Trabalho (Imaterial), Valor e Classes Sociais

Henrique Amorim · Capítulo 8 de 25

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Trabalho (Imaterial), Valor e Classes Sociais

Dominique Méda

Diretora do Centre d’Etude et de l’Emploi, professora da Université Paris-Dauphine e encarregada do L’inspection Générale des Affaire Sociales, Dominique Méda possui uma ampla gama de estudos sobre as relações de trabalho e discute, sob diferentes perspectivas, as configurações que a organização do trabalho tem assumido na contemporaneidade. Entre suas obras de destaque estão Le Travail: une valeur en voie de disparation (Flammarion, 1995), traduzida para a língua portuguesa como O trabalho: um valor em vias de extinção (Fim de Século, 1998); Au-delà du PIB: pour une autre mesure de la richesse (Champs Actuel, 1999); Le temps des femmes: pour un partage des roles (Flammarion, 2001); Travail, la révolution nécessaire (Editions de l’Aube, 2010); e, em parceria com Patricia Vendramin, Réinventer le travail (PUF, 2013).

 

Depois da publicação de seu livro, em

1995, Le travail: une valeur en voie de

disparation, o que mudou na sua

perspectiva sobre o processo de

socialização pelo trabalho?

 

Na verdade, não mudei muito. Não mudei muito depois da publicação desse livro. Houve muitos e muitos debates no momento da sua publicação, com toda sorte de gente diferente, com Christophe Déjours, com Christian Baudelot etc. O problema, me parece, é que o livro não foi bem compreendido. Isto é, não disse, como, por exemplo, Gorz ou Rifkin, que o trabalho está em vias de desaparecer. Eu disse que é desejável que seu espaço seja limitado, seja reduzido. E não disse também que o trabalho não tem nenhuma responsabilidade no processo de socialização. Ao contrário, isto é, começo meu livro dizendo que o trabalho é um fato social total e que nunca ele ocupou tanto espaço. Acredito que isso é ainda mais verdadeiro hoje do que quando escrevi meu livro, pois, à medida que falta trabalho, as pessoas são cada vez mais ligadas a ele. Isso Baudelot e Gollac mostraram muito bem no seu livro Travailler pour être heureux? Então, continuo pensando que o trabalho tem um lugar fundamental na socialização dos indivíduos, um lugar fundamental na construção da sua identidade e na identidade coletiva, mas, simplesmente, penso, um pouco normativamente, que o trabalho ocupa espaço demais. Portanto, no fundo não mudei de opinião, apesar de todo o debate que houve. O trabalho ocupa hoje um espaço demasiado grande e, em minha opinião, excessivo. Talvez a gente chegue a tocar nesse ponto, mas em todas as enquetes europeias sobre trabalho, o que a gente viu é que, na verdade, as pessoas depositam uma enorme expectativa sobre o trabalho. Em minha opinião, essas expectativas superam muito o que o trabalho é capaz de oferecer hoje. Essa é minha crítica: essa defasagem entre as expectativas no trabalho e o que o trabalho no regime capitalista é capaz de nos dar como possibilidade de expressão de nós mesmos ou da construção de um verdadeiro coletivo.

 

Gostaria de remeter-lhe à questão que

abre o seu livro de 1995: “como o

trabalho e a produção se tornaram o

centro das nossas vidas no século XX

e como ele deixou de ser o fator

essencial de integração social”?

