Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 1
Parte 1
Roma, 168 a.C.
Três meses antes da Batalha de Pidna
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1
Fábio Petrônio Segundo caminhava de maneira decidida pela Via Sacra, passando pelo antigo Fórum de Roma, tendo o Templo Capitolino atrás de si e as casas aristocráticas na encosta do Monte Palatino à direita. Carregava uma trouxa contendo as caneleiras de bronze que seu senhor Cipião Emiliano tinha se esquecido de levar naquela manhã à Escola de Gladiadores, onde o velho centurião Petreu supervisionaria o treinamento dos jovens que seriam nomeados tribunos militares no final daquele ano. Cipião era o mais velho dos alunos, agora com quase 18 anos, e se encarregava dos outros na ausência do centurião, assim haveria uma dupla humilhação e mais do que uma dupla punição se o centurião descobrisse que faltava parte de seu equipamento.
Mas Fábio conhecia exatamente os movimentos do velho centurião. Toda manhã, com uma precisão militar, ele passava meia hora nos banhos, uma indulgência cômica para um velho soldado, e Fábio o vira entrar em sua casa de banho preferida atrás do Templo de Castor e Pólux minutos antes. Não era a primeira vez que Fábio salvava a pele de Cipião, e Fábio sabia o valor de se tornar indispensável. Mas seus sentimentos para com Cipião eram de amizade em vez de servidão: no futuro, ele poderia estar destinado a ser um legionário, enquanto Cipião se tornaria general, mas primeiro eles se conheceram em condições equivalentes nas ruas de Roma quando Cipião quisera esconder sua grandeza aristocrática por uma noite e andar com seu bando. E foi assim que a coisa ficou entre eles, embora as convenções ditassem que, em público, um devia ser o senhor e outro, um servo.
Um lictor estava agitando um galho de oliveira para sinalizar uma procissão e o deteve quando ele estava prestes a atravessar a rua. Fábio estava atrás de um grupo de espectadores e olhou de um lado a outro para ver se havia como atravessar, porém pensou melhor e não o fez. Se fosse uma procissão religiosa, os lictores o perseguiriam e o espancariam, e ele não podia suportar uma transgressão que colocasse sua posição na casa de Cipião em risco. Sua amizade com Cipião Emiliano depois de Fábio tê-lo salvado do espancamento naquela noite foi a grande virada de sua vida, a oportunidade de escapar dos cortiços da margem do Tibre e honrar a memória de seu pai. Ele se lembrava da última vez que vira o pai de armadura completa, perto deste mesmo local, marchando em triunfo depois da Primeira Guerra Celtibera, um centurião da primeira legião resplandecente em sua corona civica e com as braçadeiras de prata com que fora recompensado por heroísmo. Mas a isso se seguiram anos de paz, e, quando as legiões foram novamente convocadas, ele estava velho e maltratado demais por sua fraqueza pelo vinho, e depois disso os tempos difíceis só pioraram. Fábio sabia que o nome do pai era o motivo pelo qual o pai de Cipião, Emílio Paulo, o aceitara em sua casa como servo e indicara seu nome para a primeira legião quando ele chegou à idade adequada. Se Emílio Paulo e o avô adotivo de Cipião, o grande Cipião Africano, tivessem recebido poder do Senado, Roma não teria abandonado seu pai; teriam garantido que os soldados experientes continuassem nas fileiras e não fossem jogados de volta à vida civil, em que suas habilidades eram desperdiçadas e à qual eles não conseguiam se adaptar.
Fábio espiou por sobre a cabeça das pessoas para ver o que passava. Eram doze Virgens Vestais, enfeitadas com guirlandas de folhas de louro e vestindo branco, seguidas por um grupo de meninas que serviam como suas criadas, espalhando incenso e pétalas de flores sobre os espectadores. Em meio às serviçais ele viu Júlia, seu cabelo louro visível acima das outras. Ela deveria estar com ele hoje, juntando-se aos rapazes em segredo para estudar táticas de batalha enquanto o velho centurião estava fora. Era função de Fábio acompanhá-la à academia e depois levá-la para fora por uma entrada nos fundos assim que ouvissem a pancada do bastão do velho centurião no corredor. O maior medo de Júlia era ser obrigada a passar tanto tempo com as Vestais que acabasse se tornando ela própria uma delas, mas faltar à procissão de hoje teria sido subverter a tolerância que sua mãe demonstrava para com o tempo que ela passava com os jovens na academia, a única coisa que tornava tolerável para ela a vida de menina aristocrata em Roma, com todas as suas convenções e restrições.
