Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 22 de 29

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Total War Rome: Destruição de Cartago

Capítulo 18

Parte 6

Cartago, 146 a.C.

 

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18

Fábio se postava de pés separados na alta plataforma de madeira acima do porto, seu capacete junto ao lado esquerdo do corpo e a mão direita segurando o pomo da espada. A cicatriz no rosto estava latejando, como sempre acontecia antes de uma batalha. Ele respirou fundo, saboreando os poucos momentos que tinha sozinho ali. O sol ainda não havia subido acima da montanha recortada do Bou Kornine, do outro lado da baía, a leste, seus picos gêmeos marcados como chifres de um touro gigante contra o brilho rubro do amanhecer. Ao sul, o azul pastel do céu parecia se fundir ao horizonte, uma mancha de vermelho opaco escurecendo as colinas áridas e a planície que levava ao litoral. Há dias soprava um vento oriundo do deserto, cobrindo tudo com uma fina poeira avermelhada, irritando seus olhos e fazendo a garganta arder. Hoje tal vento tinha amainado, e ele conseguia tomar uma golfada de ar sem tossir. O travo de poeira ainda era presente, um sabor acobreado, e aquilo fazia suas veias latejarem, como se ele tivesse acabado de beber um trago de vinho, acelerando sua pulsação. Tinha gosto de sangue. Tinha o gosto da guerra.

Foram três anos extraordinários desde que ele e Cipião voltaram da África a Roma, levando à eleição de Cipião como cônsul e a seu retorno à África como general pouco mais de um ano antes. A eleição ao mais alto posto em sua idade tinha sido sem precedentes, mas revelou a urgência com que Roma finalmente fora convencida a considerar a ameaça de Cartago. Os quase cinquenta anos de pressão de Catão foram recompensados, auxiliados em seus últimos anos por Políbio e depois por Cipião; depois de voltar a Roma, Cipião finalmente se lançou à briga política, percebendo que a morte de Catão poderia tornar seus esforços fundamentais para virar a opinião a favor da guerra. Para imensa satisfação de Cipião, não foi o poder de sua gens nem suas manobras políticas que lhe garantiram a vitória, mas sua reputação militar; e esta era a reputação não de um patrício que ascendera rapidamente ao alto comando, de um homem como Metelo, mas de um soldado que a conquistara arduamente como tribuno na Espanha e na África, um oficial que liderara do front, ao lado de quem muitos veteranos em Roma tinham lutado, alguém a quem podiam afiançar pessoalmente.

Aqueles no Senado que Cipião desprezava, os que representavam a ordem social que lhe provocara tanta angústia pessoal, não foram fundamentais em seu sucesso; foi sua posição de soldado entre os legionários, os veteranos e suas famílias que obrigou o Senado a apoiá-lo, incluindo até mesmo seus inimigos, que temeram que a falta de apoio os levasse a uma sublevação popular e à instalação de Cipião como ditador. Estes incluíam os senadores que Cipião e Políbio sabiam ser traidores de Roma, que haviam realizado negociações secretas com Cartago para encher os próprios bolsos e que viam a ascensão de Metelo na Macedônia e na Grécia como a força motriz de uma nova Roma no Oriente. No caso, Cipião e Políbio não precisaram expor esses homens para conseguir que Roma apoiasse sua causa, mas seria um trunfo se houvesse qualquer sinal de que o Senado retiraria seu apoio. Por ora, ele estava seguro em sua base de poder; sua consideração por seus legionários se recompensara no apoio que a plebe lhe dera, e ele, por sua vez, proporcionaria àqueles homens a vitória e o futuro gloriosos que mais do que recompensariam sua confiança nele.

