Total War Rome: Destruição de Cartago

David Gibbins · Capítulo 18 de 29

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Total War Rome: Destruição de Cartago

Capítulo 14

Parte 5

África, 148 a.C.

 

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14

Fábio e Cipião estavam no convés de uma pequena galé mercante na costa do Norte da África, sua única vela quadrada ondulando no alto. Remaram firme a manhã toda para se afastar o máximo possível da praia, revezando-se nos remos com a tripulação, a vela recolhida e o vento a estibordo. Mas então o capitão concluíra que já haviam se afastado o suficiente da baía para que não fossem soprados à margem antes de alcançar seu objetivo, e ordenou que estendessem a vela e virassem o timão a estibordo, levando os lemes a apontarem a proa para sudoeste e a embarcação a avançar pelas ondas rumo a terra firme com o vento em sua alheta de boreste. Fábio havia acabado de ajudar o timoneiro a empurrar o timão para a direita e amarrá-lo às amuradas, para contrabalançar a tendência da embarcação de correr a favor do vento. Eles ajustaram as cordas da vela para mantê-la no melhor ângulo, permitindo que se enchesse de vento sem deformar e se agitar, e para evitar que se enchesse demais e arriscasse a embarcação de virar.

Fábio transpirava ao sol e bebeu um gole de um odre de água. Desfrutara dos remos, empurrando com força enquanto a embarcação cortava as ondas em águas tranquilas, mas agora que estavam subindo e descendo a cada pico ele se sentia consideravelmente menos à vontade. Mal acreditava que estavam ao alcance da vista de Cartago, suas muralhas caiadas esparramando-se pela orla a menos de uma milha, elevando-se ao Monte Birsa com seu templo no centro. Ele sabia que devia ficar apreensivo, pesando suas chances de entrar e sair de lá vivo, porém, com o movimento da embarcação piorando em vez de melhorar, viu-se rezando pela terra, em qualquer lugar, quaisquer que fossem os perigos. O quanto antes chegassem melhor.

Ele olhou para Cipião, cujos pés estavam firmemente plantados no convés, oscilando com a embarcação e olhando para a frente. Deixara que o cabelo e a barba crescessem por vários meses antes daquela missão para parecer mais um mercador e menos um soldado romano disfarçado. Nos três anos desde que haviam partido da Espanha, suas feições tornaram-se mais delineadas e a pele mais escura e marcada pelo sol africano. Agora ele contava 37 anos, velho para ser tribuno, mas ainda saboreava a oportunidade que a patente lhe dava de liderar homens no front e sabia que suas chances de comandar uma legião aumentavam, caso o Senado finalmente fosse convencido a se envolver em uma guerra total. Foram três anos de trabalho árduo, de ações menores apoiando Gulussa e seus númidas nas margens do deserto, embates violentos contra patrulhas cartaginesas que exploravam constantemente a área de vegetação rasteira, pressionando as fronteiras que tinham sido acordadas por tratado com Roma mais de cinquenta anos antes. Seis meses atrás, Cipião e Gulussa começaram a sentir que havia algo maior em ação, um fluxo crescente de mercenários chegando ao front, provenientes do campo de treinamento cartaginês sob as muralhas da cidade, uma concentração de homens suficiente para forçar uma ruptura nas linhas. Eles sabiam que, caso isso acontecesse, pouco poderiam fazer para impedir e que a Numídia seria invadida. A missão proposta por Cipião era uma última tentativa de dar provas das intenções cartaginesas para que Políbio levasse a Roma e apresentasse ao Senado. Haveria aqueles que desconfiariam disso, sabendo da posição e das suspeitas exageradas de Cipião, mas sua reputação de fides seria suficiente para persuadir até os mais descrentes. Sua missão representava um risco imenso, no entanto era melhor do que morrer no deserto. Tudo dependia do que encontrassem no dia.

