Trabalho (Imaterial), Valor e Classes Sociais
Sadi Dal Rosso
Professor titular de sociologia na Universidade de Brasília (UnB), Dal Rosso é um dos maiores especialistas das condições de trabalho no Brasil. Dal Rosso analisa nos processos de intensificação do trabalho a persistência da luta de classes na dinâmica de exploração do modo de produção capitalista, bem como o estado das relações de trabalho na contemporaneidade. Entre as suas principais obras estão: A jornada de trabalho na sociedade: o castigo de Prometeu (LTR, 1996); A regulação social do trabalho (Paralelo 15, 2003), escrito em parceria com Mário César Ferreira e Alan Barbiero; As condições de trabalho no limiar do século XXI (Épocca, 2007), em parceria com José Augusto Abreu; e também Mais trabalho! A intensificação do trabalho na sociedade contemporânea (Boitempo, 2008).
Qual é o seu método de trabalho?
Qual é o papel da discussão
metodológica na pesquisa social e na
produção de conhecimentos?
Costumo empregar um método de pesquisa sociológica com forte participação de elementos teóricos e empíricos. Parto de proposições teóricas e, depois, busco examinar suas referências empíricas. Com isso, procuro superar uma perspectiva que privilegia o teórico em detrimento do empírico, arriscando, neste sentido, a chegar a um tipo de abstracionismo e formalismo que podem ser controlados por meio de observação empírica sistemática. A filosofia desenvolve a lógica e as razões últimas; a sociologia acrescenta a ela a observação sistemática de fatos sociais.
Metodologia é a teoria do método, o logos do método, o discurso sobre o método. O método é o processo, a maneira pela qual a teoria é formada, desenvolvida, reformulada, testada, comprovada ou reprovada. Primeiro vem a teoria, depois o método. O método depende da teoria. Método é o processo empregado pelo pesquisador para produzir conhecimento. São procedimentos que se corporificam em regras. Os procedimentos possuem fundamentos formados através das práticas científicas históricas e através das mais árduas tarefas que se impôs a mente humana por meio de campos tais como a filosofia, a sociologia do conhecimento e a teoria da ciência. A filosofia desenvolveu fortemente a lógica de tal modo que estivesse à disposição do conhecimento humano formas de separar aquilo que é verdadeiro daquilo que é falso, proposições corretas e proposições falsas, discursos verdadeiros e discursos falsos, ideologias de teorias.
Um desses instrumentos é representado pelo estabelecimento de relações de causa e efeito entre os fenômenos, até hoje um dos alicerces mais fortes de que dispomos para avançar o conhecimento é a política social.
A sociologia é fortemente influenciada pelo preceito durkheimiano de que “o social deve ser explicado pelo social”. Mas esta norma precisa ser interpretada com sabedoria decorrente da concepção geral de sociedade e de universo. Uma interpretação rígida da tese durkheimiana levou a interpor um óbice quase intransponível para estabelecer a possibilidade de estudos sobre o meio ambiente e a ecologia nas ciências sociais.
Outro instrumento é dado pela circularidade do raciocínio e pela tautologia. Um princípio não alcança explicação pelo recurso a elementos que já estão previamente embutidos no princípio geral explicativo. Antigamente isto era conhecido como petitio principii.
Na sociedade moderna, valorizou-se muito a estratégia experimental. Se é possível reproduzir na prática a relação causa e efeito, os pressupostos metodológicos são satisfeitos e a verdade é atingida. Nas ciências sociais, o método experimental não se aplica. Todavia, dados de realidade não deveriam ser ignorados por intelectuais bem-intencionados, especialmente de esquerda.
Pode-se avançar por estes instrumentos sábios, desenvolvidos através do tempo, para alcançar o conhecimento mais verdadeiro possível. Entretanto, nós pertencemos à categoria dos seres humanos, os quais, por mais que desenvolvam estratégias e práticas sociais com o objetivo de separar o joio do trigo, isto é, o falso do verdadeiro, jamais chegaremos a alcançar a verdade absoluta. Ocorre que a verdade é uma propriedade exclusiva dos deuses. E nós somos humanos. E os humanos erram. Se algum dia os humanos conseguirem alcançar a verdade em si, terão se transformado em deuses e, com isso, estabelecido um problema de solução complicada.
Nem por isso o pesquisador pode se conformar ao erro. O erro e a ignorância propiciam que uns seres humanos se sobreponham aos outros, que uns dominem os outros. A verdade exerce um papel fundamental numa sociedade em transformação, o de desmistificar o errado, as explicações enviesadas, as teorias dominadas por interesses ideológicos, o fetichismo que impede o reconhecimento da coisa em si e o reconhecimento dos interesses particulares, práticas essas que favorecem os dominadores. Quem propugna por uma sociedade justa busca meios para afastar as explicações erradas ou interesseiras.
Retomo o começo do discurso. O método não está só. O método depende muito da proposta teórica que se tem, do tipo de sociedade que se pretende. A teoria está com o método.
