Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 20 de 29

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Total War Rome: Destruição de Cartago

Capítulo 16

As vielas estreitas dos dois lados da rua entravam fundo nas sombras, e Fábio olhou à frente, vendo que o sol já havia se posto atrás do nível do Birsa.

— Não temos muito tempo — disse ele. — O kybernetes queria ir para mar aberto ao anoitecer. Se os corpos daqueles soldados forem encontrados e suspeitarem de nós, mandarão uma daquelas galés liburna em nosso encalço. Precisaremos usar o manto da noite para remar o mais rápido possível e chegar a nosso cordão naval, e isso fica a mais de dez milhas a leste.

Cipião assentiu.

— Partiremos daqui a meia hora, no máximo. Lembra-se da maquete de Cartago que meu avô Cipião Africano construiu, aquela que nosso amigo dramaturto Terêncio me ajudou a modificar? Ele me falou do labirinto de antigas casas púnicas onde costumava brincar quando menino, e quero ver se os cartagineses as derrubaram durante toda essa reconstrução para criar uma zona de batalha final antes do Monte Birsa.

Eles correram pela rua, agora subindo para que, quando se virassem, pudessem vislumbrar o mar distante para além dos portos, reluzente acima dos telhados. As construções de cada lado agora eram mais altas, pareciam mais muros de fortaleza do que uma fachada de rua, e à medida que ambos se aproximavam do final da rua viam os telhados guarnecidos com ameias e interligados por torres baixas. Marcharam com determinação, passando por várias pessoas. Depois Cipião parou e olhou os muros, avaliando o campo de disparo para flechas e lanças.

— É exatamente como pensei que fosse — disse ele severamente. — Os cartagineses planejaram a defesa para ocorrer no fundo, estreitando deliberadamente as ruas que levam ao Birsa para afunilar uma força de ataque por elas, a este lugar, onde uma força escondida poderia aparecer repentinamente nos muros e fazer chover a morte. A única maneira de contra-atacar seria montando um ataque de velocidade e ferocidade suficientes para irromper e dominá-los, com arqueiros na vanguarda para disparar nestes muros e manter a defesa recuada. A hesitação de uma força de ataque sendo apanhada em uma luta na rua faria deste lugar uma armadilha mortal. O assalto a Cartago pode terminar bem aqui.

Fábio assentiu.

— Nesta fase de um assalto, com seu último baluarte ameaçado, eles podem montar ataques suicidas, enfiando combatentes pela rua para tentar deter o avanço. Embora esses atacantes possam ser mortos em segundos, seria necessário apenas alguns, atirando-se um depois do outro, para provocar uma parada no avanço, depois as tropas de assalto seriam mortas em grande número pelos homens nos muros, pois assim seriam capazes de encontrar seus alvos. Seria preciso a mais forte liderança para manter a determinação dos legionários e o avanço da força de assalto.

— E o uso criativo de escudos — murmurou Cipião, semicerrando os olhos para os muros. — Ênio e eu discutimos um novo exercício para o testudo, para cerrar escudos e formar uma barreira protetora contínua acima de uma coorte em marcha. Precisamos praticar, não em espaço aberto, mas nas ruas e vielas de uma cidade onde os centuriões possam treinar os legionários a erguer e baixar os escudos de acordo com a largura e a direção de uma rua.

— Precisaríamos encontrar uma cidade púnica com desenho semelhante — disse Fábio. — Uma cidade com alinhamentos de rua e esquemas de casas similares.

— Conheço exatamente o lugar — respondeu Cipião. — Kerkuane, na margem oriental depois do cabo, o lugar onde os fenícios supostamente aportaram quando vieram à África pela primeira vez. A cidade foi abandonada depois da guerra entre Roma e Cartago há um século e nunca voltou a ser ocupada. Ênio já esteve lá para testar um novo mecanismo de cerco contra os pontos fracos das muralhas púnicas. Seria o lugar perfeito para praticar a guerra urbana.

— Precisamos nos lembrar do que estamos combatendo — disse Fábio. — Asdrúbal não é um homem racional como Aníbal. É desafiador e aguentará até a morte. Se ele contagiou seus guerreiros com o mesmo espírito, cobrarão caro por este lugar. Os homens necessários para ataques suicidas por estas ruas não seriam mercenários. Você pode pagar um homem para arriscar a própria vida, mas não para enfrentar a morte certa. Esses só poderiam ser cidadãos cartagineses.

Cipião assentiu.

