Trabalho (Imaterial), Valor e Classes Sociais
Prefácio
Alfredo Saad Filho*
Esta obra de Henrique Amorim é singularmente valiosa; ela é também ousada, provocante e otimista. O conjunto de entrevistas neste livro oferece um panorama vivo da história do marxismo e de alguns dos debates econômicos, filosóficos e sociológicos mais vibrantes da atualidade, além de aspectos da vida e do método dos pesquisadores que fazem avançar o projeto marxista. Essas entrevistas trazem um tesouro de informações a ser revelado ao longo do tempo. Pela sua importância, este livro terá vida longa.
O material trazido à luz nessas páginas enfatiza a centralidade do trabalho assalariado no capitalismo contemporâneo, a validade da teoria do valor-trabalho e a atualidade da análise marxista das classes sociais, além de iluminar temas específicos como a alienação, o papel do trabalho intelectual e a questão unicamente marxista do “intelecto geral”. Apesar de suas inevitáveis diferenças, os pesquisadores entrevistados compartilham princípios metodológicos e têm perspectivas convergentes sobre o papel histórico, a relevância e o potencial do marxismo para informar a análise social e a atividade política.
As entrevistas indicam, também, que o marxismo e a intervenção dos marxistas incluem a crítica a diferentes aspectos do capitalismo, as alternativas a esse modo de produção e lutas para construir essas alternativas na prática. Ao se integrar ao mundo real com tal amplitude, o marxismo tem se envolvido em todos os grandes debates nas ciências sociais desde fins do século XIX. Essas intervenções são singularmente importantes, pois o Marxismo tem uma ligação de princípio com os movimentos e as perspectivas da classe trabalhadora, a abolição revolucionária do capitalismo, e a transição ao comunismo, que têm sido conceituadas de formas distintas na tradição marxista e ao longo do tempo. Com isso, a sorte do marxismo se liga profundamente à força e à composição das forças progressistas no mundo.
Devido às derrotas cumulativas desse campo progressista no período do neoliberalismo global, desde o final dos anos 1970, a economia política marxista tem se confinado cada vez mais à academia, onde ela é rejeitada pelos economistas convencionais pelas suas supostas falhas teóricas, e pelos não economistas, inclusive muitos sociólogos, filósofos e cientistas políticos, pelo seu suposto economicismo e reducionismo. Ao mesmo tempo, a consolidação incremental das fronteiras disciplinares tem fragmentado e diminuído as ambições da economia política marxista e aumentado a intolerância das disciplinas convencionais contra todo tipo de heterodoxia. Mesmo dentre elas, as críticas desferidas à economia política marxista revelam um entendimento simplista, estilizado e, frequentemente, ignorante do marxismo. Ao longo dos anos, o marxismo e a sua economia política têm sido sujeitos a uma reconstrução descuidada tanto pelos seus críticos como pelos que tentam utilizá-los, o que tende a remover o marxismo para longe do seu conteúdo original e das intenções dos seus fundadores.
Por fim, e com importância desigual conforme o tema, o lugar e a disciplina, o marxismo tem um ritmo histórico que, hoje em dia, se baseia fortemente na geração radicalizada na década de 1960. Entretanto, agora é preciso que uma nova geração de acadêmicos e ativistas ocupe esses espaços intelectuais e profissionais. Esse é o desafio mais urgente da geração atual de marxistas na academia.
Apesar dessas dificuldades, os elementos mais importantes do marxismo têm resistido aos testes dos tempos difíceis e dos preconceitos intelectuais. Por exemplo, pela sua ênfase nos modos de produção, as classes e a história, e sua atenção ao poder, aos conflitos, às contradições e ao sistêmico, o marxismo é genuinamente interdisciplinar, com o próprio Marx oferecendo um exemplo de contribuições ao longo de um espectro de áreas nas ciências sociais. Isso permite que a economia política marxista tenha uma presença crítica e construtiva em várias disciplinas e temas e mantenha seu apelo numa ampla frente de trabalhos intelectuais, desde o econômico até o ideológico, e desde o nível local até os destinos do mundo contemporâneo. Essas virtudes, únicas nas ciências sociais, são amplamente ilustradas nessa obra de Henrique Amorim.
Apesar desse grande potencial analítico e político, o marxismo, como todas as teorias sociais, não tem acesso imediato ou privilegiado à verdade, e ele não oferece respostas prontas aos problemas urgentes da atualidade. O marxismo é um guia para o estudo, espera-se que seja também um guia para a ação, mas ele não oferece uma plataforma para as construções puramente conceituais. Para Marx, a realidade é um todo concreto que determina seus momentos e não o contrário. Para entender a realidade devemos reconstruir no pensamento as estruturas reais de determinação entre o concreto e seus momentos, e apropriar conceitualmente os processos e relações de determinação entre os diferentes aspectos da realidade. O marxismo não inventa problemas nem coloca quebra-cabeças puramente intelectuais. Ele se dedica a entender a realidade através de uma análise sistemática e operando em níveis crescentemente complexos e concretos. Com isso, a economia política marxista busca iluminar as relações entre distintos aspectos do mundo real, e introduzir conceitos expressando essas relações.