Júlia o viu, abriu um sorriso, e ele acenou. Meses antes ela o procurara nos aposentos dos servos da casa de Cipião e acariciara seu cabelo, admirando seus cachos castanho-arruivados. Ele ficou momentaneamente confuso, com o coração aos saltos, e disse a ela que a cor de seu cabelo vinha da mãe, filha de um chefe celta aprisionado no calabouço tuliano embaixo do Monte Capitolino e guardado pelo pai de Fábio. Ele sentiu a respiração de Júlia se acelerar, empolgada talvez com o exótico, com um rapaz que não era de sua classe social, nem mesmo inteiramente romano, abrindo as possiblidades do mundo para ela. Mas ele recuperou o juízo e se afastou dela. Ele não era assim tão inocente aos prazeres das mulheres; de vez em quando gastava alguns asses que ganhava no prostibulu da casa de banhos, e tinha admiradoras entre as meninas de seu próprio bairro. Mas sabia que não podia ter esperanças com Júlia. Como servo, pouco mais do que um escravo, ele seria expulso da casa se fossem descobertos, ou coisa pior. E, acima de tudo, ele sabia que Cipião era apaixonado por Júlia, um amor que tinha florescido secretamente nos meses que se sucederam, depois de Júlia ficar consciente de seus sentimentos, apesar de seu noivado desde a infância com um primo distante de Cipião, Metelo. Se Fábio perdesse a proteção de Cipião, nunca ficaria novamente acima das ruas. Mas era a amizade de Cipião que mais importava, uma amizade que enriquecera sua vida, que o apresentara a Políbio e a um mundo de livros e conhecimento que iluminara sua imaginação e igualara seus sonhos aos de Cipião, para ver o mundo que o pai vira como soldado e que ele próprio desejava explorar.
A procissão passou e Fábio correu pela rua até a Escola de Gladiadores, passando pelo aglomerado de vielas e casas de madeira até dar na construção de dois andares que cercava a arena de treino. Abriu caminho pelos soldados velhos e aleijados que pediam esmola na entrada, passou pelo monte de areia usado para limpar o sangue e depois pelo estábulo onde guardavam Aníbal, o velho e calejado elefante de guerra que era o último sobrevivente da marcha de seu homônimo sobre os Alpes quase cinquenta anos antes — o último prisioneiro cartaginês vivo em Roma. Fábio correu por uma passagem escura e subiu a escadaria que dava em uma porta fechada, com o cuidado de não roçar nas velas de sebo que crepitavam pelas paredes. Oficialmente, a academia era uma escola particular para instrução de filhos de senadores em filosofia e história, composta por professores recrutados entre as centenas de prisioneiros gregos levados a Roma desde que a guerra contra a Macedônia havia começado. Extraoficialmente, era uma escola de treinamento criada por Cipião, o Velho, antes de sua morte para garantir que a geração seguinte de líderes de guerra romanos fosse mais habilidosa do que a anterior, e mais capaz de controlar as agitações do Senado. Foi graças a esse último fato que Cipião, o Velho, manteve a academia o mais privativa possível, longe dos olhos daqueles que desconfiavam de tudo que ele fazia. Teoricamente, o velho centurião Petreu era o único a instruir os rapazes na luta de espadas, mas por duas manhãs da semana, atrás de portas fechadas, eles tinham permissão para encenar as grandes batalhas do passado, batalhas que o centurião e outros veteranos traziam para que eles as organizassem com base na própria experiência de tática e combates.
