Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 7
Parte 3
Macedônia, 157 a.C.
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7
Fábio puxou as rédeas de seu cavalo, guiando-o em torno da lama que escorria de uma fonte subterrânea irrompida no caminho pela floresta. Seu cão de caça Rufo saltou a lama e pulou à frente, em direção aos dois cavaleiros que começavam a contornar as rochas expostas, onde um córrego da montanha cortava a encosta. A profundidade do leito do rio mostrava que na primavera era uma torrente furiosa, neve derretida que descia das montanhas que se erguiam para além da margem norte da floresta. Os lenhadores haviam contado a eles que o caminho fora usado anos antes para levar toras de carvalho para a construção da tumba do rei Felipe, pai de Alexandre, o Grande, muitos stades de distância ao sul, na planície da Macedônia adjacente ao mar. Os lenhadores tinham vindo ao extremo norte para escolher as árvores mais duras, aqui, nas encostas mais baixas da montanha, pois era onde o carvalho dava lugar ao pinho, ao abeto e ao cedro, antes de estes também se esgotarem, restando apenas neve e pedras irregulares para além da margem da floresta, um lugar onde pouquíssimos lenhadores atreviam-se a se aventurar.
Fábio e Cipião tinham ido para lá não para admirar os carvalhos, mas para caçar o ardiloso javali real da Macedônia, uma criatura semimítica que diziam espreitar nos cantos mais distantes da mata, nas encostas da montanha. Os lenhadores falavam dele aos sussurros, uma fera tão grande quanto um touro, que conseguia correr mais do que qualquer corcel, com presas capazes de arremessar cavalo e cavaleiro bem alto no ar e um pelo tão grosso que desviava qualquer lança, exceto as mais fortes. O javali havia se tornado uma obsessão de Cipião, seu prêmio definitivo, uma caçada que parecia prestes a levá-los para além do mundo dos homens, ao lugar que apenas um Hércules ou um Teseu poderiam ter esperanças de conquistar.
Eles ficaram procurando por sinais de escavação, por revolvimentos na terra que dessem a Rufo um cheiro a seguir. Rufo crescera e se transformara em um cão belo, lustroso e ágil, tão veloz quanto uma lebre, e se tornara uma companhia muito próxima de Fábio e Cipião nos dias e noites frios que passavam juntos na floresta, com a pelagem preta e branca do animal ficando cada vez mais densa e espessa à medida que o inverno se aproximava. Nos três anos desde que tinham saído de Roma para viver na floresta, Rufo se tornou um cão de caça habilidoso como jamais viram, competente na perseguição de cervos e ursos que eles rastreavam pela densa mata das encostas mais baixas e na captura de faisões e perdizes que eles às vezes tinham sorte de derrubar com uma flecha. Ali no alto, porém, onde o ar era mais rarefeito e eles eram oprimidos por uma névoa fria e constante, Rufo parecia intimidado, saindo de vista raras vezes, mesmo quando havia um cheiro forte de caça. Fábio passou a depender do sexto sentido de Rufo e partilhava da apreensão do cão.
Na noite anterior, eles haviam fortalecido o acampamento com estacas afiadas contra um bando voraz de lobos que agora já os estava perseguindo havia dias, deixando Rufo nervoso e alerta. Os lobos estavam atrás das carcaças deixadas depois de cada caçada de sucesso, o que significava que Fábio, Cipião e Rufo sempre avançavam rapidamente depois de abater a presa, mas agora já fazia vários dias que ele e Cipião tinham matado um animal; os lobos estavam começando a olhá-los com mais maldade, voltando-se à ideia de fazer dos caçadores sua presa. Fábio acendeu uma fogueira maior do que a de costume e ficou acordado durante a maior parte da noite, de lança na mão, Rufo a seu lado, observando a beira da clareira em busca dos olhos que refletiriam a luz do fogo. Desde então, os ganidos e uivos prosseguiam intermitentemente pela floresta, um som enervante à luz do dia. Talvez os lobos também estivessem começando a sentir que tinham se desviado para muito além de seu lugar de direito, seguindo Cipião do mesmo jeito que Fábio fizera, em uma jornada que os estava guiando perigosamente para perto do reino dos deuses. Ele olhou novamente os dois cavaleiros à frente, para o companheiro Cipião. Estava feliz por Políbio ter vindo. Ele colocaria juízo na cabeça de Cipião, trazendo-o de volta à realidade. Era hora de voltarem a Roma.