Fábio engoliu em seco, concentrando-se no horizonte, conforme o capitão havia instruído quando notara seu desconforto, examinando a costa ao sul. Atrás deles ficava Bou Kornine, a montanha cujos picos gêmeos tinham a forma de chifres de touro e que era um sinalizador para a navegação desde os tempos em que os fenícios tinham chegado ali, séculos atrás. Na orla, abaixo das encostas, ficava o acampamento romano, seu ponto de embarque na noite anterior. O local de desembarque na praia, de alguns anos atrás, era agora um entreposto semipermanente, com centenas de novas tropas passando por ali a cada semana a caminho do reforço às forças númidas ao sul. O que tinha começado como uma missão secreta de conselheiros e treinadores, de homens experientes da Macedônia e da Espanha tornara-se uma força expedicionária na região em seus primeiros embates contra a vanguarda do exército inimigo, com coortes de mercenários enviados para explorar os pontos fracos pelas linhas númidas. Nenhum dos dois lados estava preparado ainda para uma guerra plena. Os cartagineses estavam meramente ocupando território reclamado, deles por direito, e os romanos estavam vindo em auxílio a seus aliados númidas, a quem estavam ligados por tratados. Mas Fábio lembrou-se do que Políbio dissera na academia: que todas as fronteiras maldefinidas eram os pontos de deflagração mais prováveis para uma guerra, e um exemplo era o antigo território cartaginês cedido a Massinissa após a derrota de Aníbal. Algo estava prestes a estourar, quando Asdrúbal estivesse pronto para uma batalha total e quando Roma se dispusesse a se envolver no último estágio de uma guerra que fora predestinada todos aqueles anos antes, quando Cipião Africano fora obrigado pelo Senado a poupar Aníbal depois de sua derrota em Zama e permitira que Cartago escapasse da destruição definitiva.

Ele pensou em Asdrúbal, um homem que poucos do lado romano tinham visto, o qual havia se elevado ao poder detrás das muralhas de Cartago depois que a cidade se fechou para os visitantes indesejados. Diziam que era monstruoso, um touro de homem que usava uma pele de leão e fingia rugir como uma fera, embora demonstrasse carinho para com sua jovem e bela esposa e seus filhos, regalando-os com presentes tirados dos espólios das guerras cartaginesas anteriores contra as ricas cidades gregas da Sicília. Havia alguns dentro do Senado, inimigos de Catão, que criticavam Asdrúbal, pintando-o como um fanfarrão cabeça-oca, mas Cipião era esperto demais para menosprezar um sujeito que um dia poderia encará-lo em batalha. Asdrúbal se mostrara impetuoso, arrogante, um apostador disposto a correr riscos que poderiam sugerir um pendor à autodestruição, porém mais frequentemente, em seus confrontos com a cavalaria de Gulussa e com seus conselheiros romanos, ele se provara um estrategista hábil e implacável. O amigo deles, Terêncio, o dramaturgo que passara a infância em Cartago, dissera que Asdrúbal se gabava por ser da mesma linhagem do grande Aníbal em pessoa, um legado que Cipião sabia não poder se dar ao luxo de ignorar; Cipião sabia quanta força e quanto senso de propósito ele mesmo tinha ganhado com o próprio legado de Cipião Africano, arquirrival de Aníbal, e como qualquer conflito iminente com Asdrúbal deveria ser encarado seriamente.

