Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 9
Depois de uma última subida complicada, os cavalos romperam os limites da floresta e chegaram em terreno aberto. À frente deles, a encosta estava coberta por imensos fragmentos de rocha, espatifadas e irregulares, como armas de gigantes de alguma batalha prodigiosa na aurora dos tempos. Para além dali, Fábio via os primeiros trechos de neve, e então um banco de nuvens bem acima, cobrindo os picos nevados que ele vira nos dias limpos nas clareiras da floresta abaixo. Era um lugar proibitivo, e ele entendia por que os antigos o consideravam a morada dos deuses. Ele se lembrou da última vez que ele e Cipião tinham ido até ali, quase dez anos antes, na véspera da Batalha de Pidna, quando subiram correndo a encosta do Olimpo e ficaram no cume como deuses, observando um mundo que parecia disponível a eles. Bem abaixo, o campo de batalha parecia se estender como nos jogos de estratégia que Cipião e os outros haviam feito na academia meses antes, como se a verdadeira guerra pudesse ser pouco diferente de um jogo, muito acima do cheiro de sangue e da angústia dos feridos que eles viveriam quando descessem novamente. Mas isso havia sido há muito tempo, e agora as coisas eram diferentes. Cipião não era mais um jovem de estirpe desejando seu primeiro comando, mas tinha feito de si um pária, desprezando a carreira que se estendia diante dele em Roma e atormentado por seu amor por Júlia. E não haveria a ideia de subir um pico montanhoso hoje. Se quisessem ter alguma chance de pegar um javali, teriam de permanecer na margem da floresta, contornando o mato, onde diziam que a grande fera se escondia, mantendo-se de guarda alta o tempo todo para evitar seu ataque frenético.
Cipião viu algo no chão, desceu do cavalo e passou o manto pelo corpo. Uma rajada de neve os varreu como um sopro frio das montanhas, e Fábio estremeceu. Logo a temperatura cairia abaixo de zero e o lugar ficaria sob muitos pés de neve, intransponível até a primavera. Cipião ajoelhou-se e apontou uma pedra virada e um trecho de perturbação recente no solo, depois olhou para Políbio.
— Javali?
Políbio curvou-se em sua sela, observando.
— Justamente onde eu esperava que um javali cavasse em busca de raízes, perto dos limites da floresta. Precisamos ver se há um rastro de cheiro. Fábio, onde está seu cão?
Fábio se sobressaltou e olhou em volta. Haviam se esquecido de Rufo no último trecho desajeitado da subida. Ele se ergueu nos estribos, espiando a neblina que agora rolava para baixo e envolvia a margem da floresta, reduzindo a visibilidade a menos de cinquenta pés. Pôs os dedos na boca para assoviar, mas pensou melhor. O instinto lhe dizia para não entregar a posição do grupo, nem revelar que sabiam do desaparecimento do cão. A sensação de desconforto que havia experimentado mais cedo tinha voltado, dessa vez mais forte.
— Rufo nunca se afasta sozinho — disse ele. — Por isso nem me dou ao trabalho de ficar de olho nele.
— Lobos? — perguntou Políbio.
Fábio balançou a cabeça, franzindo o cenho.
— Eles ficaram nos seguindo na floresta, mas, se tivessem apanhado Rufo, teria havido uma luta, e nós teríamos ouvido. É possível ouvir Rufo latir a milhas de distância.
Cipião o olhou, depois para Políbio.
— É possível que alguém estivesse nos seguindo?
Fábio sentiu o sangue correr pelo corpo e não tinha mais frio. Seus sentidos estavam aguçados, e ele de repente pareceu ouvir os ruídos na floresta com mais clareza, galhos ondulando ao vento, estalos no mato rasteiro. Ele voltava ao posto de guarda-costas de Cipião, e não mais era seu companheiro de caçada. Desceu do cavalo, entregou as rédeas a Cipião e apontou a encosta.
— Leve os cavalos para a neblina e esconda-se entre as pedras. Quando for seguro para sair, soprarei minha trombeta três vezes.
Políbio desmontou e se juntou a ele.
— O que pretende fazer?
— Se houver alguém nos seguindo, pode estar fazendo isso há algum tempo e saberá que Rufo responde a mim, que volta assim que assovio. Se pegou Rufo, pode estar tentando me induzir a voltar pela trilha e procurar por ele. Se ele me pegar, os dois serão uma presa mais fácil. Assoviarei, mas não voltarei pela trilha.
