Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 19
Naquela noite, Fábio ficou com Cipião e Políbio no convés dianteiro do navio, bebendo vinho, ambos recostados no mastro inclinado artemon que se estendia sobre a proa. O mar estava calmo e faiscava sob a luz das estrelas, o vento tendo diminuído durante o anoitecer, deixando apenas uma onda residual que batia na lateral da embarcação. Mal se ouvia um ruído da frota ancorada na escuridão em volta deles, e Cartago parecia silenciosa como uma tumba. Fábio se lembrou do mesmo silêncio na noite da véspera de Pidna, os dois exércitos adormecidos antes da batalha. Os homens preparavam suas forças para o dia seguinte, mas também sonhavam estar nos braços das amadas, abraçando seus filhos e dizendo-lhes que sempre cuidariam deles, neste mundo ou no próximo, como se suas almas deixassem a maquinaria da guerra para voltar a seus lares por algumas preciosas horas antes que amanhecesse o dia da batalha.
Era uma noite sem lua, e o céu brilhava intensamente, mil pontinhos que se refletiam como um tapete ondulante de luz na água. Em arco acima deles, em dobras vívidas de luz e cor, estava a Via Lacteal, a Via Láctea, tendo a constelação de Sagitário como centro, as estrelas delineando o formato do centauro puxando seu arco para o horizonte a leste. Cipião bebeu um longo gole do jarro de vinho e passou a Políbio, que tomou um pouco e devolveu a jarra.
— Lembro-me de você me ensinando sobre os pitagóricos — disse Cipião, gesticulando com o jarro para o céu. — Sobre como pensavam que o universo é regido por números divinos e pela música. De como, para eles, o número sete é sagrado, representando as sete órbitas celestes do sol, da lua e dos cinco planetas, e os sete portões dos sentidos: a boca, as narinas, as orelhas, os olhos. — Ele passou o jarro a Fábio. — O que pensa, Fábio? O que um centurião pensa ao contemplar as estrelas?
Fábio bebeu um longo gole e olhou para cima.
— Não sou filósofo, mas sei contar. Se cada um destes pontinhos é uma estrela ou planeta, então há muito mais do que sete órbitas celestes.
Cipião sorriu para ele.
— Você parece Políbio.
— Quando era menino, em sua casa, Políbio me ensinou astronomia assim como o mapa-múndi de Eratóstenes. Disse que precisávamos conhecer o formato do mundo se quiséssemos conquistá-lo, e conhecer a vastidão dos céus para saber qual é nosso lugar.
Políbio olhou o céu.
— Eu também disse que os estoicos acreditavam que o ciclo do universo durará o tempo que as estrelas levarem para voltar à posição original no firmamento e que todas serão consumidas pelo fogo e cairão no caos, e então tudo recomeçará. E, como tudo se encontra em um estado de movimento, não pode haver medida fixa de distância, tampouco de tempo.
Cipião ergueu os braços, fingindo frustração.
— Meu caro Políbio, às vezes eu me esqueço de que você é grego e portanto tem um fraco pela sofística. Eu fixarei nossa medida nas muralhas à frente e não terei você dizendo que uma embarcação ancorada e aquelas muralhas estão em movimento constante, uma em relação à outra, pois assim Ênio será incapaz de apontar suas armas com precisão.
Políbio fingiu surpresa.
— Meu argumento era de que a ciência nos permite contemplar, mas não medir nosso espaço designado e nosso lugar no universo.
Cipião bebeu outro bom gole do vinho e enxugou a boca.
— Nesse caso, devo ser um deus por acreditar que posso medir o quinhão daqueles em Cartago que se atreverem a enfrentar Cipião Emiliano, filho de Emílio Paulo e herdeiro de Cipião Africano.
— Fala como um verdadeiro general, Cipião.
Cipião ficou em silêncio por um momento, depois semicerrou os olhos para o céu.
— Três anos atrás, quando eu ainda era tribuno e um assalto a Cartago parecia uma perspectiva distante, fui dormir sob as estrelas em nosso acampamento e tive um sonho. Nele, meu avô adotivo Cipião Emiliano veio a mim, vestido em um manto branco espectral, como a mortalha da qual me lembro de ter visto em seu corpo, ainda criança, quando ele foi levado à pira funerária. Em meu sonho, ele me pegou pela mão e subimos bem acima da Terra, mais alto do que os pássaros e as nuvens, até estarmos no próprio firmamento. Olhei para baixo e vi que a cidade de Roma havia se tornado um mero pontinho como as estrelas, depois desapareceu inteiramente. Cercando o mar Mediterrâneo, eu vi as terras povoadas do planeta e, para além daquela faixa estreita de oceano, congelando-se em cada polo e ardendo quente no centro, onde o calor do sol é mais forte. Vi o plano convexo da Terra e, para além do oceano, a margem mais externa e as estrelas além.
