Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 19 de 29

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Total War Rome: Destruição de Cartago

Capítulo 15

Em geral, a guarda da entrada do porto externo através da muralha da cidade era de aparência tipicamente cartaginesa: homens de pele morena, cabelos pretos cacheados e barba, descendentes de antepassados fenícios que séculos antes tinham deixado sua terra natal no leste do Mediterrâneo para escapar do turbilhão que se seguiu à Guerra de Troia, descobrindo Cartago pouco antes de o príncipe troiano Eneias aportar pela primeira vez na costa da Itália e deitar os olhos na região de Roma seiscentos anos antes. Os dois guardas mais próximos de Fábio portavam longas lanças de arremesso com base de bronze para que não enferrujasse quando batessem em terreno úmido, bem como as espadas curvas kopis de estilo grego: armas de aparência temível, com lâmina afiada na face interna, entretanto menos eficaz em combates corpo a corpo do que a espada romana de arremesso de lâmina reta. Em vez de armaduras de metal, usavam o característico corselete cartaginês de linho endurecido, sem espessura suficiente para desviar uma investida determinada, porém com o exterior branco e um peso menor que os tornavam mais adequados para o sol africano do que a armadura de metal romana.

Seu equipamento mais impressionante era o capacete, feito de ferro altamente polido com uma coroa bulbosa que se erguia e se estendia para a frente, e peças faciais destacáveis; as peças cobriam o rosto inteiramente, deixando apenas aberturas para os olhos e a boca, e eram trabalhadas em relevo para representar os pelos faciais. Ver aqueles capacetes fez Fábio prender a respiração e se lembrar dos sonhos de infância. Eram exatamente como o pai os descrevera da Batalha de Zama mais de cinquenta anos antes, a última vez que os romanos encontraram os cartagineses em uma batalha convencional. Políbio, em suas Histórias, escarneceu dos cartagineses por usarem mercenários demais e por colocarem em campo uma força recrutada sem treinamento constituída pelos próprios cidadãos, mas Fábio sabia pelo pai que as fontes de Políbio haviam exagerado para desviar a atenção das deficiências na linha romana, em especial a divisão de forças dentro de cada legião segundo a experiência e a qualidade de suas armas e armaduras. Vendo esses guardas ali hoje, confiantes em sua postura e na forma como seguravam seu armamento, tão parecidos com a descrição de seu pai daqueles que supostamente eram recrutas maltreinados, Fábio começava a entender como a batalha de infantaria em Zama durara horas antes de a cavalaria de Massinissa chegar e pender a balança em favor dos romanos. Entretanto, aqueles homens hoje não pareciam sombras do passado, uma força policial simbólica consentida a um inimigo derrotado, mas guerreiros altamente treinados e endurecidos, homens que provavelmente sangraram nos embates de fronteira nos últimos três anos com a cavalaria de Gulussa e as forças expedicionárias romanas. Se houvesse mais homens como aqueles reunidos dentro das muralhas de Cartago, um assalto à cidade pelos romanos não seria a vitória fácil que alguns tinham previsto.

O kybernetes voltou da conversa com o oficial aduaneiro, assentiu para Cipião e gesticulou para a entrada da muralha da cidade, depois da torre da guarda.

— Vocês estão autorizados a passar ao corredor dos mercadores, nome que eles dão à colunata entre o porto externo, onde estamos agora, e os dois portos interiores, o porto retangular para o comércio controlado pelo estado e o porto de guerra circular. Oficialmente, vocês não podem ter acesso àqueles portos internos ou à cidade. Se encontrarem um jeito de fazer isso, estarão por conta própria. Zarparei assim que vocês retornarem. Seu propósito declarado é concluir um acordo com um mercador de vinho cartaginês e não mais do que isso. Se demorarem mais do que o necessário, os guardas portuários ficarão desconfiados. E se eu entrar no corredor dos mercadores com vocês, estarei sujeito a servir à força à marinha cartaginesa. O único lugar onde os marinheiros têm imunidade é aqui fora, e estarei ocupado com os fornecedores para abastecer meu barco de suprimentos. O que quer que aconteça, não devem jamais revelar seus nomes. Para Cartago, apanhar o herdeiro de Cipião Africano em missão secreta dentro de suas muralhas seria soar a sentença de morte para qualquer tentativa romana de tomar a cidade. Eles iriam exigir um resgate extorsivo, expondo-o como motivo de riso que minaria o prestígio romano em toda parte e destruiria o moral das legiões. É muito melhor morrer lutando ou cair pela própria espada do que ser ameaçado de captura. Boa sorte.