Aqui vou retomar o que escrevi, porque esse processo que fez com que o trabalho se tornasse o centro da nossa vida é toda a demonstração que fiz nesse livro. A ideia é que existiram três grandes momentos onde o trabalho encontrou sua significação moderna. Para mim, o momento mais importante se deu ao longo do século XVIII, quando ele é teorizado como fator de produção, e aqui meu desacordo com relação a Marx. Marx também disse que algo importante se passou com o trabalho no século XVIII, isto é, esse é o momento em que o trabalho foi concebido como abstrato. Penso que o trabalho foi inventado abstrato, ele nasceu abstrato. Então, não podemos dizer que antes havia um conceito de trabalho e que ele se tornou abstrato, mercantil e descolado. Minha tese é que no momento exato que podemos dizer o trabalho, trata-se do trabalho abstrato, ele é conceitualizado, desde o início, como um fator de produção, isto é, um meio para outra coisa. O que me parece extremamente importante é o motivo do trabalho ser valorizado. Em Smith, por exemplo, o trabalho torna-se o centro da vida social porque ele é o que vai garantir uma ordem social estável, já que antes havia um estado de insegurança e suspeita com a emergência do indivíduo e a crítica da ordem. Era necessário encontrar uma maneira de manter a multidão de indivíduos junta, mantendo o vínculo social. Smith fundamenta essa noção genial de que o trabalho é aquilo que vai permitir de maneira absolutamente estável, natural, manter os indivíduos juntos. Por quê? Porque eu, como indivíduo, porto a minha contribuição à produção e, então, a minha retribuição é calculada, a retribuição a qual tenho direito, e isso não se pode colocar em causa, é natural. Portanto, o trabalho é o que assegura uma ordem social estável. Penso também que se ele teve esse espaço extremamente central e se valorizamos a produção, ou seja, o produto deste trabalho, é porque, sem dúvida, ele é a melhor maneira de manter os indivíduos juntos, bem mais eficaz que, por exemplo, as soluções políticas ao modo de Rousseau: nós nos reunimos, nós discutimos etc. Então, o trabalho, fator de produção, seria o meio de manter a sociedade integrada.

No meu livro, há ainda dois grandes momentos que se somam a este e consolidam ainda mais o trabalho como elemento central da identidade social: 1) o início do século XIX, com aquela visão um pouco escatológica do Hegel, na qual o trabalho representa a liberdade criativa do homem e, com minha liberdade criadora, eu transformo o mundo; e 2) o final do século XIX, em que o trabalho se torna um sistema de distribuição de renda, de direito e de proteção. Assim, nós nos encontramos hoje com um conceito de trabalho extremamente rico, com noções um pouco contraditórias, mas nós vemos bem que ele está no centro da identidade social. Durkheim não disse outra coisa, aliás. Acho que existe uma ligação extremamente importante entre Smith, Marx e Durkheim – todos os três descrevem o trabalho como sendo o elemento central na construção dos laços sociais.

Não acredito que o trabalho deixou de ser um fator essencial de integração social. Penso que ele não é o único e que não é desejável que seja o único. Eu me encontro mais alinhada à Escola de Frankfurt, Habermas e todos esses filósofos que pensam que o laço fundamental, o laço político que liga os cidadãos, não pode ser somente a cooperação, a divisão do trabalho, ou a troca econômica. Esse laço funda-se sobre outra coisa, funda-se sobre um copertencimento que demanda constante deliberação e discussão. Portanto, toda minha tese consiste em dizer que o laço econômico ou o tipo de laço gerado pelo trabalho – cooperação conjunta e troca econômica – não é suficiente para fazer uma sociedade. Então, sim, o trabalho permanece, infelizmente, eu diria, o principal laço de integração social. Mas penso que seja fundamental completá-lo com outra coisa.

 

Você já falou um pouco sobre esse

tema acima. Mas gostaria de retomá-

lo. Qual é o lugar do trabalho hoje na

vida dos indivíduos e qual a relação

entre trabalho e emprego?

