Trabalho (Imaterial), Valor e Classes Sociais
Apresentação
Henrique Amorim
O que é trabalho imaterial? Foi a partir desta pergunta que inicialmente havia projetado a estruturação de um livro de entrevistas com pesquisadores contemporâneos. Em meados de 2009, iniciei a realização de um conjunto de entrevistas que seriam base para uma pesquisa sobre a teoria do valor-trabalho e sobre como essa teoria havia sido instrumentalizada pelo debate sobre o trabalho imaterial. No entanto, logo na montagem da primeira entrevista, percebi a necessidade de fundamentar esse percurso com base não apenas no trabalho imaterial, mas, alargando a problematização, tratar também do Trabalho, Valor e Classes Sociais, entendendo-os como relações sociais centrais tanto para a investigação do trabalho imaterial como também para a análise das sociedades capitalistas contemporâneas.
A motivação inicial foi, assim, aprofundada pela necessidade de confrontar a bibliografia contemporânea que discutia o trabalho imaterial, pressupondo-o como nova e central força produtiva e também por acontecimentos conjunturais significativos em todo o mundo como, por exemplo, a crise financeira que atingiu os Estados Unidos e a Europa a partir de 2008 e que ainda se faz presente entre nós em um cenário de aguda recessão econômica.
As possíveis respostas àquela primeira questão, o que é trabalho imaterial?, não poderiam, portanto, ser devidamente respondidas sem o exame dos conceitos centrais que haviam alicerçado o surgimento do debate sobre o trabalho imaterial, principalmente nas décadas de 1970, 1980 e 1990 e que, de variadas formas, foram revisitados diante da instabilidade econômico-política que se instaurou a partir de meados da década de 2000.
A discussão sobre o trabalho imaterial estava, com isso, imersa na conjuntura econômica e política de crise das formas da finança capitalista, que atingiu com força a produção industrial e os serviços em todo o mundo. Esse novo cenário social impôs a necessidade de, primeiro, apresentar as várias concepções de trabalho imaterial, segundo, explicitar as temáticas centrais que cercam e dão base à discussão do trabalho, da produção imaterial, das classes sociais e do valor e, por fim, de apreender a leitura de cada um dos autores e autoras presentes neste livro sobre seus mais centrais objetos de estudo.
Ao explorar o tema do trabalho imaterial, pudemos, portanto, mergulhar em outros e variados temas caros às Ciências Sociais, à Economia, à Filosofia e à História a partir de questões que exploravam, por exemplo, aspectos relativos ao Estado, às novas tecnologias da informação e comunicação (NTICs), à intangibilidade das mercadorias, ao debate sobre a centralidade e não centralidade do trabalho, à relação entre tempo de trabalho e tempo livre, alienação e fetichismo da mercadoria, à mundialização do capital, à relação entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo, trabalho manual e intelectual, ao trabalho abstrato, à discussão sobre o intelecto geral, ao economicismo, ao determinismo, à relação entre relações de produção e forças produtivas, ao enfrentamento entre os tipos ideais weberianos e as abstrações concretas marxianas, aos cadres, à multidão, ao capitalismo cognitivo, à revolução socialista, ao neomarxismo e altermarxismo, à burocracia, gerência, à revolução informacional, à renda básica e/ou renda universal que passavam necessariamente pela discussão de diversos autores, como Gorz, Negri, Lazzarato, Rubin, Hegel, Weber, Lukács, Bell, Offe, Habermas, Althusser, Touraine, Mallet, pela Escola de Frankfurt, por Gramsci, Keynes, Vincent, Mandel, Luxemburgo, Moulier-Boutang, além de uma apresentação mais detalhada de
aspectos estruturais da obra de Marx, especialmente de 1 O Capital
e dos 2 Grundrisse , sempre ancorados na investigação e problematização do trabalho, do valor e das classes sociais.