Políbio lhe estendeu a lança para javalis.
— Precisará de uma arma.
Fábio abriu o manto, revelando o punho de uma adaga celta que o pai lhe dera.
— Tenho tudo de que preciso. Mas, se estiverem nos seguindo, pode muito bem ter um arco, e na margem da floresta ficamos ao alcance de uma flecha. Vocês precisam chegar àquelas rochas. Agora.
Ele pôs os dedos na boca e soltou um assovio longo e penetrante, repetindo três vezes. Esperou em silêncio por alguns minutos, mas Rufo ainda não aparecia. Depois bateu na traseira do cavalo e viu Cipião e Políbio conduzirem os três animais pela neblina. Tirou o manto, largou-o e se agachou, correndo para a margem da floresta à esquerda da trilha, abaixando-se ao avançar pelo bosque de abetos e pinheiros que margeava a mata. A folhagem densa se abria para pinheiros mais espaçados, e ele seguiu com mais facilidade a um platô pantanoso pelo qual tinham passado ao subir, um resíduo da torrente da montanha que havia transbordado durante o degelo da primavera. Ele contornou a beira do charco, com o cuidado de se manter escondido da trilha, cerca de quinhentos pés à direita.
A meio caminho pela beira do charco, um pequeno riacho o cortava e drenava a água lamacenta pela encosta, borbulhando pelo mato abaixo dele. Tinha apenas três pés de largura, mas Fábio sabia que as margens do outro lado seriam menos sólidas do que aparentavam, saturadas com a água do charco. Ele viu uma pedra no meio do riacho, pulou e ficou nela, sentindo-a afundar ligeiramente sob seu peso, depois se lançou para a margem oposta, torcendo para que o ruído do córrego tragasse qualquer barulho. Ao atingir a margem, ela cedeu em uma cascata de lama e pedras, e ele se debateu freneticamente em direção às raízes das árvores que ficaram expostas, agarrando-se a uma delas e se rebocando para a beira. Praguejou em silêncio pelo barulho. Qualquer um na trilha teria ouvido. Ele precisaria se arriscar com um inimigo que agora podia estar esperando que ele viesse daquela direção, e o pegaria com facilidade caso tivesse um arco.
Mas de repente ouviu outro ruído, um estrondo imenso pelo mato, um grunhir e ofegar que nunca havia escutado. Uma fera gigantesca passou por ele, resfolegando e babando, suas presas projetadas para a frente e os olhos vermelhos com cor de fogo. Sumiu antes que conseguisse registrá-la devidamente, um borrão de preto, disparando pelo charco, espirrando lama e esmagando o mato do outro lado da trilha, concentrada em alguma perseguição desconhecida. Fábio deitou-se de costas, tentando controlar a respiração, e fechou os olhos por um momento. O javali real macedônio. Cipião não ficaria nada satisfeito por ele ter visto um deles e por eles não terem conseguido caçá-lo. Mas ele agradeceu aos deuses por jamais terem tido essa chance. Suas lanças teriam se espatifado nos flancos do bicho como gravetos, e eles teriam sido espetados como os prisioneiros no Circo. Ele abriu os olhos e prendeu a respiração, ouvindo atentamente. O barulho do javali foi tragado pela floresta. Ele tinha esperanças de ouvir latidos. Se Rufo estivesse vivo, o javali poderia incitá-lo e seu latido seria audível por milhas. Mas não havia nada, apenas o cacarejo e o borbulhar discrepante do córrego e um silvo sinistro na copa das árvores, do vento que descia pelas encostas da montanha.
Ele se deprimiu. Rufo era seu elo com Eudóxia ali, e ele não suportava pensar que o cão se fora. Sentiu uma raiva se agitar em seu íntimo, uma sede de sangue que não experimentava desde que ficara na linha em Pidna e vira os macedônios matarem seus camaradas feridos com lanças. Quem quer que tenha feito isso pagará.
