Trabalho (Imaterial), Valor e Classes Sociais
Michel Husson
Pesquisador do Institut de Recherches Économiques et Sociales (IRES) e diretor do Institut National de la Statistique et des Études Économiques (INSEE), Husson militou no Partido Socialista Unificado, fez parte da Liga Comunista Revolucionária, é membro da Associação pela Tributação das Transações Financeiras e pela Ação da Cidadania (ATTAC) e da Fundação Copérnico, um bloco de discussão e crítica ao neoliberalismo. Entre suas produções se destacam: Misere du capital: une critique du neoliberalisme (Syros, 1996), traduzido para o português como Miséria do capital: uma crítica ao neoliberalismo (Terramar, 1999); Les ajustements de l’emploi (Page Deux, 1999); Le grand bluff capitaliste (La Dispute, 2001); Les casseurs de l’État social (La Découverte, 2003); Travail flexible, salariés jetables (La Découverte, 2006); Un pur capitalisme (Page Deux, 2008); e Le capitalisme en 10 leçons (Zones, 2012).
Qual é o seu método de trabalho?
O meu método de trabalho é um pouco particular. Sou funcionário do INSEE (Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos), então sempre trabalhei um pouco entre o trabalho profissional em torno da estrutura administrativa – agora estou mais próximo desse instituto ligado ao sindicato – e o trabalho militante – seja na estrutura política ou associativa. Essa experiência me permite fazer a junção dessas duas esferas. O elo entre a minha vida profissional e a militância está nessa vontade de fazer economia aplicada, estatística, e não somente teoria. Então, tento fazer essa ligação que corresponde à minha dupla inserção profissional e militante.
Como pensar Marx hoje? É preciso
superá-lo? Quais elementos
conceituais não foram desenvolvidos por Marx e são necessários para a
compreensão da realidade social?
É uma questão vasta e que, ao mesmo tempo, supõe que se possa determinar um sucessor ou mesmo um continuador de Marx, o que é uma pretensão absurda. O meu movimento é um pouco mais pragmático. Utilizo o marxismo como referência em certos debates, mas de maneira relativamente pragmática. Na situação atual, o que falta no marxismo tem a ver com dois aspectos. Primeiramente, uma leitura ortodoxa da crise inspirada na lei da queda tendencial da taxa de lucro. A esse respeito, penso que a leitura ortodoxa de apresentação dessa lei não é correta, pois se utiliza uma determinação (a queda tendencial) que é quase inexistente. Portanto, isso implica numa heterodoxia com relação a Marx. O outro aspecto diz respeito à questão ecológica. Em Marx existe toda uma crítica à mercadoria que é totalmente transponível a esse debate, mas falta um quadro conceitual que permita pensar uma regulação econômica com relação à questão ecológica. No entanto, com relação à teoria do valor, eu sou ultraortodoxo. Penso justamente que, durante a crise financeira, a ligação com a teoria do valor nos permite não cair em ilusões sobre a finança. Esse seria um dos pontos em que faria de maneira tranquila e útil a junção com a teoria.
Desde o início dos anos 1980 os
Grundrisse de Marx foram revisados
por vários autores. Como pensar a
apropriação dessa obra, em particular
o conceito de general intellect?