Fábio olhou para a vasta extensão da frota romana ancorada atrás dele, e para o acampamento das legiões na planície sul. Havia outro motivo para a eleição emergencial de Cipião ao consulado. A guerra contra Cartago tinha sido abertamente declarada mais de dois anos antes, encerrando o período de conflito incerto durante o qual Roma oficialmente só fornecia treinamento e conselheiros para seu aliado Massinissa em sua tentativa de combater as incursões cartaginesas em território númida. Com a chegada das legiões, a fortaleza cartaginesa em Útica foi tomada, Cartago foi obrigada a abrir mão de todos os ganhos territoriais, e houve até um avanço romano nos subúrbios do norte da própria cidade, embora rapidamente repelido. No entanto, a campanha não saiu conforme o esperado. Cartago se tornou uma cidade sitiada, mas a guerra rapidamente chegou a um impasse. Havia o risco de a determinação romana despencar, de o apoio do povo esmorecer e de as eleições seguintes gerarem cônsules conciliadores em vez de dados à guerra. A pressão a mais de Políbio fez as eleições tomarem o rumo contrário, impôs a Cipião o ônus de levar o cerco adiante, uma tarefa que ele assumira com imenso prazer. Em seis meses de atividade extraordinária, ele fez valer todo o poderio de Roma, reunindo a maior força de assalto já vista. Agora não passava de uma questão de dias, possivelmente menos de 24 horas, para que fosse dado o último sinal. Nenhum exército esteve mais bem preparado para encerrar um cerco que podia mudar o curso da história.

Fábio olhou a pluma de seu capacete. Cipião fora fiel a sua palavra, dada cinco anos atrás, quando promovera Fábio a centurião depois do cerco de Intercacia. Ao ser feito cônsul, promoveu Fábio a primipilo, centurião chefe, não de qualquer legião, mas do estado-maior, o que significava que Fábio era o centurião maior de todo o exército sob comando de Cipião. Era uma responsabilidade enorme, conferindo-lhe autoridade de facto até sobre os tribunos menores, o homem a quem os legionários consultavam, assim como faziam com Cipião. Ele se lembrou do velho centurião Petreu em sua promoção; ele voltou à fazenda nas Colinas Albanas para recolher as cinzas que foram enterradas em um jarro por Brutus depois da noite terrível em que Petreu foi assassinado, e então as levou à tumba de Cipião Africano em Literno, conforme prometera a Petreu que faria, atendendo a um pedido pessoal de Africano. Parte dele ainda ficava assombrada com os velhos centuriões grisalhos que ele via entre as legiões diante de Cartago, por isso precisava lembrar a si que ele agora também tinha mais de quarenta anos e teria uma aparência igualmente curtida para os jovens legionários presentes ali hoje. Ele pertencia a um quadro minguante do exército que servira sob o comando de Emílio Paulo em Pidna, a última grande batalha travada por um exército romano, então suas lembranças eram partilhadas nas tendas apenas por outro centurião, e não por seus novos recrutas. Seu trabalho como primipilo maior era manter a disciplina do exército, e ele não podia mais comungar com os homens e contar histórias de guerras passadas junto à fogueira; e isso servia para seus pais e tios nas tabernas de Roma, veteranos que contariam sobre Pidna exatamente como seus pais contaram sobre Zama, e como os que estavam presentes ali hoje, os que sobrevivessem, contariam sobre o cerco final em um conflito que absorveu o sangue romano e seria valorizado dali a um século.

Ele se lembrou de ir com Cipião à caverna da Sibila na véspera de sua partida para a guerra na Macedônia, mais de vinte anos antes, quando eram pouco mais do que meninos. Ali também havia um cheiro, o fedor de enxofre subindo do inferno e a fragrância das folhas que ela jogava na lareira e deixara sua cabeça tonta. A intenção dele era ficar do lado de fora enquanto Cipião entrava, mas correu e entrou em segredo na caverna por alguns instantes depois da partida dos outros. Ela tocou nele, um dedo encarquilhado se estendendo no escuro, e falou em enigmas que sabia estarem apontando para seu destino, para o destino de Cipião e Roma, embora ainda não soubesse o que significavam. Tudo que sabia hoje era que estavam perto do final de uma guerra que tinha devastado Roma por gerações e eliminado os melhores de seus homens nos campos de batalha através de metade do mundo civilizado.