Fábio tinha andado bem inquieto nos últimos meses, no limbo de uma guerra que não existia oficialmente, mas ele e Cipião estavam prestes a entrar em um mundo ainda mais turvo, tomando os caminhos da espionagem e do subterfúgio que eram domínio de Políbio e seus agentes. Eles tinham retirado a armadura para viajar com um mercador de vinho italiano e seu criado, e Fábio se sentia pouco à vontade e exposto sem suas armas. Cipião passou horas naquela noite discutindo Cartago com o kybernetes, o capitão da embarcação, um grego aqueu dos livros de Políbio que oferecera seu navio para a missão, e eles revisaram a topografia da cidade repetidas vezes. Fábio se lembrou do modelo de Cartago construído por Cipião Africano no tablinum de sua casa no Palatino e das histórias contadas pelos escravos, de como o velho costumava se retirar para seus aposentos e ruminar sobre o assunto. O jovem Cipião Emiliano também ia para lá, convidando o amigo Terêncio, o dramaturgo, a meditar com ele. Quando Cipião frequentava a academia, ele conhecia a região como a palma de sua mão. Terêncio havia demolido a antiga estrutura do porto e um arco de habitações em volta do Birsa, a acrópole de Cartago, dizendo que novos prédios secretos estavam sendo construídos nos dois lugares. Era o que Fábio e Cipião estavam prestes a descobrir, além do que mais pudessem descobrir sobre as intenções cartaginesas. Cipião estava convencido de que havia mais no rearmamento de Cartago do que a provocação de Asdrúbal, de que sua beligerância era algo mais do que apenas a transformação da cidade em uma fortaleza condenada que venderia caro sua existência quando chegasse o momento.

Fábio engoliu em seco novamente, agora se sentindo gravemente nauseado, na esperança de não transparecer o quanto passava mal. Jamais gostara de travessias por mar, e aquele era o menor barco em que havia estado em mar aberto, balançando e oscilando como uma rolha. No momento, para ele, os cartagineses podiam ter todo o mar que quisessem. Os romanos podiam ter levado a melhor sobre eles em batalhas navais do passado, mas não eram de natureza marítima. E o único lugar adequado para um romano combater era em terra. Ele fechou os olhos, se arrependendo disso instantaneamente, depois proferiu uma pequena oração de graças por o kybernetes ter ordenado baixar a vela e tripular os remos. Eles agora estavam a menos de um stade de distância e manter a vela erguida teria sido se arriscar a serem levados para a praia. Haveria uma navegação espinhosa à frente para que pudessem passar com segurança pelo longo cais e chegassem à entrada do porto.

Ele olhou a fachada reluzente da cidade, protegendo os olhos do brilho do sol. Toda a orla norte tinha como fundo uma muralha defensiva de cerca de quinze pés de altura, diante da qual havia um amplo cais, à frente de uma linha contínua de escritórios e depósitos construídos junto à muralha. O cais era exposto demais para servir de doca, exceto para os barcos maiores, um dos quais era visível perto da extremidade oeste. A maioria das embarcações entrava em um complexo protegido a leste, onde as mercadorias eram descarregadas e transportadas a depósitos ao longo da orla em carros de boi e lombo de escravos. Um porto mais além, para embarcações com cargas de alto valor ou expedições comerciais controladas pelo estado, ficava em uma posição sem saída para o mar por trás, na qual se entrava por um canal ao sul, levando a um segundo porto com as mesmas características topográficas dos estaleiros. O canal para esses portos era fortemente guardado, e eles sabiam que não fazia sentido procurar ancoradouro ali sem atrair atenção indesejada. Em vez disso, o capitão ordenou ao timoneiro que conduzisse a embarcação para a extremidade leste do cais, mandando que os remadores travassem os remos quando se aproximassem e navegassem pelo restante do caminho usando a cinética resultante do esforço. Fábio e Cipião passaram à popa atrás do timoneiro, mantendo-se afastados enquanto ele empurrava o timão para virar o leme na direção que o capitão apontava de sua posição na proa, levando a embarcação habilidosamente ao porto externo.