Ele abriu a porta e entrou furtivamente, fechando-a silenciosamente atrás de si. O cômodo era amplo, sem janelas nos lados que davam para a rua, mas com uma galeria aberta do outro lado, dando para a arena no pátio abaixo. Dois escravos estavam em serviço perto da parede do fundo, segurando bandejas com frutas e jarros de água, ao lado de uma passagem aberta que vinha do pátio, onde o velho centurião fazia sua entrada. No meio da sala havia uma mesa grande, de cerca de três braços de comprimento, coberta com o diorama de um campo de batalha. O terreno era representado por areia, pedras e tufos de grama, e os exércitos oponentes, por blocos de madeira pintada, organizados em fileiras. Fábio sabia exatamente qual batalha estava sendo representada ali. Quando Políbio lhe ensinou grego, leu uma passagem sobre a batalha na história da guerra contra Aníbal que Políbio estava escrevendo desde que havia chegado da Grécia como um cativo voluntário que sempre fora um grande admirador de Roma. E o velho centurião tinha lhe falado sobre isso, uma testemunha ocular que combatera ali, ao lado do próprio Cipião, o Velho. Petreu levou Fábio à taberna uma noite e ele passou horas bebendo vinho e ouvindo histórias. Foi a Batalha de Zama, o último confronto com os cartagineses no Norte da África, que obrigou Aníbal a se render e a cidade de Cartago a se colocar à mercê de Cipião, quase trinta e cinco anos antes.
A mesa era iluminada por velas nos quatro cantos e por uma claraboia aberta no teto. À meia-luz, Fábio distinguia mais ou menos uma dezena de figuras nas sombras ao fundo, inclusive a figura barbada de Políbio, mais alto do que os outros e uns quinze anos mais velho, hoje presente como professor a fim de melhorar sua compreensão das táticas romanas para um volume especial das Histórias que estava escrevendo.
Cipião estava curvado, as mãos sobre a mesa, olhando com atenção. Fábio lhe entregou silenciosamente as caneleiras de bronze que estava carregando, e Cipião as vestiu, amarrando-as habilmente nas panturrilhas e assentindo em agradecimento para Fábio antes de voltar o olhar para a mesa, concentrando-se. Fábio conhecia o protocolo. Eles haviam terminado de reconstituir a batalha real e agora entravam na esfera da especulação. Cada um deles se aproximaria da mesa e alteraria uma série de variáveis, e o seguinte sugeriria possíveis resultados. Era um jogo de tática e estratégia para mostrar com que facilidade o curso da história podia ter sido alterado. Cipião, como líder do grupo, era o último jogador, e Políbio, como jogador anterior, impusera-lhe um desafio.
— Você retirou os celtiberos — murmurou Cipião.
— São mercenários, lembra-se? — respondeu Políbio. — Quase todo o exército cartaginês é de mercenários. Imaginei que na véspera da batalha eles exigiram seu pagamento e Cartago não tinha mais ouro algum. Assim, eles sumiram na noite.
Outra voz se intrometeu.
— Soube do boato que os cartagineses ressuscitaram o Batalhão Sagrado? Uma unidade de elite composta inteiramente por nobres cartagineses. Dizem que foi ressuscitado em segredo, para realizar a última defesa de Cartago, creio que devemos atacar novamente.
Cipião levantou a cabeça.
— Meu amigo dramaturgo Terêncio também me contou isso. Ele foi criado em Cartago, então deve saber. Mas isso é irrelevante para o jogo. Em Zama o ano é 551 ab urbe condita, e o Batalhão Sagrado foi aniquilado anos antes. — Ele se voltou para o diorama. — Assim, retirando os celtiberos, a vitória de Roma é ainda mais certa.
— Não necessariamente — respondeu Políbio. — Veja seu suprimento de comida.
Cipião olhou rapidamente um grupo de moedas coloridas atrás das linhas romanas e resmungou.
— Você esgotou três quartos dele. O que aconteceu?
— Na preparação para a batalha, os romanos pilharam a terra, pegando todas as safras de uma vez em lugar de armazenar cautelosamente visando uma longa campanha. Por três semanas antes da batalha, os legionários viveram com metade da ração.
— Assim, o moral despenca. E a capacidade física. Um exército vive de sua barriga.
— E fiz outra alteração, a terceira que me foi permitida. Cipião Africano, seu avô, contou aos legionários que não haverá pilhagens em Cartago se tomarem a cidade. Todos os tesouros roubados dos gregos pelos cartagineses na Sicília serão devolvidos.