Eu penso que os Grundrisse é o que há de melhor em Marx. Eu diria – e essa é, aliás, a tese do Negri – que ali Marx avança mais na crítica que em O capital. No sentido de que o princípio fundamental da crise do capitalismo – mesmo em certos aspectos da situação atual – está na sua eficácia, baseada numa economia do tempo de trabalho. Num dado momento essa eficácia chegaria ao seu limite e seria superada. Essa é a verdadeira crise sistêmica. No sentido de que um novo cálculo econômico e uma nova alocação de recursos tornam-se possíveis. É um nível da crise pouco presente em O capital, onde há uma crise de superprodução e de superacumulação, isto é, de regulação do capital, mas que não remete aos desequilíbrios no cálculo do tempo do trabalho. Nos Grundrisse há uma série de passagens sobre a redução do tempo de trabalho como meio de transformação social e que, na realidade atual, assume traços modernos. No que consiste à interpretação de Negri, ele se apoia em alguns elementos dos Grundrisse, sobretudo na ideia de general intellect para construir uma teoria do capitalismo cognitivo. A esse respeito sou extremamente crítico, acho que há aí um contrassenso em sua leitura. O que Marx descreve nessa passagem é o fato de que há um trabalho intelectual – o conhecimento, para usar a expressão de Negri – que contribui na produção do valor, mas que continua a ser absorvido pelo capital. Talvez encontre aqui passagens que precisem melhor isso. Mas, sobretudo, penso que essa interpretação está sempre presente em Marx, isto é, que o saber do trabalhador é absorvido pelo capital. Em Negri nós vemos uma espécie de subversão do uso do capitalismo. A ideia de que potencialmente o capital entraria em crise ou, em todo caso, a lei do valor entraria em crise, é ultrapassada, pois não é possível medir o valor criado. Escrevi um artigo no aniversário dos 150 anos do manifesto, peço para citar um trecho que uso dos Grundrisse, que precisa bem o que estou falando: “o trabalho imediato enquanto tal deixa de ser o fundamento da produção, uma vez que ele é transformado em uma atividade que consiste essencialmente em vigilância e regulação, enquanto que o produto deixa de ser criado pelo trabalhador imediato, e resulta mais da combinação da atividade social que da simples atividade do produtor”. Aqui também está presente a ideia do trabalhador coletivo. Bom, essa é uma espécie de antecipação da organização atual do trabalho – há um certo número de setores onde o valor é criado pela combinação social do trabalho, em parte pelo trabalho manual, em parte pelo trabalho intelectual. É importante retomar a interpretação de Negri sobre essa constatação. Ele diz: “O trabalho vivo torna-se presença ainda mais hegemônica e critério de orientação do seu desenvolvimento na medida em que a lei do valor, ou antes, a medida da exploração, envelhece e se torna inútil”. Essa ideia eu descarto
veementemente.35
Há potencialmente uma outra forma de organização social do trabalho, de produtividade do trabalho e de medida do trabalho. Mas a tese de que a lei do valor não se aplica mais é falsa, isto é, no fundo, o capitalismo necessita impor o funcionamento do valor, seja de maneira coercitiva ou jurídica. Por exemplo, uma série de mercadorias que são produzidas nessas condições tem proprietários privados com custos de produção nulos. A produção de CDs ou software tem um custo, um tempo de trabalho. Mas a sua reprodução é quase nula. De certa maneira, isso quebra a forma-mercadoria, porque podemos imaginar a distribuição gratuita desses produtos e extrair disso todo um potencial de transformação; assim, a teoria do valor seria efetivamente ultrapassada, continuaria existindo o tempo de trabalho para produção, mas haveria outra forma de distribuição. Todavia, a conclusão de que a teoria do valor já está ultrapassada, em minha opinião, é falsa; ao contrário, toda a regulamentação, toda a propriedade intelectual é contida dentro dos limites da mercadoria, isto é, coisas que poderiam potencialmente estar fora e não estão. Portanto, a lei do valor continua se aplicando. Mas a reprodução gratuita é uma forma de questionamento do capital. Hoje em dia, na França, existe a pirataria na internet etc. que está dentro desse raciocínio. Ela está totalmente subordinada. Outro exemplo que pode ter o mesmo significado é a produção de medicamentos genéricos, aqui também existem potencialidades com a distribuição gratuita, e vários grupos farmacêuticos vão se confrontar, através da propriedade intelectual, para manter a situação de mercadoria, do produto que eles poderiam, digamos, produzir