Total War Rome: Destruição de Cartago
Capítulo 17
Próximo à fronteira númida, cinco meses depois
Fábio puxou as rédeas do cavalo e parou, olhando o cavaleiro solitário de capacete de crista emoldurado contra a luz do início de manhã no acampamento à frente. Durante os meses desde sua missão secreta a Cartago e o retorno ao acampamento do quartel-general romano, ele e Cipião se dedicaram incansavelmente à causa de Gulussa, ajudando a reunir e a treinar a cavalaria númida nas planícies e nos cerrados semidesérticos no extremo sul de Cartago. Fábio saboreava a vida de soldado novamente, mas naquela manhã estava cansado e faminto, coberto de poeira da cavalgada noite afora; ele sabia que, assim que se deitasse com os outros no barranco abaixo, apagaria como uma vela e dormiria por horas.
Gulussa calculava que ainda teriam cinco dias de cavalgada árdua pela frente antes de chegarem ao pântano seco abaixo de Cartago, sua última estirada depois das semanas que passaram vasculhando os limites externos do reino de seu pai em busca de homens que juntassem forças à cavalaria que ele e Hipólita estavam preparando para resistir às incursões cartaginesas no território da Numídia. Agora estavam todos ali, mais de mil homens com seus cavalos, apinhados no barranco abaixo, as fogueiras de café da manhã pontilhando a margem do córrego raso onde davam de beber aos animais e dormiam durante as horas quentes do dia. A ida ao barranco havia representado um desvio de algumas horas a oeste de sua rota principal, mas Cipião planejara visitar aquele lugar desde o início; o próprio Fábio recebera instruções estritas de Políbio para anotar tudo que visse. Políbio ansiava vir ele mesmo, mas seu retorno a Roma para dar um relatório a Catão de sua missão de reconhecimento em Cartago o tivera lá por meses a mais do que o esperado, intercedendo firmemente por sua causa no lugar do cada vez mais enfermo Catão, que agora já havia passado dos 90 anos. Apesar das provas esmagadoras dos preparativos cartagineses para a guerra, o debate ainda era complicado contra aqueles que desprezavam a importância da África em favor da Grécia e do Oriente, e que até argumentavam pela retirada do apoio a Massinissa em sua tentativa de defender a integridade de seu reino contra a ressurgência de Cartago. Fábio sabia que Políbio guardara sua munição mais potente para o final, a prova de cumplicidade de senadores romanos do mais alto nível com os planos cartagineses, temendo que uma tentativa prematura de expor os culpados fosse desacreditada e voltada contra eles, a não ser que já tivessem a seu lado a maioria do Senado. Mas também sabiam que o tempo se encurtava, que aquele jogo de espera não podia se estender muito mais, pois Cartago continuava a se rearmar. Políbio teria de jogar suas cartas logo, arriscando-se à censura e ao desterro, para ele e Cipião, se muito em breve não houvesse movimento em seu favor no Senado.
Fábio bebeu um gole do odre, depois despejou água na crina do cavalo, curvando-se para trás enquanto o bicho sacudia a cabeça e relinchava. Logo estariam de volta ao regato e o cavalo poderia beber o quanto quisesse. Ele observou Gulussa subir a crista do barranco para se juntar a ele, ainda com seu manto para se proteger do frio da noite, e juntos seguiram pelo terreno rochoso até a figura na escarpa. Para Cipião, ir a Zama era uma peregrinação pessoal: foi ali que seu avô adotivo Cipião Africano conquistou sua maior glória quase sessenta anos antes, quando os dois exércitos foram àquele lugar, à beira do desconhecido, para decidir se Cartago ou Roma governaria como a maior potência que o mundo já vira.
Eles chegaram à crista da escarpa e puxaram as rédeas ao lado de Cipião. À frente deles o terreno caía em uma planície como uma tigela rasa, limitado ao sul e a oeste por outras cristas. Sabiam que o acampamento romano ficava bem abaixo deles e que o cartaginês estava a mais ou menos uma milha sob a crista oposta, a oeste. Havia pouco para se ver, apenas uma área erma de arbustos e terreno pedregoso, um pastor de cabras e seus poucos animais inconstantes atravessando o centro da depressão ao longe, nada que sugerisse que um dos eventos mais decisivos da história tivesse ocorrido ali apenas duas gerações antes. Do outro lado da crista ficava a fronteira do reino de Massinissa, não com outro reino qualquer, mas com o deserto africano, uma vasta extensão que ia do Egito à costa do Atlântico e do sul ao desconhecido. Fábio se lembrou de cavalgar com Cipião e Políbio dez anos antes na floresta macedônia, e de Políbio estendendo um mapa-múndi de Eratóstenes. Eles haviam se aproximado da margem norte até então, e agora estavam no sul. Se alcançariam as outras extremidades, a oeste e a leste, dependeria do que aconteceria ali na África, se Cipião seria capaz de se erguer sobre uma cidade conquistada e de enxergar através da névoa da guerra horizontes além do mundo restrito que os senadores de Roma haviam delineado para si mesmos.