Ele se afastou em direção a um vendedor de cordame junto ao cais. Cipião passou pelos soldados com confiança, Fábio ficou a uma distância adequada atrás dele, e instantes depois estavam atravessando a muralha da cidade. O espaço em colunata por onde haviam entrado era longo e estreito, ladeado não por depósitos, como o cais, mas por pequenas officinae com mesas e bancos de mármore. O lugar se assemelhava menos ao caos animado da praça de mercadores que Fábio conhecia bem do porto de Roma em Óstia, paradeiro favorito dele quando menino, do que aos tribunais do Fórum, com grupos de homens envolvidos em discussões solenes. Sentado no escritório ao lado da entrada, estava um homem de manto tingido de roxo, a cor que os fenícios extraíam de uma espécie rara de concha; era o jeito mais fácil de localizar um oficial do estado cartaginês. Na mesa de pedra diante dele havia uma balança romana e uma fila de pesos em encaixes entalhados no tampo, e no fundo da officina, uma caixa-forte de pedra guardada por dois soldados corpulentos. Evidentemente era uma instalação de troca, e Fábio conseguia ver outras entremeadas entre as colunatas. O lugar era claramente administrado por autoridades cartaginesas e não por mercadores independentes, e suas transações não eram os acordos pequenos de um típico negócio de transporte em Óstia, realizando em vez disso permutas de alto valor, o que era evidenciado por uma transação que alguns oficiais faziam mais abaixo, em que o prato da balança continha uma pilha alta de moedas de ouro.

Cipião caminhou pela colunata, olhando os dois lados como se procurasse por determinado mercador, depois se virou despreocupadamente para Fábio e assentiu para a colunata oposta.

— Tem uma entrada entre as colunas — disse ele com a voz baixa. — É uma passagem estreita guardada por dois soldados a meio caminho daqui, fora da vista de qualquer um, a não ser que se esteja olhando atentamente. Deve levar aos portos fechados. Nosso disfarce de mercador e seu servo não nos servirá de mais nada se quisermos passar por ali. Nossa única chance será como soldados cartagineses. Quando eu der o sinal, você cuida daquele à direita.

Fábio seguiu Cipião quando ele virou no beco e se aproximou dos soldados, que usavam armas e equipamento do mesmo estilo daqueles dos homens da entrada. Ambos tinham as peças faciais abaixadas, cobrindo o rosto, mas, a julgar pelas longas barbas, pareciam mercenários do Oriente, talvez assírios. O homem da esquerda avançou um passo, batendo a lança no chão.

— Não têm permissão para passar — disse ele, seu grego pouco compreensível. — Por ordem do almirante.

— O almirante? — perguntou Cipião, fingindo ignorância. — Então é por aqui que se chega ao porto circular?

— Sim, mas não ao porto que vocês desejam — grunhiu o homem. — Seu porto fica no lugar de onde vieram. Vocês, mercadores, são ainda mais tolos do que eu pensava. Não têm senso de direção.

Cipião se virou, fingindo uma expressão confusa, mas na realidade olhando a viela para se certificar de que não estavam sendo observados. Captou o olhar de Fábio e assentiu quase imperceptivelmente. Com um movimento rápido como um raio, ele girou o corpo e deu um forte murro no pescoço do soldado, segurando-o enquanto ele caía e torcendo sua cabeça violentamente de lado até ouvir o estalo nos ossos. No mesmo instante, Fábio fez o mesmo com o outro homem, segurando sua cabeça e baixando-o gentilmente no chão. Não houve barulho, nem sangue. Eles arrastaram os dois homens para fora da viela até um canto escuro atrás de um muro, depois os despiram rapidamente, tirando as próprias roupas e vestindo a armadura dos soldados, colocando os capacetes e fechando as peças faciais para cobrir o rosto. Os corpos jaziam de olhos abertos, apanhados pelo choque da morte imediata. Cipião jogou as roupas descartadas sobre os cadáveres para que parecesse uma pilha de trapos. Pegaram as lanças, saíram da viela, viraram-se e caminharam com rapidez pelas colunas de um pórtico que se estendia em ângulo reto do corredor dos mercadores por várias centenas de pés, depois deram uma guinada para a direita por uma abertura em direção a uma cintilação de água.