Quando escrevi meu livro, diferentes pessoas me disseram; me lembro particularmente de Dominique Schnapper, na França: “isso é falso, o trabalho não é um valor prestes a desaparecer, porque os indivíduos mesmo dizem que o trabalho é, para eles, algo extremamente importante”. E de fato houve na época uma série de enquetes onde se perguntava às pessoas: “para você, o trabalho é pouco importante, muito importante…?” Citei em meu livro o trabalho de Baudelot e Gollac, Travaille et modes de vie, que é justamente uma enquete sobre o espaço do trabalho na vida dos indivíduos, cheguei a participar um pouco dessa enquete, além disso, explorei com alguns colegas do centro de estudo do emprego todas as enquetes europeias sobre essa questão. E o que nós vimos? Nós vimos que sim, o trabalho é absolutamente central na vida dos indivíduos, de certa maneira mais do que nunca. O que nós mostramos no documento que produzimos a partir dessa enquete é que a França ocupa uma posição ainda mais extraordinária que os outros países, o que nos diz que os franceses na Europa são os que consideram o trabalho mais importante. E quando nós tentamos explicar o motivo dessa centralidade, percebemos duas explicações principais: 1) uma associada ao nível de desemprego, isto é, quanto mais significativa a questão do desemprego, mais as pessoas destacavam o trabalho como algo importante – isso se compreende, quanto mais algo lhe falta, mais você deseja; 2) outra relacionada a uma característica da França, onde consideramos necessário um trabalho para desenvolver a nossa capacidade, sendo o trabalho o que nos permite nos realizar, nos exprimir. Tudo o que critiquei no meu livro.

As pessoas pensam que através do trabalho poderão se exprimir, se realizar, o que leva ao crescimento, não apenas na França, mas em todos os lugares, do que nós chamamos de dimensão expressiva ou pós-materialista do trabalho, isto é, do trabalho cada vez menos como um dever, e mais como uma atividade gratificante na qual nós podemos nos realizar. Diria que essas são as expectativas, porque, ao mesmo tempo, aparece outra coisa nessas enquetes: as pessoas dizem que o trabalho ocupa menos espaço e que duas razões explicam isso: as péssimas condições de trabalho e emprego, o que leva as pessoas a perceberem que o trabalho não pode atender a essas expectativas (devido às péssimas condições de trabalho, à ausência de perspectiva de promoção etc.); e a ideia de que a vida é mais que trabalho, em especial as atividades familiares. Portanto, hoje, efetivamente, o trabalho continua algo central na vida das pessoas e as expectativas são cada vez mais qualitativas, isto é, as pessoas consideram não apenas a renda, mas também a integração social e também a satisfação.

As expectativas ocorrem, ao mesmo tempo, sobre o trabalho e o emprego. Em relação ao emprego, as expectativas se concretizam na conquista de um lugar na sociedade, na possibilidade de obter uma renda, proteção e direito; e sobre o trabalho, na possibilidade de exercer uma atividade que seja gratificante e que permita às pessoas se exprimirem. Mas me parece que hoje as condições concretas do trabalho – a existência de relações de subordinação e o fato de que no trabalho, como fator de produção, as pessoas trabalham não para se exprimir, mas para outras coisas – fazem com que suas expectativas não possam estruturalmente ser preenchidas. Para que isso aconteça é necessária uma revolução no trabalho.

 

A tese sobre o trabalho como a

essência do homem é uma tese

própria do marxismo em geral ou esta

perspectiva é uma dentre outras

intepretações possíveis do

marxismo?