Fábio pronunciou a palavra a meia voz: Zama. Era o nome que os veteranos deram àquele lugar, baseado em uma colônia próxima de berberes, e era o nome que Fábio crescera ouvindo dos lábios de velhos bêbados nas tabernas e de pedintes amarfanhados nas ruas em volta do Fórum. Era um lugar o qual poucos em Roma que não haviam estado em combate poderiam imaginar, tão afastado das paisagens da Itália. Na academia, Políbio dissera que o Norte da África era o terreno perfeito para batalhas isoladas, e Fábio agora entendia por quê. Havia poucas colônias humanas que estorvassem manobras militares em larga escala, ou altas cadeias montanhosas e complexas linhas costeiras que impedissem o transporte e a comunicação. Aníbal e Cipião Africano escolheram aquele local de batalha, o lugar onde o terreno não daria uma clara vantagem tática a nenhum dos dois lados e tudo dependeria da natureza e da disposição das formações: infantaria, cavalaria, elefantes. Era o equivalente mais próximo que ele vira na vida real de um jogo de guerra desenvolvido em tabuleiro, o tipo de exercício abstrato com que os rapazes começavam na academia antes de passar aos dioramas, que representavam batalhas reais onde o terreno e a topografia eram variáveis importantes.
Cipião esporeou o cavalo e eles seguiram para o centro do campo de batalha. Ao longo do caminho, passaram por pedras empilhadas e galhos espinhosos que delimitavam o local do acampamento romano, ainda visível depois de mais de sessenta anos, e então passaram pelas rochas queimadas contendo fragmentos de ossos escurecidos que marcavam o lugar onde os prisioneiros cartagineses foram amontoados e queimados até a morte. Mais adiante, no próprio campo de batalha, Fábio viu entre os arbustos e a poeira os detritos que haviam escapado dos catadores de batalha, parte deles talvez enterrada por anos e recentemente descoberta pelo vento do deserto: as pontas enferrujadas de lanças, uma espada celtibera quebrada, um amontoado de armaduras enferrujadas ainda com a pele mumificada e as unhas das patas de um elefante. Gulussa apontou para ossos de perna embranquecidos de um esqueleto humano, sem armas e armadura, com o crânio esmagado, as costelas já separadas devido à ação de cães selvagens e de raposas que sem dúvida nenhuma terminaram o trabalho ali ao passarem por quaisquer outros restos humanos que surgissem do terreno poeirento.
Eles prosseguiram e se colocaram no centro da depressão. Cipião parou e virou o cavalo para ficar de frente para as linhas cartaginesas, assim como seu avô Africano provavelmente fizera. Fábio fez o mesmo, então fechou os olhos por um momento, ouvindo apenas a respiração dos cavalos e um leve vento oeste que roçava nos arbustos baixos, fazendo os cavalos virarem a cabeça em direção a eles. Lembrou-se do pai, que havia lutado ali quando jovem legionário e que depois fora um daqueles velhos veteranos nas tabernas, contando as mesmas histórias de batalha aos poucos que quisessem ouvir. Fábio fora um deles, e abriu os olhos. O pai lhe contara como os elefantes de guerra cartagineses investiram, oitenta deles, diferente de tudo que os romanos já haviam visto. Aníbal e seus elefantes entraram para a história, mas nos anos desde que ele os liderara pelos Alpes os romanos apreenderam seus pontos fracos e Africano usou uma técnica que aprendera com caçadores de marfim: uma manada de elefantes sempre procura os espaços que consegue enxergar, recusando-se a investir em uma densa massa de homens. Em Zama, eles foram canalizados para espaços que se abriam na linha romana e abatidos um por um ao arremeterem pelo corredor, todos morrendo atrás das linhas romanas. Depois disso, a cavalaria de Massinissa e as alae romanas nos flancos atacaram, afugentando a cavalaria cartaginesa e perseguindo-os pelo campo de batalha, deixando que a infantaria os espancasse. Apenas com a volta da cavalaria romana é que o dia finalmente foi decidido, obrigando Aníbal a se postar de joelhos diante de Cipião Africano e deixando milhares de mortos e moribundos espalhados pelo campo de batalha.