— Pior ainda — resmungou Cipião. — Sem comida, sem pilhagem.
— Mas há um fator de salvação — disse Políbio.
— E qual é?
Políbio saiu das sombras.
— Outra alteração, minha quarta e última. Cinco anos antes, Cipião Africano teve permissão do Senado para criar um exército profissional. Montou uma academia para oficiais, a primeira em Roma, na antiga Escola de Gladiadores, idêntica à academia que existe aqui hoje. Consequentemente, quando os legionários foram à guerra, ostentavam o orgulho e a solidariedade de um exército profissional. Eles combateram pelos companheiros, por sua honra, e não pela pilhagem. E os oficiais fizeram jogos de batalhas passadas, assim como nós estamos fazendo, e sempre estavam um passo à frente do inimigo. Desse modo, venceram a batalha, como nós venceríamos.
— E então eles prosseguiram para destruir Cartago — disse Cipião, sorrindo para Políbio. — Sem a interferência do Senado.
Políbio ergueu os olhos para ele.
— E então, o que você faz? Você venceu a batalha e a campanha. Mas venceu a guerra? Quando é que as guerras terminam? Você volta a Roma para seu triunfo e deita em seus louros, ou tira proveito de sua vitória e procura a próxima ameaça a Roma, a próxima região desenvolvida para conquistar?
— Dependeria da vontade do Senado e do povo de Roma — disse um dos outros.
— E de quem fosse o cônsul — acrescentou um terceiro. — Os cônsules ficam no posto por apenas um ano, e, se os cônsules seguintes entenderem que há pouco proveito para si mesmos, podem ordenar que as legiões voltem a Roma.
Cipião franziu os lábios.
— É este o problema. A constituição de Roma estorva qualquer tentativa mais ampla de estratégia.
— As constituições são feitas pelos homens, e não pelos deuses — pronunciou-se uma figura de voz grave. Colocou-se ao lado de Políbio, e Fábio viu que era Metelo, um homem mais próximo da idade de Políbio. Ele já era um tribuno de serviço, estava de licença da guerra macedônia para se recuperar dos ferimentos; já trazia as cicatrizes de garras de águia de sua juventude, quando uma ave de caça errou ao pousar em seu pulso e caiu em seu rosto. — Roma já alterou sua constituição uma vez, quando se livrou dos reis e criou a República — disse ele. — Pode fazer isso novamente.
— Palavras perigosas, Metelo — disse Políbio. — Palavras com laivos de ditadura e império.
— Se isso for necessário para conservar o poder de Roma, que assim seja.
Políbio apoiou as mãos na mesa, olhando o diorama pensativamente.
— Caberá a vocês aqui presentes, a próxima geração de líderes de guerra, encontrar o melhor curso para Roma. Digo apenas isto. O curso da história não é questão de acaso, não é um jogo no qual somos peças como estes blocos de madeira, movimentados por capricho dos deuses. No mundo real, vocês não são peças de jogo; são os jogadores. Seguem as regras do jogo, é verdade, mas as envergam, forçam-nas. As regras não vencem o jogo por vocês: devem fazê-lo vocês mesmos. A história é feita pelas pessoas, e não pelos deuses. Cipião Africano não foi escravo da vontade de uma divindade, mas senhor de si e estrategista.
— E o império? — perguntou Metelo. — Poderá Roma ter um império?
— O imperialismo deve ser baseado na responsabilidade moral para com os governados. O comportamento ofensivo terá sua desforra. Um império não deve crescer para além da capacidade administrativa de suas instituições.
— Então já fizemos isso — disse Metelo. — Já temos províncias, mas ainda não temos a organização para administrá-las. Somos um império em tudo, exceto no nome, todavia Roma insiste em se comportar como uma cidade-estado. Algo deve mudar. Alguém deve se elevar acima de tudo e enxergar o futuro. Como você nos ensinou, Políbio, a história é feita pelos indivíduos, e são eles, não as instituições, que induzem à mudança. Por isso existe esta academia. É para criar futuros imperadores.
— Não creio que tenha sido exatamente essa a intenção de meu avô — disse Cipião, olhando Metelo friamente.