Alguns dias antes dessa visita, ele se lembrava de se postar diante de um mapa do Mediterrâneo na academia em Roma enquanto o velho centurião Petreu traçava a marcha de Aníbal sobre os Alpes mais de cinquenta anos antes, mostrando onde haviam combatido na Gália, na Itália, no Norte da África. Mas sua vareta sempre voltava a um assunto pendente: a própria cidade de Cartago. Fábio agora olhava a cidade, um aglomerado de construções de telhado plano e ruas estreitas que levavam ao grande templo no Monte Birsa, local onde a rainha Dido de Tiro firmara seu título quase setecentos anos antes, séculos que viram Cartago ascender de um entreposto comercial fenício à cidade mais poderosa do Ocidente, com colônias na Sicília, Sardenha e Espanha, e ambições que quase eclipsavam a própria Roma.

A torre em que ele se postava tinha sido construída por Ênio e seus engenheiros na ilha do almirante, no centro do porto circular, onde a frota cartaginesa antigamente era abrigada em galpões que se irradiavam da praia. O porto fora tomado depois de uma luta feroz alguns dias antes, deixando a faixa costeira ensopada de sangue e com um amontoado de cartagineses mortos, seus cadáveres ainda ardendo nas piras funerárias do lado de fora. Era apenas um ponto de apoio na cidade, mas significava que o poderio naval cartaginês fora esmagado de uma vez por todas. Cipião ordenou que seus legionários não prosseguissem, porém em vez disso consolidassem sua posição para que pudessem explorar o ponto fraco agora exposto nas defesas cartaginesas atrás do porto a fim de garantir que, quando ele desse a ordem, o maior assalto anfíbio e terrestre da história varresse a cidade como um maremoto.

O inimigo morto no porto era de soldados, principalmente mercenários; à frente havia milhares de civis, homens, mulheres e crianças, apavorados e protegendo-se em suas casas, contando suas horas finais. Na noite anterior, em sua embarcação em alto-mar, Políbio lera para eles passagens de A queda de Troia, de Homero, e de As troianas, do dramaturgo Eurípides, querendo lembrá-los do custo da guerra. Olhando da embarcação para Cartago, o luar cintilando nas ondas que marulhavam na praia, ouviram a história de Astíanax, o corajoso filho de Heitor, príncipe de Troia, um menino que tinha sido arremessado para fora das muralhas de Troia pelos gregos vitoriosos mil anos antes, a mãe chorando enquanto era levada para a escravidão. Por um tempo Fábio deixou que a peça o afetasse e pensou na própria esposa Eudóxia em Roma e no jovem filho deles. Mas agora, à luz fria do amanhecer, a compaixão lhe parecia uma fraqueza. Agora a morte, e só a morte, fosse de soldados ou de civis, era apenas um cálculo de guerra.

No dia anterior, verificaram além das muralhas e viram o general cartaginês Asdrúbal: um urso de homem, bronzeado pelo sol, com uma barba trançada, sua armadura envolta em uma pele de leão com mandíbulas que se abriam sobre sua cabeça. Seu povo pode ter querido se render, olhando desesperadamente a frota romana reunida com suas legiões, mas a história pesava muito sobre Asdrúbal, líder de uma cidade que vivera uma moratória e talvez nunca mais ressurgisse. Asdrúbal ordenou que seus soldados queimassem as safras e derrubassem as oliveiras, negando-as aos romanos, mas também eliminando a última fonte de alimentos para o próprio povo, um gesto suicida de desafio. Ele executou prisioneiros romanos à plena vista das legiões, garantindo que não demonstraria piedade alguma. Colocou-se contra uma máquina de guerra mais poderosa do que qualquer outra na história, instigando-a, provocando-a. Para Asdrúbal, só havia uma saída, e levar o máximo de seu povo consigo parecia ser seu próprio cálculo de guerra.