quase em abundância. O que eu contesto na análise de Negri e em toda a sua escola é a ideia de que por conta de uma imaterialidade da mercadoria, por conta de uma parte do trabalho ser intelectual, do haver um conhecimento como fator de produção, como elementos particulares de produção, a presença dessa imaterialidade teria feito desaparecer a lei do valor. O problema é que justamente isso não faz desaparecer a lei do valor. Ela não desaparece, na medida em que repõe as relações de produção que não foram ultrapassadas em seu conteúdo dentro do processo de produção. Existem aí dois aspectos igualmente problemáticos. O primeiro – e isso não se restringe a Negri, mas também a certa leitura stalinista de Marx – que associa o trabalho produtivo ao trabalho do operário, quando, em termos marxistas, a mercadoria não pode ser lida necessariamente como um bem físico. É algo que é produzido com trabalho humano e é vendido com objetivo do lucro no interior do modo de produção. Portanto, a imaterialidade não questiona a função da mercadoria. O outro problema concerne à figura do trabalhador cognitivo, o que alguns chamam na França de precariado, pessoas que têm capacidades próprias. Trata-se de um trabalho fundado no conhecimento (conhecimento do processo, do programa de computador etc.) – e esse é um elemento-chave para fundar a tese de que haveria um novo capitalismo, chamado de cognitivo. A ideia-chave de toda esta questão é que esse tipo de trabalho se generaliza, tornando-se majoritário. Em minha opinião, isso é completamente falso com relação ao capitalismo. De fato, existe um polo de desenvolvimento desse tipo de trabalho, cuja reprodução se alargou em cadeia mundial e que é chamado classicamente de tayloriano. Há basicamente dois caminhos: um que diz que aos poucos o trabalho cognitivo vai substituir o antigo trabalho material; e outro que vislumbra a polarização entre essas duas formas de trabalho, que se cruzam, onde o número de empregados aumenta nos dois extremos, do lado ultraqualificado, cognitivo, e do lado absolutamente clássico do proletário. Esse é um ponto importante que tem implicações políticas, porque é preciso, em certa medida, negar de certa maneira a manutenção da reprodução do proletariado clássico e fazer da figura do trabalhador cognitivo uma certa vanguarda. É preciso indicar o contrário disso, é necessário pensar a articulação desses dois aspectos: uma proletarização, inclusive da camada assalariada com elementos precários, que não são os mesmos elementos dos desempregados, ou do trabalho “sublime”, como o do artesão, que graças ao seu saber-fazer podia discutir as condições de trabalho com seu patrão, e que inclui o trabalho intelectual no qual uma disciplina não permite ao trabalhador desenvolver seu trabalho fora do capital.
Com relação ao seu livro, o que
significa o puro capitalismo? A tese
do capitalismo puro se interroga
sobre o fim da divisão entre os
mercados nacionais?
O puro capitalismo é o capitalismo que se libera de certas amarras, constrangimentos e regulamentações, passando a operar como bem entende, assemelhando-se muito ao seu próprio conceito. Essa ideia se opõe à tese de que o capitalismo teria sido pervertido pela finança. Uma parte do livro consiste em mostrar que a finança serve como instrumento de liberação e circulação mundial do capital, de circulação mundial. O outro aspecto da sua questão consiste em saber se essa é uma tendência universal, ou seja, se é um capitalismo universal. Aqui é um pouco mais complicado. Existe efetivamente uma tendência à realização do mercado mundial, isso é claro. Tendência que talvez jamais tenha existido, não nesse nível. Porque existiram fases de internacionalização, de mundialização, mas eram mais formas de contato entre zonas econômicas que não estavam verdadeiramente fundidas – a relação colonialista, por exemplo, implicava a extração e transferência do valor para a Metrópole. Enquanto hoje existe essa tendência à constituição de um mercado mundial, mas com a capacidade real do capitalismo de penetrar o conjunto do planeta. Desse ponto de vista, sim, ele é impuro porque ele seleciona no país e no setor o que pode entrar nessa lógica e exclui o resto. Portanto, face ao planeta, ele é impuro. Por outro lado, a dinâmica atual do capitalismo corresponde ao livre funcionamento, não regulamentado, não enquadrado, e isso corresponde ao verdadeiro capitalismo.
As forças produtivas têm um papel
determinante na estrutura social?
Qual o papel das mutações técnicas e
tecnológicas na transformação
estrutural da sociedade capitalista?
