possibilidade de purificação para você, Ênio, neste mundo ou no próximo. — Sua cara se abriu num sorriso raro, e os outros riram, abrandando a tensão. Ele pôs a mão no ombro de Ênio. — Sua hora chegará. Chegará para todos vocês. Vocês saberão seu destino muito em breve. A guerra está no ar.

Um tinido de correntes subiu da arena, o silvo de chibatadas e gritos de dor enquanto os prisioneiros eram trazidos. O centurião encostou o bastão no peito, ergueu as mãos e as examinou teatralmente, com os olhos brilhando.

— Mas, enquanto isso, há trabalho a fazer. Vejam, o sangue em minhas mãos, do escravo desta manhã, secou. É hora de molhá-las novamente. — Ele bateu no ombro de Políbio, fechou a mão em torno do pomo de sua espada e ergueu o bastão novamente, batendo-o no chão. — Estamos prontos? — bradou.

Todos responderam em uníssono:

— Parati sumus, centurião. Estamos prontos.

Quatro dias depois, Fábio estava em meio às fumarolas dos Campos Flegrei perto de Nápoles, sentindo o cheiro travoso de enxofre e desejando estar no ar fresco alguns quilômetros abaixo do monte Vesúvio, na cidade de Pompeia, onde tinha primos. Ele e Cipião foram acompanhados de Roma por Caio Paulo, que, como herdeiro distante da gens dos Cornélios, fora enviado para representar sua família na lustratio em honra a Cipião Africano; estava com eles agora, pálido e exausto. Foi difícil para ele desde o início. O velho centurião fez questão de demonstrar o que sentia por ter sido convidado por Cipião a Literno, tratando a viagem ao sul como uma marcha do exército, fazendo-os carregar nas costas um saco de pedras equivalente a uma mochila de legionário. Caio Paulo tinha apenas 16 anos, era pequeno para sua idade e foi o que mais sofreu, com Petreu acossando-o impiedosamente e com frequência estalando seu chicote nas pernas do rapaz. Quando eles chegaram a Literno, depois de três dias e noites de jornada, parando apenas para dormir ocasionalmente antes de Petreu acordá-los, Paulo mal conseguia ficar em pé; durante a cerimônia na tumba, Fábio e Cipião mantiveram-no firmado entre eles para que o garoto não desmoronasse e desonrasse tanto a própria família como Petreu, que estava resplandecente na toga praetexta como sacerdote que oficiava a cerimônia para perpetuar a memória de um homem que ele considerava algo semelhante a um deus.

A marcha já havia sido bem difícil, mas fora pontuada por uma experiência que se gravou na memória de Fábio. Na Via Ápia, a alguns quilômetros nos arredores de Roma, além da tumba da família dos Cipiões, eles deram com uma fila de crucifixos de madeira sendo instalados na beira da estrada. Houvera uma revolta de escravos em uma pedreira de travertino a leste da cidade, e os culpados estavam recebendo sua punição. Eles viram a progressão de mortos por crucificação à medida que marchavam, desde aqueles mais próximos da cidade, que foram içados primeiro, aos que estavam sendo levantados naquele dia: de cadáveres cinzentos pendurados aos homens que ainda lutavam para respirar, com os olhos arregalados de medo, sem ter mais forças nos braços para manter o peito erguido e não se afogar nos próprios fluidos, com as pernas e o poste abaixo deles raiados de fezes, urina e sangue.

Caio Paulo se virou e vomitou, e o velho centurião o agarrou, puxando-o pela gola da túnica e rosnando em sua cara.

— Você pode travar todas as guerras que quiser nos dioramas e nos areais da academia. Mas nunca travará uma guerra real se não aprender a amar a visão da morte. Inspire-a para si. Aprenda a saboreá-la. Caso contrário, pode muito bem voltar e se juntar aos jovens espinhentos do Fórum para aprender oratória e refinamento social. Prefiro uma menina como Júlia em minha legião a qualquer um deles.

