Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 4 de 29

Páginas do PDF

Total War Rome: Destruição de Cartago

Prólogo

Na planície de Pidna, Macedônia, 168 a.C.

Fábio Petrônio Segundo ergueu seu estandarte de legionário e olhou para além da ampla planície em direção ao mar. Atrás dele estavam as colinas onde o exército acampara na noite anterior e atrás destes a encosta que levava ao Monte Olimpo, morada dos deuses. Ele e Cipião fizeram a subida três dias antes, competindo por quem seria o primeiro a chegar ao topo, corados de empolgação diante da perspectiva da primeira experiência de batalha. Do cume coberto de neve, miravam o norte pela ampla extensão da Macedônia, terra natal de Alexandre, o Grande, e abaixo viam o ponto onde o sucessor de Alexandre, Perseu, havia disposto sua frota e seu exército de prontidão para um confronto decisivo com Roma. No alto, com o brilho do sol na neve tão intenso que quase os cegava e as nuvens correndo abaixo, eles se sentiam deuses de fato, como se o poder de Roma que os havia trazido até então, desde a Itália, agora fosse incontestável, e nada pudesse se colocar no caminho de outra conquista.

Embaixo, depois de uma noite úmida e insone, o pico do Olimpo parecia ficar a um mundo de distância. Disposta diante deles estava a falange macedônia, mais de quarenta mil homens, uma linha imensa eriçada de lanças que parecia se estender por toda a largura da planície. Ele via os trácios, suas túnicas pretas sob couraças reluzentes, as caneleiras reluzindo nas pernas e as imensas espadas de ferro apoiadas no ombro direito. No centro da falange estavam os macedônios em si, de armadura dourada e túnica escarlate, e suas longas lanças sarissa ameaçadoras e reluzentes ao sol, tão próximas umas das outras que bloqueavam a visão de trás. Fábio olhou as próprias fileiras: duas legiões no meio, aliados italianos e gregos de cada lado e nos flancos a cavalaria, com vinte e dois elefantes pisoteando e berrando na extremidade direita. Era uma força formidável, endurecida pela batalha depois das longas campanhas de Emílio Paulo na Macedônia, com apenas alguns legionários e oficiais menores recém-alistados virgens de batalhas. Porém o exército era mais reduzido do que o macedônio, e sua cavalaria era bem menor. Eles teriam um combate difícil pela frente.

Na noite anterior, havia ocorrido um eclipse lunar, um acontecimento que instigara os adivinhos que seguiam o exército, indicando bom presságio para Roma e mau para o inimigo. Emílio Paulo era sensível o bastante às superstições de seus soldados a ponto de ordenar que os porta-estandartes erguessem tições pela volta da lua e sacrificassem onze novilhos a Hércules. Mas enquanto estava sentado em sua tenda no quartel-general, consumindo a carne do sacrifício, a conversa não foi sobre presságios, mas sobre táticas de batalha e sobre o dia seguinte. Todos estavam ali, os tribunos menores convidados a partilhar a carne de sacrifício na véspera de sua primeira experiência de batalha: Cipião Emiliano, filho de Paulo e companheiro e senhor de Fábio; Ênio, munido de um rolo de pergaminho, pronto para anotar novas ideias para catapultas e mecanismos de cerco; e Brutus, que já havia travado combates corpo a corpo com os melhores legionários e estava ansioso para colocar seu manípulo em ação. Com eles estava Políbio, ex-comandante grego da cavalaria que tinha o respeito de Paulo e era íntimo de Cipião, uma amizade forjada nos meses desde que Políbio fora levado cativo a Roma e nomeado instrutor dos jovens, ensinando inclusive o idioma grego e algumas maravilhas da ciência e da geografia a Fábio.

Naquela noite, Fábio estava postado atrás de Cipião, ouvindo atentamente, como sempre fazia. Cipião argumentava que a falange macedônia estava ultrapassada, uma tática do passado dependente demais das lanças que deixava os homens vulneráveis em relação ao inimigo. Políbio concordou, acrescentando que os flancos expostos da falange eram seu principal ponto fraco, no entanto disse que uma coisa era a teoria e outra bem diferente era ver uma falange diante de você: até o inimigo mais poderoso hesitaria diante de tal visão, e a falange nunca havia sido derrotada em terra. A principal esperança deles era abalar a formação da falange, para criar um ponto fraco na linha. Desse ponto de observação, vendo a realidade, Fábio tendia a concordar com Políbio. Nenhum legionário romano jamais demonstraria, mas a falange era uma visão apavorante, e muitos homens ao longo da linha devem ter se sentido tal como Fábio ao se prepararem para a batalha: com a respiração ofegante e uma leve palpitação de medo no estômago.