Minha leitura de Marx é bastante hegeliana, isto é, me parece que Marx prossegue o caminho de Hegel, retomando por completo as suas intuições. Sobre isso ele não faz segredo. Marx afirma que Hegel colocou algo de absolutamente fundamental. Se você me permitir, vou procurar a passagem exata: quando ele diz que o universal não é nada mais que a criação do homem pelo trabalho humano, nada mais que o devir da natureza para o homem. Depois, em determinado momento, ele presta uma verdadeira homenagem a Hegel, dizendo: “O grande mérito da Fenomenologia reside em Hegel conceber a autocriação do homem como processo, a objetivação como negação dessa objetivação, como alienação e como abolição da alienação; e no fato de ainda apreender a natureza do trabalho e conceber o homem objetivo (verdadeiro, porque homem real), como resultado do seu próprio trabalho”. Para ser breve, apesar de Marx ter dito que colocou Hegel de cabeça para baixo, existe o reconhecimento dessa dimensão essencial do trabalho, onde o trabalho, mais ainda que em Hegel, é para o homem a maneira real de ser homem. Me interessa muito essa passagem. Porque nós temos Hegel que diz que o trabalho é o espírito da sua própria transformação. Contudo, diferenciando bem o trabalho concreto, que aparece diante dos seus olhos e o processo de exteriorização do espírito, a espiritualização do mundo, que ele chama mais de bildung, no sentido da formação. Para mim, é importante fazer essa diferenciação entre esses dois conceitos: de um lado, trabalho e, de outro, bildung, porque esse bildung, isto é, essa maneira do espírito se aprofundar, pode assumir diferentes formas. Podemos dizer que em Hegel encontramos diversas maneiras de se aprofundar, de se civilizar e de progredir – a questão de progredir parece essencial. Isso pode ser feito trabalhando, criando instituições políticas etc. Me parece que Marx chama tudo isso de trabalho e, nomeando tudo de trabalho, ele adota uma visão bastante artesanal do trabalho, um modelo bastante simplista, e, no final do seu pensamento, concluímos que a atividade humana é trabalho, ou seja, uma extensão enorme do conceito e, ao mesmo tempo, pobre. Me parece que hoje nós temos uma definição mais exata e precisa do trabalho. No entanto, essa questão não deveria ser feita para mim, mas sim a marxistas.

 

Como o ritmo do crescimento

econômico colocou em causa o

paradigma produtivo durante os anos

1980?

Por exemplo, no momento em que escrevi o livro (O trabalho: um valor em vias de extinção), nós não vivíamos um crescimento econômico ruim, mas o desemprego era alto. Disse na época que o crescimento do desemprego era uma boa ocasião para se repensar o lugar do trabalho. Penso que hoje isso é ainda mais verdadeiro. Essa crise enorme recoloca a importância de repensar nossa relação com o trabalho, o lugar que ele ocupa. Mais ainda, permite repensar a lógica econômica, a lógica mercantil. Infelizmente, não acredito que estamos nesse caminho. Mas me parece que é nesses momentos de crise que podemos introduzir certas questões. No entanto, ao mesmo tempo, é um momento difícil, porque as pessoas ao perderem o seu trabalho se encontram ainda mais ligadas a ele, pois ainda não há nada no seu lugar – e diria mesmo que nada o substituirá. Não se pode acabar com o trabalho, mas é necessário, sem dúvida, reduzir seu espaço, esvaziá-lo de maneira a abrir outros espaços ao lado. Portanto, a questão do crescimento é muito importante. Talvez hoje ainda mais importante, porque é absolutamente claro que nós temos um compromisso ecológico maior que, na minha opinião, deve aparecer em primeiro plano. Uma parte desse progresso que falamos há pouco foi feito sobre o nosso capital natural, nosso patrimônio natural. Nós não podemos mais fazer isso. Então seria preciso levarmos em consideração toda a degradação que ocorreu, obrigando-nos a repensar nossa relação com o trabalho e, sobretudo, o que é o trabalho. Quando nós dizemos que o trabalho é um fator de produção, tal como afirma a economia clássica, nós vemos que o seu ideal é o desaparecimento do trabalho e do trabalhador – o que conta é o tamanho da produção. Mas se hoje, ao contrário, dizemos que o importante é uma produção que seja suscetível de ser concebida e distribuída de maneira igualitária, que não agrida o capital natural, isso implica em repensar completamente o trabalho que permite a produção – ele poderia ser, talvez, não um meio, mas um fim, como dizia Marx. Quando ele afirma que o trabalho deveria ser a primeira necessidade vital, isso implica abandonar essa ideia de que o trabalho é apenas um meio que permite a maior produção possível. Como você analisa as teses sobre a

sociedade pós-industrial? Bell, Gorz,

Habermas, Offe, entre outros,

fornecem ainda elementos teóricos

importantes para compreender os

processos de integração social?