O pesquisador que vive em determinado momento histórico é influenciado, limitado pelas condições sociais de seu tempo. O crescimento do capitalismo e o estabelecimento de sua hegemonia em escala mundial sagraram as propostas teóricas vinculadas ao liberalismo. E tal condição estrutural do desenvolvimento capitalista lançou ao ostracismo os partidários das ciências sociais mais voltadas para a transformação social e a emancipação humana. Por outro lado, a condição de hegemonia não livrou o capitalismo de contradições que as ciências sociais, entre elas a economia, não conseguiram antecipar. Assim, todo o poder da economia neoliberal e da sociologia da complexidade não levou estas áreas do conhecimento a delinear um futuro com crise. Não é este um argumento radical contra a legitimidade das ciências sociais legitimadoras do status quo?
A crise econômica e social de 2007, até hoje, que atingiu os centros do império capitalista mundial, expôs as fragilidades do conhecimento legitimador e criou novo ânimo e novas possibilidades para a teoria crítica. A esquerda, por sua vez, deve fazer uma avaliação crítica das teses centrais defendidas pelos partidos comunistas, que eram as forças legitimadoras do status quo socialista, bem como submeter à crítica impiedosa as propostas dos intelectuais socialistas, pilares do sistema mundial que ruiu, e inventar novas formas de transição. Desta crítica fazem parte formulações teóricas, assim como princípios e práticas metodológicas.
Hoje em dia podem ser encontrados inúmeros vazios nas metodologias de autores da esquerda, dois buracos aos quais nos referimos como sendo necessários avanços teóricos. Muitos escrevem sobre o método de Marx e sequer fazem menção de seu texto relativo ao Método da Economia Política, em que é desenvolvida a tese de que a flecha do conhecimento procede do abstrato para o concreto. Outro ponto problemático transparece no emprego da metodologia dialética da contradição. Inúmeras teses de mestrado e doutorado, artigos e livros que fazem opção pelo método dialético, na verdade, aderem a um reles empiricismo, mais ou menos disfarçado, como a tese de Feuerbach o era para o materialismo da época. Uma tarefa necessária e impostergável no campo do método consiste no desenvolvimento da concepção do princípio da dialética da tese, antítese e síntese, aplicável aos dias de hoje. Conforme apontado acima, a interpretação da crise capitalista destes últimos cinco anos propicia uma aplicação importante da dialética. Outro desenvolvimento imprescindível tem a ver com a tese do materialismo, separado de teses subjetivistas ou idealistas sem prescindir de interpretar a subjetividade dos sujeitos sociais. É o momento para o avanço do pensamento crítico.
Quais seriam os desafios mais
importantes desse projeto teórico?
Mencionarei, sob a forma de listagem, pontos que considero importantes:
Sobre trabalho, muitos autores escreveram, nos anos 1970 a 2000, que o trabalho (ou o emprego) estava chegando ao fim e que o trabalho havia, em consequência, perdido suas energias utópicas e emancipatórias. Nos dias atuais, vive-se a maior crise de emprego dos últimos anos, em função das dificuldades do sistema capitalista de gerar e apropriar mais-valia. Não se trata de que os indivíduos tenham outras formas de obter renda. Não têm. A crise do emprego é a punição imposta pelo sistema capitalista para reduzir os salários e reorganizar o sistema de acumulação.
Quanto às horas de trabalho, a sociedade atual continua sendo a sociedade do trabalho, não a sociedade do conhecimento. Quem está liberado para cultivar livremente o conhecimento, a inteligência, a personalidade, a psique? Claro que a férrea burguesia continua a manter a possibilidade de sinecura para integrantes de sua classe. Entretanto, olhando para fatos da realidade, vê-se que as pessoas continuam prisioneiras do inexorável trabalho. Recentemente, a OIT publicou, inclusive no Brasil, o livro Duração do trabalho em todo o mundo, que contém, entre inúmeras outras coisas, uma estimativa da proporção de trabalhadores que labutam mais de 48 horas por semana, informação ardentemente desejada por pesquisadores do trabalho e até o presente não alcançada. Os três autores estimaram, operando com dados da OIT para 125 países do mundo, que 22% dos trabalhadores vivem em regime de trabalho de 48 horas semanais ou mais. Como, então, escrever que o trabalho está chegando ao fim, se, no início do século XXI, 22% dos trabalhadores do mundo trabalham oito horas ao dia, seis dias por semana ou mais? Que fim do trabalho é esse se um de cada cinco trabalhadores do mundo tem apenas um dia de folga por semana?
Esta informação é importante porque indica que a teoria do valor-trabalho continua sendo imprescindível para o entendimento da sociedade contemporânea e para os dias que virão. O valor ainda depende da quantidade e qualidade do trabalho mundialmente executado. Entretanto, a teoria do valor-trabalho apresenta dificuldades: a imaterialidade. Como concebê-la? O problema da transição é o de como se organiza uma sociedade socialista composta de sujeitos autonomamente organizados. Como realizar a transição do atual sistema de acumulação capitalista para um sistema de divisão pós-socialista? Qual o lugar da divisão do trabalho? Qual o papel da distribuição da renda?
Uma nova onda de leituras dos
Grundrisse de Marx surgiu dentro e
fora do Brasil. Qual é a sua
interpretação sobre essa retomada
dos Grundrisse?