Os conceitos de Trabalho (imaterial), valor e classes sociais tornaram-se, com isso, a espinha dorsal das questões que orientam as entrevistas deste livro. Assim, as entrevistas aqui reunidas se caracterizam, portanto, como uma apresentação de visões e leituras distintas sobre cada um destes conceitos, conferindo-nos, com isso, um leque, não dogmático, de interpretações sobre a realidade contemporânea e sobre as bases nas quais se estruturam as sociedades capitalistas. Isso porque os temas do trabalho, do valor e das classes sociais são, para os pesquisadores aqui reunidos, além de sínteses de relações sociais concretas, meios para descortinar e analisar as sociedades capitalistas.
Informados por diferentes concepções de mundo, os pesquisadores que compõem este livro, demonstram, em seu conjunto, uma riqueza interpretativa, teórica e conceitual, que de imediato nos convida ao debate. Além disso, a profusão de diferentes interpretações sobre o trabalho imaterial, sobre as classes, sobre o valor e sobre tantos outros temas nos parece, para aqueles e aquelas que pesquisam diretamente estes temas, algo formador. Isto é, expormos concepções distintas sobre temas tão caros à teoria social que erigissem, sobretudo, a possibilidade de confrontarmos pontos de vista usualmente negligenciados e, ao mesmo tempo, superarmos concepções reducionistas e economicistas que aprisionam tais conceitos ao universo ou à esfera do econômico nos parece fundamental para a formação teórica e para o embate social.
Teoricamente, a motivação para explorar nas entrevistas o trabalho (imaterial), o valor e as classes sociais remonta às teorias constituídas nos anos 1970, sobretudo, aquelas que se apresentam como alternativas ao economicismo e ao determinismo de um certo marxismo, vinculado aos partidos comunistas no Brasil e no mundo sob orientação do partido comunista soviético.
Foi nesse período que as teorias da sociedade pós-industrial foram gestadas; teorias estas que se reivindicavam, primeiro, como protagonistas da ruptura com o paradigma produtivo, isto é, que se apresentavam como teorias que estruturavam suas análises para além da fábrica, procurando, segundo, estabelecer uma crítica ao economicismo e ao determinismo das análises situadas na esfera do econômico e que, por fim, situavam-se como teorias radicalmente anti-marxistas, na medida em que identificavam, no conjunto de autores e teorias marxistas, a base do paradigma produtivo, do economicismo e do determinismo.
A ideia-base que orientava as teorias da sociedade pós-industrial era a de que a dinâmica central das sociedades contemporâneas não estaria mais vinculada/presa ao trabalho e à produção industrial. Na prática, essas teorias anunciaram o fim de um período, marcado por um forte processo de sociabilização, que tinha a indústria como seu principal eixo, e o início de um outro período, marcado, sobretudo, pela heterogeneidade política e cultural.
Mesmo admitindo que a indústria ainda tinha um papel importante para a constituição de sociabilidades e para a dinâmica da reprodução da relação capital/trabalho, ela não poderia mais ser considerada como um eixo central socialmente estruturante. As sociabilidades teriam, com isso, se desembaraçado dos domínios do produtivo para se constituírem cultural e politicamente.
Novos movimentos sociais, novos conflitos sociais, novas identidades culturais, relações de gênero, sexualidade, etnias, raça, por exemplo, se apresentavam como expressões sociais, políticas e simbólicas de grupos e indivíduos tão heterogêneos que pareciam, primeiro, não ter nada a ver com a lógica da produção – seja ela taylorista, fordista, toyotista, rígida ou flexível, no ocidente ou no oriente –, segundo, não caber mais dentro dos conceitos que sintetizavam, para os autores que vislumbravam de diferentes formas a sociedade pós-industrial, o paradigma produtivo.