Ele parou, bebendo novamente do jarro.
— Meu avô apontou para baixo e mostrou como as partes povoadas eram dispersas e pequenas e que, se você se afastasse do mar Mediterrâneo, aqueles lugares habitados se tornariam cada vez menores e mais espaçados, como se separados pelos raios de uma roda, e o quão pouco os que viviam naquelas áreas podiam se comunicar entre si ou saber da existência um do outro. Ele se virou para mim e disse isto: Que lugares você pode nomear para além do deserto da África, ou do Ganges na Índia, ou das Ilhas Albion? Entretanto, você vê aqui que esses lugares existem e representam a maior parte do mundo. Quem nesses lugares saberá seu nome? Vê, portanto, as faixas estreitas nas quais sua fama se espalhará. Ele apontou para onde as fronteiras das nações com que lutamos e pelas quais morremos não eram mais visíveis, onde só o que podia ser visto era mar e terra. E por quanto tempo, mesmo nessas partes povoadas onde o conhecem, falarão seu nome? A lembrança de sua fama se desfará como a de todos os homens, pela devastação, pelo fogo e pela inundação, pela destruição do tempo e da guerra.
Cipião respirou fundo.
— Ergui os olhos, afastando-os da Terra e dirigindo-os ao firmamento. Havia estrelas que eu nunca tinha visto de baixo, constelações e galáxias muito além de nossa imaginação, que ultrapassavam muito a magnitude da Terra. Observei Sagitário na noite anterior, nítida como nesta noite, e quando olhei as estrelas de repente vi meu pai, Emílio Paulo, cavalgando pelos céus em um cavalo espectral como o centauro com seu arco, como Emílio Paulo aparece no monumento à Batalha de Pidna que agora fica no recinto sagrado de Delfos. Ansiei me juntar a ele, cavalgar com ele, mas ao estender meus braços ele só pareceu recuar, galopando para sempre além de meu alcance. Virei-me para Africano e perguntei como eu poderia cavalgar pelos céus junto a meu pai. No início, ele me fez uma pergunta: Tem esperanças pelo futuro de Roma, ou desdenha dele? Conhecerá você as trevas e a decadência, ou ascenderá acima de Roma como agora ascende acima do mundo, e verá seu futuro se estender diante de você?
— O que você respondeu? — perguntou Políbio em voz baixa.
— Disse a ele que não sabia, que só poderia saber quando estivesse nas ruínas de Cartago. Ele disse que os triunfos são vazios quando baseados nos elogios dos outros. Para os sábios, a mera consciência dos feitos nobres é ampla recompensa para a virtude. Estátuas de vitoriosos precisam de grampos de chumbo para mantê-las em seus pedestais, do contrário tombarão e cairão. Os maiores triunfos logo são adornados com meros louros murchos, que secam e esfarelam ao pó, de vida tão curta quanto a memória das pessoas. Se você viver sua vida para a estima do povo, ficará decepcionado, amargurado na velhice.
Cipião fez uma pausa.
— Perguntei-lhe novamente como podia alcançar meu pai. Dessa vez ele me deu uma resposta direta, de que o caminho era a justiça e a observância sagrada, coisas de maior valor para Roma; que esse é o caminho para o céu. Ele disse que tudo que as pessoas dirão de mim ficará confinado nas regiões estreitas que elas habitam. Só a virtude pode conferir a um homem a verdadeira honra, não a opinião dos outros. O elogio nas palavras é enterrado com aqueles que morrem e se perde no esquecimento daqueles que vêm depois.
— O legado de honra pessoal de seu avô é um fardo pesado para você, Cipião, mas um fardo digno — disse Políbio solenemente. — Você esteve sonhando os pensamentos que nortearam sua vida. Foram as virtudes que primeiro me atraíram a você, quando fui levado da Aqueia como prisioneiro e me fizeram seu mestre.
— Em meu sonho, meu avô disse que existe música, uma nota sagrada especial que pode abrir o caminho aos céus — disse Cipião. — Mas aqueles que ainda não estão preparados não podem ouvir, assim como não podem olhar para o sol.
— Você estava se lembrando de nossa visita quando meninos aos pitagóricos — disse Políbio. — Juntamo-nos a eles nos arredores de Corinto, vendo o sol nascer e sentindo seu calor, perguntando-nos se também estávamos sentindo o espírito divino entrar em nossos corpos.
— Africano disse que nos céus estavam todas as coisas que os homens grandiosos e excelentes desejam; e assim, perguntou ele: De que vale a glória terrena que atravessa tempo e espaço tão limitados? Olhe para o céu e você não mais será limitado por seus pensamentos de bem-estar baseados no que podem outorgar os homens. De cima, você se desloca como um deus, pois é o que os deuses são, as almas daqueles de nós que ascenderam acima do mundo como você agora, que podem contemplar os homens e suas batalhas como os deuses fizeram na planície de Troia, adivinhando os destinos de Heitor, Aquiles e Príamo como se fossem peças de um jogo de tabuleiro.