Ele refletiu. O barulho do javali teria encoberto o ruído de sua queda. Ele ainda podia ter uma chance. Ajoelhou-se, procurando por algum barulho fora do comum, e então voltou a caminhar pela beira do charco, mantendo-se abaixo do nível da margem. A lama que agora secava em seu corpo o camuflava, ajudando-o a se misturar à vegetação. Ele sairia na trilha perto do último lugar onde vira Rufo trotando ao seu lado, quando cavalgou para os limites da floresta. Alcançou o leito seco do rio, olhando atentamente para os dois lados, daí ultrapassou os troncos que atravessavam o leito, onde tinham sido derrubados pelos lenhadores que cortavam madeira para a tumba de Felipe da Macedônia cento e cinquenta anos antes. A trilha seguia a linha do córrego do outro lado, e, depois de passar pelo último tronco, Fábio se agachou bem ao lado das marcas deixadas pelos cascos de seus cavalos menos de uma hora antes. A neve começava a cair mais densamente, rodopiando da encosta da montanha, reduzindo a visibilidade a menos de cem pés. Se suas conjecturas estivessem corretas, o assaltante estaria em algum lugar à frente, olhando de cima da encosta, de costas para Fábio, esperando que ele descesse a trilha a partir da beira da floresta.
Fábio tirou a adaga do cinto, a lâmina reluzindo fracamente, porém as bordas afiadas no ponto que ele havia amolado junto ao fogo na noite anterior. Segurava-a na mão esquerda, apontando a lâmina para baixo, e caminhava lentamente com o charco à direita, meio que esperando ouvir o silvo de uma flecha após cada passo. Depois de cerca de vinte pés, viu um corvo preto e grande saltando com determinação pelo terreno rochoso na trilha, e então mais outro. Eles brigavam por algo, bicavam, arrancando carne. Fábio viu um borrifo de sangue nas pedras, depois o pelo preto e branco familiar, e a empenagem de uma flecha se projetando dele. Fechou os olhos, tentando se controlar. Não podia parar agora, nem perturbar os corvos. Ele passou, esgueirando-se, agarrando a adaga com a maior força possível, de olhos concentrados à frente, mal respirando.
E então, em um vão entre a neve, ele viu. Cerca de vinte pés à frente, um homem deitado de bruços atrás de uma pedra, de frente para a encosta, com um arco cita retesado diante de si e uma flecha preparada. Usava um casaco de pele de ovelhas, mas o capuz estava arriado e os cabelos pretos e longos caíam em tranças às costas dele. Fábio o reconheceu do acampamento de lenhadores três dias antes, um montanhês corpulento que alegava ser de Panfília, na Ásia Menor, que Fábio tomou por um simplório. O homem havia se oferecido para guiá-los à melhor área de caça de javalis, mas um dos lenhadores puxou Fábio de lado e o alertou para que ficasse atento; o homem tinha chegado apenas dias antes e não tinha conhecimento da floresta, mas sabia muito sobre Cipião e estivera indagando sobre seu sucesso na caçada, mesmo antes de ele e Fábio chegarem ao acampamento. Fábio não dera importância ao fato, mas agora se lembrava de como os lenhadores ficaram perplexos, como se tivessem medo dele. O homem chegou a brincar com Rufo e lhe atirou um graveto, dando-lhe pedaços de carne, até que Fábio o deteve. Agora ele sabia como o homem havia atraído Rufo para a morte. Havia planejado isso por dias. Fábio sentiu o corpo explodir de fúria, o desejo de matar quase incontrolável.
Ele se aproximou mais. Um corvo atrás dele grasnou, e o homem se mexeu. Fábio ficou petrificado, prendendo a respiração. Em seguida o homem puxou o capuz para cima e voltou à sua posição. Fábio se curvou, de cabeça baixa, exatamente como Rufo teria feito, todo seu ser concentrado na presa. Em seguida disparou para a frente, saltando com a adaga em riste no mesmo instante em que o homem percebeu que havia algo errado, caindo pesadamente nas costas do sujeito e batendo a cara dele na pedra. O homem uivou de dor, esguichando sangue da boca. Fábio puxou o capuz e o agarrou pelas tranças, trazendo sua cabeça para trás o máximo possível, segurando a adaga em seu pescoço. Posicionou o rosto perto do ouvido do homem, próximo o suficiente para sentir-lhe o cheiro de suor e gordura do cabelo.
— Encontramo-nos de novo, panfiliano — rosnou ele em grego, puxando o cabelo do homem para trás e vendo o choque em seus olhos. — Se quiser que isto seja rápido, conte-me quem o enviou.