— Devemos deixar de avaliar o passado? — questionou um dos outros. — As lições para as guerras do futuro estão nas guerras de nossos ancestrais.
Políbio afastou-se da mesa.
— Este é o estilo de Roma, sentir que os bustos dos ancestrais que todos vocês têm na tablinae de suas casas estão cuidando de vocês constantemente, orientando-os. Mas às vezes precisamos prestar nossas homenagens ao passado e então fechar essa porta, e olhar unicamente para o futuro. Estudar a história e aprender com o passado, mas nem sempre se trata de procurar um precedente nela. A estratégia e as táticas na guerra são baseadas na experiência de guerras passadas, porém cada nova guerra é única. O mundo não é estático. Se você escolher olhar para frente, e o fizer agressivamente, aprendendo todas as lições ensinadas na academia, aí poderá mudar a história. A história não está estendida diante de nós como um tapete que se desenrola eternamente. Talvez vocês possam tecer seus próprios fios nele, ou podem desviar o tapete e fazer com que caia pela escada rumo ao desconhecido. Esta é minha lição de hoje. Terminamos com um pensamento final da parte de cada um de vocês, como sempre. Ênio?
— Cumpra sua palavra. Só então as cidades se renderão a você.
— Muito bem. Cipião?
— Em uma nova província, defina suas fronteiras — disse Cipião. — Caso contrário, a guerra é inevitável.
Políbio assentiu.
— Quando Cartago teve permissão de manter parte de seu território na África depois da Batalha de Zama, as fronteiras estavam maldefinidas. Essa era uma receita para a guerra. Lúcio?
— Explore a superstição. Se seu exército sentir que detém orientação divina, estimule-o a acreditar nisso.
— Brutus?
— Castigue fortemente os conquistados que não lhe rendem obediência, para inspirar medo e terror.
— Por Zeus — murmurou Políbio. — Parece algo vindo de Esparta.
— Meu pai me ensinou — disse Brutus, com os braços imensos cruzados no peito. — Dizia que haveria mais na academia do que no combate com espadas, e que eu deveria estar pronto com algumas ideias.
— Talvez seja melhor você se ater a seus pontos fortes — murmurou Políbio. — Fábio?
Fábio ficou desconcertado.
— Estou aqui apenas como servo de Cipião, Políbio. Jamais liderarei um exército.
— Pode não liderar um exército, mas homens como você serão sua espinha dorsal. O que diz?
Fábio pensou por um momento.
— A covardia não deve ficar sem punição.
Políbio assentiu lentamente, depois sorriu.
— Muito bem. É gravitas suficiente por hoje. Hipólita se ofereceu para ensinar a vocês como usar um arco cita. Encontrarei todos na arena em meia hora.
Cipião falou, levantando-se e se espreguiçando:
— Vinte minutos de descanso antes da chegada do centurião. Bebam água e comam algumas frutas. Vão precisar, se forem para a arena.
Políbio apontou o diorama.
— Se Júlia estivesse aqui, poderia ter nos dito mais. O pai dela, Sexto Júlio César, esteve em Zama como tribuno menor. Ela conhece a batalha como a palma da mão.
Cipião olhou em volta, sentindo a ausência dela de repente.
— Alguém viu Júlia?
— Ela não virá hoje — disse um dos outros. — Está acompanhando a mãe ao templo das Virgens Vestais para alguma cerimônia.
— Vamos esperar que as Virgens não a tomem. — Alguém reprimiu o riso. — Isso nos privaria de alguma diversão. Isto é, se Cipião nos permitir.
— Cale-se, Lúcio — disse Políbio, cansado. — Ou Cipião pedirá ao amigo Brutus aqui para decepar sua virilidade.
Fábio viu Cipião agarrar o amuleto no pescoço que, ele sabia, tinha sido presente de Júlia, um antigo apetrecho etrusco de uma águia legada a ela por sua gens, depois baixou os olhos, irritado. Ele sabia que Cipião odiava a si mesmo por revelar seus sentimentos por Júlia. Ele viu Metelo olhar fixamente para Cipião, inquisitivamente, e de repente se lembrou. Metelo estivera fora, na Macedônia, por quase dois anos, e então não tinha ideia dos afetos de Cipião por Júlia. Cipião meneou a cabeça com desprezo, como se Júlia não tivesse importância para ele, e então se aprumou e cruzou os braços, assentindo para o diorama.