De forma geral, o argumento de fundo das teorias da sociedade pós-industrial era o de que a análise marxista estava presa à produção tipicamente industrial e fabril, produção esta que teria se particularizado a partir do século XVIII e se desenvolvido até os anos 1960. Esse período da história seria aquele, portanto, no qual se identificaria a presença de uma classe operária, isto é, de um grupo de indivíduos mais ou menos homogêneos, tanto no que se refere às suas tarefas laborais quanto em relação aos seus hábitos, costumes, sentimentos, ideologias e filiações políticas e partidárias. Com o final desse período, marcado, sobretudo, por um enxugamento da indústria tradicional e por um processo de heterogeneização profissional e cultural, a teoria marxista, presa ao paradigma produtivo, não daria mais conta de compreender a realidade socialmente diversificada que se apresentara.
A tese do fim da sociedade do trabalho, que vinha a reboque da teoria da sociedade pós-industrial, se apresentava, finalmente, como um fato social total, e as alternativas políticas que se estruturavam a partir dela pareciam se submeter ou à convivência com um capitalismo cada vez mais predador e destrutivo, tentando a todo custo resistir a um processo de colonização que há muito não respeita limites, ou a descarrilhar para a ideia pós-moderna de inapreensão das dinâmicas estruturais, situadas em interfaces de subjetividades fragmentárias e efêmeras que pulverizavam qualquer forma de identificação política coletiva anticapitalista.
É diante desse quadro analítico que muitas teorias, gestadas nas décadas seguintes, 1980, 1990 e 2000, são edificadas. Há nesse período um pressuposto teórico que é fartamente vulgarizado: os conceitos de trabalho, de valor e de classes sociais são reféns do economicismo. Ou seja, tais conceitos são tomados como limitados para a investigação das mais diversas relações sociais das sociedades capitalistas a partir daquele momento.
Assim, teorias como as de André Gorz da sociedade dual,3 de
Alain Touraine da sociedade pós-industrial, 4 de Jürgen Habermas do
agir comunicativo, 5 de Daniel Bell e Claus Offe da sociedade de
serviços,6 7 de Alberto Melucci dos novos movimentos sociais, de
Axel Honneth, Nancy Fraser e Charles Taylor do reconhecimento, 8
de Gorz, Negri e Lazzarato do trabalho imaterial, 9 de Castells da
sociedade da informação,10 11 de Inglehart da guinada cultural, de
Rifkin do fim dos empregos,12 13 de Negri da multidão, de Ralf
Dahrendorf e Alain Touraine dos conflitos sociais,14 de Moulier-
Boutang do capitalismo cognitivo, 15 e ainda com os dilemas levantados por estas teorias, tais como o da sociedade autônoma versus sociedade heterônoma; do mundo da vida versus sistema; da sociedade industrial versus sociedade de serviços; da produção material versus produção imaterial; e do reconhecimento versus redistribuição, por exemplo, todas estas teorias e dilemas teóricos pressupõem, para estruturarem seus diagnósticos sobre a realidade contemporânea, um ponto de partida comum: os conceitos marxianos de trabalho, valor e classes sociais seriam conceitos limitados por estarem situados na esfera do econômico.
Em que medida este pressuposto é correto? Para responder a esta questão procurei entender, com base nas entrevistas que compõem este livro, os limites dessa pressuposição na medida em que, ao questionar os autores e autoras de correntes teóricas e linhas políticas variadas, pudesse qualificar quais seriam os fundamentos, inclusive metodológicos, dessa pressuposição. Quais conceitos de trabalho, valor e classes sociais essas teorias tinham como referência? Eles representavam as mais variadas correntes do marxismo ou se apegavam a uma definição específica destes conceitos? Faria sentido, do ponto de vista do método de Marx, falar em paradigma produtivo ou seriam trabalho, valor e classes sociais categorias analíticas concretas que podem sintetizar um modo de vida específico, apreendendo-o, assim, como sínteses múltiplas de aspectos políticos, culturais, estéticos, de gênero, sexuais, simbólicos e, também, econômicos?
Estas questões guiaram nossa pesquisa nos últimos anos e também o conjunto de entrevistas que compõem este livro. Sua publicização, sobretudo por conta da profundidade e versatilidade com que são trabalhados os conceitos e problemas sociais contemporâneos, nos parece urgente, seja para explicitar os fundamentos do debate sobre o trabalho imaterial, seja como mais um ponto de partida para sua problematização.