O homem tossiu e cuspiu dentes, sangue escorrendo pelo nariz, depois retorceu os lábios e forçou a cabeça contra a mão de Fábio, tirando sangue da adaga que cortava a pele de seu pescoço. Ele lutou novamente e ficou imóvel quando Fábio puxou-lhe a cabeça para trás, perto do ponto de ruptura.
— Vá para o Hades — murmurou ele, a boca cerrada de dor.
Fábio retirou a adaga do pescoço do homem e bateu sua cara na lama, perto da pedra. Levou a adaga à mão estendida do homem, cravando com força e torcendo para que os ossos e tendões quebrassem e se rompessem. Sentiu o homem convulsionar de dor e arquear-se para cima, tentando respirar na lama. Ele retirou a adaga e voltou a levá-la ao pescoço do homem, tirando a cara do outro da lama e puxando-lhe a cabeça para trás novamente. O homem tossiu e vomitou, espalhando sangue, lama e saliva, os olhos cobertos de lama, o nariz quebrado e torto.
Fábio se aproximou novamente de sua orelha.
— Diga-me o que quero ouvir e talvez eu decida poupá-lo por tempo suficiente para que Cipião o interrogue. Daí ele pode decidir seu destino. Talvez ele seja generoso.
O homem cuspiu e disse alguma coisa. Fábio se abaixou, ouvindo atentamente.
— Repita — rosnou.
O homem assim o fez, e Fábio ouviu o nome. Então foi isso. Ele manteve a faca no pescoço do homem e olhou a mão mutilada, percebendo o corte vermelho e distinto na face interna do pulso do homem, marca de um arqueiro que usava sua arma sem a guarda de couro para o punho. Lembrou-se de como ele havia adquirido tal marca: os tufos de pelo branco e preto na trilha atrás, os corvos. Soltou a cabeça do homem, ergueu-o pela cintura até que ficasse meio ajoelhado e levou a ponta da adaga a um local pouco abaixo do esterno. O homem enrijeceu, apavorado.
— O que está fazendo? — murmurou ele, pingando sangue do rosto. — Você disse que me pouparia.
— Eu disse talvez. E então me lembrei de meu cão.
Em um golpe rápido, ele cravou a adaga até o cabo, atravessando o coração e os pulmões do homem, retorcendo-a para obter o máximo efeito. Retirou-a, depois agarrou a cabeça do sujeito e torceu de lado, quebrando-lhe o pescoço. Viu os olhos do homem revirarem e seu último suspiro se cristalizar no ar frio. Levantou-se, limpou a adaga em um monte de relva e a embainhou, em seguida pegou a trombeta e soprou três toques curtos. A neve agora caía mais forte, já cobrindo o corpo do homem com um manto espectral e começando a ocultar as marcas de casco na trilha à frente. Fábio partiu correndo para a beira da floresta, para onde tinha visto Cipião e Políbio pela última vez. Eles precisariam descer pela encosta da montanha antes que as trilhas ficassem intransponíveis. Tinham pouco tempo a perder.
* * *
Quinze minutos depois, Fábio alcançou Cipião e Políbio, que tinham deixado as rochas quando ouviram a trombeta e levaram os cavalos de volta aos limites da floresta. Fábio encontrou um fio d’água de uma fonte pelo caminho para lavar a lama do rosto e das mãos, mas percebeu que estivera suando profusamente, e a parada na fonte, seguida pelo vento acre da montanha, o congelara, fazendo-o tremer. Ele pegou o manto e se enrolou nele, então pegou o odre oferecido por Políbio, engolindo o vinho, agradecido. Limpou a boca nas costas da mão, devolveu o odre e pegou as rédeas do cavalo.
— Era o panfiliano do acampamento dos lenhadores — disse ele a Cipião, virando-se para Políbio. — Ele se ofereceu para nos guiar, mas fomos acautelados contra ele. Tinha chegado apenas dias antes, fazendo perguntas sobre Cipião.
Políbio grunhiu.
— Deu a ele uma chance de dizer quem o mandou?
— Ele matou meu cão. Mas teve sua chance. Foi Andrisco.
Políbio olhou para Cipião severamente.
— Andrisco pode ter sido aquele que deu instruções a esse homem, mas Metelo estaria por trás disso.
Cipião olhou pensativamente a encosta da montanha, semicerrando os olhos contra a neve e o vento.