— Espero que todos vocês memorizem toda a ordem da batalha, até o último manípulo e unidade auxiliar menor. Podem passar os próximos vinte minutos fazendo isso. Quando o centurião retornar, ele aplicará um teste. Errem um único movimento e sabem o que acontecerá. Posso lhes garantir que a dor de seu bastão de videira será maior do que qualquer coisa que Brutus possa aplicar. Agora vão.
No silêncio que se seguiu, Fábio passou os olhos pela sala. A maioria deles tinha 16 ou 17 anos, estavam no auge da virilidade, vários eram um ou dois anos mais jovens. Quando as trombetas da guerra soassem, quando o centurião os considerasse preparados, eles seriam nomeados tribunos militares do exército de Roma, o primeiro degrau na escada que poderia levar aqueles que sobrevivessem a comandar legiões, liderar exércitos, até mesmo ao consulado, o posto mais alto da República. Eles descendiam das maiores famílias nobres de Roma: a gens dos Júlios, a gens dos Júnios, dos Cláudios, dos Valérios, e o ramo adotivo de Cipião da gens dos Cornélios, os Cipiões. Em suas amplas casas no Palatino havia templos repletos de bustos de cera de ancestrais que tinham conquistado a glória na guerra, alguns remontando aos tempos de Rômulo e da fundação da cidade, quase seiscentos anos antes, e muitos da sucessão de guerras arrasadoras que Roma havia travado em séculos recentes: contra as tribos latinas e os etruscos perto de Roma, contra os celtas no Norte, contra as colônias gregas da Itália e da Sicília, e sobretudo na luta titânica contra Cartago, um conflito que começara quase cem anos antes e ainda assombrava a todos, uma guerra que deveria ter terminado com a Batalha de Zama se os senadores tivessem permitido o ato de destruição que teria garantido o predomínio de Roma no Mediterrâneo ocidental e permitido que ela concentrasse todo seu poder na Grécia e nas riquezas do Oriente.
E não eram todos homens. Fábio deixou seus olhos se demorarem no canto escuro da sala e a viu, mais alta do que qualquer um deles, exceto Políbio, olhando tudo atentamente, seus olhos se fixando aos dele brevemente. Seu cabelo ruivo ondulado estava preso em um rabo longo atrás da cabeça, e seus olhos estavam pintados com kajal. Na arena, tirava a gargantilha e as pulseiras de ouro e lutava sem armadura, usando apenas uma pele de tigre branca enrolada firmemente na cintura e no peito. Eles ficaram impressionados com a tatuagem em suas costas, uma águia de garras estendidas que ia de uma omoplata à outra. Conheciam-na por seu nome grego, Hipólita, que significava égua selvagem, porém o centurião lhes havia dito, antes de ela chegar, que o nome no idioma dela era Oiropata, que significava “assassina de homens”. Eles zombaram disso, mas todos se calaram quando ela passou pela porta e eles viram seu físico. Ela era uma princesa cita, filha de um rei cliente das estepes ao norte do mar Negro, e o centurião explicou que havia mais iguais a ela, amazonas e arqueiras, e que um dia ela poderia liderar uma ala de cavalaria cita junto a um exército romano. Políbio falava o idioma dela e lhe fizera perguntas extensas sobre a história cita, ajudando-a a melhorar seu latim. Os outros guardavam distância, temerosos de ser escolhidos pelo centurião para lutar contra ela num combate sem armas e suportar a humilhação da derrota quase certa.