Uma rajada de neve varreu a trilha, tirando os cavaleiros de vista. Fábio bateu os calcanhares no cavalo e investiu para a frente, deslizando e escorregando nas pedras úmidas. Os cavaleiros entraram novamente em seu campo de visão e ele se aproximou. Políbio os havia alcançado uma hora antes, soprando sua trombeta para avisá-los, vindo do acampamento de lenhadores a um dia de cavalgada dali, depois de chegar à Macedônia, vindo de Roma. Políbio conhecia a floresta como a palma da mão, tendo aprendido a caçar ali quando menino, mais de trinta anos antes, mas quando chegou pareceu deslocado com sua barba bem-aparada e o manto caro. Seus anos em Roma o faziam se assemelhar mais a um mestre e literato do que a um guerreiro e caçador. Fábio sabia que Políbio odiaria ouvir isso, lembrando-se do quanto o outro se orgulhava de sua tenacidade e experiência militar. Cipião, por sua vez, tinha a barba desgrenhada, os cabelos na altura dos ombros, amarrados na nuca como os de um bárbaro, a pele bronzeada e impregnada da terra da floresta. Parecia ter mais do que seus 28 anos, como um veterano de guerra desgastado, ainda que, precisamente porque não havia guerras para combater desde Pidna, quase 12 anos antes, que agora eles estavam ali, travando uma guerra substituta contra os animais da floresta e não contra homens.
Fábio tinha esperanças desesperadas de que Políbio trouxesse notícias de um novo conflito, de uma nova convocação às armas em Roma que levaria Cipião de volta. Ele cavalgou em direção aos dois homens, mantendo a distância de um cavalo, mas perto suficiente para ouvi-los conversando. Políbio estava examinando o arco de Cipião, e então o devolveu. Claramente, estivera lançando um olhar crítico sobre o equipamento de caça dos dois, depois gesticulou para a aljava de lanças de caça de javalis que Cipião carregava em uma bolsa de couro na frente de sua sela, inclinada para trás, ao longo do flanco do cavalo, para que não o atrapalhasse quando ele cavalgasse, embora acessível para rápida utilização.
— Já matou um homem com uma lança para javalis, Cipião?
— Nunca tive a oportunidade. E talvez nunca venha a ter. A guerra parece coisa do passado.
— Não tenha tanta certeza disso. E quanto à lança, um dia, depois de uma batalha, quando tivermos desertores a punir, mostrarei como funciona. A cabeça de ferro achatado da lança é larga demais para ser torcida dentro do corpo; assim, você a força para penetrar ao máximo, a retorce fora do corpo, depois puxa e retira. É uma arma ideal para a cavalaria em uma peleja, quando o cavalo está quase imóvel e o cavaleiro tem a chance de arremeter, torcer e retirar violentamente. A chave da lâmina é seu formato simétrico, como uma folha de salgueiro, com uma borda afiada feito navalha tanto atrás como na frente da folha.
Cipião sorriu.
— Você sempre foi uma mina de sabedoria, Políbio. Um verdadeiro mentor para um jovem aristocrata romano. Ensinou-me ética na guerra, estratégia e como matar. E, mais importante para mim agora, ensinou-me a caçar. Não poderia haver educação melhor.
— Foi sobre isso que vim lhe falar, Cipião. Sobre o que você está fazendo de sua vida. Mas, primeiro, tenho uma pergunta. — Ele olhou as lanças atentamente. — Que madeira é essa? É segmentada, como um caule de junco do Nilo. Nunca vi nada parecido.
Cipião pegou uma das lanças e entregou a Políbio, que a ergueu e analisou atentamente.
— Extraordinária — murmurou Políbio. — Tão leve, e mesmo assim tão forte. E é colunar, cada segmento tem o comprimento do anterior, não se afunila como um galho de árvore normal. Estou correto em pensar que é oca?
Cipião assentiu com entusiasmo.
— Lembra-se na academia de como Ptolomeu e eu costumávamos sair de Roma a cavalo pela Via Ápia à noite e caçar porcos-do-mato nos pântanos de Pontine?