Na verdade, me inspirei muito nesses autores para escrever meu livro. Mas tenho a impressão de que este foi um momento situado no tempo, hoje superado. Retomei um debate com Offe alguns anos atrás e ele não dizia mais a mesma coisa. Gorz não mudou totalmente de opinião. Mas me parece que nesse grande momento, mais precisamente os anos 1990, sobretudo na Alemanha e na França, com Gorz, havia uma verdadeira crítica, uma crítica ecológica, uma crítica do capitalismo e, portanto, ao trabalho. Essa crítica foi tomada em parte, mas apenas em parte, por ecologistas de alguns países, como da Alemanha e da França, mas ela não foi absolutamente incorporada pela esquerda, ao contrário, acredito que a esquerda hoje está muito acanhada para toda essa questão. Ela pensa ser necessário antes, mais do que qualquer outra coisa, retomar a posição central e massiva do trabalho. Tudo se passa como se todo esse debate não passasse de um parêntese. Para Habermas é parecido, é nesse momento que ele escreve sobre o fim da sociedade fundada no trabalho e depois ele não retoma o tema. Acompanhei bem o debate entre Habermas e Honneth, e gosto muito da posição de Axel Honneth. Ele disse que a limpeza categorial feita por Habermas não deveria ser abandonada, mas a experiência do desemprego das pessoas não poderia igualmente ser desprezada ou deixada de lado. Honneth diz isso ao observar a fragmentação e a dor que trazia a experiência do desemprego. É uma espécie de análise dialética – perceber que o trabalho não ocupa mais todos os cantos e lugares e, ao mesmo tempo, reconhecer que ele ainda é uma experiência central. Acho isso muito interessante, mas gostaria de ir mais longe, isto é, compreender que é necessário hoje mudar radicalmente o trabalho se queremos realizar uma crítica forte da economia e do capitalismo.

 

Como Weber te ajudou a pensar a

questão do trabalho?

Eu me liguei explicitamente à ideia de desencantamento de Weber, isto é, essa ideia que, pela racionalização, de certa forma, o mundo também perde o seu sentido, no qual as pessoas deixam de acreditar que existem poderes mágicos. Então, do mesmo modo, passei a esvaziar as expectativas que depositamos sobre o trabalho de maneira voluntariosa. Esse assunto ocupa espaço central no debate. Danièle Linhart tratou dessa questão também, isto é: o trabalho não mudou e não vai mudar tão cedo. Seria preciso então esvaziar nossas expectativas e investir em outros espaços? Ou trata-se antes, e prioritariamente, de mudar o trabalho? A resposta foi dada, em certa medida, ao longo desses trinta anos – nós não mudamos a organização do trabalho, nós não mudamos o regime capitalista, nós não mudamos a subordinação. Penso ser necessário realizar os dois movimentos ao mesmo tempo, isto é, parar de esperar que tudo que virá do trabalho seja revolução, como os laços sociais, abrindo outros espaços ao largo e, simultaneamente, continuar a civilizar o trabalho. A crítica que fazem é que a defesa do desencantamento do trabalho e da abertura de outros deixaria a possibilidade do regime capitalista maltratar ainda mais o trabalho e o trabalhador. Essa crítica deve ser considerada e, ao mesmo tempo, é necessário abrir espaços de deliberação democrática ao lado do trabalho para tentar civilizá-lo e revolucioná-lo.

 

Se o trabalho permanece como um

fator de socialização, em que medida isso incide sobre a teoria do valor-

trabalho de Marx?