E havia Júlia. Ela era do ramo César da gens dos Júlios, filha de Sexto Júlio César, que havia combatido como tribuno em Zama. Não era uma princesa guerreira como Hipólita, mas possuía a mente perspicaz e estratégica e teria derrotado a todos naquele dia com o conhecimento de batalha que fez a fama de seu pai. Fábio havia notado como Júlia fazia a pulsação de Cipião se acelerar, como aconteceu quando ela o estava observando lutar na arena e ele fora possuído por uma força que parecia vir dos deuses. Fábio mesmo sentira uma pontada de dor quando notara a afeição de Júlia por Cipião pela primeira vez, fazendo-o se recordar da noite quando ela o procurara nos aposentos dos serviçais, porém aquele incômodo foi embora rapidamente. Ele se lembrou do olhar que Metelo tinha lançado para Cipião. Fábio sabia que Cipião temia pela chegada de Metelo e ao mesmo tempo a acolhia: temia porque podia romper o laço entre ele e Júlia, acolhia porque poderia ajudar a reprimir os sentimentos que ele nutria por ela, sentimentos que podiam ameaçar sua carreira. Metelo era prometido de Júlia desde que ela era bem pequena, e era primo em segundo grau de Cipião por parte de mãe.
O próprio Cipião estava enredado em deveres sociais; era filho de Emílio Paulo, da gens dos Emílios, mas também filho adotivo de Públio Cornélio Cipião, filho mais velho do grande Cipião Africano, que também era tio-avô de Cipião por parte de mãe. Fora entregue para adoção apenas porque tinha dois irmãos mais velhos, pois o terceiro filho nunca recebia os mesmos privilégios em sua carreira; sem a adoção, ele nunca teria condições de se tornar tribuno militar, como era agora. Era uma honra imensa ser adotado pelo filho de Cipião Africano, mas isso também trazia o fardo de seu próprio noivado com Cláudia Pulchra, da gens dos Cláudios, uma menina com quem ele antipatizava profundamente que não fazia jus a seu sobrenome, mas que ele sabia estar contando os dias, com a respiração suspensa, até seu décimo oitavo aniversário e o início formal dos ritos de casamento. Sempre que ele e Fábio tinham de se aproximar da casa no Monte Esquilino, tomavam desvios complicados para não serem vistos do caramanchão onde ela ficava sentada com as escravas observando a cidade, ansiando pelo futuro das rondas sociais e maquinações com as senhoras de outras gentes que Cipião temia muito mais do que o pior inimigo no campo de batalha.
Mas colocar-se contra essas obrigações, dar vazão a seus sentimentos por Júlia, seria trair a memória de Cipião Africano e a confiança de seu próprio pai biológico, arriscar-se a ser proscrito e perder tudo. Certa vez, quando ele e Fábio estavam deitados lado a lado à noite na encosta do Circo Máximo, olhando as estrelas e dividindo um jarro de vinho, Cipião confidenciou a ele o que sentia por Júlia, mostrou-lhe o amuleto e falou de sua frustração. Disse-lhe imaginar uma época em que, como general vitorioso, ele se livraria dos grilhões de Roma e a levaria consigo; mas ambos sabiam que à luz fria da manhã isso podia ser pouco mais do que um sonho; que, mesmo se acontecesse, seria apenas muitos anos depois, quando Cipião fosse um soldado endurecido pela batalha e seu amor por ela talvez fosse uma lembrança distante. Fábio sabia muito bem o que estava em risco para Cipião, como a carreira que ele via se desenrolar seria impelida pela consciência do sacrifício que ele estava fazendo em honra a seu pai e a Cipião, o Velho, além de satisfazer à própria ambição ardente de liderar o maior exército que Roma já tinha visto de volta a Cartago para dar um fim a um conflito que ainda podia ameaçar destruir seu mundo.
Fábio parou no início daquela manhã no Fórum e olhou o fasti consular, a lista de nomes de cônsules do passado que representavam todos das grandes gentes patrícias de Roma, os antepassados dos rapazes da academia. Lembrou-se da primeira vez em que entreouvira os professores gregos na academia ensinarem moralidade aos meninos: eles deviam ter coragem e deviam ter fides, ser fiéis a sua palavra e moderados em sua vida pessoal. Ele sorriu consigo quando ouviu isso; tinha visto o que os rapazes faziam à noite nas tabernas e nos bordéis nos arredores do Fórum. Mas isso foi antes de ele conhecer Cipião. Ele era capaz de lutar e brigar como qualquer um deles, e isso o aprazia; Fábio sabia muito bem, por seu primeiro encontro com ele anos antes, nas vielas perto do Tibre. Mas Cipião não cedia aos vícios, como os outros rapazes. Era como se algo o contivesse, o reprimisse. Ele sabia, de estudar os fastes, que Cipião era o mais nobre de todos, um rapaz cuja gens de nascimento era bem elevada, mas cujos riscos eram ainda maiores por ser adotado pela família de Cipião Africano, um homem que ainda provocava tremores por Roma mais de trinta anos depois de sua vitória na guerra contra Aníbal. Fábio se perguntara se a história não pesava demais no jovem Cipião, se ele não levava aquele fardo demasiado a sério. Um menino que apenas se distinguiria a seus próprios olhos se igualasse as realizações do pai e do avô adotivo, ambos generais ilustres, não podia ceder a seus desejos fundamentais nas tabernas e nos prostíbulos da cidade, se um dia precisasse exercer sua autoridade moral para liderar Roma à vitória.