— Lembro-me bem demais de Ptolomeu — respondeu Políbio pensativamente. — Sabia que no Egito ele agora é chamado de philomater, “amante de sua mãe”? Mas o maior problema não são seus afetos pela mãe, é o casamento com a calculista irmã Cleópatra. Eu lhe disse, quando ele era menino, para sempre se lembrar de que ele era de linhagem macedônia, que só porque sua família governava o Egito desde os tempos de Alexandre não queria dizer que eles precisavam se comportar como faraós e se casar com os próprios irmãos. Ele foi correndo a Roma com o rabo entre as pernas duas vezes desde a tomada do Egito, primeiro quando seu amigo de outrora Demétrio da Síria o invadiu, depois quando seu próprio irmão o usurpou. E por duas vezes Roma teve de libertá-lo. E Demétrio não tem se saído muito melhor na Síria. Os problemas daqueles reinos são uma lição sobre como não abandonar um império: sem estrutura, sem administração. O legado de Alexandre foi como se o homem mais rico do mundo tivesse morrido sem deixar testamento. Ptolomeu e Demétrio são os únicos que ainda estão lá, pois são aliados de Roma e é mais conveniente manter tudo assim do que anexar o Egito e a Síria como províncias, todavia o apoio a eles logo se provará uma dor de cabeça maior do que invadi-los. Um general romano, um conquistador de Cartago, digamos, pode olhar para o Oriente e enxergar uma sucessão de reinos que tombarão perante ele como as colunas de um templo num terremoto.
— Cartago ainda parece um sonho impossível. O Senado é autocentrado demais para ordenar um ataque ou sancionar um exército permanente que cuidaria da ameaça. Roma está se tornando fraca.
— Não seria a geração mais velha que combateria em Cartago, mas sua geração, uma geração que deve agir com lisura e se tornar tenentes e cônsules. Os melhores dessa geração abandonaram Roma, e, se ficarem afastados por tempo demais, nunca terão permissão para voltar.
— O que houve com o senador Sexto Calvino, a propósito? Sei que ele morreu logo depois de sairmos de Roma. Meu pai enviou-me uma mensagem.
— Um acidente terrível. Por acaso, Brutus viu. Ele foi atropelado por um carro de bois e depois espetado pelos touros. Seu corpo ficou tão mutilado que mal pôde ser reconhecido.
— Parece coisa de Brutus.
— Aqueles que estavam contra você, entre eles Sexto Calvino, foram incitados naquela noite do triunfo pela ascendência de seu pai Emílio Paulo, pela súbita popularidade de sua gens em meio à plebe e pela ameaça vista por aqueles senadores de uma tomada de poder iminente, talvez de uma ditadura. Alguns podem ter sido movidos genuinamente por temores constitucionais, mas a maioria estava simplesmente protegendo os próprios interesses investidos na ordem estabelecida. Petreu era visto como a rocha que mantinha você e os outros jovens tribunos presos à sua causa, e livrar-se dele foi um jeito de afrouxar esses laços e reduzir a ameaça sem chegar ao extremo do assassinato político, ao homicídio de um companheiro patrício. Sua partida pode tê-los convencido de que haviam vencido, mas há outros, seus rivais, que ainda o verão como uma ameaça. Isso jamais cessará, e você deve estar sempre em guarda, mesmo aqui.
— Roma, quando parti, estava debilitada pela falta de orientação, capaz apenas de olhar para as próximas eleições consulares, para qual casamento vincularia uma gens a outra.
Políbio lançou um olhar penetrante a Cipião, em seguida se voltou para diante.
— Gostaria de saber mais sobre estas lanças. Você ia me falar de Ptolomeu.
Fábio entendeu o que Políbio estava fazendo. Ele estava atraindo Cipião para fora, falando apaixonadamente de assuntos que sabia que calavam fundo em Cipião, embora Cipião tivesse professado desdém por eles quando partira para o exílio autoimposto na floresta. Talvez Políbio fosse o único capaz de arrancá-lo de sua melancolia, mas precisaria manipulá-lo com cautela caso quisesse que cavalgassem juntos daquela floresta para Roma.
Cipião pegou na aljava mais uma das lanças para javalis, mostrando sua flexibilidade ao batê-la na mão.
— Ptolomeu também era um apaixonado pela caça e talvez essa tenha sido sua ruína.
Políbio olhou incisivamente para Cipião.
— Foi a ruína de muitos homens. De alguns porque o sucesso na caça lhes deu ilusões de grandeza, de outros porque eram destinados à grandeza, mas dissiparam toda a energia na caçada.