Cipião parou por um momento, procurando ouvir qualquer sinal de perseguição, sem escutar nada. Fábio respirou fundo e viu que suas mãos tremiam. Isso sempre acontecia depois que ele matava, a onda de adrenalina, como beber um gole caprichado de vinho ao final de uma longa corrida, seu coração bombeando o néctar pelas veias e fazendo-o tremer. E não era que ele gostasse de matar. Tirar a vida daqueles dois homens lhe parecera o primeiro ato do fim de jogo, como se o assalto a Cartago finalmente estivesse em ação.

Saíram na margem do porto retangular cercado, uma bacia que levava a uma entrada fortificada no lado leste, com a montanha de picos gêmeos de Bou Kornin visível ao fundo. Fábio percebeu que o porto devia ficar posicionado paralelo ao outro, o porto externo, onde a Diana atracara, só que era inteiramente artificial e sem litoral. Havia outros dois barcos atracados ali, um deles um típico navio mercante de casco largo no estilo fenício, com olhos pintados abaixo da proa, e outro com uma estrutura mais suave que não era nem uma embarcação de guerra, nem mercante, tinha amuradas mais altas e mais fortes do que Fábio estava acostumado a ver. O embarcadouro estava ladeado por cestos com pedaços de pedra, alguns reluzentes e metálicos. Enquanto passava com Cipião, um escravo desceu de uma prancha e levou outro cesto ao chão, transpirando e praguejando. Então olhou com tristeza para Fábio, que parou para observar.

— Fique à vontade para dar uma ajuda, se não tiver nada melhor para fazer — disse o escravo em um grego de sotaque acentuado. — Eu estou acabado.

— O que tem nos cestos? — perguntou Fábio.

— Minério de estanho, das Cassiteritas, as ilhas de Estanho — disse o homem. — Pelo menos é assim que os marinheiros púnicos chamam o lugar, com o nome grego, mas eu conheço por um nome diferente. Alguns de nós, do oeste da ilha, chamam-na de Albion, outros, de Bretanha. Era meu lar, onde eu era feliz cuidando de minha vida até que fui apanhado durante a incursão de um chefe tribal vizinho, vendido aos gauleses, negociado por uma ânfora de vinho com um transportador italiano, depois dado de presente por ele a um mercador cartaginês para acertar algum acordo. Então cá estou, escravo de um capitão fenício que estava prestes a me levar por mar de volta à minha terra natal para ajudar a carregar mais destas coisas. Eu não me importaria muito se os transportassem em lingotes, que seriam mais fáceis de carregar. Eles o mantêm como minério bruto porque o peso das pedras age como lastro nos mares turbulentos do oceano Atlântico.

— Poderia ser pior — disse Fábio. — Você poderia ser escravo nas galés.

— Ou limpar o esterco de elefantes nauseados. — O homem meneou a cabeça para a extremidade do porto. — Vê aquele estaleiro? Estão construindo elephantegoi, transportadores de elefantes. Dizem que nem Aníbal tinha embarcações especializadas para elefantes como esta.

Fábio seguiu o olhar dele, então se voltou para o escravo. Este claramente não morria de amores pelos cartagineses e era tagarela. Fábio sabia que fazer mais perguntas poderia ter suscitado desconfianças se o homem não fosse um escravo, mas neste caso ele podia assumir um risco calculado. Ele enfiou a mão em uma bolsa em seu cinto e pegou uma das moedas de ouro macedônias que Cipião lhe dera mais cedo, caso precisassem subornar informantes em potencial, e a atirou ao homem.

— Conte-me mais.

O sujeito pegou a moeda, fitou Fábio por um instante e escondeu o ouro rapidamente. Ele desatou a falar animadamente com Fábio, contando mais sobre os transportadores de elefantes, porém, depois de alguns minutos, um homem moreno apareceu no convés, estalando o chicote e fuzilando-o com os olhos. Fábio gritou para o escravo, como se o estivesse repreendendo por falar com ele, depois voltou a andar. Não podiam arriscar atrair olhares desconfiados, e parar para conversar com o escravo fora abusar da sorte. Cipião ficou esperando à beira do canal que ligava o porto retangular ao porto de guerra circular, e Fábio apressou-se a se juntar a ele, cochichando:

— É exatamente como disse o kybernetes. Os cartagineses estão importando metal não apenas da Gália, mas também das ilhas Albion. Esta carga vale seu peso em ouro.