Ele agora olhava para Cipião, resplandecente na armadura legada a ele por seu avô adotivo Cipião Africano, conquistador lendário de Aníbal, o Cartaginês, na Batalha de Zama, 34 anos antes. Era filho mais novo de Emílio Paulo — tinha apenas 17 anos, um a menos do que Fábio —, e este seria seu primeiro derramamento de sangue em combate. O general se destacava entre seus oficiais e porta-estandartes alguns passos à esquerda, tendo Políbio entre eles. Como ex-hipparchus da cavalaria grega, experiente nas táticas macedônias, Políbio recebeu um lugar especial em meio à equipe do general, e Fábio sabia que ele não se furtaria a dizer a Emílio Paulo como comandar a batalha.

O pingente no topo do estandarte tremulou na brisa, e Fábio olhou para o javali de bronze, símbolo da primeira legião. Ele segurava o estandarte com força e se lembrou do que aprendera com o velho centurião Petreu, o veterano grisalho que também havia treinado Cipião e os outros novos tribunos que se preparavam para o confronto de hoje. Sua principal responsabilidade é para com seu estandarte, rosnara ele. Como porta-estandarte da primeira coorte da primeira legião, ele era o legionário mais visível de sua unidade, aquele que proporcionava um ponto de convergência. Seu estandarte só deve cair se você cair. Em segundo lugar, ele combateria como legionário, se aproximaria do inimigo e o mataria. Em terceiro, ele seguiria Cipião Emiliano. O velho centurião o tinha acompanhado de perto antes de vê-los partir no navio em Brindisi para a travessia à Grécia. Cipião é o futuro, grunhiu o centurião. Ele é seu futuro, e ele é o futuro pelo qual trabalhei a vida toda. Ele é o futuro de Roma. Mantenha-o vivo a todo custo. Fábio assentiu; já sabia disso. Estivera cuidando de Cipião desde que tinha entrado na casa deste como servo. Mas lá, diante da falange, a promessa que fez lhe parecia menos garantida. Ele sabia que se Cipião sobrevivesse ao embate inicial contra os macedônios iria longe, lutando sozinho, e que as habilidades em combate e com a espada ensinadas pelo centurião seriam as responsáveis por mantê-lo vivo, e não Fábio correndo atrás, cuidando dele.

Ele semicerrou os olhos para o céu. Era um dia quente de junho, e ele estava sedento. Postavam-se de frente para o leste, e Emílio Paulo queria aguardar até que o sol estivesse acima deles, não nos olhos de seus soldados. Porém, ali em cima, no cume, posicionavam-se longe de uma boa fonte de água, pois o rio Leuco estava atrás das linhas inimigas no vale abaixo. Perseu teria se dado conta disso, pois ordenou que sua falange avançasse lentamente ao longo do dia, sabendo que os romanos seriam atormentados pela sede, esperando até que seus soldados também não tivessem o sol ofuscando os olhos depois de terem atravessado as montanhas para o oeste.

Fábio ficou encarando a aranha na relva extensa, a mesma que estivera observando mais cedo para acalmar sua mente e controlar o nervosismo para a batalha iminente. Era grande, tão larga quanto a palma da mão dele, equilibrada em sua teia entre os poucos talos amarelos de milho que ainda não tinham sido pisoteados pelos soldados. Parecia inconcebível que uma aranha tão grande pudesse ficar pendurada por fios tão delicados em dois talos de milho, entretanto ele sabia que as teias tinham muita força e os caules estavam secos e endurecidos pelo sol de verão, tornando a muda tão rígida que arranhava as partes desprotegidas de suas pernas. E então ele viu alguma coisa e se ajoelhou, observando atentamente. Havia algo diferente.

A teia se sacudia. Todo o chão se sacudia.

Ele se aprumou.

— Cipião — disse com urgência. — A falange está em movimento. Consigo sentir.

Cipião assentiu e foi até o pai. Fábio o seguiu, com o cuidado de manter o estandarte alto, se posicionando na periferia do grupo, escutando Políbio atrair a atenção dos outros oficiais em uma discussão acalorada.