— Você sempre disse que era a capacidade e não o destino que fazia um grande homem. A alegria da caçada é que diz respeito inteiramente a capacidade, e ninguém o está incomodando com expectativas de destino, de antepassados orgulhosos ou traídos por seu curso de ação. Aqui, na floresta, a caça se assemelha a uma batalha, onde se vive o momento, onde tudo depende de sua coragem e perícia individual, não do destino.
— Fale-me de Ptolomeu. Das lanças.
— Ele me procurou nos jogos funerais de meu pai, três anos atrás. Convidou-me a me unir a uma expedição às cataratas distantes do Nilo, onde dizem viver crocodilos imensos, feras envoltas em mito como o javali real que procuramos hoje. Eu disse a ele que depois que tivesse sucesso eu lhe enviaria uma cabeça de javali em salmoura como prova, tomaria um navio a Alexandria e me juntaria a ele. Enquanto isso, ele me enviou algumas de suas lanças e eu substituí a ponta fina de ferro que usam para penetrar o couro do crocodilo pela cabeça em folha de nossas lanças para javalis. Quanto à curiosa madeira, ele afirma vir de uma ilha chamada Taprobana, ao extremo no mar da Eritreia.
— Taprobana — disse Políbio, assombrado. — Fica no sul da Índia, a uma distância enorme.
— Ptolomeu disse que os egípcios recebiam mercadorias ali desde o tempo dos faraós, enviadas em embarcações nativas pelo mar da Eritreia até a costa do Egito, e depois levadas pelo deserto ao Nilo. Traziam inclusive mercadorias de um império distante chamado Tina, inclusive serikon, o tecido fino feito do casulo de mariposas. Esta madeira é chamada mambu. É incrivelmente forte para seu peso, o que significa que, com doze ou quinze pés, são leves como nossos dardos de arremesso. Se a ponta de aço se quebra, a madeira se espatifa em lascas afiadas que ficam firmes pela força do segmento abaixo dela, o que significa que o cabo sozinho ainda pode ser usado como lança. E, por fim, como o ar em cada segmento é isolado dos segmentos adjacentes, um pedaço de mambu atirado no fogo explodirá quando o ar em seu interior se aquecer e se expandir, disparando lascas letais para todos os lados. Os guerreiros nativos daquelas regiões as utilizam quando atacam aldeias e cidades, arremessando mambus em construções incendiadas para matar e aleijar qualquer ocupante que ainda esteja dentro delas.
— Fascinante — murmurou Políbio. — Material perfeito para as lanças de arremesso longas, distribuídas em uma carga de assalto a cavalo. Os sármatas e os partos usaram lanças desse tamanho, e Alexandre as experimentou com sua cavalaria. Mas elas eram inibidas pela espessura e pelo peso da madeira necessários para uma lança. Se puder ser adquirido em quantidade suficiente, este mambu poderia armar todo um novo ramo da cavalaria e estimular muito a eficácia de um ataque sobre uma linha de infantaria.
— Por ora, vamos caçar javalis, e é só o que importa aqui — disse Cipião, esporeando o cavalo. — Ainda temos algumas horas de luz do dia e não quero ter de acampar depois da linha das árvores. Já está bem frio, e o vento lá em cima agravará tudo. — Eles tinham subido várias centenas de pés durante a conversa, procurando por sinais de javalis no terreno. Políbio se pôs ao lado de Fábio e apontou a névoa cinzenta no alto da copa das árvores.
— Lembra-se quando você e Eudóxia, a escrava celta de Hipólita, aquela das Ilhas Albion, vieram aprender grego e lhes mostrei um mapa do mundo de Eratóstenes para apontar de onde ela vinha? Outra margem do mundo fica por aqui, em algum lugar à nossa frente.
— Não me lembro do mapa, mas me lembro muito bem de Eudóxia, Políbio. Eu tinha 14 anos e ela havia acabado de desabrochar como mulher.
— Diga-me, Fábio. Você tem alguém agora, talvez em Roma?
Fábio pigarreou.
— É Eudóxia. Confesso que gostaria que fosse ela, acima de tudo. Mas não nos vemos há três anos, desde que Cipião e eu viemos para cá. Quase nada do mundo nos alcança, exceto por intermédio dos lenhadores.