Existe uma onda de interesse pelos autores de esquerda em geral e pelo marxismo como um todo, após a crise de 2007-2013, no centro do capitalismo mundial. Vejo interesse dos estudantes de sociologia pelo marxismo enquanto explicação teórica geral e enquanto arma para os movimentos sociais. Acho tal movimento muito interessante.
Também saúdo a retomada dos Grundrisse, especialmente a tradução do texto para o português. Ainda em 1986, no início da administração Cristovam Buarque à frente da reitoria da UnB, quando presidi o Conselho Editorial da Editora da UnB, propus a tradução dos Grundrisse para o português. Como minha permanência à frente do Conselho Editorial não durou mais do que dois meses, a proposta passou sem decisão e o empreendimento não foi à frente.
Outra é a questão do general intellect. A proposta está vinculada à contemporânea revolução industrial. É necessário captar o entendimento da formulação de Marx ao texto. Marx fazia uma projeção sobre os limites da vigência da teoria do valor. Que condições seriam necessárias para a aplicação da teoria do valor e em que condições ela deixaria de se aplicar. Chama a atenção a afirmação em relação às condições de trabalho, em que os trabalhadores não mais gastariam suas energias nos afazeres da produção de mercadorias, mas estariam na função de vigilantes das máquinas e dos equipamentos. Em tais condições, o trabalho não estaria envolvido diretamente na produção de mercadorias e serviços necessários para o funcionamento do sistema e, portanto, estaria dado um limite para a vigência da teoria do valor-trabalho.
O problema que eu vejo refere-se à aplicação desta visão do futuro, embora não seja a única para os dias de hoje. Se fosse tomar ao pé da letra o texto dos Grundrisse, existem empresas com altíssimo grau de automatização, em que os trabalhadores somente cuidam do funcionamento de máquinas. Entretanto, este fato não é generalizado e não muda o sistema de acumulação privada. Ao contrário, leva-o até as fronteiras da exploração.
Gostaria de retomar o argumento empregado anteriormente em relação ao fim do trabalho. Existem bilhões – quatro bilhões, quem sabe? – de trabalhadores no mundo que estão sendo explorados diariamente para produzir valor e permitir que se mantenha a acumulação capitalista. A maioria é composta de assalariados, mas há muitos trabalhadores por conta própria e em regime familiar, ou até mesmo escravo. Este lado da questão é pouco explorado pelos teóricos da globalização e da mundialização. Destes bilhões, uma parcela significativa – na estimativa de autores com dados da OIT e do FMI, equivalente a 22% – que, seja pela exploração em virtude da pobreza, seja em decorrência de imposições de regras laborais pelos sistemas nacionais de trabalho, ainda opera em regimes que requerem quarenta e oito horas ou mais de atividade semanal. Como operar com a aplicação da visão do general intellect em tais condições laborais? Há uma cesura imensa entre aqueles que estão vigiando máquinas – mesmo que a vigilância de máquinas no toyotismo precise ocorrer com várias máquinas ao mesmo tempo – e a realidade cotidiana de bilhões de pessoas que se movimentam diariamente para os locais de trabalho e lá permanecendo horas a fio. Esta argumentação mostra a dificuldade de aplicar a noção de general intellect às condições concretas da atualidade, quando vigora o princípio pelo qual o trabalho é realizado em vista ao processo de acumulação de riqueza. O general intellect e o capitalismo se relacionam pela via da contradição. O capitalismo não deixa as pessoas em paz em função da necessidade de produzir valor e acumular mais trabalho. O general intellect indica um estágio de desenvolvimento tal que o emprego do trabalho humano seria prescindível. Não é o que ocorre hoje. Ou seja, a contradição não se afirmou.
Como entender a tese presente no
Manifesto comunista que estabelece
uma relação contraditória e explosiva
entre forças produtivas e relações de
produção frente às novas tecnologias
da informação?
As novas tecnologias da informação (TIC) têm influência em dois aspectos, pelo menos, da sociedade: a) no sistema de comunicação entre indivíduos, indivíduos e instituições, movimentos sociais etc.; e b) no entrosamento do sistema capitalista como um todo. No primeiro caso, as TIC formam um elemento sociológico extremamente relevante como meio de comunicação, que possibilita o controle pelos Estados nacionais e pelas grandes organizações sobre a sociedade civil, mas que também pode favorecer a organização e a comunicação entre ativistas políticos, sindicatos, movimentos sociais – Bourdieu apontou isso em seu livro Contrafogos, quando falava perante a manifestação de sindicalistas, especialmente do setor público em greve, na França, em 1995. A instituição social comunicação ganhou grande reforço como instrumento de controle social, e aumentará ainda mais se os defensores do controle e da penalização dos ativistas prevalecerem e conseguirem normas punitivas a determinados usos dos meios de
comunicação e da internet. O suicídio recente de Aaron Swartz 37 trouxe os holofotes para esta dimensão.
A relação contraditória e explosiva entre forças produtivas e relações de produção está presente na interpretação de Marx, a exemplo da transição do feudalismo para o capitalismo. Interpretação análoga aparece em outros textos, quando, por exemplo, se refere à necessidade de existirem condições sociais para avanços no campo teórico. O problema é de caráter interpretativo.