Eles passaram rapidamente pelo pórtico ao lado do canal para o porto de guerra. À medida que se aproximavam, uma estrutura extraordinária entrava em seu campo de visão. O kybernetes a descrevera na noite anterior, mas ainda não a tinham visto de dentro. O porto era construído em torno de uma bacia circular que Fábio estimava ter um stade e meio de diâmetro, cerca de mil pés, com largura suficiente para acomodar os quadriremes de quatro séries de remos, e os quinqueremes, de cinco séries, que tradicionalmente eram as maiores embarcações da frota cartaginesa. No centro da bacia havia uma ilha de talvez meio stade, composta por uma estrutura circular que se erguia a uma torre de vigia no meio. O mesmo estilo de pórtico com telhado fora usado em volta da ilha e na margem externa da bacia, um desenho uniforme que tornava a estrutura mais grandiosa do que qualquer coisa já construída em Roma. O mais extraordinário de tudo: os espaços entre as colunas serviam como estaleiros, em torno da borda externa, bem como da ilha. Ele conseguia ver as proas de embarcações de guerra se projetando dali, galés que tinham sido trazidas para cima em planos inclinados. Devia haver pelo menos duzentas aberturas, pelo menos metade delas ocupada. Lá do outro lado, uma seção de galpões era usada para a construção de embarcações, com estacas de madeira e cordame visíveis, e os cascos parcialmente construídos de embarcações apoiados em moldes de madeira. Apenas uma embarcação de guerra flutuava na bacia, trazida ao embarcadouro pouco além da entrada, um pequeno lembos de uma série de remos parecida com os barcos que Fábio vira na frota romana em Miseno, na baía de Nápoles, usada por turmas de remadores para transportar pessoas e mensagens mais rapidamente do que as galés maiores eram capazes de fazer.

Fábio lembrou-se de Políbio na floresta macedônia dez anos antes, contando então dos boatos de que os cartagineses estariam reconstruindo seu porto de guerra; a estrutura não devia ser muito mais antiga do que isso. O aspecto do mármore ainda era novo e brilhava como um espelho, e pilhas dele jaziam em um pátio de construção junto à entrada. O mármore era uma pedra de alta qualidade que provavelmente viera da Grécia, e as colunas do pórtico eram de uma linda pedra cor de mel que Fábio reconhecera de uma tigela que Gulussa lhe mostrara, extraída de uma pedreira recém-descoberta em território númida, a sudeste de Cartago. Aquele porto não era de construção precipitada, feito por um povo desesperado para restaurar parte do vestígio de seu orgulho militar, mas um arsenal muito superior a qualquer coisa da própria Roma ou do mundo grego, uma estrutura construída por um povo que confiantemente esperava projetar seu poder mais uma vez bem além daquelas praias.

Ele sabia que Cipião estaria utilizando cada segundo para avaliar as implicações táticas de um embate naval contra as novas embarcações de guerra cartaginesas. Pouco antes da entrada do porto circular havia outro posto de controle, dessa vez um posto que Fábio sabia nunca poder esperar penetrar, embora conseguissem se aproximar o bastante para ter uma visão melhor do que havia em seu interior. Dois guardas com lanças firmemente plantadas barraram seu caminho quando eles se aproximaram.

— Ninguém entra sem autorização — disse um deles em grego, imaginando que eles fossem mercenários, e não cartagineses. — Eu sou o optio da guarda. Declarem suas intenções.

Cipião colocou-se diante do homem e o saudou, levando o punho ao peito.

— Mensagem urgente de Asdrúbal a Amílcar, strategos da esquadra de pentereis.

O homem grunhiu.

— Não conheço nenhum comandante de esquadra com esse nome, mas sou novo neste trabalho. Do próprio Asdrúbal, você diz? Precisarei ir à ilha do almirante para descobrir. Espere aqui. — Ele estalou os dedos e outro homem saiu da casa da guarda ao lado para assumir seu lugar.

Parecendo irritado, o optio saiu pisando duro pela beira do porto em direção a uma ponte de madeira que levava à ilha no centro. Cipião bocejou, suspirou fundo e se afastou do porto, fingindo desinteresse. Andou lentamente de volta ao porto retangular, parando e colocando as mãos nos quadris, quando sabia que estava fora do alcance dos soldados. Fábio o seguiu e falou em voz baixa.