Enquanto o ímpeto diminuía, a embarcação se aproximava de uma seção aberta do embarcadouro, esbarrando nas redes de arbustos penduradas no cais para atenuar o impacto. O timoneiro puxou as cavilhas que travavam o leme rapidamente e empurrou o timão para a frente, erguendo os lemes à amurada para que não fossem danificados pelo cais ou por outras embarcações. Fábio o ajudou, empurrando o timão com força até que os remos ficassem na horizontal, mas Cipião continuou onde estava, sabendo que os oficiais de vigia podiam olhar com desconfiança um mercador ajudando um servo e a tripulação. O timoneiro e o capitão pegaram os cabos de amarração da proa e da popa e saltaram do barco, prendendo-os em alças reforçadas de pedra instaladas na lateral do cais. Deixaram alguma folga nas cordas, o suficiente para suportar a baixa de um ou dois pés na maré naquela época do mês, depois os marinheiros deitaram uma prancha da amurada ao cais, conduzindo Cipião e Fábio por ela. Fábio desembarcou pesadamente, feliz por estar em terra de novo, mas vacilando precariamente. Deu alguns passos pelo cais para conseguir que as pernas voltassem a funcionar, então parou e olhou em volta. Esqueceu-se do mar e sentiu-se tomado de empolgação. Eles estavam em Cartago.

Meia hora depois ainda estavam no cais, esperando que um mensageiro voltasse com a chancela de mercador que o capitão enviara como credenciais à autoridade portuária. Fábio e Cipião olhavam a paisagem, absorvendo cada detalhe discretamente. Centenas de ânforas de cerâmica estavam encostadas à sombra sob a muralha da cidade; escravos as pegavam pelo gargalo e pela base afunilada, carregando-as nos ombros para os depósitos e mercados ao longo do cais. Fábio via ânforas de azeite de oliva cartaginês — formas longas e cilíndricas, com pequenas alças abaixo dos gargalos —, mas havia um número muito maior de ânforas de vinho, bojudas, de gargalos compridos e alças. Ele reconheceu os tipos distintos com alças altas de Rodes e Cnido, feitas para transportar vinhos gregos da melhor qualidade, e, mais além do cais, um lote grande de ânforas de vinho de corpo mais longo, produzido na Itália perto da baía de Nápoles, a antiga região grega agora controlada por Roma onde os vinhedos eram cultivados desde que os primeiros colonos gregos tinham chegado ao sopé do monte Vesúvio, séculos antes, mais ou menos na época em que os fenícios colonizaram Cartago. Cipião também vira as ânforas e virou-se para o kybernetes, falando em voz baixa, para não ser ouvido por terceiros.

— Pensei que todo o comércio entre Roma e Cartago estivesse proibido pelo tratado que se seguiu à Batalha de Zama. É por isso que minhas credenciais atestam que sou um mercador independente, romano, mas sem representar o estado.

— Com Roma, sim, mas não com outras cidades da Itália que ainda se consideram agentes livres no que diz respeito ao comércio — respondeu o kybernetes. — Onde há lucro a ser auferido, os mercadores sempre encontram um jeito de contornar um tratado comercial.

— Claramente há grandes lucros a auferir por aqui — murmurou Cipião. — Muito mais do que o Senado em Roma teria acreditado. Este lugar parece mais próspero do que a Óstia. Mas certamente todo este vinho não está sendo importado para consumo de Cartago, não?

O capitão bufou.

— Você se esquece de sua história. Esse povo é fenício, os comerciantes mais astutos que o mundo já viu. Vê aquela embarcação no final do cais?

Ele apontou para uma embarcação que tinham visto ancorada junto à orla exposta ao se aproximarem, uma embarcação cuja boca era larga demais para entrar no porto fechado, porém grande o suficiente para se livrar de uma tempestade menor sem grande dificuldade. Fábio protegeu os olhos contra o sol, seguindo o olhar de Cipião.

— É enorme — comentou Cipião. — Parece uma das embarcações que se meteu em Óstia a caminho de Massália na Gália, carregando vinho italiano para negociar com os chefes tribais guerreiros do interior.

— Ela é exatamente isso — disse o capitão com melancolia. — Vê minha embarcação aqui, a Diana? Ela pode transportar no máximo quatrocentas ânforas. Aquela bem ali, a Europa, pode transportar dez mil.