A saber, existem interpretações de caráter mais mecanicistas, mas pode ser feita uma outra interpretação que aponte a necessidade de um princípio ativo, que decorreria da organização dos trabalhadores e dos movimentos sociais. A interpretação da necessidade inexorável pode ser pensada como caso limite, em nada impedindo que estruturas sociais fossem modificadas ou até mesmo eliminadas pela intervenção dos atores sociais, das classes e dos movimentos.
Retomando a referência às TIC, a primeira observação é de que as TIC, assim como a maioria das atividades designadas para a sociedade do conhecimento, não apresentam condições de trabalho melhores do que o velho e subsistente setor industrial. Elas reproduzem as mesmas relações de trabalho precarizadas e não apresentam um modelo de desenvolvimento social que exerça atração para a massa de trabalhadores, a começar pelos salários, que são muito baixos. Então, as TIC não estão produzindo contradição entre relações de produção e forças produtivas. Estão mais reproduzindo velhos paradigmas, porque o imenso potencial que as TIC possibilitariam para a emancipação social é limitado pela exigência dos sistemas de produção de valor e acumulação.
As classes sociais devem ser
pensadas como um conjunto de
indivíduos ou um conjunto de
relações sociais?
A questão das classes sociais perdeu interesse como problema acadêmico em países da periferia, tal como o Brasil, especialmente a partir da queda do socialismo real na Rússia e em outros países. Nos países de Centro, o interesse continua forte. Há, em destaque, o livro editado por Annete Loureau e Dalton Conley, Social class: how does it work?, que trata de aspectos subjetivos e objetivos da questão de classe, de como testar se existem classes sociais, classe e meritocracia, classe e transmissão das condições de classe pela via geracional, classe e raça, classe e política, classe e saúde, classe e gênero. O debate é dominado por Erik Olin Wright, que compõe um esquema teórico misto com proposições retiradas de Marx, de Weber e John Goldethorpe, tradicional pesquisador inglês sobre o assunto. Tratar de classes sociais nos departamentos de sociologia de nossas universidades é uma atividade menos empolgante aos docentes e tida como um retorno ao período em que o marxismo era uma corrente forte na sociologia brasileira. Ainda assim, o problema das classes sociais existe e seu tratamento é necessário, uma vez que elas fazem parte da estrutura da sociedade.
Marx cria problemas para o tratamento de classe ao leitor no pequeno texto de uma página que deixou escrito sobre o assunto, ao afirmar a existência de três classes na Inglaterra. Ele está falando de grandes grupos sociais nos quais os indivíduos estão vinculados por determinadas relações sociais e esse critério de relações sociais pode ser ampliado até os dias de hoje.
Quando o critério é a agregação de indivíduos, prevalece o problema empírico da mensuração e como a consciência se difunde entre aqueles que fazem parte de uma classe. Quando o critério são as relações sociais, a tônica pende para a existência de antagonismos, conflitividades, contradições, as teias de exploração e dominação política que vinculam uma classe a outra.
Entre os pesquisadores marxistas há
uma tendência em separar as classes
fundamentais das outras classes
sociais. A força social revolucionária deveria sempre ser identificada no
seio das classes fundamentais?
Tal divisão não me atrai, uma vez que as classes mudam de composição social e por assentar-se sobre uma interpretação restritiva de trabalho produtivo como agente revolucionário.
A pesquisa sobre classes sociais avança no sentido de se abrir para as mudanças que estão ocorrendo no mundo do trabalho, no sentido de incorporar atividades terciárias e imateriais como sendo produtivas. O estudo da distribuição do trabalho por setores de atividade dá conta de que está havendo mudanças importantíssimas na estrutura ocupacional e na distribuição setorial da força de trabalho. Se novos setores de atividade são criados, a interpretação precisa acompanhar esta evolução. Em relação aos modelos clássicos, trabalhadores em educação e em saúde são importantes organizadores de movimentos e ocupam posições estratégicas nas lutas por direitos. O maior problema talvez resida nos movimentos estudantis, que têm revelado força revolucionária em períodos do século XX: movimento de 1968, oposição à Guerra do Vietnã nos Estados Unidos, na China. Educação, saúde, movimentos estudantis, exemplos que poderiam ser complementados por outros casos, não são componentes das classes fundamentais. Em função desse argumento, a força social pode surgir fora da classe fundamental, e, em algum momento, necessita incorporar os setores operários.
Durante as últimas décadas falou-se
muito em fim das classes sociais.
Como avaliar a difusão dessas teses
no Brasil?
Como afirmei acima, a tese do fim das classes sociais fundamenta-se na tese do fim do trabalho. Se o trabalho estiver no fim, há espaço para afirmar também o fim das classes sociais.
Nesta semana começou a circular a notícia de que a OIT prevê 203 milhões de desempregados em escala mundial no ano de 2013, tendo o desemprego alcançado 197 milhões de trabalhadores em 2012. A falta de trabalho é um problema crucial. O desemprego indica que as classes sociais estão presentes e não desapareceram. Mas vejo uma real dificuldade em medir as classes sociais. Basta acompanhar o trabalho de Erik Olin Wright.
Como relacionar os conceitos de
trabalho material e imaterial aos
conceitos de trabalho concreto e
abstrato e de trabalho manual e
intelectual em Marx? Em que medida
as novas tecnologias da informação
influenciam na compreensão entre
trabalho material e imaterial?