O problema é partir do produtivismo, ou seja, da ideia de que o crescimento das forças produtivas, por princípio, é portador do progresso e de que as relações de produção vão impedi-las de se desenvolver mais rapidamente. Trata-se de uma visão um tanto quanto quantitativa. Em minha opinião, é algo que precisa mudar, e está mudando na medida em que se evidenciam os elementos qualitativos das forças produtivas. E isso ocorre em dois aspectos. Não somente com relação à questão ecológica – as forças produtivas são também forças destrutivas com relação ao meio ambiente –, mas também tem aparecido muito forte na análise da sociedade o que chamam de ecologia do trabalho – a força produtiva destrói também, e ainda mais, o trabalhador com a intensificação do trabalho que hoje é considerável. De certa maneira, hoje na saúde do trabalho nós vemos um relativo desaparecimento da fadiga puramente física que é substituída pelo surgimento do estresse etc. Então, as alternativas passam pelo questionamento desses aspectos quantitativos das forças produtivas, pela necessidade de pensar a multiplicidade de forças produtivas diferentes no processo de organização do trabalho. Penso que um elemento importante para a transformação social hoje é a questão do tempo livre. Marx citou um autor que dizia que a riqueza de uma sociedade se mede pelo seu tempo livre. Isso é preciso ser considerado. Ademais, o conteúdo do crescimento e seus efeitos para o meio ambiente. Esse é o verdadeiro debate no movimento atual, uma espécie de saúde que é preciso analisar, aliando as duas tradições: uma ecológica, que considera todo progresso como destruidor, e outra produtivista, de um certo marxismo, onde todo o desenvolvimento das forças produtivas é progresso. Me parece que, inclusive nos aspectos mais teóricos, há hoje uma espécie de convergência onde os ecologistas consideram a questão social e vice-versa. Uma questão a ser colocada, inclusive em termos teóricos, é se o capitalismo verde é possível. O capitalismo pode integrar a transformação necessária? Ele pode alterar o tipo de força produtiva que ele emprega? Nós podemos colocar estas questões. Em resumo e de maneira muito parcial, não pode, isso porque no capitalismo os critérios seguem sendo a rentabilidade, o lucro máximo e todo esse tipo de cálculo econômico que ignora os aspectos qualitativos. O verdadeiro desafio ambiental, portanto, implica em um cálculo em termos de valor de uso. Grosso modo, é a ideia de que o cálculo mercadológico caduca diante dos objetivos que a humanidade pode se fixar. Num nível menos teórico, e talvez mais útil, basta olharmos para esses planos fundados sobre a taxa de carbono e em todo o mercado de emissão de poluentes para vermos os seus limites, bem como o risco de ficarmos muito abaixo dos objetivos que as instituições, como, por exemplo, o
Giec,36 fixam – sobretudo a respeito da introdução dos menos favorecidos na questão ambiental: são os mais pobres os primeiros a serem expostos a catástrofes, como a que ocorreu em New Orleans.
A produção baseada sobre as novas
tecnologias da informação e
comunicação altera a divisão entre
trabalho produtivo e improdutivo, entre trabalho de execução e trabalho
de elaboração?
Retomando a questão anterior: tudo isso modifica, ok!? Mas o importante é saber se modifica a ponto de substituir o que existe. O trabalho intelectual vai substituir todo o resto? Encontrei aqui algumas citações. Para Negri, essas novas tecnologias representam o desaparecimento do capital. Ele escreve, por exemplo: “o capital torna-se um aparelho vazio, limitado, um fantasma, um fetiche” e, ainda, “o processo de produção de subjetividade, isto é, o processo de produção em geral, se constitui fora do capital (…)”. Assim, para ele, a transformação da natureza do trabalho conduziria ao rompimento espontâneo da relação capital-trabalho. Negri afirma ainda que o capital se “tornou um parasita incapaz de controlar unilateralmente a estrutura do processo de trabalho, através da divisão do trabalho manual e intelectual”. Eu o cito ainda um pouco mais: “o trabalho se emancipou pela sua capacidade de tornar-se intelectual, imaterial, ele se emancipou da