— Não devemos atacar a falange frontalmente — avisou ele. — Suas lanças estão próximas demais e foram feitas para penetrar os escudos do atacante e prender-se neles. Depois que os atacantes ficarem sem os escudos, a segunda linha da falange avançará e os abaterá. No entanto o ponto forte da falange é também sua fraqueza. As lanças sarissa são pesadas e canhestras, e é difícil girá-las conjuntamente. Infiltrem-se enquanto elas ainda estiverem reunidas e serão suas. As espadas gregas curtas não são páreo para o gládio romano mais longo.

Emílio Paulo semicerrou os olhos para a falange, protegendo-os da claridade.

— Por isso nossa cavalaria está nas duas alas, com os elefantes. Assim que a falange iniciar seu ataque final, ordenarei aos nossos homens que ataquem e os cerquem.

Políbio meneou a cabeça veementemente.

— Aconselho o contrário. Os lanceiros macedônios nos flancos estarão preparados para isso. Vocês precisam seguir pelo meio da linha, rompê-la em diversos pontos, criar espaços e expor os flancos nos pontos onde eles tenham dificuldade para manobrar. A infantaria, sozinha, não consegue fazer isso num ataque frontal, pois será detida pelas lanças. Você precisa usar seus elefantes, vários juntos, em quatro ou cinco lugares com algumas centenas de passos de distância. Os elefantes têm armadura frontal, e, mesmo que sejam perfuradas, prosseguirão por muitos passos com o ímpeto de seu peso imenso e atravessarão as linhas antes de caírem. Se os legionários os seguirem de perto, passarão pelos espaços e criarão quatro ou cinco assaltos separados, corroendo os flancos expostos. A falange irá desmoronar.

Emílio Paulo balançou a cabeça.

— É tarde demais para isso. Os elefantes estão reunidos em um esquadrão no flanco direito, e é ali que atacarão. Eles têm força numérica, e uma investida maciça de elefantes irá apavorar o inimigo. A cavalaria os seguirá e contornará até a retaguarda da falange.

— E a infantaria? — insistiu Políbio. — Mesmo que você ordene que sua infantaria siga a cavalaria a passo acelerado, eles nunca chegarão ao flanco direito e contornarão a retaguarda da falange a tempo de consolidar as vantagens garantidas pela cavalaria. A falange já terá tido tempo de formar uma linha defensiva na retaguarda. Nossa própria linha terá sido gravemente enfraquecida.

— Não pode haver uma mudança de planos, Políbio — disse Emílio Paulo, olhando adiante com olhos semicerrados. — A falange está começando a se deslocar novamente. E eu prometi ao líder dos Peligni em nossa linha de frente que eles liderariam o ataque. A sorte está lançada.

Políbio virou-se, exasperado. Cipião aproximou-se dele e pôs a mão em seu ombro, apontando o espaço entre os dois exércitos.

— Veja o terreno — disse ele em voz baixa. — A falange está à cabeceira do vale que leva ao topo da colina a partir do mar, em terreno relativamente plano, onde podem formar uma linha contínua. Estamos no sopé das montanhas. Assim que a falange marchar para frente, a linha será rompida quando encontrarem o terreno acidentado e as valas, onde o vale termina e o aclive à frente deles se inicia. Contanto que estejamos preparados para despejar legionários nestas valas, tudo que precisamos fazer é manter a calma e esperar por eles. O terreno fará o trabalho para nós.

Políbio franziu os lábios.

— Talvez você tenha razão. Mas será tarde demais para impedir os Peligni de fazer sua investida. Eles são aliados latinos e homens corajosos, mas não estão equipados nem são disciplinados como os legionários, portanto serão abatidos. E uma vez que seu pai vir o resultado, poderá usar de prudência e impedir que o restante da linha prossiga.

— Meu pai é um excelente leitor de terreno — disse Cipião pensativamente. — Sua estratégia é sensata, mas não podemos reorganizar os elefantes agora. Ao esperar aqui para que a falange venha a nós, conseguiremos o mesmo efeito do rompimento da linha. Pode ser válido para o Peligni realizar uma investida suicida, pois tal sacrifício incitará a confiança da falange e a deixará menos cautelosa em relação a abrir a linha quando chegarem ao terreno acidentado. E depois de enviar os legionários para os espaços na falange, meu pai poderá usar a cavalaria e os elefantes, conforme planejou, para flanquear a falange e chegar à retaguarda dela, num momento em que eles estiverem concentrados em confrontar as incursões em suas linhas pela frente e portanto menos organizados para criar uma defesa na retaguarda. Se os legionários ficarem firmes, os macedônios serão derrotados.