— Se eles se dedicaram tanto à construção dessas defesas, também terão homens treinados para este fim: homens com uma aliança fanática com Cartago, talvez sob influência dos sacerdotes. Uma coorte de guerreiros suicidas com apenas um objetivo: atirar-se ao atacante nestas ruas.

Eles chegaram a um conjunto de prédios abaixo da margem do Birsa, onde a encosta começava a ficar mais íngreme em direção à plataforma do templo, no alto da colina. À direita, a via processional subia ao Birsa a oeste, o lugar onde o sol da manhã lançava uma luz brilhante nos degraus de pedra. Mas a rua onde estavam chegava ao fim antes de um denso aglomerado de casas, estruturas unidas por escadas de madeira e pedra nos telhados que permitiam o acesso pelo alto dos prédios. Embora tivessem passado por alguns poucos na rua ao subir, as vielas à frente fervilhavam de gente: escravos carregando nos ombros ânforas e outras mercadorias, mulheres andando entre as casas com cestos de alimentos, crianças correndo e brincando. Fábio plantou a lança no chão e se postou como se estivesse em guarda.

— Este parece um bairro antigo, como as descrições de cidades antigas no Oriente que ouvi contadas por escravos em Roma — disse ele. — Parece que o programa de reconstrução ainda não se estendeu até aqui. Talvez este bairro tenha significado especial, como a casa de Rômulo no Monte Palatino, preservada porque foi a primeira parte da cidade a ser colonizada.

Cipião fitou as casas com os olhos semicerrados.

— Creio que há mais nisso. Acredito que foi deixada assim deliberadamente. Se uma força de ataque conseguisse chegar a este ponto, os cartagineses sobreviventes poderiam recuar por entre estas casas, entocando-se. Esta é a linha de defesa resistente derradeira.

— Se você quisesse tomar este bairro sem incorrer em perdas maciças, precisaria impelir seus homens para dentro das casas sem hesitação, tendo atiçado seu ardor para o combate individual. Asdrúbal pode guardar seus melhores guerreiros para esta luta.

Cipião assentiu.

— É bem verdade. Vi tudo o que precisávamos ver. Temos toda a munição de que necessitamos para dar a Políbio e Catão em sua luta contra o Senado. Agora devemos retornar.

Eles deram uma última olhada nas casas púnicas e no Birsa mais adiante, o branco reluzente de seu mármore iluminado por trás pelo brilho vermelho do sol de fim de tarde. Fábio se perguntou se um dia voltariam ali e se a rua onde estavam agora seria um rio de sangue. Eles se viraram e andaram rapidamente para os portos, dobrando incisivamente quando a rua se abriu para uma avenida mais larga pouco além da fachada fortificada que formava a segunda linha de defesa. Ouviram um embate de armas e comandos aos gritos à direita. Cipião parou e virou-se para Fábio.

— Isto parece um campo de treinamento. Vamos dar uma olhada.

Diante deles, havia um espaço onde os prédios tinham sido demolidos para criar um campo aberto. Um muro baixo o cortava, mantendo a fachada de rua, ligando as casas fortificadas próximas do Birsa às construções abaixo. No meio do muro havia uma entrada e dois guardas. Para Fábio, pareciam montanheses do norte da Macedônia ou da Trácia, homens imensos de olhos escuros e barbas espessas. Cipião aproximou-se deles audaciosamente, falando em grego.

— Mensagem de Asdrúbal ao strategos — disse. Fábio ficou tenso, mantendo o braço preparado ao lado da espada, observando enquanto o guarda à esquerda os fitava com desconfiança.

O homem falou em grego:

— Nunca vi vocês dois — disse ele. — Não são ibéricos, nem gregos. Parecem romanos.

Cipião bufou e cuspiu.

— Romanos por nascimento, mas não por aliança. Combatemos como legionários em Pidna, mas desertamos. Os generais pensavam que estávamos lutando unicamente pela honra de Roma e ficaram com todo o saque. Acredita nisso? Vou lhe dizer, quando os romanos ficam sem homens, saem em busca de mercenários, mas não pense em se juntar a eles. De qualquer modo, bebemos demais em uma noite em Tiro e acordamos acorrentados aos remos de uma galé, só que conseguimos fugir quando a embarcação atracou no porto daqui algumas semanas atrás, e oferecemos nossos préstimos. — Ele viu o formato característico da aljava nas costas do homem, confirmando sua nacionalidade. — É bom rever os trácios. Passamos dez anos depois de Pidna com um bando de mercenários trácios, bebendo e desfrutando das meretrizes pelos reinos do Oriente, trabalhando onde o pagamento era certo. Eles dizem que, um dia, quando a estrela de Roma se apagar, um trácio ascenderá e tirará o viço de Alexandre, o Grande, liderando o exército que conquistará todas estas terras. Pelo que vi dos trácios, não duvidaria disso.