Fábio olhou para trás, e por alguns instantes, fitando o horizonte, era como se estivesse suspenso no ar acima da paisagem; sentia como se tivesse subido para se juntar aos deuses e mover as questões humanas como peças de um jogo, como os dioramas de batalha onde Cipião e os outros praticaram anos antes na academia. Depois ouviu Cipião e Políbio subindo a escada para se juntar a ele e voltou repentinamente à realidade. Eles não eram deuses, mas Cipião era cônsul e general do maior exército que Roma já reunira, e aquela torre havia sido construída para que tivessem uma visão precisa do campo de batalha, para preparar o ataque mais devastador a uma cidade que a história já testemunhara.

— Ave, Fábio Petrônio Segundo, primipilo.

Políbio apareceu primeiro e abriu um sorriso. Sua aparência havia mudado pouco com o passar dos anos, exceto pelos fios prateados na barba e pelas rugas em torno dos olhos, e vê-lo com sua couraça decorada e capacete corinto fez Fábio voltar à última vez em que vira Políbio de armadura, mais de vinte anos antes, no campo de Pidna, quando investira sozinho contra o poderio da falange macedônia.

Fábio o saudou.

— Ave, Políbio. Alguma notícia de Ênio?

— Os homens dele estão limpando o que resta do entulho ao lado das muralhas. Nós nos uniremos a eles em breve para ver os preparativos em primeira mão.

Cipião veio da escada, usando o peitoral que herdara do avô, recém-polido, mas com as marcas e cicatrizes de guerra deliberadamente mantidas.

— É melhor que ele se apresse — disse com impaciência, colocando-se ao lado deles. — Pretendo ordenar o ataque hoje.

— Ele sabe disso. Estará preparado.

Fábio virou-se para seu general.

— Ave, Cipião Emiliano Africano.

Cipião pôs a mão em seu ombro.

— Ave, Fábio, meu velho amigo. Estamos perto de entrar em batalha novamente. Preparado para o assalto?

— Estive preparado a minha vida toda.

Fábio olhou para Cipião e Políbio. Os dois homens eram muito diferentes, um deles mais um homem de ação e o outro, por inclinação, um erudito, mas eram amigos íntimos desde que se conheceram, quando Políbio fora nomeado mestre de Cipião em Roma. Às vezes Políbio esquecia-se de quem era general e quem era conselheiro, mas tinha um conhecimento enciclopédico de história militar e dava bons conselhos, mesmo que ocasionalmente Cipião não lhe desse ouvidos. Em todos aqueles dias, Fábio estava deliberadamente se dirigindo a Cipião por seu nome completo: como Africano, o cognomen que herdara do avô adotivo, o grande Cipião Africano que tinha confrontado Aníbal mais de cinquenta anos antes, mas cuja intenção de esmagar Cartago fora frustrada pela fraqueza do Senado em Roma, por homens que queriam conciliar em vez de destruir. Eles aprenderam sua lição nos cinquenta anos seguintes, viram Cartago ressurgir, viram seus líderes de guerra se tornarem desafiadores, e agora Cipião se postava diante das muralhas da cidade como fizera o avô, pronto para concluir o trabalho.

Naqueles cinquenta anos, surgira uma nova geração de oficiais romanos: impiedosos, profissionais, treinados juntos na arte da guerra. Eles queimaram e esbravejaram em seu caminho pela Grécia, onde o rival de Cipião, Metelo, agora estava pronto para tomar Corinto, e sob o comando de Cipião trouxeram Roma de volta às muralhas de Cartago. Os melhores estavam ali, aqueles homens que não morreram em batalha ou ainda não estavam na Grécia: Ênio, chefe da coorte especialista de engenheiros fabri; Brutus, um monstro de homem com sua cimitarra curva, tão diferente do gládio romano; e na planície ao sul o príncipe númida Gulussa e a princesa cita Hipólita, ambos colocados sob as asas de Roma em tenra idade e agora prontos a liderar sua cavalaria no ataque contra a muralha sul da cidade. Todos estavam no auge da capacidade de combate, firmes, fortes, experientes, exatamente o que queria o velho centurião Petreu, que os treinara em Roma.