— Não se pode questionar a determinação dos legionários — disse Políbio. — Este é o melhor exército que Roma já levou a campo.

Fábio viu o brilho das lanças da falange, que se fechava em formação cerrada e avançava lentamente. Ele olhou para além da segunda legião à sua direita e viu os Peligni, guerreiros agressivos dos vales montanhosos a leste de Roma a quem sempre era concedida alguma liberdade para que mantivessem sua lealdade. Usavam capacetes de bronze e armadura peitoral de linho trançado, carregavam perigosas espadas largas e, quando atacavam, berravam feito touros. Um cavaleiro saiu de seu meio e galopou da linha diretamente para a falange, parando pouco antes de chegar às lanças, e atirou um dardo com estandarte em meio aos macedônios, virando-se em seguida e galopando de volta às linhas romanas. O ataque era inevitável agora. Os Peligni prestaram juramento para recuperar seu estandarte a qualquer custo, e sempre investiam com ímpeto contra as linhas inimigas diante de uma batalha a fim de provar suas intenções a seus comandantes romanos.

Políbio se virou de repente e pegou as rédeas de seu cavalo das mãos do cavalariço.

— Há uma coisa que posso fazer.

Ele se virou para seu gladífero e pegou o capacete, um antigo modelo corinto com imenso protetor nasal e facial, que escondia seu rosto quase completamente. Colocou-o, puxou a alça firmemente sob o queixo e saltou habilidosamente no cavalo, curvando-se para frente e afagando o pescoço do animal enquanto este pisoteava e relinchava. Ele apontou para o escudo e o cavalariço o entregou: era um objeto de formato circular com relevo no meio e um aro grosso de aço polido na borda. Ele passou o braço esquerdo pelas duas alças de couro nas costas e o prendeu firmemente em sua lateral, mantendo a mão direita no pescoço do cavalo. Não tinha sela, e ele rejeitou as rédeas; Fábio se lembrou de Políbio contando a ele como havia aprendido a cavalgar em pelo quando menino e que sempre entrava numa batalha dessa maneira. O cavalo empinou, de olhos arregalados, mascando e espumando, sabendo o que o aguardava.

Cipião o olhou, alarmado.

— O que vai fazer? Você nem mesmo tem uma arma.

Políbio ergueu o escudo.

— A borda disto é tão afiada quanto uma lâmina de espada. Fomos treinados para usar nossos escudos como armas pelo mestre de montaria na Megalópole quando eu tinha sua idade. Outro ponto fraco da falange é que eles mantêm as lanças tão unidas que podem ser quebradas quando cavalgamos por elas na linha.

— Você será abatido — exclamou Cipião. — É valioso demais para morrer assim. Você é historiador. Um estrategista.

— Fui oficial comandante da cavalaria aqueia antes de ser enviado como prisioneiro a Roma. Eu tinha sua idade, estava comandando meu primeiro ataque de cavalaria quando você mal sabia andar. Mas você sabe a quem devo minha obediência agora. Não suporto ver um aliado romano avançar para a morte sem lhe dar uma chance, e sou o único aqui que sabe fazer isso.

— Se os macedônios o desmontarem, tirarem seu capacete e, reconhecerem como grego, você será estraçalhado até a morte.

— As sarissai não são lanças de arremesso, lembre-se. Contanto que eu fique pouco além do alcance delas e minha égua Skylla cumpra seu dever, sobreviverei. Ave atque vale, Cipião. Salve e adeus. — Políbio cravou as canelas no cavalo e ele disparou, chutando uma nuvem de poeira que por um momento obscureceu a visão.