Ele arrastou Caio Paulo para diante da fila de crucifixos, tirou-lhe o fardo e falou com o centurião que comandava o grupo de execução, que lhe entregou alegremente o martelo, os cravos e as cordas para que os rapazes dessem prosseguimento ao trabalho. Eles passaram as várias horas seguintes erguendo e pregando prisioneiros às cruzes, suportando-os se debaterem para se libertar, e os gritos de dor quando longos cravos eram golpeados em seus punhos e pés. Fábio ficou nauseado e sabia que Cipião sentia o mesmo, mas não havia nada que pudessem fazer para amenizar a agonia dos prisioneiros; muitos eram gigantes musculosos capturados nas guerras macedônias que deviam ter sido recrutados como mercenários para lutar por Roma em vez de ser desperdiçados nas pedreiras: mais um defeito da política romana que despertara as críticas de Cipião Africano, mas a qual por enquanto eram impotentes para mudar.

No fim, Cipião e Caio Paulo postaram-se na frente de Petreu, que falava com eles.

— Quero que vocês se tornem tribunos aos quais eu serviria. Foi o que Cipião Africano me disse para fazer dos discípulos da academia. Instrua ou destrua, disse ele. E se eu os destruir, vocês sentirão a dor e a vergonha por toda a vida. Sendo assim, é melhor que aprendam o que estou dizendo agora. Um dia vocês terão de ordenar homens à execução, alguns deles guerreiros esplêndidos como estes escravos, outros homens com quem vocês lutaram e amaram como irmãos. Terão de ser capazes de fazer isso diante de seus camaradas, sem pestanejar e sem misericórdia. Agora voltem à estrada, peguem seus sacos de pedra e marchem. Vocês têm trinta segundos ou sentirão o golpe de meu açoite.

Fábio acompanhava Cipião e Caio Paulo pelo caminho rochoso rumo à cratera, seguido por Petreu. Em algum lugar em meio à fumaça ficava a caverna de Sibila e perto dela a fresta na terra que diziam levar ao inferno. Ao chegarem ao pé da colina, passaram por fissuras tingidas de amarelo que fediam a enxofre, exatamente como o preparado de Ênio na academia. A base da cratera era uma extensão de pedra vítrea, plana como um lago, envolta em uma fumaça que espiralava e obscurecia o sol, tornando o caminho adiante escuro e proibitivo. À beira da cratera, a pedra se abaulava em formas que pareciam gigantes semiacabados, nascidos da terra, mas aprisionados na pedra antes de conseguirem sair plenamente. Políbio tinha contado a Fábio como subira ao topo do vulcão na Sicília e vira formas bulbosas como essas enquanto ainda estavam tomando forma, solidificadas de rios de pedra derretida. Ele contou que os Campos Flegrei eram verdadeiramente uma entrada ao inferno, um lugar onde a pedra sobre a qual se encontravam era apenas uma crosta por cima de um caos feroz, mas também uma entrada ao Hades contanto que tivessem a morte certa os que hesitavam perto demais da fumaça ou que escorregavam nos regatos derretidos. Fora do alcance dos ouvidos de Petreu, ele disse que aqueles que iam até ali eram iludidos, pessoas cujo desespero para saber o futuro ou encontrar o espírito de um ente querido as ludibriara a ter visões, a mente enevoada pelos vapores do vulcão e pelas folhas inebriantes que os servos de Sibila queimavam em seu fogo; o próprio Políbio sabia que as folhas não tinham nenhuma dádiva especial dos deuses, entretanto vinham da Índia, passando por Alexandria, juntamente com a droga conhecida como lachryma papaveris, as lágrimas de papoula. Diziam que os sacerdotes de Sibila distribuíam essas drogas livremente a qualquer um que as procurasse e que aqueles que traziam ouro recebiam doses especialmente grandes. E eram eles que continuavam voltando em busca de mais. Além disso, alguns eram aristocratas ricos que transferiram suas residências de Roma para Nápoles e para os arredores de Cumas a fim de ficar perto da fonte das drogas que começavam a consumir suas mentes.