— Vejo os escravos retirando ânforas de vinho, e outros levando para dentro — disse Cipião. — A menos que eu esteja enganado, as que saem são italianas e as que entram são gregas, de Rodes e Cnido.

O kybernetes assentiu.

— A Europa deve ter navegado com sua carga de vinho italiano diretamente de Nápoles à Gália, mas desviou-se ao sul para Cartago. Em vez de levar o vinho italiano à Gália, levará o grego.

— Não entendo. Onde está o lucro?

— Você precisa pensar como um fenício. Poseidon sabe, se fizéssemos a mesma coisa, estaríamos todos ricos. Funciona da seguinte maneira. No momento, o empreendimento mais lucrativo em todo o Mediterrâneo é o comércio de vinhos para a Gália. Fez grande parte da riqueza dos romanos: os proprietários dos estados vinícolas da Itália, os navegadores, os intermediários em Massália que negociam com os gauleses. Mas não havia como os cartagineses conseguirem uma posição nisso. Se aparecessem em Óstia ou em Nápoles, ou em Massália, oferecendo seus serviços como transportadores, isso suscitaria a ira de Roma. Se você não pode se unir a um empreendimento comercial, sempre pode miná-lo. Um consórcio de mercadores cartagineses, apoiado pelo conselho de governo, fez um acordo secreto com mercadores gregos em Rodes. Foi acertado rapidamente: os gregos também passaram a se ressentir por causa do predomínio do vinho italiano no Ocidente, que afastava seu próprio produto.

Cipião assentiu lentamente.

— E os gregos teriam tomado conhecimento dos esquemas comerciais dos cartagineses, que invariavelmente davam lucro a todas as partes envolvidas.

— Correto. Com base nisso, os gregos concordaram em abastecer os cartagineses com o vinho da melhor qualidade que pudessem produzir, mas sem que nenhum dracma fosse desembolsado antecipadamente. Os cartagineses então substituem o vinho italiano nessas embarcações pelo grego e enviam a Massália. Antes de se envolver nesse empreendimento, pesquisaram o mercado, naturalmente, fiéis a suas origens fenícias, enviando agentes que chegaram com amostras de vinho nos oppida da Gália, descobrindo que os bárbaros tinham o gosto refinado e eram tranquilamente capazes de apreciar os vinhos gregos superiores. Assim, com cargas de dez mil ânforas gregas chegando a Massália, os gauleses verão que podem obter vinho de qualidade superior em abundância. O comércio de vinho italiano sofrerá um colapso e os cartagineses auferirão os lucros.

— E se o conselho cartaginês tem uma parcela do negócio, é investido na cidade.

O kybernetes fez um gesto apontando o quebra-mar.

— Como acha que essas novas fortificações foram financiadas? Grande parte do mármore vem da Grécia e os pedreiros não saem barato. Você ficará admirado com o que verá em seu interior. Cartago talvez ainda não controle os territórios além-mar, como fez três gerações atrás, mas por trás destas muralhas é uma cidade mais rica do que nunca.

Fábio apontou o navio de ânforas junto ao cais.

— Há uma coisa que me confunde. Como os cartagineses convenceram aquele navegador romano a desviar sua embarcação para cá? Dizem que uma única ânfora de vinho italiano pode ser trocada na Gália por um escravo, e em Roma os escravos são vendidos a um alto preço ultimamente porque houve muito poucas guerras para proporcionar uma boa seleção. Se uma carga de vinho italiano vale dez mil escravos, então o proprietário poderia ganhar uma fortuna nos mercados de escravos em Roma. Por que entrar em um esquema cartaginês quando tais lucros já são certos?