Quando a poeira se dissipou, Fábio viu o motivo para a partida repentina do outro. Os Peligni já haviam começado a atacar, avançando como cães selvagens, fazendo o barulho de mil torrentes. Corriam a uma velocidade assombrosa, e a distância entre eles e a falange já se estreitava. Fábio viu Políbio avançar para a abertura, com o escudo em diagonal à esquerda, investindo num redemoinho de poeira. Outro cavalo o seguiu, sem cavaleiro, rompendo as linhas romanas até ultrapassar Políbio e desaparecer na tempestade de poeira. Por um instante apavorante parecia que ele não chegaria a tempo, como se o espaço fosse se fechar e ele fosse ser atirado por entre a horda de guerreiros Peligni. Mas então ele sumiu, e agora só se conseguia ver um risco prateado ao longo da linha de lanças macedônias, como se uma onda estivesse passando por ela. As lanças na frente dos Peligni foram quebradas e desorganizadas, deixando a falange vulnerável e exposta. Então os Peligni se colocaram entre eles, suas espadas curvas e imensas ceifando e cortando, os gritos e berros rasgando o ar. Fábio não via como Políbio seria capaz de sobreviver para sair do outro lado; fechou os olhos por um instante e murmurou as breves palavras de oração que seu pai lhe ensinara a dizer no falecimento de um companheiro soldado em batalha.

— Olhe a sua frente, legionário — ordenou Cipião, a voz rouca de tensão.

Ele estava ao lado de Fábio, a espada em punho, olhando adiante. Enquanto eles observavam Políbio, o restante da falange em ambos os lados tinha avançado rapidamente, exatamente como Cipião previra. Agora não estavam a mais de duzentos passos, mas a linha bem em frente de Fábio e Cipião tinha sido rompida enquanto os macedônios tentavam passar por um córrego seco causado pelo derretimento da neve da montanha, que se alargava em uma vala com margens mais ou menos da altura de um homem.

— Aí está nossa chance — disse Cipião. — Precisamos chegar a eles enquanto estão na vala, antes que cerrem a linha novamente. — Fábio olhou para Emílio Paulo, que colocava o capacete e se postava entre seus outros oficiais, de espada em riste.

Atrás deles, os manípulos da primeira legião posicionavam-se em formação de batalha, os centuriões marchando na frente e berrando comandos para que mantivessem posição, aguardassem pelo comando e fizessem o que os legionários faziam melhor do que qualquer outro: matar o inimigo a curta distância, golpear, cortar e derramar sangue sem demonstrar piedade alguma.

Cipião pôs a mão no ombro de Fábio.

— Até nosso reencontro, meu amigo. Neste mundo ou no próximo.

Ao se virar, Cipião pareceu jovem, jovem demais para o que eles estavam prestes a fazer, e Fábio teve de se lembrar de que Cipião tinha apenas 17 anos, um ano a menos do que ele próprio; era uma diferença de idade que lhe dera certa autoridade sobre Cipião quando eles eram meninos, que fazia com que Cipião ainda lhe desse ouvidos, embora estivessem separados por posto e classe, mas agora a diferença era irrelevante enquanto os dois se postavam com os outros seis mil legionários prontos para dar o máximo de si. Fábio respondeu, a voz rouca, soando estranhamente desincorporada.

— Ave atque vale, Cipião Emiliano. Neste mundo ou no próximo.

Ele segurou firmemente o estandarte e sacou a espada. Viu Cipião olhar nos olhos do pai e Emílio Paulo assentir. De repente tudo pareceu ocorrer em câmera lenta; até o crescendo cada vez maior de barulho pareceu abafado, distante. Fábio viu Cipião correr para a esquerda, à frente do primeiro manípulo, depois voltar ao centurião líder, curvando-se para a frente e berrando para ele; em seguida viu Cipião colocar-se de frente para o inimigo, o suor brilhando em seu rosto. Ele ergueu a espada e berrou novamente, e os legionários atrás dele fizeram o mesmo, um ronco ensurdecedor que pareceu suprimir todas as outras sensações. Fábio percebeu que fazia o mesmo, gritando a plenos pulmões e brandindo a espada no ar.

Ele tentou se lembrar do que o velho centurião havia lhe dito sobre a batalha. Você não verá nada além de um túnel adiante, e ele se tornará seu mundo. Elimine o inimigo de lá e talvez você sobreviva. Tente enxergar o que há fora do túnel, desvie o olhar daqueles que estão atentos a você, e morrerá.

Cipião começou a correr. Todo o chão tremeu quando os legionários o seguiram. Fábio também correu, não muito longe atrás de Cipião, em paralelo aos primipilos da primeira legião. O espaço na falange se estreitou quando os soldados macedônios divididos pela vala perceberam seu erro e correram rumo à cabeceira a fim de se reagrupar; mas, ao fazerem isso, estenderam suas linhas lateralmente, alguns girando as lanças para proteger os flancos e outros investindo adiante para tentar fechar o espaço.