disciplina da fábrica”. Em minha opinião, isso é completamente falso. Eu queria muito que fosse verdade. Mas é falso, porque o processo concreto do trabalho mostra que o capital é ainda extremamente forte, e que consegue ainda recuperar a seu favor o trabalho que potencialmente se autonomiza. Em minha opinião, a arma principal do capital é o desemprego. Certamente existem pessoas muito qualificadas. Mas o que acontece com elas? Uma determinada empresa pode depender do conhecimento e do saber-fazer de um grupo de trabalhadores altamente qualificados, mas, ao mesmo tempo, não existe outro lugar para empregá-los. É dessa maneira que eles são disciplinados. O que é complicado nessa leitura de Negri e em toda a sua corrente é o fato deles superestimarem essas mudanças, pintando os outros como arqueomarxistas que não compreenderam bem essa transformação e as possibilidades por ela abertas. A outra questão é mais estratégica. De certa maneira, essas possibilidades existem, e mesmo nos textos dos Grundrisse encontramos essa ideia de que o capitalismo está intrincado por potencialidades, que se poderia funcionar de outra forma, que seria possível utilizar as forças do trabalho de outra forma etc. As potencialidades existem e são enormes, mas, ao mesmo tempo, enquanto essas relações de produção forem mantidas e mantidas à força, são relações de violência, essas potencialidades permanecem no estado de potencialidades. Podemos adocicar, contornar, mas as relações de produção continuam as mesmas. Não se chega a compreender a hipótese de Negri. A única conclusão, digamos, “aplicável”, diz respeito, na França, a certos partidários entre os intermitentes do espetáculo, para os quais a única solução é a ideia de uma renda universal, uma renda desconectada de toda atividade assalariada. Mas aqui permanece a mesma crítica. Não podemos esperar uma sociedade liberta, dita de abundância, enquanto o capital mantiver o controle das relações de produção. Mesmo essa renda, não vejo como poderíamos impô-la a uma sociedade inserida nas relações de produção capitalista.
Em que medida estas novas
tecnologias (da informação e
comunicação) provocam uma
fascinação nos pesquisadores do
século XXI? Essa fascinação estaria
presente no debate marxista forças
produtivas versus relações de
produção no século XX?
De certa forma, essa fascinação está presente numa tradição que estabeleceu a correspondência entre as grandes fases do capitalismo e as grandes invenções – é a leitura do ciclo Kondratieff –, por exemplo; uma busca de soluções técnicas em contradição com o capitalismo. Escrevi algo a respeito no momento da nova economia, isto é, a ideia de que existem novas tecnologias que modificariam realmente a organização social. A questão por trás da nova economia – ou, digamos, a questão número um, é que o valor das ações pode aumentar de maneira completamente descolada do lucro real e isso pode durar por muito tempo, explicando isso pela potencialidade das novas tecnologias. Esse problema retoma a questão do crescimento: a ideia de que o capitalismo poderia resolver as suas contradições a partir das novas tecnologias. É um pouco um subproduto da teoria da regulação na França. Nós analisamos à exaustão o período fordista, que é justamente uma combinação bem-sucedida entre a repartição de renda e o tipo de inovação no setor automobilístico, de bens de consumo etc. Durante muito tempo se buscou, depois desse período, um setor onde poderíamos reconstituir esse arranjo positivo. De fato, esse equivalente do setor automobilístico não se reproduziu. Isso é um elemento fundamental da crise do capitalismo. De certa maneira, existe muito lucro, mas essas ocasiões de investimento rentável estão reduzidas. O capital prefere não responder a determinadas necessidades, muito mais que responder a uma taxa de lucro associado inferior. Certamente, as finanças tiveram um papel importante na definição de uma rentabilidade extremamente elevada, ilusória, mas extremamente elevada.
Ainda com relação à economia
cognitiva, qual a influência da
produção cognitiva na economia
capitalista hoje? Qual é a
particularidade dos Estados Unidos
com relação à economia cognitiva?