O surgimento das TIC foi responsável, em boa medida, pelo despertar da discussão sobre trabalho material e trabalho imaterial, como se trabalhos imateriais fossem típicos desta fase histórica. Costumo afirmar que os conhecimentos que as sociedades agrárias dispunham sobre tipos de plantio, épocas de colheita, tempo de produção, seleção de produtos adequados, são conhecimentos imateriais e que, juntamente com as atividades físicas de plantar e colher, perfaziam os valores produzidos. A imaterialidade acompanha o trabalho em toda sua história. Na sociedade atual, a imaterialidade tomou proporções maiores, ocupa mais espaços na sociedade, mas não conseguiu se livrar da materialidade das mercadorias. A cobra todo o ano se livra de sua casca, mas não deixa de tê-la, assim a imaterialidade sempre precisa de uma materialidade para ser vendida como mercadoria. Na sociedade antiga, tanto quanto na atual, a música e o canto eram mercadorias transacionadas, quase que puramente imateriais, pois prescindiam do disco e do CD, mercadorias somente possíveis depois que a música foi dominada e incorporada num pedaço de vinil.
Em relação aos empregos, as sociedades vão se distanciando dos setores de atividade vinculados à agropecuária e à exploração mineral do solo em direção aos setores industriais e de serviços, a tal ponto que, hoje em dia, o emprego em serviços em geral represente a maior proporção entre os setores. Tal redistribuição setorial da alocação da força de trabalho colocou problemas tanto para a teoria das classes quanto para a teoria do valor-trabalho. A saída destes impasses depende, julgo eu, de uma reinterpretação dos conceitos de trabalho produtivo e improdutivo. Muitos setores de serviços, entre os quais aqueles dos empregos em TIC, podem ser pensados, arriscaria em afirmar, como produtivos. A cadeia de TIC está entre as mais modernas e de mais elevada composição orgânica de capital na sociedade atual, combinando pesquisa, industrialização e serviços, o que permite defini-las como produtivas em seu conjunto.
Trabalho material e trabalho imaterial aproximam-se da definição de trabalho manual e trabalho intelectual em Marx e, até certo ponto, poderiam ser interpretados como equivalentes. Outra é a relação entre trabalho material e imaterial com trabalho abstrato e concreto. São categorias completamente diversas. Trabalho material e imaterial podem ser pensados teoricamente como trabalho abstrato e, empiricamente, como trabalho concreto. Não são equivalentes nem sinônimos.
Como caracterizar a relação entre
intensidade e produtividade face às
novas formas de exploração do trabalho? Como qualificar a jornada
de trabalho e o tempo social médio de
trabalho? Tratar-se-ia de uma nova
fase da intensificação do trabalho?
Considero crucial distinguir intensidade e produtividade do trabalho. Produtividade é um conceito central em economia política, inclusive empregado por Marx. Ele indica avanços introduzidos no processo de trabalho, por meio dos quais a atividade do trabalhador rende mais ou se expressa em bens e serviços de melhor qualidade. Assumo, em tese, que a elevação da produtividade pura não incidiria em maior desgaste da força de trabalho – uma hipótese limite –, pois, na maioria das vezes, a elevação da produtividade requer intervenção e desgaste dos trabalhadores, que, em função disso, ajudam a aumentar os bons e esperados resultados. Então, em princípio, é possível separar conceitualmente produtividade e intensidade do trabalho, ficando para esta segunda categoria a capacidade de expressar os ganhos em resultados e em qualidade de bens e serviços decorrentes da ação e do desgaste maior dos trabalhadores. O ganho em resultados e em qualidade decorre de diferentes fontes quando se menciona produtividade ou intensidade. Intensidade é um tipo diferente e adicional à exploração do trabalho.
Sendo possível definir um espaço teórico próprio para intensidade do trabalho, isto tem implicações sobre a teoria do valor-trabalho no sentido de um mecanismo de produzir mais valor. Acho que dependendo da forma da intensidade do trabalho, o impacto pode ocorrer na mais-valia absoluta ou na mais-valia relativa.
Examinando através da história, percebe-se que as formas de intensificar o trabalho mudam. Então, é difícil pensar numa linha contínua e ascendente da intensidade do trabalho. Talvez se pudéssemos empregar a mesma interpretação mais política, de resistência às formas de intensidade do trabalho, como ocorre em relação à duração da jornada, poderíamos afirmar algo mais preciso. Nesta conjuntura, a resistência e a oposição dos trabalhadores conduziriam a controlar as formas de intensificação. Na sociologia convencional e na psicologia do trabalho opera-se com o conceito de trabalho real e trabalho prescrito, indicando que os trabalhadores detêm a capacidade de reorganizar o trabalho prescrito em suas práticas cotidianas. Isso suscita um problema para a organização dos negócios, que saem à procura de novas iniciativas de sair na frente com formas de trabalho que representem ganhos diante das formas médias empregadas no mercado. E assim sucessivamente.
As formas de intensificação mudam, podem acrescentar-se umas às outras, mas não são sempre idênticas. Emprego a metáfora de ondas para designar esta luta pela exploração mais intensa do trabalho.