Mas não foram as táticas e o curso de batalha que Fábio se flagrou tentando imaginar. Foram os momentos de combate que seu pai descrevera: períodos curtos de uma selvageria sem igual, cortando e golpeando, esmurrando e mordendo. A infantaria em Zama parecia duas feras equivalentes envolvidas no combate mortal, chocando-se e se retraindo, sem parar, esgotando as reservas do outro, mas sem jamais desistir. Para seu pai, aqueles minutos de combate moldaram sua vida; ele nunca conseguira se livrar deles, lembranças que o mantinham acordado e transpirando à noite, que ele só era capaz de controlar com a bebida e a violência que destruíram sua vida e fizeram com que a família o temesse. Fábio o odiara por isso, e o desprezava e se afastava quando as mesmas histórias velhas e balbuciadas lhe eram repetidas. No entanto, anos depois da morte do pai, quando ele já era um soldado, arrependeu-se amargamente disso, depois de Pidna, quando ele próprio viveu o turbilhão e o horror da batalha e começou a compreender tudo que o pai enfrentara.
Fábio aprendeu em Pidna que só aqueles que viveram a batalha podiam compreender verdadeiramente o que ela significava. Mas ali, em Zama, mesmo como veterano de combate, ele se sentia um intruso. O lugar pertencia àqueles que lutaram e morreram aqui, e sua história estava presa a eles. Políbio podia escrever o que quisesse sobre o grandioso esquema de batalha, sobre suas táticas e a configuração do terreno, mas a verdade estava nas experiências individuais que nunca podiam ser contadas, ou eram apenas mal recordadas por aqueles que ainda viviam e tinham suportado as trevas daquele dia. Na poeira e nas pedras daquele lugar estavam impressos feitos de coragem e a última resistência desesperada que permaneceriam para sempre, fatos conhecidos apenas pelos deuses que presidiram a batalha, assim como Cipião e os outros presidiam os jogos de guerra na academia em Roma.
Gulussa se pôs ao lado, Cipião se virou para ele.
— Seu pai Massinissa deve ter trazido você aqui. Zama foi cenário de seu maior triunfo, bem como de Cipião Africano.
— Viemos aqui depois de eu voltar da academia em Roma, quando você e os outros foram nomeados tribunos para a guerra contra a Macedônia. Eu falei a meu pai da inveja que sentia por vocês entrarem em batalha, então ele me trouxe até aqui para me mostrar como foi. Na época, havia muito mais a ser visto, ossos humanos e as carcaças desmoronadas e dessecadas de elefantes que não queimaram inteiramente nas piras funerárias. Era uma cena melancólica, e aprendi que até as maiores batalhas podem ser esquecidas rapidamente, deixando poucos vestígios. Meu pai me dizia que as batalhas só são dignas se você as usar para destruir um inimigo, ou estão condenadas a se repetir. Ele tinha razão: aqui estamos novamente, enfrentando Cartago exatamente como fizemos antes em Zama.
— Na academia era o contrário, Gulussa. Nós invejávamos você. Sabíamos que Massinissa estava em guerra constante contra seus vizinhos e pensávamos que você tinha um futuro glorioso à frente.
Gulussa lhe abriu um sorriso cansado.
— Glorioso não, Cipião. Essa não é a palavra certa. Vinte anos de incursões, de perseguição a saqueadores e bandidos no deserto, de retaliação contra aldeias do deserto por abrigar fugitivos. Matei o suficiente, centenas de vezes, mas em raras ocasiões com alguma glória, e só agora, com Cartago invadindo nossas terras, liderei minha cavalaria pela primeira vez contra um inimigo adequado, em escaramuças e perseguições. Levei minha vida planejando isso, mas ainda não tive uma batalha digna do nome.
— Sua hora chegará, Gulussa. Você seguirá os passos de seu pai.
— Naquele dia, meu pai Massinissa me deu um conselho interessante. Foi algo que ele esteve tentando apreender por mais de sessenta anos de experiência em guerras, testemunhando numerosas batalhas. Quando menino em Cartago, foi discípulo de um matemático grego, um de seus mestres preferidos, e isso o fez pensar que talvez pudesse haver uma fórmula em sua observação.