O que é perverso no capitalismo não é somente a produtividade do trabalho. Os Estados Unidos vivenciaram um boom relativo da produtividade do trabalho ligado, fundamentalmente, à difusão de novas tecnologias de informação, à internet etc. Os Estados Unidos estão à frente nesse ponto. Mas existe um mistério que os economistas não conseguem explicar. Esse modelo permaneceu restrito. Enfim, ele não se difundiu, não teve efeitos massivos sobre a produtividade na Europa, exceto em alguns países. O debate é o seguinte: as novas tecnologias podem ditar constantemente o ritmo da produtividade do trabalho que cresce rapidamente? Se tornando, portanto, a base material de uma rentabilidade mais elevada do capital? Esse debate não foi completamente esmiuçado, sendo profundamente perturbado pela crise. Há uma tese que afirma que a nova fase produtiva está fundada sobre o capitalismo cognitivo e que, portanto, vamos presenciar permanentemente ganhos superiores. Para ela não se trata de retomar o período fordista, mas de liberar a possibilidade de dinamismo para renovar o capitalismo. Há outra tese que consiste em dizer que se trata somente de mais um ciclo de altas tecnologias, que num primeiro momento desencadeia a produtividade para em seguida ela tornar a cair. É complicado, porque a crise realmente perturba as possibilidades de análise desse processo. Mas me parece que a segunda tese está correta, sobretudo, porque se remete à necessidade de um novo ciclo produtivo que hoje falta ao capitalismo.
Mudando um pouco de tema. Como
você pensa as classes sociais hoje?
Eu diria três coisas. De uma parte, alguns sociólogos dizem que a burguesia sabe claramente que existem as classes sociais, ela está muito consciente de fazer parte de uma classe. Então, do lado dos dominantes essa questão não se coloca: a classe é percebida através da sua posição dominante, das suas conquistas e seus privilégios. Com os explorados isso é mais complicado. Existem duas tendências. Uma tendência à fragmentação, resumindo, quando analisamos um país como a França, existem três níveis do proletariado no sentido mais amplo: numa ponta os precários, no outro extremo, há aqueles que o capital atrai, sobretudo por remuneração ligada ao lucro sobre a forma de ações e participações, ou seja, uma remuneração não diretamente ligada ao salário, mas que o complementa e, no meio, o proletariado intermediário que está entre os dois polos – entre o estímulo do lucro e o chicote do desemprego. Mas, ao mesmo tempo, como a divisão da classe é um pouco subjetiva, existem elementos para a construção de uma subjetividade majoritária. A reforma e a contrarreforma liberal têm uma tendência a unificar a percepção global dessas diferentes camadas sociais que compõem a classe trabalhadora no amplo sentido do termo, porque, de certa maneira, existem poucos que estão protegidos do desemprego, da desclassificação social dos filhos, das ameaças contra a aposentadoria. Portanto, existe um duplo movimento, um movimento objetivo, que é de fracionamento e o movimento global, digamos, de generalização do risco, que potencialmente cria uma percepção subjetiva mais unificada da situação. Existe uma tensão constante entre esses dois movimentos. De certa maneira, os movimentos sociais de grande amplitude têm elementos de subjetividade que tendem a adotar um ponto de vista unificado, uma resistência comum. Mas, ao mesmo tempo, há uma divisão extremamente profunda que se inscreve no destino das pessoas. Nós vemos, por exemplo, que há uma espécie de desconfiança daqueles assalariados face àqueles que estão em situação precária. E certos movimentos sociais, mesmo de esquerda, jogam com esta situação, e isso fabrica possíveis divisões. Penso que a tarefa do marxismo e das pessoas que visam a transformação social é fabricar representações sociais mostrando suas unidades subjetivas.
Como pensar o trabalho imaterial e o
trabalho material com relação aos
conceitos de trabalho concreto e
trabalho abstrato em Marx?