Fábio ofegava e sentia a garganta seca. Cipião não estava a mais de cem passos da falange. De repente um elefante apareceu num turbilhão de poeira à direita, uma lança macedônia enterrada no flanco do bicho, que estava fora de controle e arrastando o cadáver mutilado de um cavaleiro. O elefante viu a vala e desviou-se para a falange à direita, pisoteando corpos que explodiram em sangue quando ele colidiu contra as linhas, tropeçou e rolou até parar dentro da vala, desorganizando ainda mais as fileiras macedônias. Os primeiros guerreiros Peligni foram atrás do elefante, gritando, agitando as espadas e atirando-se à linha macedônia. O primeiro foi espetado por uma lança, mas avançou pelo fosso até chegar ao soldado macedônio, decapitando-o com um único golpe de espada antes de cair morto. O mesmo aconteceu por toda a linha, investidas suicidas que abriam cada vez mais espaço na falange, permitindo que a massa de legionários passasse e se colocasse atrás das fileiras frontais de lanceiros, investindo suas espadas para derrubar centenas de macedônios.

Em questão de segundos, Fábio estava entre eles. Tinha consciência de ter atravessado a linha de lanças e de ter se desviado para evitar o elefante moribundo, e então de ter visto Cipião golpeando e estilhaçando corpos mais à frente. Ele correu a espada pelos tornozelos expostos da linha de lanceiros ao lado, deixando-os aos gritos, contorcendo-se no chão, à espera para que os legionários que vinham a seguir acabassem com eles. E logo ele estava bem atrás de Cipião, golpeando e ceifando, procurando o pescoço e a pélvis, com os braços e a cara ensopados de sangue, sempre mantendo o estandarte erguido. Um trácio imenso veio pelas costas de Cipião e sacou uma adaga, mas Fábio investiu e cravou a espada na nuca do homem até seu crânio, fazendo com que os globos oculares saltassem e um jato de sangue saísse em arco de sua boca enquanto ele caía. Em volta dele, o ruído e o cheiro não eram nada parecidos com o que ele já vivera, homens gritando, berrando e vomitando, sangue e vômito se espalhando por todo lado.

E então Fábio ficou ciente de outro ruído, o soar de trombetas, não as romanas, mas as montanhesas macedônias. O combate se abrandou de repente, e os macedônios à volta pareceram sumir. As trombetas soaram a retirada. Fábio cambaleou para Cipião, que estava curvado e ofegava muito, colocando a mão em um corte ensanguentado na coxa. À volta deles, os legionários passavam pelo monte de corpos onde antes estivera a linha macedônia, golpeando para dar cabo dos feridos, como uma onda gigantesca se quebrando num arrecife e desaparecendo na praia. Cipião se levantou, apoiou-se em Fábio, e os dois avaliaram a carnificina ao redor. Quando a poeira assentou, viram a cavalaria contornando os flancos e perseguindo os macedônios que batiam em retirada, uma nuvem retumbante de morte que pressionava o inimigo de volta à planície e em direção ao mar.

Fábio se lembrou de mais uma coisa que o velho centurião lhe dissera. O túnel que fora seu mundo, o túnel de morte que parecia não ter fim, de repente se abriria e haveria um tumulto, um massacre. Parecia não haver lógica nisso, mas era o que acontecia. Dessa vez, foi do lado deles.

Emílio Paulo desceu a encosta em direção a eles, sem capacete, seguido por seus porta-estandartes e oficiais. Andou em meio aos corpos mutilados e se colocou diante de Fábio, que fez o possível para permanecer em posição de sentido e manter o estandarte erguido. O general colocou a mão em seu ombro e falou.

— Fábio Petrônio Segundo, por jamais deixar que o estandarte da legião baixasse e por ficar à frente de seu manípulo, eu o louvo. E o primipilo disse que o viu salvar a vida de seu tribuno, matando um dos inimigos sem deixar o estandarte cair. Por isso, eu o recompenso com a corona civica. Deixou sua marca na batalha, Fábio. Continuará a ser guarda-costas pessoal de meu filho e, um dia, poderá ser promovido a centurião. Combati ao lado de seu pai quando eu era tribuno e ele centurião, e você honrou a memória dele. Pode voltar a Roma com altivez.

Fábio tentou controlar as emoções, mas sentiu as lágrimas escorrendo pelo rosto. Emílio Paulo virou-se para o filho.