Falta um trabalho de excelente qualidade para analisar as situações em que foram geradas as novas tecnologias de intensificação do trabalho. Um dia, um maluco ainda fará esta pesquisa.
Em que medida o discurso sobre a
flexibilidade, polivalência e
versatilidade do e no trabalho seria
uma forma de dominação social?
De fato, todas essas categorias constituem uma forma de dominação social conhecida como neoliberalismo. Mas o neoliberalismo opera com bases reais e concretas. A flexibilidade está centrada nos elementos quantitativos (flexibilidade numérica), a saber, redução da força de trabalho por contrato direto ou rotatividade no emprego. No mercado de trabalho brasileiro, a flexibilidade numérica sempre foi uma prerrogativa dos empregadores, menos do Estado, após a adoção dos sistemas de contratação por concurso público. Empregadores públicos e privados sempre demitiram conforme suas necessidades e preferências. Assim se construiu a história do trabalho brasileira. Desta forma, no Brasil, a adoção do trabalho flexível em contraposição ao trabalho rígido não é prerrogativa do período neoliberal. É um componente histórico.
A flexibilidade está presente também nos horários de trabalho, entre cujas manifestações podem ser incluídas trabalho em tempo parcial, como os contratos de professores por 20 horas ou por aulas dadas, trabalho em fins de semana (sábado e domingo), em feriados (carnaval, natal), trabalho em período noturno, em turnos rotativos, entrada e saída do trabalho em horários variáveis. Flexibilidade de horários sempre existiu, em certa medida, a exemplo do trabalho em dias de feriados. Mas o trabalho regular em fins de semana, em períodos noturnos ou em turnos rotativos e outras formas, teve reforço nos últimos anos. A Holanda é o país prototípico do trabalho em tempo parcial.
A polivalência é uma expressão ligada ao sistema de produção toyotista e expressa uma tendência contrária, ou pelo menos diversa, em relação à especialização fordista. O trabalhador exerce várias funções ao mesmo tempo. Em questionários de levantamento aplicados nos últimos anos tenho encontrado frequentemente o caso de várias tarefas simultaneamente atribuídas ao mesmo trabalhador, sem aumento da retribuição, diga-se de passagem. A polivalência é um pilar de sustentação do sistema toyotista porque possibilita formas adicionais de produção de valor.
Algo diferente ocorre com a expressão versatilidade. Versatilidade é mais um termo do que um conceito, por não ter um conteúdo preciso que possa ser atribuído a ela. Polivalência e flexibilidade são conceitos passíveis de tratamento empírico e teórico em relação à quantidade de valor produzido e suas implicações. Versatilidade é um sinônimo para flexibilidade, nada mais do que isso.
Além destes aspectos conceituais e empíricos, as três expressões fazem parte de um discurso de modernidade que, de alguma maneira, se contrapõe à existência de direitos adquiridos pelo trabalhador. Por exemplo, contratos de longa duração ou com direitos sociais e trabalhistas preservados fazem parte desse construto ideológico de enfrentamento social. Todavia, sendo passíveis de observação empírica e debate conceitual e teórico, polivalência e flexibilidade se projetam para além do terreno do puro discurso de dominação.
Há diferenças substantivas entre o
processo de intensificação do
trabalho fora e dentro do Brasil?
Não! O processo de intensificação do trabalho é gerado pela busca desenfreada de intelectuais, gestores e empresários (Taylor, Henry Ford, Taichii Ohno) por avanços de ganhos de produtividade que resultam em intensificação e, por conseguinte, mudaram os processos de trabalho. O caso mais explorado na literatura recente é o do toyotismo. O sistema de produção Toyota, na formulação de Taichii Ohno, vem de uma região destruída pela Segunda Guerra Mundial. O Japão era uma quase colônia dos Estados Unidos. Lá foi feito o “experimento” do sistema Toyota pela introdução do conceito de polivalência, de subcontratação, pelo just in time, pelas longas jornadas, e – como fizeram Taylor e Ford – por um pagamento mais alto, a isca que leva o trabalhador a dar tudo de si no trabalho. O sistema de produção Toyota foi tão bem-sucedido – combinando mais-valia absoluta, mais-valia relativa e mais-valia extraordinária – que conduziu a Toyota ao pináculo do mundo, reconhecida como a empresa que mais vendeu carros no mundo em 2009. Taichii Ohno queria um sistema que desse lucro para a empresa em períodos de recessão. Por isso, o sistema tem a capacidade de se adaptar a crises. O cerne desta solução para a atual crise consiste na mais-valia extraordinária, em que ocorre a redução dos custos de reprodução de força de trabalho, mas permanecem altas e exigentes as demandas sobre a intensidade laboral e as jornadas extraordinárias mantêm sua performance de jornadas excessivas, acima de até 48 horas semanais.
Se, por alguma razão externa, tal como pelo fato de que o just in time não consegue superar as barreiras do congestionamento do transporte das grandes metrópoles ou pelo fato de encontrar formas de resistência operária, o toyotismo implodir ou todas as empresas adotarem o método toyotista, com o que ele perde vantagens competitivas, estará aberto o cenário para busca de outras formas de intensificação do trabalho.