Eu penso que trabalho concreto e abstrato é outro terreno teórico. Mas a distinção entre trabalho intelectual e manual nunca teve muito sentido. No setor automobilístico, havia trabalho manual, mas havia também uma concepção de conjunto, um espírito, digamos, de coletivo, inclusive para se proteger do patrão. Existem muito poucos trabalhos puramente manuais. Em seguida, me parece que há uma grande ilusão sobre o enriquecimento das tarefas e sobre a capacidade de iniciativa, a aplicação do salariado. Então, temos uma visão que podemos chamar de otimista: a ideia de que a divisão cognitiva do trabalho permitiria uma organização do trabalho muito mais rica, com polivalência de tarefas cognitivas. Isso não é apenas uma ilusão, existem aí potencialidades, mas, contrariamente, nós encontramos aí também a vontade do capitalismo de manter seu poder. De certo modo, o capital se apoia nisso para reproduzir uma espécie de taylorismo moderno. Além disso, a individualização e a concorrência aparecem como consequências desse processo e podem ser encontrados nos estudos de sociologia sobre a organização do trabalho. Por exemplo, na França, há um grande debate sobre a noção de qualificação e competência. E todos os estudos que refletiram sobre a gestão destacam a noção de competência porque é uma noção subjetiva e individual, enquanto a noção de qualificação é codificada, ligada a tal e qual diploma profissional. Assim, tem-se níveis de qualificação. De certa maneira, existe uma vontade de utilizar essa gestão extremamente individual, apoiada ainda no desemprego, para impedir o que pode haver de verdadeiramente subversivo, mais coletivo e potencialmente autogerido. É verdade que há nas formas novas de trabalho ideias de autogestão, polivalência, coletiva. Encontramos isso nos anos 1960, nas teses de sociólogos como Serge Mallet sobre a nova classe operária. Talvez isso tenha mais fundamento hoje, mas, como nos anos 1960, é uma potencialidade que se opõe às relações capitalistas, e que, portanto, não vemos se desenvolver.
Mas há hoje uma nova classe, como
propôs Serge Mallet?
Não uma nova classe no sentido do seu livro. Ele insistiu sobre uma camada do salariado extremamente qualificada e concluiu daí que poderíamos organizar de outro modo o conjunto da produção. Em certa medida, o aumento do nível de qualificação e da competência portaria em germe formas de organização opostas às relações capitalistas. É preciso, pelo lado do capital, quebrar seu potencial.
Voltando à questão do trabalho
imaterial. Com relação aos teóricos
cognitivistas, existe uma diferença
fundamental entre a Escola de Negri,
Moulier-Boutang, Rullani, Paulré etc.
com relação a de André Gorz?
Sobre Gorz, não sou um discípulo, mas ele foi uma referência durante um longo tempo. É verdade que ele disse coisas contraditórias no final. Por exemplo, no seu livro Misérias do presente e riqueza do possível, ele afirma coisas completamente diferentes daquelas defendidas em O imaterial. A interpretação que tenho dele sobre uma fórmula contida em O imaterial, que dizia que o capitalismo cognitivo é a crise do capitalismo, não sua superação, e a interpretação de Negri também se daria em torno disso, é uma afirmação muito complicada. Por exemplo, Moulier-Boutang tem determinada leitura do capitalismo cognitivo, ele entende que o capitalismo cognitivo seria uma das fases da evolução do capitalismo (capitalismo mercantil, industrial e cognitivo), e que existe uma espécie de coerência em cada fase. No fundo, para Negri, trata-se da dissolução do capital, não é exatamente a mesma coisa. Para Gorz, apesar de tudo, há a ideia de que o capitalismo tende a manter as suas relações sociais e não há, portanto, nenhuma dissolução ou degeneração do capitalismo. O elo com Gorz é que, de certa maneira, a liberalização e as alternativas são construídas por fora do trabalho. Ao mesmo tempo, em Gorz e em Negri, há uma espécie de ecletismo, em particular a referência que ambos fazem a Rifkin sobre o fim do trabalho, que é uma tese que me parece absurda. Do ponto de vista estatístico, ao contrário, há uma massa enorme de gente sendo levada ao mercado de trabalho capitalista. Essa ideia que existe, cada vez mais, de que tamanha é a produtividade no mundo que em determinado momento vamos trabalhar duas horas por dia e o capitalismo vai declinar me parece inconcebível.
Você acha que existe alguma
funcionalidade teórica e política nas
teses sobre o fim do trabalho?
