Trabalho (Imaterial), Valor e Classes Sociais

Henrique Amorim · Capítulo 5 de 25

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Trabalho (Imaterial), Valor e Classes Sociais

Antoine Artous

Doutor em Ciência Política e editor da revista Contretemps. Autor de títulos como Marx, l’État et la politique (Syllepse, 1999); Travail et émancipation sociale: Marx et le travail (Syllepse, 2003); e de Marx et le fétichisme: le marxisme comme théorie critique (Syllepse, 2006). Antoine Artous é também coordenador da coleção Cahiers de Critique Communiste e membro do comitê editorial da revista Contretemps. Em entrevista, Artous analisa as problemáticas do trabalho em Marx e comenta algumas das releituras de Marx contemporâneas.

 

Qual é a importância do conceito de

fetichismo da mercadoria em Marx? A

teoria do fetichismo da mercadoria é

um desenvolvimento da teoria da

alienação?

 

Existe certamente um elo nessas preocupações teóricas. Trata-se de dar conta de como, nas relações de produção capitalistas, as relações sociais se conectam acima da cabeça dos indivíduos – e, em primeiro lugar, dos assalariados – e aparecem como um movimento da “coisa social” – o capital, o trabalho, a mercadoria etc. –, relações sociais que são “naturalizadas”, consideradas como “naturais”. Em todo caso, a teoria da alienação, caso se queira levá-la a sério, se apoia numa problemática “essencialista”; assim, nos Manuscritos de 1844, o jovem Marx faz referência a uma essência humana do trabalho que se expressaria sob uma forma alienada no trabalho capitalista. Naturalmente, Marx, que conhece Hegel, não a considera naturalista, ela se constrói através da história. Isto tem diversas consequências na análise – o trabalho explorado é pensado sob a forma de um trabalho artesanal dominado pelo capital - e nas problemáticas de emancipação: a emancipação é a marcha para uma sociedade transparente, pois acaba permitindo que se realize a essência humana. Ora, fundamentalmente, n’O capital, Marx toma outro ponto de partida: a especificidade das relações sociais de produção capitalista e seu efeito sobre o agir e o pensamento dos indivíduos. Neste quadro, a teoria do fetichismo não remete ao que seria uma forma de consciência alienada, mas à opacidade específica produzida pela dominação social da forma-valor caracterizada pelas relações de produção capitalistas. Aqui, se apresenta uma distinção da teoria do fetichismo da mercadoria em relação ao conceito de “ideologia”, pois Marx não se refere inicialmente à produção manipulada de ideias pela classe dominante, mas, de certa forma, a um campo de visão imbricado nas relações sociais. É, por exemplo, desta maneira que Marx critica a economia política clássica, sem fazer disso um simples discurso apologético.

 

Como você analisa a apropriação dos

Grundrisse feita atualmente pelos

teóricos da produção e do trabalho

imaterial?

Por razões de tradução, os debates sobre estes textos foram muito tardios na França. Mesmo assim, eles começaram bem antes dos anos 1980. Desde 1967, n’A formação do pensamento econômico de Karl Marx, Ernest Mandel escrevia: “Os Grundrisse ou a dialética do tempo de trabalho e do tempo livre”. Esta concepção sempre me pareceu interessante. O debate de que você fala se refere a passagens muito marcantes sobre o futuro da produção capitalista, como o desenvolvimento do maquinismo, da ciência à produção etc.; e, neste quadro, do futuro do trabalho que perde sempre mais o seu caráter de prestação individual, Marx emprega

então a fórmula de 20 general intellect de que se apropriou Negri. Creio que convém ser prudente quanto à própria categoria que só aparece uma vez e, aliás, não está presente em certas traduções. Em Negri, ela foi elevada ao nível de conceito fechado, articulado com outras categorias (poder constituinte, multidão etc.), para inscrever-se numa problemática hoje conhecida: de um lado, o considerável alargamento da categoria de produção, já que, por meio do intelecto geral, toda atividade participa da produção; e, de outro lado, um novo quadro de expressão de uma problemática “espontaneísta”, já que, sempre graças ao general intellect, a consciência – comunista – é imanente às mobilizações da multidão. Em Jean-Marie Vincent, a referência ao general intellect é bem mais razoável e visa essencialmente sublinhar as contradições em curso na evolução da produção capitalista moderna, que é obrigada a pôr em obra formas de inteligência coletiva no conjunto do processo de produção, introduzindo novas formas de segmentação e de hierarquização. Gorz, nessa época, conhece mal as análises de Vincent, como ele mesmo dirá mais tarde; notadamente, a obra maior de Vincent, Critique du travail, publicada em 1987. Contrariamente, Gorz critica de maneira muito forte (e com fórmulas corretas) as análises de Negri e a transparência do processo de produção que elas supõem. Ela funciona de certa maneira como um jogo de espelho: Gorz explica que toda forma de controle coletivo da produção moderna se tornou impossível, a não ser para desenvolver problemáticas um pouco “delirantes”, como as de Negri. Num segundo momento, como ele mesmo o explica, retoma a temática do general intellect de maneira, segundo ele, próxima a Vincent. Erradamente, a meu ver, pois, além do fato dele considerar sempre ser impossível o desenvolvimento de formas de controle da produção, propondo, com base nisso, alternativas à margem, ele se põe a explicar que a inteligência que se desenvolveu na produção – o desenvolvimento do capitalismo cognitivo – tornaria ultrapassada a teoria do valor.