— Parece que mesmo aqui, na morada dos deuses, não consigo escapar da índole vingativa de Roma.
— A única maneira de superar Metelo será ascendendo pelo cursus honorum, como ele fez, e tornar-se senador, qualificando-se como legado. Você estará mais protegido dele em Roma, onde mostrará a força de sua personalidade e o poder de sua gens, e será mais difícil para ele miná-lo. Em lugares como este, à beira do desconhecido, você não está mais seguro. Sua morte numa caçada não despertaria suspeitas, apenas pesar entre aqueles de sua gens e entre seus partidários que o viram aparentemente desprezar seu destino e fugir o mais distante possível para além dos limites do mundo.
Cipião olhou a marca dos rastros que vira mais cedo, agora apenas formas na neve.
— Sem Rufo não temos esperança de caçar um javali real. Talvez tenhamos nos afastado demais no refúgio de caça dos deuses e esta seja uma fera que nenhum homem pode ter esperanças de ver.
Fábio começou a falar, mas se conteve, fingindo uma tosse. Cipião ainda não havia se decidido, e Fábio não queria ser aquele que o convenceria a ficar ali por mais tempo. Ele contaria sobre seu encontro com o javali em um momento oportuno, mais tarde, talvez quando Cipião finalmente estivesse usando seu capacete de legado e tivesse voltado a mente da caçada para a guerra.
— Uma decisão sensata, Cipião. — Políbio montou em seu cavalo e o conduziu para que ficasse de frente para a descida da encosta, então olhou a copa das árvores a oeste. — Precisamos retornar pelo mesmo caminho, ou há uma rota que evite o acampamento dos lenhadores? Onde havia um a serviço de Andrisco pode haver outros. É melhor que acreditem que desaparecemos e que a tarefa foi concluída, ou seremos perseguidos por toda a Macedônia até escaparmos.
Cipião assentiu.
— A cerca de cinco stades, descendo a trilha, há um caminho estreito que leva a oeste, contornando a beira das montanhas até chegar ao reino de Épiro. É árduo, mas temos nossas mantas para dormir e podemos caçar para comer. Assim que chegarmos à margem do Adriático, podemos encontrar um navio que nos leve a Brindisi e à segurança.
— Devemos deixar o corpo exposto? Escondê-lo pode atrasar os outros ao nosso encalço.
Cipião montou em seu cavalo, meneando a cabeça.
— Não. Usaremos duas toras deixadas aqui pelos lenhadores e crucificaremos o cadáver no meio da trilha. Quem vier por esta trilha esperando encontrar nossos corpos saberá que jamais deve atravessar o caminho de Cipião Emiliano.
Políbio gesticulou para Fábio.
— Ou de seu guarda-costas.
O cavalo de Cipião empinou-se, sentindo o cheiro de algo que Fábio sabia poder ser o javali, e Cipião puxou as rédeas com força, até que o animal desceu as patas no chão, bufando e relinchando como um cavalo de batalha prestes a atacar. Ele o controlou novamente e olhou para Fábio, assentindo seu reconhecimento.
— Teve um feito de coragem hoje, Fábio Petrônio Segundo, e não me esquecerei disso. Quando eu liderar um exército romano, você será primipilo da primeira legião.
Fábio semicerrou os olhos para ele e balançou a cabeça.
— Torne-me centurião, se eu merecer, mas prefiro permanecer como seu guarda-costas. Alguém precisa lhe dar cobertura enquanto os dois discutem estratégia e a melhor maneira de usar uma lança para javalis para matar um homem.
Políbio sorriu e pôs a mão no ombro de Fábio.
— Lamento por seu cão. Ele o aguardará no Elísio. E você permanecerá guarda-costas de Cipião, qualquer que seja a patente que ele lhe der, eu cuidarei disso. Um dia, Roma perceberá o valor de homens como você e criará um exército profissional que conquistará o mundo. — Um vento cortante desceu pela encosta da montanha, eriçando a crina dos cavalos. Ele se afastou do cavalo de Fábio e puxou o capuz, virando-se para Cipião. — O inverno está sobre nós. Precisamos partir. A Roma?
Cipião lhe lançou um olhar de aço, vendo Fábio montar e bater os calcanhares nos flancos do cavalo.
— Crucificaremos primeiro o homem que matou nosso cão. Depois, a Roma.
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