Fábio viu formas humanas encolhidas atrás das rochas, olhando para eles. Não eram aristocratas, mas pessoas que tinham decaído da sociedade, figuras magras com rostos e mãos enegrecidos pela fumaça. Diziam que incluíam uma seita de judeus que acreditava que um dia seu Deus viria a eles neste lugar; a maioria, porém, era de escravos fugidos e outros foragidos da justiça, aqueles no fim de suas forças que tinham ido passar seus últimos dias ali, diante dos vapores que os dominavam, na esperança de alguma salvação. Um deles correu então, um miserável sujo vestindo apenas uma tanga, os olhos vidrados como se estivesse embriagado, gesticulando loucamente e apontando uma série de pedras dispostas pelo chão da cratera. Cipião lhe atirou uma moeda e ele fugiu, depois parou e olhou para Petreu, buscando confirmação. Este assentiu, apontando para frente, e eles se viraram e seguiram a fila de pedras, os pés esmagando a superfície vítrea da cratera. Fábio sentia o calor abaixo, e ficou aliviado por suas sandálias serem espessas, mas Caio Paulo saltitava e fazia caretas, queimando o couro de suas sandálias. Depois do que pareceu uma eternidade, eles saíram do outro lado da cratera e chegaram a um monte formado por rochas que tinham desmoronado da borda, no meio das quais havia um buraco escuro e irregular do tamanho da entrada de um templo; diante dele havia uma soleira guardada por duas formas vestidas com mantos pretos que desapareceram em meio às rochas assim que se aproximaram.

Eles chegaram à Caverna de Sibila. Subiram um caminho gasto para a soleira, as pedras alisadas pelos incontáveis suplicantes que haviam escalado ali no passado. Pararam a alguns passos da soleira, sentindo o odor doce que subia das cinzas, e olharam a escuridão escancarada mais além.

— Dizem que a idade dela já conta trezentas gerações — cochichou Caio Paulo, olhando, assombrado. — Dizem que ela já era velha antes de Eneias vir aqui, e que agora está tão encolhida e enrugada que fica pendurada em uma pequena gaiola no escuro, alimentada e cuidada por seus sacerdotes como um macaco de estimação.

— Cuidado com o que diz — rosnou Petreu. — O próprio deus Apolo o ouvirá e infligirá sua punição. — Ele se virou para Cipião. — Os serviçais dela viram você, e ela sabe que você está aqui. Você deve entrar sozinho na caverna.

Cipião lançou um olhar irônico a Fábio, respirou fundo e avançou, contornando a soleira e sumindo de vista na escuridão. Por alguns minutos fez-se silêncio, e Fábio ficou tenso, detestando que Cipião tivesse saído da visão dele. Em seguida, um barulho estranho emanou da caverna, indiscernível, como o som abafado dos feitiços de um sacerdote nos fundos da cela de um templo. Alguns instantes depois, Cipião reapareceu, cambaleando até eles, o rosto corado e escorrendo suor. Passou pela soleira e se virou para olhar a caverna, ofegante.

— Você a viu? — cochichou Caio Paulo com a voz trêmula.

— Não sei. — A voz de Cipião estava rouca devido à fumaça, e ele passou a mão no rosto, a outra se apoiando em Fábio. — Os vapores da soleira eram muito fortes, com um aroma que me deixou tonto. Deve ser a erva sobre a qual Políbio nos alertou. Não tenho certeza do que vi, mas provavelmente havia alguém na escuridão, pairando ali, e senti um bafo que soprava das folhas sobre o fogo, fazendo-as crepitar e arder. Quando isso aconteceu ouvi uma voz, uma voz grave mas feminina, arcaica e cacarejante. Quase desmaiei quando ouvi.

— Bem — perguntou Caio Paulo, em voz baixa. — O que ela disse?

Cipião meneou a cabeça.

— Não tenho certeza. Era um verso, um enigma. Só o que ouvi foi isto: A águia e o sol devem se unir, e em sua união estará o futuro de Roma.

— Mas o que pode significar isso?

Fábio guiou Cipião alguns passos até onde Petreu os esperava e refletiu.

— Se a águia significa Metelo e o sol representa os Cipiões, então o destino dos dois é proteger Roma.

— Ele no leste, Cipião no oeste — rosnou Petreu. — Foi o que Sibila previu quando Cipião Africano e eu viemos aqui todo aquele tempo atrás. Ela disse que alguém com o nome Cipião conquistaria Cartago e teria o mundo a seus pés.

— Então não pode ser eu — disse Cipião, empurrando Fábio, cambaleando para as rochas e se aprumando sem ajuda nenhuma, piscando para uma nesga de sol que atravessava a fumaça. — O Senado é cauteloso demais para declarar guerra, e Cartago continuará um assunto pendente.

— Talvez por ora, mas a guerra contra Cartago é possível enquanto estivermos vivos — disse Caio Paulo cautelosamente.