— Quem no Hades é Amílcar, o strategos?

— Um em cada três homens em Cartago parece se chamar Amílcar, então é provável que exista alguém com esse nome ancorado no porto. Imaginei que o guarda da entrada não saberia o nome de todos os capitães e comandantes de esquadra, mas vi uma galé de cinco carreiras de remos nos abrigos do outro lado, uma pentereis. Só podemos esperar que o strategos da esquadra não se chame Amílcar. Nossa chance de avaliar este lugar é agora, antes que o optio volte, mas precisamos ter cuidado. Não queremos demonstrar interesse demais.

Cipião espreguiçou-se, virou-se e voltou para a frente dos guardas, espiando para além deles e tamborilando os dedos na coxa com impaciência.

— Trate de aguardar, soldado — disse um dos guardas. — É sempre complicado encontrar as pessoas neste lugar. São duzentos e vinte galpões para verificar, além do quartel-general na ilha.

Cipião torceu os lábios.

— Você sabe como é. Se eu não voltar ao Birsa logo com minha mensagem entregue, terei problemas. De qualquer modo, pensei que este lugar fosse o orgulho de Cartago. Devia ser o auge da eficiência.

O homem bufou.

— Há quanto tempo está em Cartago, soldado?

— Apenas alguns dias. Somos mercenários italianos, nos metemos em problemas quando estávamos com o exército de Demétrio na Síria e acabamos como escravos nas galés, mas depois fugimos da embarcação neste porto e oferecemos nossos serviços à guarda antes que nosso capitão pudesse nos reclamar.

— Bem, se são remadores habilidosos, guardem segredo disto. Caso contrário, os cartagineses os recrutarão para suas galés de guerra. Eles construíram este porto e estas embarcações, mas não têm escravos para tripulá-las. Cartago não realizou guerras de conquista desde a época de Aníbal, e a guerra é o único jeito de se conseguir um bom suprimento de homens aptos para as galés. Se querem minha opinião, foi por isso que declararam guerra contra Massinissa novamente, não para conquistar mais algumas milhas quadradas de terras, e sim para capturar númidas a serem usados como escravos nas galés.

O outro guarda se juntou à conversa.

— Dizem que também vão usar gauleses, trazidos como escravos por comerciantes de vinhos. — Ele apontou a ilha com a cabeça.

O optio estava voltando, e os dois guardas se colocaram em posição de sentido. Depois de alguns minutos, o optio contornou o pórtico e marchou até eles, olhando para Cipião com desconfiança.

— Há um Amílcar capitão do trirreme, atualmente subordinado à infantaria, mas não um comandante de esquadra do pentereis. Na realidade, não existe tal esquadra. Resta apenas uma dessas grandes embarcações, e é uma relíquia. Os navios maiores da frota agora são trirremes. Se não puder se explicar, eu o levarei ao almirante para interrogatório.

Ele assentiu rispidamente para os dois guardas, que entreabriram as pernas e seguraram as lanças de prontidão. Fábio sentiu a pulsação se acelerar: aquele era precisamente o tipo de encontro que tinham desejado evitar. Cipião fingiu indiferença, dando de ombros.

— Foi uma nomeação nova, de um dos primos de Asdrúbal. Talvez fosse mais uma patente honorária. Este lugar é tão isolado que a informação não é transmitida com frequência suficiente ao Birsa, e Asdrúbal estava concentrado em outro lugar, na guerra com Massinissa. Voltarei e direi a ele que seu primo Amílcar não foi visto e que as embarcações ainda estão em construção. Talvez isso o convença a vir aqui pessoalmente para uma inspeção.

— Não faça isso — disse o homem rispidamente. — Você ainda não conhece Asdrúbal. Se ele descobrir a falha e perder a paciência, cabeças vão rolar.

Cipião deu-lhe um tapa no ombro.

— Só o que nós soldados queremos é uma licença do serviço e ir para as tabernas, não é verdade? Disseram-nos que, se não encontrássemos Amílcar aqui, ele poderia estar no santuário de Tofete, pois também é um sacerdote. Vamos até lá procurar por ele.

— A rota mais próxima fica bem à nossa frente. Eu os acompanharei, passando pelos guardas. — O optio se virou e andou para a esquerda, para o lado sul do pórtico em torno do porto, e Cipião e Fábio o seguiram.