A adoção pelos negócios de formas de elevar a intensidade laboral certamente não é a mesma nos diversos países, nem mesmo nos diversos setores de atividade de um mesmo país. Uma distinção crucial é entre grandes e pequenos negócios. Em geral, pequenos negócios não conseguem adotar formas de intensificação. Os setores compostos de pequenos negócios, em levantamento empírico feito no Distrito Federal, não manifestaram formas de crescente intensidade laboral, exceto talvez aqueles pequenos negócios que operam competitivamente no mercado. Mas em atividades tais como serviços pessoais (cabelereiros, barbeiros, massagistas etc.), serviços de reparação (oficinas mecânicas) ou outros setores de pequenos empreendimentos não se encontram manifestações de crescimento da intensificação laboral. Outro é o panorama no setor bancário, nas grandes indústrias, empresas de telefonia fixa e celular, sistemas de comunicação e transporte etc.
Em que medida a teoria do valor-
trabalho ainda tem validade teórica
frente às novas formas tecnológicas
da informação? Se o valor é tempo de
trabalho necessário, qual a
importância do conteúdo, seja ele
físico ou abstrato, das mercadorias
produzidas?
Creio que tenha validade até os dias de hoje. Ou já deixou de vigorar o sistema capitalista? A teoria do valor-trabalho (TVT) não foi desenvolvida para compreender e criticar o funcionamento do capitalismo? Na cabeça de economistas clássicos, servia para aperfeiçoar ainda mais o capitalismo. Nas cabeças dos economistas revolucionários, para criticar e transformar. A teoria do valor-trabalho tem uma tremenda qualidade, que é a de desmitificar a exploração, a acumulação, o capital, o dinheiro. É interessante que logo depois que escreve sobre valor de uso, valor de troca e sobre valor e dinheiro, as formas elementares do dinheiro, Marx escreve o belíssimo texto sobre o fetichismo da mercadoria. Além de desmistificar, a TVT exerce um papel crítico sobre as ideologias que também escondem os modos de dominação social.
E, finalmente, a TVT permite mostrar como o sistema do Capital funciona integradamente como um todo e com as contradições que carrega em seu interior. Na crise atual, a cesura que se estabeleceu entre especulação financeira desenfreada e produção material e imaterial é de tal monta que criou um problema de dificílima solução no mundo capitalista, haja vista como os governos das nações são substituídos nos postos de comando.
Agora as TIC. As TIC consomem trabalho humano. Conquanto, operam em altíssimos níveis de inovação tecnológica, necessitam de labor humano e materializam em mercadorias (aparelhos celulares, computadores etc.) o trabalho material (industrial) e imaterial (programas, serviços etc.). As TIC representam também trabalho socialmente necessário entre as atividades cuja composição orgânica é mais elevada. Incluindo as mercadorias que provêm de estruturas com composição orgânica menor, é possível chegar ao tempo médio socialmente necessário, na qual entram as TIC.
As TIC conduzem a tentar entender as possibilidades e os limites da revolução informacional. Quando se olha para trás em direção à Revolução Industrial (a Primeira), a Segunda e a atual (Terceira), defronta-se com a dificuldade de captar os limites das TIC e da revolução informacional, pois se está completamente envolvido nela.
O conteúdo material ou imaterial das mercadorias não é o objeto principal de apreciação e análise da TVT, e sim o tempo de trabalho necessário e suas peripécias no curso da acumulação atual. Portanto, o valor não chegou à fase
de sua desmedida.
Não. O trabalho, por mais pleno de conteúdo que seja – a despeito da dificuldade implicada em mensurar o valor de uma descoberta, a cura da AIDS, por exemplo –, não é mais contado em horas? Se a cura da AIDS é uma descoberta difícil de ser pensada em termos de trabalho médio socialmente necessário, por acaso, as empresas capitalistas, hoje, possuem uma maneira inquestionável de remunerar seus pesquisadores exitosos? Por acaso o pesquisador que descobrir a cura da AIDS vai receber mais salário do que o da PDG? E quem adicionou mais valor para a sociedade?!
A liberação de tempo de trabalho é
em si uma forma de liberdade dentro
da lógica do capitalismo
contemporâneo? Em que medida a
intensificação do trabalho é parte
constitutiva dessa nova forma
histórica de dominação e exploração
do trabalho?
Considero muito positivo para os trabalhadores os avanços de limitação da duração da jornada de trabalho, movimento que cria tempo disponível para a realização de outras atividades. Entretanto, o tempo disponível precisa vir acompanhado de outras condições, tais como salário suficiente para usufruir dele, possibilidades de locomoção, viagens, acesso à alimentação, hotelaria etc. para participar de atividades culturais, artísticas, políticas ou sociais. No capitalismo contemporâneo as atividades culturais e artísticas são atividades capitalizadas, cujo acesso requer o pagamento de entradas, e que são organizadas com vistas à acumulação e não à elevação do espírito humano. Não são atividades de livre escolha e participação. Como inexistem tais bens comuns (common goods), o significado do tempo disponível fica limitado. O desemprego exemplifica de forma cabal uma condição de tempo disponível, mas não desejada, e sem condições de participar dos bens comuns, às vezes até com riscos de sobrevivência.
A liberação do tempo não conduz, por si só, à emancipação. Conduz ao que se poderia chamar de condição imprescindível para, sobre ela, edificar o tempo emancipado, desde que outras condições necessárias também se coloquem.