— Continue.
— Ele viu batalhas suficientes com condições iniciais muito semelhantes prosseguindo de forma muito diversa, e observou que a pequena alteração de uma variável no início pode mudar todo o curso dos acontecimentos. E assim a vitória certa torna-se uma derrota retumbante. Às vezes não havia lógica aparente nisso, nem uma sequência óbvia de efeitos a partir daquela mudança; porém, a certa altura da batalha, toda a estrutura parecia desmoronar. Como as pequenas variáveis se alteram o tempo todo, tal como o deslocamento de uma centúria ou de uma coorte na ordem de batalha, ele passou a duvidar que as batalhas pudessem ser previstas, que, além da garantia de que sua formação fosse forte o suficiente para render bom combate, tudo repousava no colo dos deuses. Entretanto, ele começou a observar uma coisa muito interessante. Quanto mais uniforme sua força, quanto mais homogênea, mais improvável é o resultado catastrófico por causa de uma pequena alteração. Quanto mais variada sua força, quanto mais heterogênea, maior é a probabilidade de você ter problemas. Ele disse que Cipião Africano teve sorte ao vencer naquele dia em Zama porque suas tropas tinham precisamente esse ponto fraco.
Cipião saltou do cavalo, alisou um trecho do terreno e desembainhou a espada, usando a ponta para marcar três linhas paralelas na terra. Olhou para Gulussa, corado de empolgação.
— Isto combina perfeitamente com o que discuti quando fizemos o jogo de guerra de Zama na academia. Esta era a ordem de batalha de Cipião para cada legião: hastati na vanguarda, principes na segunda linha e triari na terceira, com velites nos flancos. Todos que estudaram a batalha sabem que a balança quase pendeu contra nós quando os hastati foram rechaçados depois do primeiro ataque cartaginês. Mas o ponto fraco que Massinissa identificou estava na divisão geral das forças: as legiões não eram homogêneas na linha de batalha. Por que insistiríamos em organizar nossas legiões dessa maneira, com divisões que remontam aos tempos dos cidadãos guerreiros, quando suas armas e armaduras e seu papel na batalha se baseavam na própria riqueza pessoal? Alegamos ter abolido a prova de riqueza, agora que todos os recrutas têm acesso a armas e equipamento básico, mas ainda mantemos essas divisões em treinamento e na ordem de batalha com base na idade e na experiência. Como pode ser sensato colocar todos os homens inexperientes em uma divisão, a hastati, e empurrá-los ao front se não são mais do que um amortecedor humano, descartáveis e praticamente inúteis?
— Os centuriões vêm ruminando sobre isso há anos — disse Fábio. — A dispensa das legiões depois de cada campanha é algo que impede que a experiência dos veteranos seja transmitida aos novos recrutas. Se você não os misturar nas mesmas unidades, os recrutas terão de aprender tudo da forma mais difícil, sozinhos, e os generais terão uma força de combate muito menos eficaz.
— Exatamente. — Cipião apagou as linhas na terra e bateu a espada na palma da mão, fitando o campo de batalha. — Roma precisa de um exército profissional. É a única solução.
— Você teria muita dificuldade para convencer o Senado disso — disse Gulussa. — Aqueles que não têm experiência de batalha, e estes compõem a maioria do Senado romano hoje, recapitulariam Zama e diriam que a organização militar existente bastou para derrotar Aníbal, então, por que mudar? E legiões mais fortes e mais coesas dariam exércitos mais fortes e produziriam generais mais fortes que poderiam voltar a Roma de olho em uma ditadura, ou mais. É isso que realmente os apavora.
Cipião embainhou a espada e montou no cavalo, puxando as rédeas.
— Veremos sobre isso. A tomada de Cartago exigirá um exército profissional, ou um general que já será visto como uma ameaça por aqueles no Senado que se opõem à mudança.