Caminharam alguns pés para dentro do lembos e passaram pelos primeiros estaleiros, depois viraram à direita por uma abertura no pórtico. Instantes depois, o optio os deixou no posto da guarda e estavam na cidade propriamente dita, em uma rua que corria paralelamente à alta muralha de contenção do complexo do porto. Saíram rapidamente de vista dos soldados e passaram pelo movimentado mercado de peixes que ladeava a rua. Cipião virou-se para Fábio enquanto andavam, falando com urgência.

— Você viu aquele lembos?

— Parecia romano.

— Era romano. Vi fardos de pila na proa. Nenhum outro soldado carrega lanças como as nossas. E as ânforas de vinho e óleo de oliva para a tripulação eram italianas.

— Capturado?

Cipião balançou a cabeça.

— Esse seria um ato de guerra, e eles não podem correr tal risco antes de terem os escravos para tripular os remos e nos confrontar no mar.

— Até lá, este porto de guerra é, então, uma ameaça vazia.

— Mas pode bastar apenas uma vitória no campo para se abastecer de escravos suficientes. Depois que acontecer, a ameaça será muito real.

— Precisaremos dizer a Gulussa para redobrar seus esforços e não deixar que seus homens sejam capturados.

— Não creio que precisemos nos preocupar — respondeu Cipião. — Os homens dele lutarão até a morte.

— Há mais uma coisa — disse Fábio, contornando um par de carros de boi. — As embarcações de guerra que vi nos galpões eram pequenas, a maioria delas liburnae, com no máximo duas carreiras de remos.

Cipião assentiu.

— Só havia alguns trirremes. Essa é a informação mais importante que conseguimos até agora para Políbio. Sabemos que eles não têm efetivo para uma frota de grandes galés como no passado. Mas ontem à noite o kybernetes disse que muitos capitães mercantes cartagineses foram recrutados pelo estado. Esses homens comporão um quadro muito experiente de oficiais para uma nova frota de liburnae, com os remadores da esquadra de elite talvez composta não de escravos, mas de mercenários atraídos pela promessa de pagamento mais alto e uma parte dos lucros. A liburna é adequada para romper o bloqueio e levar recados aos aliados. Mas também é adequada para outro tipo de guerra, perfeitamente de acordo com um estado que se orgulha de sua perícia e brutalidade no comércio.

Fábio parou e o encarou.

— Está dizendo o que acho que está dizendo?

— Alguns chamariam de guerra comercial, chegando à sua conclusão lógica.

— Você está falando de pirataria patrocinada pelo estado.

— Com uma frota desse porte, Cartago pode varrer os mares dos rivais e as liburnae podem voltar em segurança para sua toca. Os lucros para o estado podem ser menores no que eles realmente saquearem do que garantindo que as embarcações mercantes cartaginesas e seus parceiros comerciais tenham o monopólio das rotas marítimas. As cargas de navios capturados podem inclusive ser divididas entre as tripulações das liburnae como incentivo. Com sua constituição atual, Roma ficaria impotente para impedi-lo. Veja a dificuldade de conseguir que os cônsules concordem em criar legiões para uma campanha que pode se estender bem além de seu ano no posto, sem lhes dar nenhuma glória. Imagine os problemas para reprimir a pirataria organizada nessa escala. Seria uma guerra fiduciária com Cartago, mas precisaria ser travada pouco a pouco no decurso de anos, até mesmo décadas. Exigiria que Roma sancionasse um almirante com um escopo diferente de qualquer outro conferido a um líder de guerra e autorizasse a formação de uma marinha verdadeiramente profissional. O Senado em Roma está envolvido demais na própria política e na rivalidade entre as gentes para permitir tal coisa, e Cartago sabe disso.

— Há outro propósito para aquelas liburnae: é servir como embarcações de escolta — disse Fábio. — É outra coisa que o escravo que carregava o minério de estanho observou a mim. Na extremidade do porto retangular existe outro estaleiro, com imensos moldes de madeira e uma embarcação sendo construída a partir da quilha. Ele disse que a madeira era cedro-do-líbano, fornecida por um comboio que ficou sob escolta naval do rei Demétrio da Síria, com seu filho levando uma delegação especial da Síria ao encontro do próprio Asdrúbal na entrada do porto.

— Demétrio? — exclamou Cipião. — Então ele finalmente se voltou contra Roma.