Eu penso que o trabalho permanece como um fator de socialização. Talvez seja preciso discutir o que se entende por socialização, o que as pessoas entendem como fator de socialização, isto é, estar inscrito na sociedade, participar dela, dar sua contribuição, ter uma renda. Portanto, o trabalho é sim um fator de socialização. No entanto, partilho da crítica de Danièle Linhart de que o trabalho não possui mais aquele status coletivo, ou seja, não há mais uma socialização naquele sentido extremamente coletivo que poderia ter existido nos anos 1970. Quanto à teoria do valor de Marx, sempre fui um tanto quanto ambígua com relação a ela. Em minha opinião, a teoria do valor é um instrumento extremamente poderoso para compreensão das coisas. Mas, ao mesmo tempo, se a gente se situa a partir de um ponto de vista puramente técnico e econômico, nós vemos claramente que não é totalmente defensável a ideia de que o valor de uso e o valor de troca devam ser igualmente levados em conta. Depois, tem toda essa discussão, que não vou entrar aqui, sobre o valor do salário, isto é, como a gente determina o salário das pessoas. Nós vemos hoje a maneira como o trabalho do compétente se valorizou. Essa valorização é absurda, isto é, completamente desconectada da quantidade de trabalho. É necessário trabalhar sobre ela.

 

O conceito de classe social é

teoricamente válido para analisar as

clivagens do capitalismo

contemporâneo?

 

Sim, esse conceito não deve ser deixado de lado e é necessário utilizá-lo. Há uma grande enquete do INSEE (Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos) que entrevistou várias pessoas sobre a sua identidade. Essa enquete, que se chama Histoire de vie: construction des identités, perguntava aos entrevistados o que lhes definia melhor. Com relação à importância do trabalho, o que nós vimos é uma influência da classe social extremamente importante. Por exemplo, nós tínhamos as classes sociais superiores e os profissionais intelectuais, para os quais o trabalho se confundia verdadeiramente com a vida - as pessoas diziam: “para mim, o trabalho é extremamente importante, me expresso pelo meu trabalho etc.”; do outro lado extremo do espectro, empregados e operários pouco qualificados, afirmavam haver quase uma situação de retrocesso em relação ao trabalho. Nós tivemos a impressão de que o trabalho para eles não era, de forma alguma, estruturante ou importante para definir sua identidade, e que, caso o fosse, seria mais de uma maneira negativa. Nós vimos também nessa enquete algo já muito conhecido pelos sociólogos, que os que têm um sentimento de pertença maior são os cadres, não os operários. Como se, portanto, existissem sim manifestações de pertencimento de classe social, mas esse pertencimento não é mais pensado, ele não é mais consciente. Com o crescimento do individualismo houve uma espécie de grande fragmentação que tornou a classe social suscetível de se reconhecer em movimentos coletivos e instituições. Portanto, penso que talvez seja necessário unir o fato de que, por um lado, o conceito de classe permite-nos analisar uma situação concreta, ainda que, por outro, as pessoas não se sintam pertencentes a uma classe social. Talvez seja necessário compreender porque isso acontece e, sobretudo, tentar mudar.

 

Uma das questões centrais para

pensar a luta contra as desigualdades

sociais é o debate em torno do tempo

livre e da renda universal. Como você

analisa esse debate?

Bom, isso é complicado, porque existem várias coisas aí. Antes pensava como Gorz e tantos outros, que era necessário reduzir o espaço do trabalho para ampliar o tempo livre que seria fundamentalmente utilizado em atividades políticas, atividades familiares e outras. No entanto, sabemos bem o que se passou ao longo do século XX, o tempo livre foi colonizado pelo consumo, pela televisão etc. Essa foi uma questão central no momento das discussões sobre as 35 horas na França, onde pessoas de esquerda se posicionavam contra a redução do tempo de trabalho. As pessoas de esquerda que se posicionavam contra a redução do tempo de trabalho justificavam que isso iria colocar os operários diante da televisão. É estranho como a crítica de direita e de esquerda se aproximaram neste ponto. Sendo que na verdade a gente poderia construir laços, laços inteligentes para o coletivo do trabalho. Essa é uma discussão que me chamou muito a atenção porque, depois, a questão das 35 horas não teve êxito total na França e, sobretudo, porque não houve organização que permitisse que o tempo liberado, de início em bloco, fosse recuperado pelas instituições para que coisas interessantes pudessem ser feitas.