— Porque os cartagineses espalharam a notícia de que ofereceriam o dobro da margem de lucro, o equivalente a dois escravos por ânfora, se os navegadores levassem o vinho grego em vez disso. Eles dão garantias, mesmo no caso de naufrágio. Quanto mais vinho grego de alta qualidade inundar o mercado gaulês, mais certeza os cartagineses terão de que os gauleses rejeitarão as ânforas italianas inferiores. O resultado será a queda do comércio de vinho italiano, especialmente se os cartagineses continuarem a oferecer contratos mais lucrativos aos transportadores que antes levavam o vinho italiano, convencendo-os a navegar a Cartago, como a embarcação Europa, e carregar vinho transportado da Grécia para a viagem ao norte, a Massália. Depois que os cartagineses monopolizarem o mercado gaulês, poderão aumentar o preço de um para dois escravos, e até três, e exigir outras mercadorias que sempre foram especialidade fenícia, em particular o cobre e o estanho para o bronze, bem como o ferro.

Cipião assentiu.

— Metais que estão em escassez na África e são necessários para que produzam as próprias armaduras e armas.

— Há, porém, mais do que isso — disse o kybernetes em voz baixa, olhando em volta novamente para ter certeza de que ninguém estava escutando. — Há um lado sombrio do qual não vai gostar. É um segredo conhecido que muitos senadores romanos das antigas gentes, homens que professam desprezar o comércio e investir apenas em terras, tiveram enormes lucros permitindo que intermediários retirassem vinho de suas propriedades e exportassem para Gália. Mas existem outros senadores, novi homines, novos homens, sem riqueza nas terras, que não estão a fim de sujar as próprias mãos com o comércio.

— Sei disso — disse Cipião severamente. — Servi a um deles na Espanha, Licínio Luculo. Ele fez fortuna depois do triunfo na Espanha, usando o dinheiro dedicado a ele por seus colegas do Senado para comprar um grande estoque de excedentes de grãos da Sicília a um preço mínimo, e então o vendeu a um valor extorsivo no ano seguinte às mesmas pessoas quando houve uma seca. Ele costumava comprar terras, mas as gentes não se esqueceram de como fez sua fortuna.

— Há boatos de que um grupo desses homens se uniram e compraram a embarcação que você vê hoje junto à carga, em um acordo secreto muito lucrativo para o proprietário, e que fizeram o mesmo com várias outras cargas de vinho italiano. Os boatos também dizem que esses mesmos senadores são aqueles que se opõem fortemente a uma ação militar contra Cartago, bem como na Grécia.

— Por Júpiter — murmurou Cipião. — Isso vai ao cerne de nosso problema para convencer Roma a entrar na guerra. Agora entendo o que Catão e Políbio enfrentam

— Tenho outra pergunta — disse Fábio. — Com todo aquele vinho italiano sendo descarregado aqui, o que os cartagineses vão fazer com ele? Não é possível que bebam eles mesmos, ou vendam aos gregos. É melhor largar no mar.

O kybernetes ergueu os olhos.

— Os fenícios? Jogar fora uma mercadoria negociável? Não é provável. Isso faz parte de outro esquema, de lucratividade ainda maior. Ao lado do porto interno, longe de olhos curiosos, começaram a construir imensos depósitos, de tamanho suficiente para abrigar uma embarcação grande como este transportador de ânforas no cais. Logo esses depósitos estarão cheios, não de ânforas de vinho, porém de algo ainda mais precioso, sacos de uma especiaria exótica chamada pipperia. Vem da Índia, e será enviada pelo mar da Eritreia à costa do Egito, depois transportada pelo deserto até o Nilo e Alexandria, e para Cartago. Os primeiros gregos a alcançarem o litoral sul da Índia descobriram que os mercadores de especiarias de lá adoram seu vinho e queriam mais; até o vinho italiano inferior é um néctar para eles. É para lá que todas estas ânforas se destinam.

— Mas transportar dezenas de milhares de ânforas pesadas pelo deserto egípcio seria um empreendimento dispendioso — disse Cipião. — Eu estive lá e sei que o custo seria proibitivo.