Cipião tirou a mão do pomo da espada e gesticulou para a cena.

— Amanhã será um dia para suas Histórias, Políbio.

— Se você me permitir escrever. Parece que troquei meu buril por um gládio.

Cipião abriu um sorriso.

— Seu dia chegará. No além, talvez.

— Devemos ter um bom ponto de observação para ver a batalha daqui.

Cipião apontou o vergão vermelho na coxa, um ferimento que nunca havia se curado inteiramente.

— Não consegui isto aqui ficando para trás, consegui? A única vista que terei será o túnel de fumaça e sangue esguichado enquanto eu seguir Brutus no ataque. Assim que as trombetas soarem, estarei à frente de meus legionários.

— Sabe que isso contraria meu conselho. — disse Políbio. — Este exército pode combater sem um Brutus, mas não sem um Cipião. E se você seguir Brutus, esperando matar, ficará decepcionado. A última vez que o segui em batalha foi em Pidna, quando ele estava aperfeiçoando o golpe transverso com sua espada: um corte da virilha à cabeça e depois, no mesmo golpe, enquanto as duas metades ainda estão de pé, outro corte pela cintura. Um homem feito em quatro pedaços. Não restará nada vivo em seu caminho.

— Pedirei a ele o favor de me deixar alguns. Inteiros.

Cipião recolocou a mão no pomo da espada e observou o horizonte. Tinha adquirido a cicatriz na perna mais de vinte anos antes, contra a falange macedônia, como o tribuno menor que sempre liderava seus homens do front. Fábio lembrava-se bem de como o velho centurião Petreu conquistara sua maior honraria, a coroa obsidionalis, matando seu tribuno quando ele fraquejara e liderando pessoalmente seu manípulo, vencendo a batalha. Ele nunca deixou que os meninos da escola se esquecessem disso. Talvez estivessem destinados a altas patentes, a comandar manípulos, legiões, exércitos, mas sempre estariam sob o olhar vigilante dos próprios centuriões, jamais capazes de errar. Era assim que o exército romano operava. O centurião lhes ensinara bem.

Um som de berro veio do porto, seguido por um xingamento. Olharam para baixo, onde uma embarcação mercante de boca larga estivera descarregando suprimentos de guerra no embarcadouro. Um grupo de legionários sem armadura puxava uma fera do porão, um elefante ancião coberto por vergões e cicatrizes, seus olhos injetados faiscando sempre que balançava a cabeça. O optio encarregado do grupo de trabalho gritou e as duas filas de homens puxaram as cordas novamente, mas a fera se recusava a avançar, e, com um golpe furioso de sua tromba, derrubou dois homens na água. Em seguida, um escravo númida corpulento, no compartimento de carga, o domador do elefante, estalou o chicote em seu lombo, e a fera finalmente se mexeu, berrando e cambaleando pelas pranchas até se colocar hesitantemente no embarcadouro, analisando com ódio os legionários, que mantinham distância.

Políbio observava.

— Por Zeus. Reconheço aquele traseiro. É o velho Aníbal, não? Da última vez que o vi, foi no triunfo de seu pai Emílio Paulo.

Cipião assentiu.

— Nosso amigo da academia em Roma. O último prisioneiro de guerra sobrevivente contra seu homônimo.

Políbio semicerrou os olhos.

— Isso foi ideia sua?

— Você sabe o que dizem sobre os elefantes. Quando estão prontos para morrer, procuram o mesmo cemitério. Bem, este é o lar de Aníbal e está prestes a se tornar um cemitério. Foi um ato de compaixão.

— Compaixão? — zombou Políbio. — Não creio que o velho centurião tenha ensinado nada disso.

Cipião grunhiu.

— Bem, se Asdrúbal nos provoca, também posso provocá-lo. Não pode haver nada mais humilhante para ele do que ver o último sobrevivente do glorioso corpo de elefantes de Aníbal cambalear pelas ruínas de Cartago, desabando e morrendo na escadaria de seu templo.