O guarda olhou nos olhos de Cipião com firmeza, depois grunhiu, abrindo um sorriso torto.

— Tem toda razão. Quando estamos de folga, vamos a uma taberna perto do mar que serve vinho trácio. Pergunte pela taberna de Menander. Encontre-nos lá esta noite. O proprietário tem duas egípcias que sempre procuram carne fresca. Vocês podem nos mostrar do que são feitos. — Ele apontou a porta com a cabeça. — Leve sua mensagem para dentro. Mas não se demore demais. Se demorar, eles os usarão para a prática da espada.

— Mercenários?

O homem balançou a cabeça.

— Cartagineses. Não são muito mais do que meninos, e nenhum deles viu uma batalha. Mas vêm sendo treinados dessa forma entra dia, sai dia, desde que estamos estabelecidos aqui. Disseram que são os primogênitos da nobreza cartaginesa, poupados do sacrifício em Tofete para que treinassem e se tornassem os últimos defensores de Cartago, a força suicida pessoal de Asdrúbal para quando os romanos finalmente tiverem coragem de assaltar este lugar. Vou lhe contar, quando isso acontecer, eu e Skylax aqui já teremos ido embora. Vamos nos acorrentar a uma galé para partir. Entre os mercenários, apenas os celtiberos de cabeça dura ficarão por aqui porque combatem pela honra e não pelo saque. Ficar aqui, quando os romanos aparecerem no horizonte, será uma passagem só de ida ao Hades.

Cipião fitou o homem, olhou em volta e falou em voz baixa.

— Conhecemos um kybernetes que pode ajudá-los. Ele não procura escravos, mas os melhores mercenários que puder encontrar, para uma força de elite que se junte a Andrisco, o Macedônio, em sua tentativa de recuperar o reino de Alexandre. — Ele colocou a mão em sua túnica e pegou uma bolsa de couro, abrindo-a e derramando moedas de ouro na mão. — Estes são estáteres de Alexandre, o Grande, feitos de ouro trácio. Há mais ouro neste único saco do que você receberá em um ano servindo a Cartago, e isso é só para começar. — Ele recolocou as moedas na bolsa e pegou outra, entregando uma a cada homem. — Há outra bolsa para cada um de vocês no navio e mais uma quando chegarem à Macedônia. Uma vez lá, o verdadeiro pagamento começa. Vocês farão parte da guarda pessoal de Andrisco, à distância de uma pedrada da Trácia. Serão enviados para lá para recrutar outros ao exército macedônio. Chegarão em casa como homens ricos.

O trácio olhou seu companheiro, fitou Cipião novamente e assentiu devagar, sopesando a bolsa na mão e deslizando-a para dentro da túnica.

— Estávamos procurando uma saída há meses.

— Esperem por nós aqui. Quando entregarmos nossa mensagem, desceremos ao porto juntos. Haverá outros.

O homem apontou a cabeça para a abertura.

— Ainda deseja entrar ali?

— O kybernetes conhece um romano disposto a pagar por informações. Se eu puder dizer que vi esses cartagineses com meus próprios olhos, ele acreditará. O romano paga bem, e haverá uma parte para vocês.

— Muito bem. Procure não ser visto.

Cipião assentiu para Fábio, e os dois entraram. A entrada levava a uma passagem estreita até uma abertura maior atrás de algumas colunas. Fábio falou baixinho com Cipião:

— Isso foi arriscado. O que pretende fazer com esses homens?

Cipião respondeu rapidamente, em voz baixa:

— Políbio disse que, sempre que possível, devíamos coagir um ou dois soldados que dessem descrições em primeira mão, em uma tentativa de convencer o Senado. Eles não acreditariam em cartagineses, duvidando de sua sinceridade, mas podem acreditar em mercenários que não têm lealdade investida para com este lugar. Depois que estivermos no navio e eu contar a eles quem realmente sou, garantindo sua segurança e suas recompensas, ainda concordarão em prosseguir conosco, tenho certeza. Eles não têm alternativa, uma vez que voltar a Cartago depois da deserção seria enfrentar a execução certa. Mas antes também serão úteis quando marcharmos para o porto juntos, tornando-nos uma unidade mais crível. Os trácios podem alegar à polícia aduaneira que estamos em uma missão do próprio Asdrúbal para inspecionar as embarcações recém-chegadas, e na escuridão, com nossas peças faciais abaixadas, não seremos reconhecidos, mesmo que soem o alarme. Quando souberem que os trácios também fugiram, o navio provavelmente já terá escapado.