— É possível que ele não enxergue dessa forma — disse Fábio. — Talvez só esteja se alinhando à nova Roma, uma Roma que vê Cartago como aliada.

Cipião avançou severamente.

— Tem algo mais a me dizer?

— Fica pior. O navio em construção tinha no mínimo o tamanho da Europa, o imenso transportador de ânforas que vimos no cais. Entretanto, o escravo disse que não era para transporte de ânforas, mas um elephantegos, transportador de elefantes. Disse que estava sendo construído por egípcios especializados em embarcações para trazer elefantes e outras feras da costa do mar da Eritreia, da terra que chamam de Punt. Disse que os construtores navais chegaram com uma delegação de seu outro amigo, Ptolomeu Filometor, rei do Egito, e que sua esposa e irmã Cleópatra os acompanhava.

— Por Júpiter — murmurou Cipião. — Ptolomeu também? Ele nunca foi talhado para ser rei. Cleópatra deve estar por trás disso.

— Com Demétrio e Ptolomeu apoiando Cartago, talvez em aliança secreta com Metelo na Macedônia e seus partidários no Senado em Roma, isso significa que mais da metade daqueles que fizeram a academia agora está alinhada contra você e contra a Roma que você foi treinado para defender. Demétrio e Ptolomeu passaram a vida adulta envolvidos na política de poder da Síria e do Egito, mas ambos foram treinados na academia por Políbio e pelo velho centurião; colocados à frente de um exército, podem ser estrategistas e táticos formidáveis. Se houver uma guerra mundial, o equilíbrio de poder pende perigosamente contra nós.

— Uma guerra mundial — exclamou Cipião. — Podemos chegar a tanto?

— Pense naquele elephantegos — disse Fábio. — Que outro propósito tal embarcação poderia ter para os cartagineses senão o de mandar elefantes à guerra? Vi outros estaleiros mais além, para outras embarcações em construção. Construtores especializados em fazer grandes embarcações para elefantes podem muito bem transferir suas habilidades para a construção de transporte de tropas.

— Compreendo agora o que você quis dizer com as liburniae servindo como perfeitas galés de escolta — disse Cipião. — Se os cartagineses têm a intenção aumentar suas reservas de ouro, encontrarão pouco na África para além das cidades númidas, apenas centenas de milhas de deserto intransponível. O que vimos aqui, os portos e os navios, não serve apenas para aumentar o comércio e controlar as rotas marítimas. Cartago está construindo uma frota de invasão, uma frota que pode desembarcar tropas em qualquer lugar ao longo da margem do Mediterrâneo e sitiar as grandes cidades da Grécia e do Oriente. Com apoio de Demétrio e de Ptolomeu, bem como de Metelo, todo o território do império de Alexandre pode ruir diante de tal aliança.

— E enquanto Metelo se concentra na consolidação do Oriente, Asdrúbal pode deitar os olhos em outras paragens. O legado da história continua tão firmemente arraigado para Cartago como permanece para nós, um legado que gerações de guerra e derramamento de sangue ainda não resolveram.

— Quer dizer que ele visa à conquista de Roma.

Fábio assentiu.

— Cartago pode ser um assunto pendente para você, para a gens dos Cipiões. Mas Roma também é um assunto pendente para Cartago. Assim como Cipião Africano colocou-se diante de Cartago após a Batalha de Zama e deu as costas, Aníbal se pôs à vista das muralhas de Roma antes de também ser obrigado a retroceder. Assim como você tem o legado de seu avô, Asdrúbal tem o legado de Aníbal.

— Todavia, não estamos preparando uma frota de invasão, temos apenas uma força simbólica na África e um Senado hesitante — murmurou Cipião.

Fábio semicerrou os olhos, vendo o sol se pôr no céu a oeste.

— Para onde agora? Não temos muito tempo.

Cipião respirou profundamente.

— Lembra-se de Intercacia? Os celtiberos defenderam seu oppidum a fundo, com aquela segunda muralha dentro do circuito principal. Pelo que Terêncio me disse, os cartagineses podem ter feito o mesmo. Vimos evidências da estratégia ofensiva de Asdrúbal, mas agora precisamos ver seus planos de defesa. Passaremos ao santuário de Tofete e subiremos a rua principal a partir do porto em direção ao Birsa. Precisamos ver o máximo que conseguirmos. Andemos.

 

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