Hoje não mais. Penso que a crise atual evidenciou que o desemprego não é uma fatalidade tecnológica, mas efeito de determinada organização social. O fim do trabalho em Rifkin é uma tese mais otimista: nós caminhamos para uma sociedade do tempo livre. Mas hoje em dia o seu livro é muito ruim. Mas quando olhamos as grandes tendências, vemos que o volume de trabalho assalariado aumenta. Uma aplicação que não sei se é perigosa, mas que é colocada por uma parte do movimento social, diz que o pleno emprego é uma besteira, nós não o alcançaremos jamais, portanto, é necessária a plena atividade e uma renda universal. Não sou contra uma renda mínima garantida, mas, para mim, a verdadeira alternativa é a redução massiva do tempo do trabalho, e é a única que é progressiva, igual para todo mundo, não apenas para um grupo, só para os desempregados, por exemplo, é verdadeiramente a base da transformação social.
Com relação a isso, o problema da
técnica permite explicar o
desemprego?
Justamente, não! Até a crise dos anos 1970 havia 5% de produtividade e 2% de desemprego. Após os anos 1980, há 1 ou 2% de produtividade e 10% de desemprego. Esses dados nos permitem ver que não há efeitos mecânicos. O que aconteceu é que, durante o período em torno dos anos 1980, uma boa parte dos países desenvolvidos com baixa taxa de desemprego organizou a degradação das coisas, por conta da crise, porque, de certa forma, o aumento da taxa de desemprego permite recomeçar, fazer baixar os salários, restabelecer a taxa de lucro que havia baixado. Na sequência, a taxa de desemprego, uma vez atingida, é praticamente conservada. A maior parte dos países europeus oculta uma taxa de desemprego extremamente elevada, pois existem pessoas que estão vivendo de programas sociais. Globalmente, a taxa de desemprego é de aproximadamente 7 e 8%, que é um elemento central da pressão do capital sobre o trabalho para lhe fazer aceitar certo tipo de divisão de renda.
Como você pensa o processo da
mercantilização nas sociedades
contemporâneas?
É aqui que poderíamos falar potencialmente em puro capitalismo. O capitalismo hoje busca mercantilizar absolutamente tudo, nada lhe escapa. Eu ia escrever um livro sobre isso, mas não tive tempo. O capital controla toda uma série de domínios. Eu posso citá-los: o debate sobre a aposentadoria – ela é uma mercadoria ou um direito, uma espécie de direito e de redistribuição da renda? A saúde é igual, com a privatização do setor, ela se transformou numa mercadoria; o meio ambiente também, toda uma série de soluções visa criar uma espécie de mercado da questão ecológica. A propriedade intelectual é um processo de mercantilização. E a força de trabalho em si mesma, podemos dizer que toda a reforma neoliberal consiste em fazer da força de trabalho uma mercadoria como as outras. Essa é a matriz comum do capitalismo hoje e é por isso que ele se coloca numa oposição frontal a países como a França, inseridos naquilo que chamamos de modelo social, com certo número de conquistas. Esse capitalismo é um laissez-faire absolutamente desastroso para a humanidade, tendo como seus dois riscos principais o aprofundamento da desigualdade e o problema ecológico.
Com relação aos partidos políticos e
aos movimentos sociais, em torno de
qual objetivo material os diversos
partidos e movimentos podem se
unificar?
Esse é um dos debates que atravessam a esquerda. A crise atual que é fundamentalmente uma crise do capitalismo, não é aproveitada pela social-democracia na Europa. Grosso modo, a questão a ser enfrentada é a oposição à propriedade privada. Por exemplo, os bancos, mesmo do ponto de vista técnico, a solução é nacionalizá-los. Há a ideia do controle sobre a condição de trabalho e emprego. A ideia do controle é central. Um último ponto, talvez, seja a ruptura com o produtivismo, a ideia de que é necessário crescer para sair da crise, quando na verdade é preciso deslocar a busca pelo crescimento para a busca pela melhor repartição da riqueza e dos rendimentos. Em continuidade, o que talvez a crise tenha trazido também seja a afirmação da necessidade de revalorizar o serviço público.
Para terminar, gostaria de saber quais
foram as suas principais influências
teóricas?
Para evitar um quid pro quo, diria que permaneço economista, mas não um economicista. Não porque eu ache que isso resuma tudo, mas porque é isso que eu sei fazer melhor. Agora, para citar dois nomes, mesmo que sob o ponto de vista crítico, diria Ernest Mandel e André Gorz.