— Meu pai disse algo mais — falou Gulussa. — Aníbal era um homem honrado, que aceitou a derrota. Mas Asdrúbal é diferente. Na Espanha, você experimentou a resistência dos chefes tribais celtiberos, aqueles que prefeririam morrer a se desonrar pela rendição. Asdrúbal é mais do que isso: possui um imenso rancor contra Roma e é obsessivamente desafiador. Esta é uma coisa muito mais perigosa. Não haverá saída honrosa para ele, nem um combate homem a homem, como o que você travou com o chefe de Intercacia. Asdrúbal só cairá quando a cidade de Cartago cair. Esse é outro aspecto que o Senado em Roma deve compreender. A rendição de Aníbal não proporciona um prenúncio do que está por vir se Cartago fosse sitiada agora. Essa nova guerra, se acontecer, só pode terminar na completa destruição de Cartago e de Asdrúbal.
— Vamos esperar que Políbio tenha sorte em sua missão — disse Cipião severamente. — Por ora, devemos honrar aqueles que caíram aqui naquele dia, cujos espíritos nos observam do Elísio. Há um que deve se juntar a eles, cujos desejos devo cumprir agora. Em seu leito de morte, prometi que um dia voltaria a Zama e que cuidaria para que seu general se reunisse aos amados legionários por toda a eternidade. Devo cavalgar pelas linhas de batalha e eles devem ver que Cipião Africano retornou. Agora, deixem-me.
Fábio tinha visto o alabastro de cremação lacrado no alforje de Cipião, algo que ele raras vezes perdia de vista. Enquanto Roma durasse, Cipião Africano seria homenageado por sua gens em seu lararium de família e na tumba da Via Ápia, mas seu espírito estaria ali, junto àqueles que ele mais honrara. Fábio pensou no próprio pai e no velho centurião Petreu, homens que tinham estado ali naquele campo de batalha juntamente a Africano, ambos agora também entre os espíritos. Fábio engoliu em seco, fechou os olhos e pronunciou os dois nomes baixinho, depois esporeou o cavalo e seguiu Gulussa, que já estava a meio caminho da subida da crista. Ele ouviu Cipião galopar pela planície atrás de si, mas não olhou para trás. Em alguns minutos o sol romperia a névoa, e ele queria voltar ao córrego para seu cavalo beber e depois encontrar uma pedra atrás da qual poderia dormir. Estava morto de cansaço e ainda tinham um caminho longo e difícil antes de chegarem ao acampamento romano nos arredores de Cartago.
Três semanas depois, estavam sentados bebendo vinho na tenda de Cipião no entreposto da cavalaria que ele comandava, cerca de dez milhas a leste de Cartago, na margem de uma lagoa ao alcance da vista da montanha de picos gêmeos de Bou Kornine. Políbio voltara de Roma dois dias antes com a notícia da morte de Catão. Ele e Cipião conversaram por horas depois disso, com Fábio sempre em serviço, pensando nos vários cursos possíveis de ação. Ficou claro para Fábio que a única maneira de prosseguir com o plano seria com o próprio Cipião voltando a Roma; sua permanência na África por mais tempo como mero tribuno não promoveria nem sua causa nem sua carreira. Agora havia veteranos suficientes em Roma, que haviam servido com Cipião na Espanha e na África, para incitar sua popularidade em meio à plebs, e Catão morrera com a satisfação de trazer os tribunos do povo para a causa deles. Se Cipião pudesse ser convencido a voltar agora, o pêndulo poderia tombar em favor deles. Uma coisa parecia certa: se voltasse à África, não seria mais como tribuno. Se houvesse guerra, Cipião não aceitaria nada menos do que uma legião. E como senador com o apoio dos tribunos do povo ele tinha chances de suscitar uma eleição de emergência ao consulado, embora oficialmente ainda fosse jovem demais. Os acontecimentos agora poderiam se acelerar caso Cipião aproveitasse a oportunidade apresentada a ele por Políbio de defender sua causa, voltando a Roma.
Um dos legionários na entrada da tenda adentrou e falou em voz baixa com o centurião encarregado da guarda, que se virou para Políbio.
— Parece que há um homem aqui que quer vê-lo. Ele alega ter vindo em uma galé ligeira de Pela. É macedônio e se chama Filipo.
À menção do nome, Políbio levantou-se de um salto e saiu da tenda, seguido pelo legionário. Voltou minutos depois com uma expressão solene.
— Filipo é um de meus informantes. Trabalha no estado-maior de Metelo como intérprete para o comandante mercenário trácio, que pouco sabe latim, então ele escuta tudo que acontece no quartel-general do exército romano na Macedônia. Parece que quatro dias atrás Metelo derrotou e matou Andrisco em uma grande batalha, em Pidna.