A economia política marxista tem três dimensões principais. Primeiro, o seu foco se concentra nos processos materiais de reprodução social sob o capitalismo, incluindo o que é produzido, como, e as estruturas sociais apoiando esse modo de produção, especialmente as estruturas de exploração. Ao fazer isso, a economia política marxista ilumina as relações sistêmicas, apoiando o modo de produção capitalista através da história, em cada sociedade e através delas. Isso pode ajudar a superar a fragmentação das experiências de exploração e conduzir a uma explicação da existência das classes, da exploração, do imperialismo e de outras estruturas e processos sociais que nem sempre são óbvios.
Segundo, a economia política marxista é necessariamente interdisciplinar, porque a economia não existe à parte da sociedade, cultura, política, língua, relações internacionais e assim por diante. Nesse sentido, o pensamento crítico marxista é integrativo. A flexibilidade metodológica associada com a interdisciplinaridade não implica que a economia política marxista seja intrinsecamente desestruturada. Ao contrário, ela se estrutura pelas relações de valor, como fica indicado claramente em várias entrevistas incluídas neste livro. Reciprocamente, não surpreende que a maioria dos pesquisadores entrevistados não tenha um método de trabalho fixo a priori. Eles partilham com Marx dos princípios de que não existem métodos gerais para a análise social, e que o método de pesquisa depende do contexto da análise e dos objetivos dos pesquisadores. Seria, portanto, impossível “copiar” o modo de trabalho de Marx e inútil tentar, pois o projeto marxista reflete a realidade e busca transformá-la, o que é incompatível com a mera reprodução de condições passadas.
Terceiro, a economia política marxista informa o ativismo político ao iluminar os limites das modalidades atuais de reprodução social, as tensões no tecido do presente e o potencial para desestabilizar a reprodução social e o processo de exploração através da atividade coletiva. Ao fazer isso, a economia política marxista apoia a construção de um futuro melhor, em que as pessoas possam realizar seu potencial para além das restrições sistêmicas impostas pelo capitalismo.
Partindo de qualquer ângulo e qualquer perspectiva, a economia política marxista se baseia na centralidade da análise das categorias do capital e do capitalismo, ao invés de partir da economia ou do econômico como categorias universais e abstratas.
No caso da análise das classes sociais, corretamente priorizada nessa obra de Henrique Amorim, a economia política de Marx revela o componente crucial e central da estrutura de classes do capitalismo – que o capital e o trabalho, necessariamente, se opõem e se enfrentam na compra e venda da força de trabalho. A economia política marxista examina as consequências desta estrutura de classes para a acumulação, a reprodução social, o desenvolvimento desigual, as crises e assim por diante. Portanto, longe de reduzir todos os fenômenos econômicos e sociais a esse substrato elementar, o que a economia política de Marx faz é abrir caminho para uma investigação mais ampla, mais sistemática e mais complexa da estrutura, das relações, dos processos e das consequências do capitalismo a partir dessas relações fundamentais de classe. Em resumo, a economia política de Marx não reduz a estrutura de classes ao capital e ao trabalho. Ao contrário, ela localiza as outras classes em relação ao capital e trabalho, seja como parte essencial ou como relações contingentes do modo de produção capitalista.
Ao fazer isso, a economia política marxista demonstra que a produção capitalista necessariamente envolve conflitos sociais na produção e na distribuição. Ela também pode informar ações práticas para superar esse modo de produção, não apenas através do trabalho teórico consistente, mas, especialmente, e de forma urgente, para articular a possibilidade da liberdade humana, e até da sobrevivência biológica dada a degradação ambiental promovida pelo capitalismo.
Nada disso implica que o marxismo oferece uma chave mágica para a investigação científica ou a atividade política. O marxismo foi utilizado desde o final do século XIX por movimentos sociais e políticos que alcançaram triunfos significativos, muitas vezes a um custo elevadíssimo. Ele também foi usado para justificar crimes terríveis. Essa herança ambivalente é o destino de todas as teorias sociais influentes.
As entrevistas incluídas neste livro indicam que nenhuma interpretação de Marx é “perfeita”, no sentido de incluir todas as peças do quebra-cabeça intelectual que ele nos deixou. Além disso, nenhuma delas pode explicar a realidade por completo com as peças escolhidas. Felizmente, propor diferentes interpretações de Marx, ou atingir conclusões ligeiramente distintas a respeito da teoria do valor, não implica abandonar seu referencial teórico, trair Marx, ou rejeitar seu trabalho e tudo o que ele implica. Esse marxismo sectário e apocalíptico não contribui para o entendimento da realidade e, felizmente, ele saiu de moda faz tempo. A marxologia estéril não cumpre papel acadêmico, não atrai ninguém para a atividade política e, geralmente, se volta inteiramente para dentro, focalizando as citações de Marx e deixando de lado a interpretação e a transformação da realidade. Com o apoio dessa obra de Henrique Amorim, e informados pelas entrevistas nela contidas, podemos contribuir para o avanço da economia política marxista, livres dessas tradições negativas e prontos para enfrentar os desafios do futuro.
Alfredo Saad Filho
Londres, novembro de 2015.