 

A teoria do valor-trabalho continua

analiticamente válida face às novas formas de trabalho e às novas

tecnologias da informação?

Segundo Gorz, a forte redução do “tempo de trabalho imediato necessário à produção da riqueza”, para retomar uma fórmula de Marx nos Grundrisse, se tornaria impossível na medida do tempo de trabalho sobre o qual repousa o valor (Gorz tem fórmulas mais ou menos avançadas, mas esta é exatamente sua problemática). Seria preciso retornar mais em detalhe aos dados empíricos e às extrapolações feitas. Para permanecer no plano geral, para Gorz tudo se passa, portanto, como se o valor repousasse sobre uma medida imediata do tempo de trabalho no seio da produção. Num olhar mais atento, isso remete a uma problemática bastante “vulgar”, ligando valor e produção de bens materiais. Aqui se está bem longe de Vincent, que não cessou de repetir, com boas razões, que o tempo de trabalho de que fala Marx não remete ao que seria a naturalidade imediata, física, do trabalho no seio da produção, mas a um conjunto de procedimentos sociais. Neste exemplo aqui, a medida de comparação dos tempos de trabalho se realiza através da venda de mercadorias no mercado, o que permite pôr em relação social os diversos trabalhos. Além disso, é preciso insistir no caráter contraditório do processo descrito por Marx nos Grundrisse, como o faz de maneira pertinente Postone no livro recentemente traduzido ao francês, Temps, travail et domination sociale. De um lado, a dinâmica do capital desenvolve de maneira considerável as forças produtivas que abrem para as possibilidades de que fala Marx, mas, de outro, o capital não pode se livrar do tempo de trabalho imediato, explorando-o sem cessar, já que a valorização, como processo de exploração, repousa sobre a exploração do tempo de trabalho.

 

Você prefaciou a nova edição de

Essais sur la théorie de la valeur de

Marx,21 de Isaak Roubin. Qual é a importância desse livro e de Rubin

para a teoria do valor?

Escrito na Rússia dos anos 1920, esse livro – que de certa forma desapareceu com seu autor – é o primeiro texto que faz aparecer claramente a ruptura de Marx com a Economia Política Clássica, em particular com Ricardo. Ele discute profundamente conceitos como o de trabalho abstrato e de fetichismo da mercadoria, que são elementos-chave da teoria marxiana do valor. De maneira geral, e isso me parece decisivo, ele mostra como o ponto de partida das análises de Marx não são dados “naturais” ou “técnicos”, mas formas sociais; isto é, formas sociais de objetividade ligadas a relações sociais dadas. Esse livro desaparecerá para só reaparecer nos anos 1970, justamente com uma reatualização destes conceitos-chave. Na França, essas correntes vão cristalizar-se notadamente na revista Critiques de l’économie politique, onde se encontra Vincent, mas também “jovens” economistas como Salama e Valier, ligados, num primeiro tempo, a Mandel. Abordo, com mais

detalhes, essa questão em meu prefácio. 22

 

Qual a importância das teorias do

valor-trabalho de Ernest Mandel e de

Rosa Luxemburgo?

 

Rosa e Mandel questionam uma certa visão cientificista, apresentando a economia política não como uma ciência da economia em geral, mas como uma economia dominada por relações mercantis e pelo processo de valorização. Dito isso, Mandel não trata da articulação do conjunto das categorias ligadas à teoria marxiana da qual acabo de falar. Assim, em A formação do pensamento econômico de Karl Marx, as categorias do fetichismo da mercadoria e do trabalho são ignoradas, e Marx é simplesmente apresentado como alguém que seguiu o esforço de cientificidade de Ricardo. A dimensão crítica é injetada do exterior a partir de uma exposição muito clássica do valor-trabalho e em referência ao que seria uma teoria da alienação esboçada nos Manuscritos de 1844.

 

Qual é a influência teórica de Jean-

Marie Vincent sobre sua análise,

sobretudo em relação às suas

considerações sobre a teoria do

valor-trabalho?

Nos anos 1960-1970, a tradição marxista, em sua maioria, não se interessava pelas questões ligadas ao valor-trabalho, seja se opondo a Althusser com base em um “humanismo” marxista, seja se voltando para a teoria da coisificação de Lukács de História e consciência de classe. Mas a teoria marxiana do valor como teoria crítica da forma-valor do trabalho e das relações sociais ligadas à produção das mercadorias era pouco tratada, pelo menos da mesma forma que O capital, como “crítica da economia política”. E, fazendo isso, Vincent desenvolveu uma fórmula de Marx, presente nos Grundrisse, que escrevia que, com o capitalismo, as relações de dependência se manifestam “de maneira tal que os indivíduos são agora vistos por abstrações, enquanto antes eles eram dependentes uns dos outros”. Vincent sistematizou esta análise da dominação através do que ele chamava de “abstrações reais”; isso é, falar das relações sociais tornadas formas abstratas, dispondo de sua própria objetividade e circulando acima da cabeça dos indivíduos. É assim que o trabalho se tornara uma forma abstrata, captando o agir dos indivíduos e dominando-os, não somente no momento da produção, mas ao longo de todo o processo de produção.