— Então tenho boas-novas para você. Eudóxia está bem, desenvolveu-se e é uma jovem bonita. Tem muitos pretendentes, mas os mantém à distância de um braço. Isso me surpreendeu, mas agora entendo por quê. Veja, eu a conheço bem, a recebi em minha casa quando Hipólita partiu para se juntar a Gulussa no Norte da África.
Cipião recuou para se colocar ao lado deles, e virou-se para Políbio, falando com perplexidade.
— Hipólita e Gulussa?
— Não é o que parece. Segundo a tradição númida, um príncipe pode ter muitas esposas, e duvido que ela compactue com isso. Zeus sabe que em sua terra natal, na Cítia, a mulher provavelmente tem de matar todas as concorrentes pelo homem que deseja, algo que consigo imaginá-la fazendo. A verdade é que o pai de Gulussa, Massinissa, ficou tão impressionado com ela em sua visita à academia que a convidou a liderar uma coorte de arqueiros da cavalaria em seu exército. Assim ela partiu para se juntar a eles com Gulussa. Se Roma entrar em guerra contra Cartago novamente, eles serão nossos aliados. Sua aliança conosco foi garantida na academia. Foi essa a visão de seu avô Africano, e sua sabedoria foi confirmada.
Cipião olhou para Políbio severamente.
— Se Roma não entrar em guerra contra Cartago, Cartago eclipsará Roma pelo sucesso de seu comércio, e Roma tomará o caminho das cidades etruscas e será esquecida na história, lembrada apenas pela obstinação introspectiva de seus senadores e por sua incapacidade de criar um exército profissional.
— Palavras corajosas, Cipião, pronunciadas por aquele que se afastou da outra visão de Africano, aquela que dizia que você devia ser o homem a erguer a tocha contra Cartago e concluir o trabalho.
Cipião não respondeu, e Políbio virou-se para Fábio.
— Quanto a Eudóxia, direi que você pensa nela. Com sorte, você estará lá para dizer isso pessoalmente.
— Foi ela quem me deu o cão, Rufo — disse Fábio. — É de uma raça especial utilizada nas clareiras da floresta em Albion para proteger seus animais contra os lobos, e nos planaltos desse país para pastorear ovelhas. O velho centurião Petreu me deixou um pedaço de terra nas Colinas Albanas a leste de Roma, um campo íngreme, próprio para as ovelhas. Um dia, levarei Rufo para lá e cuidaremos de meu rebanho juntos.
— Com sua prole de futuros legionários e a mãe Eudóxia ao seu lado?
— Se os deuses assim desejarem.
Cipião virou-se para ele.
— A não ser que você deseje combater como mercenário para alguma outra potência, Fábio, pode cuidar de seu rebanho mais cedo do que pensa. Roma parece não ter mais apetite para a guerra.
Políbio voltou-se para Cipião.
— Se você retornar a Roma, poderá convencer o Senado da ameaça de Cartago. Só então será capaz de assumir o legado de Cipião Africano.
— Meu pai, Emílio Paulo, deu-me a Floresta Real Macedônia para cuidar depois da Batalha de Pidna — respondeu Cipião. — É meu dever honrar seu legado também.
— Pidna já está quase 12 anos no passado, e seu pai morreu há três anos — respondeu Políbio. — Depois de Pidna, ele sabia que não haveria guerra na Grécia por algum tempo e lhe deu a floresta para aprimorar suas habilidades de caça e manter seu olho afiado. Mas talvez você tenha se viciado na caçada.
— Olhe para este lugar — disse Cipião, gesticulando para as árvores e os túneis escuros no mato em volta delas. — Um homem pode se perder aqui e ainda encontrar muito do que viver. E sei que você partilha de minha paixão. Foi você que me ensinou a acertar cervos sobre o lombo de um cavalo.
— É bem verdade. Mas você agora tem 28 e ainda não conseguiu uma magistratura em Roma. Se permitir que lhe escapem outras nomeações e continuar afastado do olhar público, jamais será eleito questor. Agora tem idade suficiente, e, se não for eleito na mais tenra idade possível, isso será uma mancha contra você no futuro.
— Questor, edil, pretor, cônsul — resmungou Cipião. — O cursus honorum traça a vida de um homem e, com ele, viver não vale a pena. Se não houver guerra, prefiro ficar aqui caçando a morrer de tédio nos tribunais.