— Acredita que eles têm as informações de que precisamos?

— Esse homem já nos deu pistas valiosas sobre o moral da força mercenária e a probabilidade de ser esvaziada pela deserção quando da chegada de um exército romano. Acredito que possa haver o suficiente deles para defender a área do porto, impondo uma resistência firme, mas, depois que rompermos as defesas do porto, o caminho estará livre pela cidade até chegarmos a este ponto, onde os últimos defensores serão cartagineses preparados para morrer por sua cidade.

Fábio apontou adiante.

— Chegamos.

Eles olhavam um amplo espaço do tamanho de cerca de um estádio, semelhante à área de treinamento da Escola de Gladiadores em Roma. À frente, havia uma unidade de soldados em formação de manobra, com o tamanho aproximado de uma centúria, marchando para a frente e de lado e gritando em uníssono, batendo as lâminas das espadas nos escudos. As armaduras e armas brilhavam como prata, deslumbrantes mesmo à meia-luz. Estavam equipados como Fábio jamais vira, com couraças musculosas e capacetes no estilo corinto, as guardas de nariz e peças faciais se estendendo abaixo do queixo. Pareciam uma visão do passado, como os hoplitas gregos, soldados que Fábio só vira em escavações e pinturas.

A um comando vociferado, se viraram e ficaram bem de frente para os dois, e Cipião e Fábio rapidamente recuaram para trás das colunas antes de espiarem novamente, com cautela. Seus escudos eram inteiramente brancos, exceto por uma crescente lunar vermelha pintada sobre um triângulo truncado em relevo. Fábio o reconheceu da entrada do santuário tofete, por onde tinham passado ao subir, o símbolo da deusa Tanit. Ele se lembrou do que o mercenário tinha dito, que aqueles eram homens que haviam recebido uma segunda chance, que escaparam do sacrifício ao nascimento e passavam a vida treinando para outro tipo de sacrifício, uma dívida para com a deusa cujo símbolo ostentavam tão acintosamente nos escudos.

— Por Júpiter — cochichou Cipião. — É hieros lockos, o Batalhão Sagrado.

Os soldados marcharam novamente, viraram-se e seguiram em direção a um grupo de homens abaixo dos muros que davam para o Birsa, e Fábio via que incluíam sacerdotes de mantos brancos, assim como oficiais de armadura. Ele se virou para Cipião.

— Mas pensei que o Batalhão Sagrado fosse história antiga.

— Foi destruído quase duzentos anos atrás na Batalha do Crimissus, na Sicília, contra Timoleão de Siracusa, e novamente por Agátocles uma geração depois, nos arredores de Cartago — respondeu Cipião. — Eles eram a elite do exército de cidadãos cartagineses, mas desde então Cartago tem dependido de mercenários.

— Entretanto, pelo que nos disse o trácio, os mercenários não mais defenderão Cartago.

— Então os cartagineses refizeram o Batalhão Sagrado — disse Cipião severamente. — Por todos estes anos, enquanto Roma fazia vista grossa, Cartago reconstruiu não só seu poderio naval, mas também sua força de infantaria mais temida.

— Se combateram até a morte duas vezes, isso faz parte de sua história sagrada, e eles estarão preparados para fazer o mesmo outra vez.

— Treinam para a guerra nestas ruas, na viela que se estreita até o Birsa e entre as antigas casas do bairro púnico. Quando uma força de assalto chegar a este lugar, saberá que não tem chances de sobrevivência, que a guerra significa vender a vitória ao mais alto custo possível. Estes homens estão sendo treinados para se lançar à morte. São guerreiros suicidas.

— Todavia, se um assalto não acontecer logo e Cartago recuperar suas forças, tal batalhão pode rapidamente ser transformado em uma unidade ofensiva, uma força de vanguarda ou em uma guarda especial para Asdrúbal.