Cipião bebeu um gole da água do odre que Fábio lhe estendera.

— Como pode saber disso?

— No dia em que partimos de Roma, passei a manhã no Fórum. Começou como um boato entre as pessoas, depois se tornou um burburinho no Senado, em seguida um clamor que tragou todo o debate, até os cônsules ordenarem à guarda que desembainhassem suas espadas para calar a todos. E então Catão se levantou do púlpito e verbalizou as palavras que estavam nos lábios de todos.

O centurião o fitou.

— Diga logo, homem.

Caio Paulo engoliu em seco.

— Carthago delenda est.

No silêncio que se seguiu, Fábio levantou a cabeça e viu um corvo voando alto pelo céu, exatamente como seu pai lhe dissera ter visto duas vezes antes de navegar para a guerra. Cipião virou-se para Caio Paulo e repetiu as palavras, com a voz rouca, agora de emoção.

— Carthago delenda est. Cartago deve ser destruída.

O centurião fixou em Cipião os olhos que brilhavam com uma chama que Fábio nunca tinha visto ali.

— Há quase cinquenta anos, eu estive com seu avô adotivo neste mesmo local, quando a guerra era iminente. Dezoito anos depois, estávamos diante das muralhas de Cartago, endurecidos pela batalha, vendo Aníbal arrastar-se diante de nós, suplicando pela paz. Depois, o Senado hesitou para proclamar a ordem final. Agora, vocês são uma nova raça de homens, e quando aqueles entre vocês que viverem para ver esse dia estiverem diante daquelas muralhas, não haverá conciliação, nem misericórdia para com os vencidos. Isso é o que tenho ensinado a vocês na academia. Haverá muita preparação e muitas dificuldades, e eu mesmo não viverei para ver. Mas morrerei feliz sabendo que o trabalho enfim foi concluído.

Caio Paulo se colocou em posição de sentido, olhando bem à frente, revelando no rosto o tributo cobrado nos últimos dias. Cipião se aprumou e bateu a mão direita no peito, a voz ainda embargada de emoção.

— Pode contar conosco, centurião.

Quando estavam a ponto de se virar e partir, ouviram cascos de cavalo batendo na cratera, e um cavaleiro vestindo trajes de mensageiro oficial, gorjal e a túnica trabalhada com argolas douradas apareceu. Desmontou do animal, segurando as rédeas enquanto este pisoteava e relinchava em meio aos vapores, e se aproximou deles.

— Gneu Petreu Atino, detentor da corona obsidionalis, tenho notícias do Senado. A guerra contra o rei Perseu da Macedônia está rumando para uma batalha decisiva. Lúcio Emílio Paulo requisitou outro chamado às armas. O Senado autorizou a criação de mais uma legião.

O coração de Fábio começou a martelar. Ele olhou para Cipião, notando os olhos do outro brilharem subitamente. O mensageiro virou-se para ele.

— Públio Cornélio Cipião Emiliano, seu pai solicita que seja nomeado tribuno militar temporário em seu estado-maior. Caio Emílio Paulo, é nomeado tribuno temporário para ser o segundo em comando do terceiro manípulo da nova legião. E Fábio Petrônio Segundo, como seu décimo oitavo aniversário já ocorreu, será legionário e porta-estandarte da primeira coorte da primeira legião, por recomendação especial do primipilo Gneu Petreu Atino.

Fábio sentiu uma onda de adrenalina e olhou o centurião, que assentiu secamente. Petreu deve ter falado em favor dele em Roma antes de eles partirem. Ele devia saber que o chamado chegaria antes que a viagem estivesse encerrada. Por isso a viagem fora realizada, para prepará-los para este momento. Cipião se aprumou e falou:

— Então é isso. Nosso tempo na academia se encerra.

O centurião pôs a mão sobre o punho da espada.

— Agora vocês devem provar sua competência no sangue. Devem aprender a matar como legionários, ganhando o respeito dos soldados mais corajosos que o mundo já conheceu. Não sei o que significam as palavras de Sibila. De uma coisa, porém, eu sei. Seu direito de comandar legionários em batalha foi conquistado. Depois, poderão atender ao apelo de Catão e liderar um exército romano de volta a Cartago.

— E hoje, centurião?

— Hoje, vocês marcham para a guerra.

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