— Se você não obtiver esses postos, jamais terá o alto-comando. Só pretores e cônsules podem liderar um exército romano para a guerra.
— Esta é a estupidez de tudo — criticou Cipião. — Se tivéssemos um exército profissional, eu pelo menos poderia estar treinando legionários no Campo de Marte. A realidade é que os generais são escolhidos com base em sua capacidade de se lembrar de detalhes obscuros da constituição romana e de arbitrar nos tribunais sobre quem é dono de qual parede entre duas casas ao lado do Fórum Boário. Não foi esse futuro que meu avô Cipião Africano previu para nós quando meninos ao criar a academia e nomear você meu mestre.
— Talvez não — disse Políbio, olhando para Cipião. — Mas ele conhecia a virtude de uma carreira equilibrada e precisava manter aqueles que seriam generais bem preparados na política da cidade. As necessidades de Roma devem superar as ambições daqueles que liderariam seus cidadãos à guerra.
— Bem, então, a balança pende erroneamente — disse Cipião. — E não haverá mais generais brilhantes, pois aqueles que assim poderiam sê-lo ficaram indolentes e preguiçosos nos tribunais, e qualquer centelha de gênio militar que talvez tivessem quando jovens terá sido extinta na época em que receberem exércitos para comandar. Enquanto isso, os legionários das guerras anteriores não têm florestas reais como eu para manter suas habilidades afiadas, e começam a ficar recurvados e cínicos nas tabernas de Roma. — Ele esticou o pescoço. — Não é assim, Fábio?
Fábio impulsionou o cavalo para se colocar entre os dois homens.
— Se não há a menor possibilidade de existir um exército profissional, tudo que os veteranos pedem são algumas semanas de treinamento todo ano com o gládio e o pilo, mesmo que isso signifique suportar os berros dos centuriões. Dizem os velhos que durante os muitos anos de guerra contra Aníbal os meninos viam seus pais voltarem com ferimentos e histórias de batalhas sangrentas, e ansiavam pelo dia em que também teriam idade para se alistar. Agora que a guerra é uma lembrança distante, tudo que os meninos conhecem é o espólio das pilhagens que veio da Grécia depois de Pidna, ouro e prata que permitiram que seus pais dissipassem a vida bebendo nas tabernas e contando histórias da guerra que ninguém mais quer ouvir, das quais eles próprios mal se recordam. Da próxima vez que Roma necessitar criar legiões, os recrutas serão moles, de olho apenas na pilhagem. Tudo que foi aprendido nas guerras passadas estará perdido. Os velhos soldados bebem para afogar a vergonha de saber que o próximo exército romano em campo não terá chance alguma contra os profissionais e mercenários de nossos inimigos. Sei disso muito bem, porque meu pai foi um deles, um veterano de Canas, e morreu em uma briga que testemunhei, defendendo a honra do exército romano de suas recordações contra aqueles que riam dele.
— Aí está — disse Cipião, olhando para Políbio. — Não são apenas os aspirantes a generais que ficaram cínicos, mas legionários como Fábio, que não deveria estar cavalgando aqui como ajudante de caçador, procurando javalis e cervos, mas tornar-se centurião em uma legião romana, treinando todos os dias no Campo de Marte, praticando manobras de batalha e invadindo modelos de fortificações construídos por Ênio e seus engenheiros.
— Sob seu comando, Cipião — disse Fábio.
Políbio fitou Cipião.
— A única maneira de você fazer com que isso aconteça é estando em Roma.
— Outro motivo para eu permanecer aqui. O povo da Macedônia solicitou especificamente que eu arbitrasse suas disputas, e entre eles e Roma. Tenho a reputação de cumprir minha palavra, de fides. Foi o que você me ensinou na academia.
— Essa reputação lhe servirá bem — disse Políbio com cautela. — Mas você não detém um posto oficial aqui. Não vagueie em território alheio.
— Que quer dizer?
Políbio puxou as rédeas do cavalo e os outros dois também pararam, Fábio a uma curta distância logo atrás. Políbio virou-se em sua sela e olhou para Cipião.
— Foi o que realmente vim lhe falar. Não o estou mais aconselhando a voltar a Roma pelo bem de sua carreira. Digo-lhe para fazer isso por seu próprio bem-estar. Há uma ameaça a você, e esta floresta não é mais um lugar seguro. Metelo foi nomeado procônsul da Macedônia.
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