— E ele disse como você deveria se comportar antes de chegar ao céu?
— Se eu mantiver minha alma preparada, distante e contemplando meus atos, estarei seguro, mas se me render às tentações da sede de sangue e de poder não serei diferente daqueles que se cercaram dos vícios da bebida e das mulheres.
— Aqueles como Metelo, que você desprezava quando menino em Roma — disse Políbio.
Cipião apontou as estrelas.
— Em meu sonho, estávamos ali, acima do globo terrestre, então meu avô apontou para um lugar perto do mar e foi como se esse lugar disparasse para mim, tão veloz era nossa descida, e vi uma cidade como que das nuvens, cercada de poeira e fogo. Ele disse: Vê esta cidade, que coloquei de joelhos por Roma, mas que agora renova sua antiga hostilidade e não consegue permanecer tranquila? Logo você retornará a tal lugar e terá a oportunidade de conquistar o agnomen que herdou de mim, Africano.
— Os adivinhos chamariam este de um sonho profético — murmurou Políbio.
— E você? — perguntou Cipião.
— Sabe de minha opinião sobre os adivinhos. Um homem faz sua vida, mesmo que acredite em uma profecia que pode moldar seu destino.
Cipião desviou os olhos das estrelas para as muralhas cintilantes da cidade, com uma expressão perturbada.
— Ele me trouxe de volta à Terra, mas de repente o lugar estava diferente: árido, chamuscado, envolto em fumaça, fedendo a carne queimada como a desolação do Hades. E através da fumaça vi que não era Cartago, mas Roma, toda em ruínas: o Templo Capitolino, minha casa no Palatino, as grandes muralhas de Sérvio Túlio, todas as construções esfareladas e escurecidas. E quando me virei para encontrá-lo, Cipião Africano não estava mais de pé a meu lado, mas deitado, contorcendo-se no chão, cinzento e despido, horrivelmente retalhado, de boca aberta em uma careta e os braços estendidos para as ruínas em chamas da cidade.
Fábio lembrou-se da última imagem que tinha do velho centurião, mutilado na terra todos aqueles anos atrás, nas Colinas Albanas, e perguntou-se se Cipião teria mesclado essa lembrança à visão de Africano, homens que alcançaram a glória, porém que foram derrubados pelas maquinações de Roma: o primeiro curvando-se diante daqueles que desejavam impedi-lo de destruir Cartago e vivendo o restante de sua vida nas sombras e na decepção; o outro assassinado sem glória alguma por treinar uma nova geração para prosseguir de onde Africano parara, para acrescentar uma conquista após a outra e ir até onde Africano não tivera permissão de ir por ação do Senado, e pela sensação de dever para com as autoridades de Roma, fato do qual ele viria a se arrepender mais tarde.
Políbio lançou um olhar penetrante a Cipião e pôs a mão em seu braço.
— Você tem muito em mente, meu amigo, um fardo que brinca em seus sonhos há anos. Amanhã esse fardo lhe será retirado.
Cipião ainda fitava as muralhas de Cartago, seus olhos sombrios e insondáveis.
— Você me ensinou que os pitagóricos acreditavam no poder da música, assim como Africano me falou em sonho que uma única nota pode purificar a alma e prepará-la para o Elísio. Eu costumava pensar que a ouvia, à noite, sozinho na floresta, ou acampado perto do mar, quando a água estava calma. Mas agora, quando tento escutar, tudo que ouço é dissonância, clamor, uivos distantes como os lobos na floresta macedônia, gritos e berros, um lamento terrível. Às vezes só consigo dormir com outros barulhos tragando tudo ao redor: o crepitar de uma fogueira no deserto, o ranger das madeiras de um barco e o bater das ondas quando estou no mar.
Políbio se recostou.
— Assim como não podemos olhar o sol, também não podemos ouvir verdadeiramente a nota divina que nos permitiria ascender aos céus, uma nota que só pode ser ouvida quando nossas almas estão prontas para o Elísio. Mas os sons que o assombram são os sons da guerra, meu amigo, da guerra e da morte em seu passado, e da guerra em seu futuro.
— Então essa é minha música — disse Cipião em voz baixa. — Quando acordei do sonho a noite havia findado e, ao olhar para o sol a leste seus raios pareciam envolver a Terra, partindo do firmamento; quando ergui os olhos, não via mais as estrelas, apenas nuvens de tempestade rolando do sul. Amanhã, quando acordarmos, elas serão as nuvens da guerra. — Ele pegou o jarro, virou-o para que as últimas gotas se derramassem e o jogou no mar. — Precisamos da mente clara para amanhã. Amanhecerá daqui a apenas algumas horas e antes disso Ênio e seus fabri estarão retesando as catapultas na preparação para o assalto. Agora devemos tentar dormir.
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