— Os cartagineses estão preparados para tanto, assumindo o custo do transporte com os lucros do comércio com a Gália. Pretendem enviar apenas o suficiente para semear o comércio, trazendo de volta cargas de pipperia e outras especiarias e luxos do Oriente, o suficiente para incitar a demanda entre os ricos da própria Roma: entre as esposas daqueles cuja cobiça exploraram para criar este comércio, para começar, os senadores cuja embarcação você vê agora no cais. Mas então os cartagineses deixarão de exportar vinho e passarão a outra mercadoria que os indianos adoram, algo transportado muito mais facilmente e com margens de lucro bem maiores. Refiro-me ao ouro: ouro em moeda, barras de ouro, ouro bruto, ouro em qualquer forma. Os cartagineses canalizarão o ouro do Mediterrâneo para o Oriente, despojando a riqueza das nações para criar na própria cidade a nação-estado mais rica que o mundo já viu, aqui, onde estamos agora.

— Como eles conseguem o ouro? — perguntou Fábio. — Outro esquema engenhoso de comércio?

O kybernetes não respondeu, mas ergueu os olhos para Cipião, que se virou para Fábio, a expressão dura.

— Tem outra origem. Dessa vez a antiga malícia fenícia volta à retaguarda e a nova força cartaginesa assume a dianteira.

— O que quer dizer?

— Refiro-me à guerra. Não à guerra de defesa, mas de conquista. Guerra contra Roma, guerra no Oriente. Guerras que podem até ver Cartago aliada àqueles romanos que parecem já ter se unido a ela.

Fábio sentiu um arrepio frio pela espinha. Eles não falavam mais de extinguir um antigo inimigo, de encerrar questões e satisfazer a honra, nem do próprio destino de Cipião. Falavam da guerra que poderia mudar tudo, uma guerra capaz de engolir todo o mundo conhecido, da margem do mar da Eritreia aos cantos mais distantes da Gália e das Ilhas Albion. De repente, o motivo para Cipião estar ali para coletar informações parecia tão importante que ele se sentiu tonto, como se estivesse postado em um dos pontos centrais da história. Os riscos não poderiam ser maiores.

O kybernetes olhou para Cipião.

— Talvez agora você tenha visto tudo de que precisa. Até mesmo Políbio pouco sabe a respeito disso, uma vez que meu conhecimento de tais planos veio desde que o vi pessoalmente pela última vez. E eu não podia confiar em terceiros para contar a ele. Mas agora você viu o suficiente com os próprios olhos para acreditar que o que digo é verdade.

Cipião parou por um momento, de olhos semicerrados, e balançou a cabeça.

— Você nos falou da ameaça estratégica. Mas viemos aqui também para avaliar o desafio tático de um assalto a Cartago. Preciso ver os soldados, o equipamento, as fortificações, o novo porto de guerra. Sem essas informações, teremos sérias dificuldades. E ainda não posso usar a ameaça estratégica como argumento em Roma. Se o que você disse for verdade, há muitos no Senado contra nós, nomes que posso imaginar, mas sugerir em público que são traidores de Roma sem provas claras de escalada militar cartaginesa destruiria meu argumento, e provavelmente minha vida. São as provas detalhadas de preparação para a guerra que me garantirão a vitória. Depois disso, refletirei sobre o que você me contou e decidirei como moldar minha estratégia depois que o exército que eu liderar for vitorioso, caso me deem o consulado.

O kybernetes acenou para alguém, então viram que o mensageiro que tinham enviado com a chancela voltava da alfândega.

— Que bom — disse o capitão. — Não há guardas retornando com ele, assim poderemos passar. — Ele se virou para Cipião e falou com vigor: — Fico feliz que esteja confiante. Mas falarei com franqueza. Pelo que vi das forças romanas até agora na África, aquelas que auxiliam o exército de Massinissa, não estou tão seguro assim. Você tem muito trabalho a fazer, Cipião Emiliano. Talvez o nome de seu pai e o do grande Cipião Africano carreguem o peso da história adiante. Enquanto isso, lembre-se de que por ora você é um mero mercador e deve desempenhar seu papel com cautela. Deve ficar atento.

 

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