A produção baseada sobre as novas

tecnologias da informação e

comunicação supera a divisão entre

trabalho produtivo e trabalho

improdutivo, entre tarefas de

execução e de elaboração?

Creio que, notadamente, com base em Negri, algumas correntes que afirmaram a superação da divisão entre o trabalho produtivo e o improdutivo tomaram pela letra extrapolações dos anos 1980 sobre as novas tecnologias. Não é difícil mostrar que a distinção que Marx realiza entre trabalho produtivo/improdutivo não remete à natureza do trabalho, mas à análise das relações sociais que o estruturam. Para o capital, o trabalho produtivo é aquele que produz valor, pelo menos segundo Marx. Além disso, creio que a lógica do sistema repousa estruturalmente sobre a divisão entre trabalho de execução e de elaboração/direção. Marx o mostra muito bem em O capital e algumas de suas análises prefiguram o desenvolvimento do dito fordismo. Naturalmente que isso mudou, embora não se tenha feito a demonstração do que seria uma nova forma de regulação. O desenvolvimento das novas tecnologias da informação e comunicação permite polos de autonomia relativa em certos setores, mas globalmente a economia organizada em rede, que se apoia sobre o general intellect, produz sem cessar não inteligência, novas segmentações e dominação.

 

Qual a relação conceitual entre, de um

lado, trabalho imaterial e trabalho material e, de outro, trabalho manual

e trabalho intelectual?

Essas categorias fazem aparecer certas confusões no debate atual. O trabalho produz bens materiais ou serviços, mas o próprio trabalho não pode ser imaterial, ele sempre mobiliza uma força de trabalho no quadro de um processo de produção dado. O trabalho dos caixas do grande comércio nada tem de um imaterial. No que concerne à categoria de trabalho intelectual e manual, creio ser preciso evitar uma concepção naturalista sobre os que trabalham com suas mãos ou com sua cabeça. Estas categorias visam a divisão entre as tarefas de execução, de concepção e direção de que se falou mais acima. Quanto à questão sobre a produtividade, acredita-se que o processo de produção, como processo de valorização, só pode se referir à produção de um bem material e ao trabalho imediatamente ligado a esta produção. Isto é um equívoco, pois o crescimento da produtividade do trabalho quer dizer que um mesmo número de trabalhadores produz, por um mesmo ritmo de trabalho, uma quantidade maior de mercadorias. Em que medida o trabalho dito “imaterial” estaria fora disso?

 

Qual é a influência de Max Weber no

pensamento de Lukács?

A influência de Weber no pensamento de Lukács é fundamental em História e consciência de classe. Lukács não parte, como Marx, da análise das relações de produção e de troca e do modo como ele, Marx, estrutura as relações sociais, mas da modernidade como produto da racionalização do mundo. E ele acrescenta sua própria teoria da reificação [ou coisificação] como, grosso modo, uma teoria da coisificação das relações sociais sob o efeito do cálculo. Esse livro teve uma influência sobre certas correntes críticas, mais notadamente na Escola de Frankfurt. E assim vai se construir toda uma série de categorias (racionalidade econômica/instrumental) através das quais a produção moderna/capitalista é fundamentalmente pensada como aplicação da ciência moderna à produção. Assim, para Gorz, racionalidade econômica é sinônimo de racionalidade capitalista. Vincent conhecia muito bem todos esses autores, e uma de suas contribuições foi a de ter retomado algumas de suas temáticas, mas integrando-as na problemática marxiana da “crítica da economia política”.

 

Para finalizar, como pensar Marx nos

dias de hoje? É necessário ir além de

Marx?

As leituras de Marx se tornaram irremediavelmente plurais e, além disso, completamente situadas na história do marxismo. Não há sentido ler Marx para restabelecer a verdade de uma obra que não somente conheceu fortes evoluções de diversas problemáticas, mas da qual os maiores textos – como O capital – são inacabados. Isso absolutamente não quer dizer que o rigor na leitura não seja necessário – ao contrário, e ainda mais do que no passado, sem dúvida, o dimensionamento das perspectivas e as problematizações são plurais. No que me diz respeito, minha caminhada tem sido dupla: de uma parte, realizei um retorno crítico à análise do Estado e da política em Marx e no marxismo; e, de outra parte, faço referência aos textos ditos da maturidade (o período de O capital) no que se refere à conceitualização das problemáticas e das categorias analíticas. Assim, nos textos ditos de juventude, encontram-se indicações muito interessantes sobre a especificidade do Estado moderno, mas é preciso articulá-las com a análise das relações de produção capitalistas como relações de exploração. Isso não é fazer uma prova – como economista –, pois O capital não visa fundar uma ciência econômica, mas se apresenta como “crítica da economia política”; isto é, como crítica das categorias de análise e formas de objetividade do social trazidas pelo capital.