— E quanto ao tribuno, ele se provou digno de liderar os legionários romanos em batalha.

Fábio sabia que não poderia haver recompensa maior para Cipião, que fez uma reverência e então levantou a cabeça, a expressão exausta.

— Eu o congratulo por sua vitória, Emílio Paulo. Você receberá o maior triunfo já visto em Roma. Você honrou os espíritos de nossos ancestrais e de meu avô adotivo Cipião Africano. Mas agora tenho outra tarefa. Devo preparar os ritos funerários de Políbio. Ele foi o homem de maior bravura que conheci, um guerreiro que se sacrificou para salvar a vida de romanos. Precisamos encontrar seu corpo e enviá-lo ao além como seus heróis, como Ajax e Aquiles e os abatidos das Termópilas.

Emílio Paulo pigarreou.

— Muito bem, se conseguir convencê-lo a deixar de lado a questão bem mais interessante de interrogar prisioneiros de guerra macedônios para o relato que ele pretende escrever desta batalha em suas Histórias.

— Como? Ele está vivo?

— Ele conseguiu cavalgar para o flanco direito da falange, retornou para nossas linhas e atacou novamente à frente da cavalaria, depois voltou para recolher seus pergaminhos e assim escrever uma narrativa como testemunha ocular enquanto ainda estava fresca em sua mente. E isso antes de ele ter uma repentina inspiração e galopar sozinho para encontrar o rei Perseu, onde quer que estivesse escondido, para ter sua interpretação da batalha.

— Mas ele não podia ter se dado ao trabalho de parar e dizer aos amigos que estava vivo?

— Ele tem coisas muito mais importantes a fazer.

Cipião balançou a cabeça, depois enxugou o rosto com a mão. De repente parecia tremendamente cansado.

— Você precisa de água — disse Fábio. — E estes ferimentos precisam ser tratados.

— Você também está ferido, no rosto.

Surpreso, Fábio ergueu a mão e sentiu o sangue coagulado que descia da orelha à boca.

— Não senti. Precisamos chegar ao rio.

— Está vermelho com o sangue macedônio — disse Emílio Paulo.

— O sangue está em toda parte. — Cipião olhou o sangue que secava nas mãos, nos braços e em sua espada. Semicerrou os olhos para o pai. — Este é o fim?

Emílio Paulo olhou o campo de batalha até o mar e assentiu.

— A guerra com a Macedônia acabou. O rei Perseu e a dinastia dos Antígonas estão aniquilados. Extinguimos o que restava do império de Alexandre, o Grande.

— O que o futuro nos reserva?

— Para mim, um triunfo em Roma como nenhum outro do passado, depois monumentos com meu nome e o nome desta batalha de Pidna, em seguida a aposentadoria. Esta é minha última guerra e minha última batalha. Mas para você, para os outros de sua geração, para Políbio, Fábio, para os outros jovens tribunos, há guerras pela frente. A Liga Aqueia na Grécia, ao sul, terá de ser subjugada. Os celtiberos na Espanha ficaram alvoroçados quando Aníbal os tomou como aliados, e vão resistir a Roma. E, sobretudo, Cartago permanece... um assunto inacabado mesmo depois de duas guerras devastadoras. Há um caminho difícil diante de vocês, com muitos desafios a superar, com a própria Roma às vezes parecendo um obstáculo a suas ambições. Foi assim para mim e para seu avô adotivo, e será também assim enquanto Roma temer seus generais tanto quanto louva suas vitórias. Se você tiver sucesso e sair tão vitorioso quanto eu num campo de batalha, deve mostrar o mesmo poder de determinação para continuar fiel a seu destino como mostrou força em combate. E, para você, os riscos são ainda maiores. Para aqueles de sua geração, para aqueles de vocês que hoje são jovens tribunos, aqueles que nós, em Roma, preocupados com o futuro, alimentamos e treinamos, seu futuro não será se elevar no campo de batalha do mesmo jeito que fazemos hoje em Pidna ou como seu avô em Zama, para ver a glória do triunfo e depois a aposentadoria. Seu futuro será desviar os olhos de Roma, ver de seu campo de batalha um horizonte que nenhum de nós jamais viu e ser tentado por ele. O império de Alexandre, o Grande, pode ter desaparecido, mas um novo império nos acena.

— A que se refere?

— Refiro-me ao império de Roma.

 

OceanofPDF.com