Um sopro estridente veio de duas trombetas e eles se viraram para olhar a entrada do muro, onde os sacerdotes e oficiais estavam parados. Os trombeteiros se afastaram e uma figura passou, seguida por várias outras. A primeira figura era um homem imenso, de ombros largos e musculosos, vestindo uma pele de leão com a cabeça boquiaberta por cima da própria cabeça do homem, a barba trançada e aparada em formato quadrado. Fábio olhou e vacilou. Só um homem em Cartago usava um manto de pele de leão. Era Asdrúbal. Ele parecia a encarnação de tudo que fazia de Cartago um lugar a ser temido: a persistência de um fenício e a força de um númida. Era extraordinário pensar que estava ao alcance de uma pedrada de Cipião, herdeiro do romano que colocara Cartago de joelhos, aquele mesmo cujo destino desde a infância fora se postar diante daquelas mesmas muralhas e enfrentar o sucessor do grande Aníbal.

Asdrúbal desceu a escada e plantou os pés firmemente separados, olhando as fileiras de guerreiros de frente para ele. De outra entrada, ao sul, um grupo de escravos puxava um touro que dava pinotes, os olhos vermelhos de medo. Um sacerdote entregou a Asdrúbal uma espada, imensa e curva, uma que Fábio nunca vira, e ele se virou para o touro. Os escravos o arrastaram até parar, vários deles segurando cada perna e outros dois, o pescoço. Dois sacerdotes empurraram uma tigela larga de metal para baixo do touro e recuaram enquanto o próprio Asdrúbal avançava, parando diante do animal. De repente, ele investiu contra o touro e segurou seu pescoço em uma chave de braço, torcendo e desequilibrando o bicho. Com a outra mão, cravou a espada pelo pescoço do touro de baixo para cima, trazendo a lâmina para fora de modo que a cabeça fosse praticamente decepada. O touro emitiu um arroto oco terrível, então um jato de bile saiu de seu estômago e fontes de sangue jorraram na tigela. Depois de alguns segundos, o fluxo de sangue se reduziu, Asdrúbal deixou a carcaça cair pesadamente na terra e os sacerdotes retiraram a tigela, agora transbordante. Um deles mergulhou um corno para bebida no sangue e o ergueu alto, voltado para Bou Kornine, a montanha de picos gêmeos visível apenas ao longe, acima dos telhados a leste.

Um por um, os soldados se aproximaram e beberam longamente do chifre, deixando que o sangue escorresse livremente por seus rostos e peitorais, o sacerdote completando o recipiente com frequência. Ao se afastar, cada guerreiro retirava o capacete, e Fábio via que o trácio tinha razão. Eram apenas meninos, de 16 ou 17 anos, e alguns mal eram capazes de desenvolver uma barba. Fábio sentiu um calafrio repentino de familiaridade. Eram idênticos aos meninos da academia em Roma todos aqueles anos atrás, a idade que ele e Cipião tinham quando partiram pela primeira vez para a guerra na Macedônia. Se Roma não atacasse Cartago, se os treinadores daqueles meninos conseguissem enxergar além do suicídio deles, poderiam ser tratados como a próxima geração de líderes de guerra cartagineses, como Cipião e os outros tinham sido para Roma.

Ele sabia o que Cipião tinha de fazer. Precisava endurecer-se contra a inocência daqueles meninos, contra seu entusiasmo pela guerra e pela sede de honra, virtudes que o próprio Cipião valorizava acima de qualquer outra coisa. Cipião precisava retornar antes que ficassem muito mais velhos, encabeçando um exército que subiria as ruas daquela cidade como um maremoto. Precisava garantir as trevas para as quais aqueles meninos haviam sido treinados. Precisava matar a todos.

Fábio olhou os homens que tinham saído da entrada com Asdrúbal. Dois eram sacerdotes e outros dois eram evidentemente oficiais cartagineses, vestidos não de armadura, mas com mantos debruados de roxo. Foi o quinto homem que chamou sua atenção, um sujeito musculoso e atarracado de cabelo grisalho curto, vestindo um chiton grego, um traje que parecia incongruente ao seu físico.

Fábio olhou fixamente. Depois percebeu por que a roupa lhe parecia estranha. Era porque, da última vez que vira aquele homem, ele estava vestindo armadura, não uma armadura cartaginesa ou grega, mas a cota de ferro e o capacete de legionário romano.

Ele se virou para Cipião.

— Na plataforma, ao lado de Asdrúbal. Acabo de reconhecê-lo, aquele de chiton. É meu velho inimigo Porcus Entéstio Supino.