— Em Pidna? — exclamou Cipião. — O mesmo lugar onde meu pai Emílio Paulo celebrou sua vitória? A batalha de meu primeiro derramamento de sangue?
Políbio olhou severamente para Cipião.
— Meu informante me disse que Metelo escolheu o campo de batalha deliberadamente para tentar lançar uma sombra sobre as realizações de seu pai. O exército de Andrisco era uma força desorganizada, e a batalha foi um massacre. Mas Metelo a está apresentando como uma grande vitória, como a conquista definitiva da Macedônia, como se tivesse concluído o que seu pai deixou por fazer vinte anos atrás. Ele se gaba a seus oficiais de que os Cipiões e os Emílios Paulos fizeram uma grande cena indo à guerra, mas depois de vencer uma ou duas batalhas fáceis voltaram correndo para casa com o rabo entre as pernas porque não tiveram coragem de terminar a tarefa. Ele está falando de você, é claro. E tem mais. Ele desmontou um monumento em Dion, o cavaleiro de bronze de Lisipo que representava os companheiros de Alexandre, o Grande, mortos na batalha de Gravisco. Vangloria-se com a ideia de que isso eclipsará qualquer coisa que seu pai tenha levado a Roma. Diz que, diferentemente da riqueza que alega que seu pai levou para os próprios cofres, ele dará os bronzes ao povo e os dedicará no pátio de um novo templo a Júpiter e Juno que ele custeará e construirá no Campo de Marte.
Cipião se levantou de punhos cerrados, tentando controlar a fúria.
— A Batalha de Pidna foi uma das maiores proezas militares de Roma, uma batalha contra a maior falange macedônia já formada em campo. E se Metelo refere-se a meu pai ter partido sem ter anexado a Macedônia como província, foi porque Emílio Paulo estava obedecendo a ordens expressas do Senado. Também foi seu próprio instinto, que se mostrou correto, de que a pacificação da Macedônia exigiria uma guarnição romana permanente, o que o Senado também não permitiria. Ele não voltou com o rabo entre as pernas, nem meu avô de Zama. Ambos estavam obedecendo a ordens de Roma. E quanto ao monumento a Gravisco, meu pai e eu o visitamos depois da batalha para depositar coroas de flores, homenageando os companheiros de Alexandre. Nunca teríamos sonhado em profanar sua memória, retirando-o dali. Metelo mostrou seu verdadeiro caráter no que fez. Ele não é um soldado de Roma.
Fábio falou em voz baixa:
— Tem razão, mas você precisa ter cuidado para não soar defensivo demais. No que diz respeito aos legionários aqui, a notícia significa que mais algumas ânforas de vinho serão abertas hoje à noite, assim, diga o que quiser, essa notícia será motivo de comemoração. Poucos legionários têm razões para desprezar Metelo, como nós.
— E esse é um motivo para você retornar a Roma — disse Políbio, voltando-se para Cipião. — Você terminou o que veio fazer aqui. Conquistou a corona civilis e a corona obsidionalis. Na Espanha e na África, você se preparou por todos aqueles anos quando não havia guerra iminente. Ninguém duvida de sua coragem e liderança. Mas você ainda é um tribuno militar. Deve retornar a Roma para assumir seu lugar no Senado e deixar sua marca. Só então receberá uma legião ou um exército para comandar. E esta notícia aumenta as chances contra você, mais uma vez. Metelo irá celebrar um imenso triunfo e tentará obscurecê-lo. Você deve se apresentar como sucessor não apenas de seu avô e de seu pai, mas também de Catão, da causa que ele tomou como própria. E você deve continuar em guarda. Metelo pode acreditar que agora não precisa tentar armar seu desaparecimento como fez dez anos atrás, quando Andrisco era aliado dele e você estava na floresta macedônia. Mas se ele se sentir ameaçado novamente, se vir sua ascensão ao Senado e o aumento do apoio popular a você, daí você deve ter cuidado. Fábio, permaneça com Cipião o tempo todo. Já pedi a meu informante para que sua galé ligeira ficasse disponível para sua travessia a Roma. Você chegará lá antes que Metelo volte da Macedônia, e deve aproveitar a oportunidade para deixar sua marca. Martele na mente do povo aquelas palavras de Catão. Carthago delenda est. Cartago deve ser destruída. Se vai haver uma conquista final de Cartago, é um Cipião que deveria se postar em triunfo na plataforma do templo. O povo deve saber disso, e é você que deve lhe dizer. Agora vá.
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