Entre os anos de 2009 e 2017, realizei vinte e duas entrevistas com pesquisadores franceses, ingleses e brasileiros. A escolha dos entrevistados seguiu diretamente o critério objetivo das temáticas do livro. Assim, entrevistei pesquisadores, filósofos, economistas, historiadores e cientistas sociais que haviam discutido os temas do trabalho, do valor e das classes sociais, sobretudo, de forma a articulá-los teoricamente.
Haveria outros pesquisadores a serem incluídos aqui. Não obstante, foi necessário, pelo acúmulo de trabalho realizado, evocar um fim, mesmo que ele não se apresentasse como ideal do ponto de vista da totalidade de pesquisadores que discutem tais temáticas. Esse fim evocado se deve, também, ao entendimento de que o conteúdo das entrevistas reunidas aqui já se apresentava minimamente suficiente para elaborar diagnósticos sobre o trabalho imaterial, para apresentar teorias e apreensões distintas sobre os temas do livro e, com isso, fornecer didaticamente, e com base nessas variantes conceituais, ferramentas analíticas para uma compreensão mais complexa do trabalho imaterial, das classes sociais e do valor-trabalho.
A realização destas entrevistas, desde o seu início até a revisão final do livro, foi sem dúvida fruto de um trabalho coletivo. A estruturação do roteiro e elaboração das questões, a realização das entrevistas em Paris, Strasbourg, Londres, Campinas, São Paulo, Londrina, João Pessoa e Caxambu, a edição de um primeiro vídeo, as transcrições, as traduções, a edição do material final, a organização do livro e, por fim, a preparação para a publicação contaram com o trabalho de vários pesquisadores.
É nesse sentido que devo muito deste livro a companheiros e companheiras de pesquisa que, de distintas maneiras, colaboraram e foram fundamentais para sua realização. Assim, gostaria de agradecer a todos os entrevistados presentes no livro: Alain Bihr, André Tosel (in memoriam), Antoine Artous, Celso Frederico, Daniel Bensaïd (in memoriam), Dominique Méda, Francisco de Oliveira, Francisco Teixeira, Gérard Duménil, Helena Hirata, Jacques Bidet, Jean Lojkine, João Quartim de Moraes, John Weeks, Jorge Grespan, Leda Paulani, Marcos Del Roio, Michael Löwy, Michel Husson, Ricardo Antunes, Robert Castel (in memoriam) e Sadi Dal Rosso. A Alfredo Saad Filho pelo prefácio e a Giovanni Alves pelo posfácio. Agradeço à Carolina Cristina Alves e a Sávio Cavalcante pela realização e pela tradução da entrevista de John Weeks; agradeço à Santiane Arias pela tradução das entrevistas de Alain Bihr, Dominique Méda, Gérard Duménil, Jacques Bidet, Michel Husson e Robert Castel; à André Gerônimo, Angelina Moreno, Breno de Oliveira Santos, Bruna Fávaro, João Gabriel Pelegrini, João Gabriel Tury e Lívia Ciscato pelas transcrições e revisão, a Jair Batista da Silva que me acompanhou na entrevista com Chico de Oliveira; agradeço também a todas e todos integrantes do Grupo de Pesquisa Classes Sociais e Trabalho pelo estímulo à pesquisa. Agradeço especialmente a Leandro Galastri, pesquisador e amigo, que me acompanhou nas entrevistas em Paris, e à Fabiana Sanches Grecco pela leitura e revisão atentas. Agradeço ainda (in memoriam), ao meu saudoso e querido amigo, Filipe Raslan (Filipinho), que nos deixou em agosto de 2016, parceiro de grupo de pesquisa e militância, por me ensinar a viver de forma mais leve e serena.
Henrique Amorim
Campinas, 8 de outubro de 2016.