Quanto à questão da renda social, sempre fui contra, me parece uma proposta muito perigosa, um meio do capitalista ficar em paz com a consciência, isto é, a gente separa as pessoas pobres e lhes oferece um pequeno mínimo, obrigatoriamente um mínimo, e ninguém se ocupa mais delas. Para evitar esse risco, todos deveriam ter um trabalho de verdade; parece uma coisa idiota dizer um trabalho de verdade, mas, enfim, que todos estivessem inseridos na economia, isto é, que todos tivessem acesso ao emprego e a renda à qual o emprego dá acesso, mesmo que haja uma desconexão. A minha ideia é a de que deveria existir, sim, uma desconexão entre a produtividade do trabalho que cada um realiza e o salário, isto é: por que não, a partir do momento em que as pessoas estão inseridas no trabalho, oferecer salários mais altos? Nessa ideia existe uma desconexão, mas não uma desconexão completa, porque isso poderia criar um gueto de inaptos sociais deixados de lado. Agora, existem pessoas, como Jean-Marc Ferry e André Gorz, que pensam que a renda social é um meio eficaz de subverter o capitalismo, isto é, oferecer uma renda importante às pessoas permitiria que elas não aceitassem trabalhos humilhantes e de baixa qualidade. Portanto, seria um instrumento para lutar contra a tendência do capitalismo de criar empregos de péssima qualidade. Bom, se é assim, por que não? Mas não consigo ver como isso aconteceria. Nós vimos com o RSA (Revenu de Solidarité Active) na França – nesse momento passamos por uma reforma, o nosso antigo mínimo social, o RMI (Revenu Minimum d’Insertion) foi substituído pelo RSA –, que consiste, em grande parte, em tentar trazer de volta as pessoas ao emprego. Então, sempre há essa ideia de direitos e deveres que vão tentar reintroduzir as pessoas no emprego. Portanto, não vejo como hoje nós chegaríamos a instaurar uma renda mínima garantida de boa qualidade, que permita pessoas viverem de fato sem trabalho, ainda mais com toda ameaça que pesa sobre a proteção social. Deste modo, penso que a questão central é a qualidade do tempo livre, o que se faz com o tempo livre, a questão da renda.

O que a gente deve tomar como prioridade? Uma renda mínima? O tempo livre? Mudar radicalmente o trabalho? Hoje me pergunto, ao contrário do que dizia no meu livro, se não deveríamos começar pela qualidade do trabalho e do emprego, se não é assim que a gente chegará a uma resposta. Talvez, como afirmavam meus críticos, partir novamente da questão do trabalho, da qualidade do trabalho e não do seu exterior. Mas não sei, é algo que preciso refletir. Não sei se partir do tempo livre resolve, porque não sei se as pessoas se interessariam, uma vez que elas precisam de mais dinheiro. Tampouco partir de uma renda mínima seria suficiente, inclusive do ponto de vista da aspiração, pois as pessoas aspiram a um trabalho de qualidade. Então, o melhor, talvez, seja começar por aí, isto é, lutar pela crescente qualidade do trabalho e, quem sabe, os demais viriam.

 

Para finalizar, gostaria de saber quais

foram suas influências teóricas?

Principalmente a Escola de Frankfurt, toda a Escola de Frankfurt, Habermas; a filosofia alemã; na França, Gorz e Jean-Marie Vincent. O debate que Jean-Marie Vincent e Negri realizaram na revista Actual Marx, mesmo tendo depois me distanciado de Marx e do seu lado hiperprodutivista. Por fim, creio que a crítica de viés ecológico feita a Marx é muito interessante. Hoje a questão que está diante de nós é fazer essa junção entre a crítica ecológica e a crítica social. Ao realizar essa crítica, nós nos confrontaremos imediatamente com a questão do trabalho, de seu lugar, de sua qualidade, de sua produção, dos indicadores de riqueza, ou seja, esse núcleo em torno do qual me encontro. É por isso que acho que Marx nos abandonou no meio do caminho, ele permanece produtivista e, a partir de determinado momento, seguimos sozinhos.