Cipião o olhou.

— Tem certeza?

— Quando alguém lutou com você com a frequência com que ele o fez quando éramos meninos, você conhece cada contorno de suas feições.

— Mas ele é servo de Metelo. Quero dizer, seu companheiro soldado, assim como você é de mim. E Metelo está na Macedônia.

— Ele também é a versão de Políbio para Metelo. É algo que eu nunca poderia ser, um emissário astuto. Ele deve estar aqui a mando de Metelo.

Cipião baixou os olhos, refletindo bem.

— É claro. Aquele lembos no embarcadouro, justamente a embarcação que o trouxe em alta velocidade da Macedônia.

— Cuidadosamente escondida no porto de guerra, com sinais de uma tripulação romana.

— Uma missão que o Senado nunca poderia ter sancionado — disse Cipião.

— Muito embora alguns de seus membros mais poderosos pudessem tê-lo feito em segredo.

— O que quer dizer? — indagou Cipião.

— Lembre-se do que o kybernetes nos disse. Sobre o envolvimento de senadores romanos naqueles empreendimentos comerciais cartagineses.

— Acredita que Metelo pode ser um deles?

— Sou um simples legionário, Cipião. Não consigo raciocinar sobre acordos comerciais, mas aprendi um pouco de estratégia militar. Creio que é ainda pior do que o kybernetes sugeriu. A meus ver, uma embaixada secreta de Metelo aqui cheira a uma aliança militar em andamento.

Os olhos de Cipião se estreitaram.

— Uma aliança entre o governador romano da Macedônia e Asdrúbal de Cartago.

— Talvez não apenas o governador da Macedônia. Talvez ele pretenda ser mais do que isso. Sabemos que Metelo tem sido um aliado secreto de Andrisco, porém talvez não seja Andrisco o detentor de pretensões ao trono da Macedônia. Sempre pareceu apenas uma questão de tempo até Andrisco deixar de ser útil e Metelo encontrar uma desculpa para destruí-lo. Lembra-se de como Metelo sempre foi fascinado por Alexandre, o Grande? Quando eu costumava ouvir você na academia reproduzindo as batalhas do passado em jogos de guerra, Metelo sempre levantava o nome dele, invariavelmente em tons de reverência. Dizia que a principal coisa que a academia havia lhe ensinado foi que, se ele fosse Alexandre, teria solidificado seus ganhos e não se estenderia demais.

— Um novo Alexandre — suspirou Cipião. — O principal inimigo de Roma afinal não tem sido Cartago. É ela mesma, uma força sombria desencadeada porque Roma não tem sido capaz de proporcionar a satisfação na carreira a homens como Metelo, homens que não seriam apenas reis, mas imperadores.

Fábio ficou em silêncio por um momento. Homens como você também, Cipião Emiliano. Ele olhou os soldados.

— Eles poderão nos ver se nos mexermos agora. Mas, assim que o último guerreiro passar, devemos ir. Precisamos chegar ao porto e depois a Políbio. Não temos tempo a perder.

Eles observaram a última fileira de homens beber suas libações. A mente de Fábio estava em disparada. A missão dos dois a Cartago revelara bem mais do que poderiam ter imaginado. Cartago não só estava se rearmando, mas também à beira de se tornar o estado mais rico já conhecido. Ainda pior, estava conduzindo negociações com um romano que a maioria no Senado acreditaria ser um de seus generais mais leais, mas que poderia estar prestes a se estabelecer como o sucessor de Alexandre, o Grande, governante de uma nova Roma no Oriente.

Roma se permitira a complacência. Um só homem estava no caminho da nova ordem mundial, e era Cipião Emiliano. Todavia, o futuro do próprio Cipião, sua capacidade de liderar um exército para destruir Cartago e fazer o pêndulo voltar a Roma, pesava na balança. E poucos em Roma sabiam tão bem quanto Fábio como a lealdade do próprio Cipião era incerta e o que ele seria capaz de fazer se um dia se postasse nas ruínas em chamas do templo que assomava agora acima deles.

O último cartaginês passou por eles, limpando a boca e jogando gotas de sangue no chão. Fábio olhou nos olhos de Cipião e assentiu para ele.

Sua mente voltou aos homens que tinham matado junto ao porto. Eram apenas dois, mas seriam os primeiros de muitos. Cipião voltaria à cidade.

Eles se viraram para a viela, onde os dois trácios estavam aguardando, e começaram a correr.

 

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