Porém Fábio sabia que havia mais do que isso. Cipião era tímido e podia parecer distante, o que já lhe rendera a zombaria daqueles sem imaginação para ver sua força interior, mas com poder para humilhá-lo e atormentá-lo enquanto ele ainda ostentava as vulnerabilidades da adolescência. Cipião era romano até a alma, um verdadeiro exemplo da moralidade romana, não alguém que simplesmente a louvava da boca para fora como tantos outros faziam. No entanto também se beneficiava do rigor intelectual de uma educação grega e era capaz de enxergar onde Roma se tornara autocentrada, onde a vida que a aristocracia esperava levar não tinha mais a nitidez dos velhos tempos. Ele odiava a oratória e a sofística que deviam aprender nos tribunais, as habilidades com as quais veriam os filhos dos patrícios subirem firmemente pelo cursus honorum, a sequência gradual de magistraturas essencial à ascensão ao mais alto posto, ao consulado. Sobretudo, detestava o fato de o cursus honorum também ser o caminho para o comando do exército, em vez de a experiência militar em si. Cipião tinha de suportar o olhar crítico daqueles que questionavam a capacidade de um jovem ascender ao alto posto e honrar sua gens, um jovem que, em vez de estar nos tribunais, passou seus dias estudando estratégia militar e aprendendo esgrima, e que usava seu tempo livre caçando nas montanhas, o mais distante possível de Roma.
Mas um dia Fábio ouviu o pai de Cipião, Emílio Paulo, falar a respeito dele com sua mãe na casa deles, que Cipião estava correspondendo às esperanças que Africano expressara para seus sucessores, para a geração seguinte de líderes de guerra romanos. Disse que a chave era a moralidade, um código de honra pessoal. Emílio Paulo sabia que o filho sofreria por isso, mas que sua sensibilidade às críticas alheias seria solo fértil para sua força. Cipião já possuía a reputação de cumprir com sua palavra, por sua fides, e sua abstinência da devassidão também era um bom sinal. Foi então que Fábio tomou como missão pessoal vigiar Cipião, não só para protegê-lo fisicamente como também para evitar que ele fosse arruinado pela própria sensibilidade e que desenvolvesse um ressentimento por Roma que seria autodestrutivo. Vê-lo ali, à frente dos rapazes na academia, era um passo importante na direção certa, embora ainda houvesse muitos desafios a enfrentar.
Ele olhou a ampulheta na mesa, notando que os vinte minutos de estudo estavam quase encerrados e os rapazes ficavam indóceis. Ênio estivera trabalhando em alguma coisa no canto, e Fábio esperava mantê-los preocupados até a chegada de Petreu. O que aconteceria, então, dependeria do humor do velho centurião naquele dia, da quantidade de banhos capazes de atenuar o fogo que grassava dentro dele. Fábio sorriu consigo quando viu o mais novo egresso na academia, o primo de Cipião, Caio Paulo, empalidecer à menção da chegada iminente do centurião, sua reputação temível o precedendo. Estivesse ou não Petreu num estado de espírito compassivo, não havia dúvida de que o próximo grande desafio que os rapazes enfrentariam não seria um inimigo distante no campo de batalha macedônio, mas a própria encarnação de tudo que havia de forte na própria Roma. O velhão centurião Preteu estava prestes a se abater sobre eles e distribuir a sabedoria e tenacidade que um dia poderiam fazer com que alguns se equiparassem a tal homem no campo de batalha.
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