Políbio lançou um olhar irônico a Cipião.

— Isso é mais a cara dele.

— Lembra-se, na academia em Roma, de como Petreu puniu Ênio certa vez, fazendo-o dormir no esterco no estábulo do elefante?

— Por uma semana. Ele nunca se livrou do cheiro.

— O centurião tem estado muito em meus pensamentos ultimamente, sobretudo nestes dias. Queria que ele pudesse nos ver aqui.

— Ele foi um mestre rígido, mas um verdadeiro romano — disse Políbio.

— Agora está com meu avô adotivo no Elísio.

— Ele sabia que jamais poderia estar aqui. Sua época era de outra guerra, com seu avô, contra Aníbal. E ele teve uma morte honrosa.

— Combatendo um inimigo interno — murmurou Cipião.

— Ele morreu pela honra de seu avô. Pela honra de Roma.

— Ele será vingado.

Fábio encarou o elefante, lembrando-se subitamente da cena de todos aqueles anos atrás, do velho senador Catão seguindo aquela cauda oscilante pelo Fórum durante o triunfo de Emílio Paulo, um ato de advertência sobre Cartago que chocara a multidão ao ponto do silêncio. Catão já estava nos campos elísios, mas o legado de seu aviso vivia na fera irascível agora, prestes a arrastar seus últimos passos por uma cidade a qual vira pela última vez há mais de setenta anos, quando Aníbal reunira seu exército de elefantes para sua extraordinária porém malfadada campanha pela Espanha e pelos Alpes em direção a Roma.

Fábio imaginou que pensamentos estariam passando pela mente de Cipião. O centurião fez deles oficiais de um exército profissional, o primeiro na história de Roma. Desde a Guerra Celtibera, seu sucesso em batalha levara a mais guerras, a mais conquistas; não precisaram voltar a Roma para suportar a sucessão tediosa de postos civis tal qual tinha sido o destino de seus pais e avós. E os homens sob seu comando, os legionários, não eram mais apenas levas civis recrutadas para uma campanha e dispensadas quando acabava. Aqueles diante das muralhas de Cartago incluíam os homens com quem Cipião combatera cinco, até dez anos antes: endurecidos pela batalha, curtidos, robustos. Cipião cuidara disso. Se o Senado em Roma não criasse um exército profissional, Cipião o faria por eles. E ele sabia que aqueles que tentaram denegrir o avô de Cipião, aqueles que tivessem ordenado a morte do centurião, haviam sido movidos não apenas pela inveja. Eles temiam o poder do exército e a ascensão de uma nova raça de generais. Sobretudo, temiam o nome Cipião Africano, agora renascido.

Fábio se recordou da inscrição na tumba de Cipião, o Velho, em Literno, mais de cem milhas ao sul de Roma, perto da baía de Nápoles, a tumba de um homem obrigado ao exílio e que vivera seus últimos anos na amargura. Ingrata patria, ne ossa quidem habebis. Pátria ingrata, jamais terá meus ossos. Fábio viu os nós dos dedos de Cipião empalidecerem ao segurar a grade. O centurião Petreu não era o único a ser vingado ali. E havia algo mais, algo que Cipião nunca mencionava. Fábio podia ver o amuleto no peito de Cipião, uma pequena águia entalhada em uma correia de couro, banhada e endurecida pelo suor e sangue da guerra. Ele se lembrou de quem o havia lhe dado todos aqueles anos atrás e engoliu em seco. Para se tornar quem era agora, cônsul, general, ele fora obrigado a sacrificar um amor que teria destruído sua carreira militar. Ele jurou que faria o jogo, faria o que fosse necessário para ascender ao topo, depois se livraria dos grilhões que lhe causaram tanto sofrimento. Não voltaria a Roma, como seu avô fizera. Este dia seria sua vingança; depois disso, ele não seria mais escravizado por Roma. Ele se tornaria Roma.

 

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