Há que se caminhar em direção a tempos edificantes.
A relação entre redução da jornada e intensificação do trabalho é pensada por vínculos causais na TVT. À medida que os meios de produzir mais-valor se dão por meio do alongamento das horas de trabalho e que, em muitos lugares, inversamente, elas encontram-se em franco declínio, as possibilidades de expandir a produção de valor passam pelas esferas de aumento da produtividade e de intensificação do labor.
Como pensar Marx hoje?
Marx é um autor do século XIX com grande influência no século XX e XXI. Do século XIX provém sua preocupação com a teoria do valor-trabalho que fora desenvolvida pela economia política clássica, especialmente inglesa, revisada por ele. A teoria do valor-trabalho até hoje não está suficientemente desenvolvida. Hoje sobressaem questões tais como a do trabalho material e imaterial, mas também está aí a exata compreensão do conceito de valor, de tal modo que possa ser aplicado de forma diferente do conceito de preço para a análise social e econômica do sistema capitalista mundial. A teoria do valor trabalho é uma teoria geral que deveria fornecer o suporte crítico para a interpretação das peripécias do capitalismo, hoje dominante em praticamente todo o globo mundial.
Marx é ainda um autor do século XIX, tributário do legado de Hegel por meio da dialética e do lugar do trabalho na construção humana. Como já observei na questão do método, é necessário desenvolver a metodologia dialética materialista para sua aplicação aos dias de hoje. O capital, especialmente, oferece material interessante para o desenvolvimento dessa atualização.
É um autor do século XIX que apresenta uma proposta de emancipação social com validade maior enquanto a desigualdade for a referência social. A proposta socialista que vem do século XIX materializou-se em vários processos de transformação que vigoraram, no caso mais longo da Rússia, por sete décadas, ao final das quais colapsaram por razões que não importam aqui discutir. Como tais revoluções estavam vinculadas diretamente a Marx, sua teoria sofreu um processo de deslegitimação, passando também por um estancamento no início do século XXI com a crise do capitalismo neoliberal. Diante da perda de legitimidade, outras propostas se apresentam como portadoras das bandeiras da emancipação, caso em que podem ser citados os movimentos em torno do Fórum Social Mundial e em torno dos direitos humanos e da cidadania.
Esse processo emancipatório apresentou vários problemas, o primeiro dos quais se dá em relação à teoria de transição. No século XIX a experiência democrática de participação na sociedade por meio de sujeitos autonomizados era bastante restrita. Daí que vários destes governos tomaram o rumo de regimes autoritários com a reprodução de governantes por décadas a seguir. Stalin, Mao, Fidel. A própria Cuba de Fidel não é um protótipo a ser apresentado como modelo para a transição e a organização de sujeitos autônomos. Ou seja, ainda há um sério problema a ser pensado e muitos outros caminhos a serem propostos para repensarmos os processos de transição, assim como os de desenvolvimento econômico e social do qual participem sujeitos autônomos.
Devemos ir além de Marx?
Sim, Marx é um personagem do século XIX, tanto no sentido teórico quanto no político, tanto de modo estrutural como conjuntural. Já avancei na questão anterior em relação a elementos que precisam, em meu entendimento, serem revisados: a teoria da transição e a teoria da construção de uma sociedade socialista composta de sujeitos autônomos. No livro sobre Determinação social do método, pode-se apreciar a proposta de Mészáros e ver seus limites. Por outro lado, a Venezuela de Chávez representa um contexto em que se podem perceber as dificuldades para a implementação de um processo de desenvolvimento socialista em uma sociedade hegemonicamente dominada pelo capitalismo.
Teoricamente os avanços precisam ser feitos a partir da leitura da sociedade em que se vive. A sociedade atual passa por uma revolução industrial-informacional, cujo impacto vivencia-se, mas cujos limites não se consegue visualizar ainda. Mesmo a moderna indústria sobre a qual escrevia Marx não equivale aos níveis de inovações tecnológicas da sociedade contemporânea, bastando para isto examinar os meios de comunicação: a internet, os sistemas de telefonia, os sistemas de comunicação online, sem mencionar a automação, a robotização etc.
Para finalizar, quais foram e como se
consolidaram suas principais
influências teóricas?
As influências teóricas distribuem-se com o passar de minha história pessoal e das conjunturas sociais. Durante a graduação, os estudos sobre o desenvolvimento forneceram parâmetros para a crítica social e um engajamento correspondente no campo da ação.
Durante a pós-graduação, as teorias da dependência e a possibilidade de arquitetar contribuições a partir da realidade brasileira e latino-americana forneceram elementos de contribuição teórica.
No retorno ao Brasil, após o doutorado e ingresso na vida universitária, passei a participar da luta contra a ditadura militar dentro do movimento docente na Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), a partir da qual contribuí para a criação do Andes-Sindicato Nacional e que me permitiu participar do Congresso da Classe Trabalhadora em Praia Grande, que visava a unificação dos movimentos e criação de uma entidade geral representativa da classe trabalhadora. Nessas ações políticas, mantive aproximação política com os grupos mais à esquerda, a exemplo do Andes-Sn.
A partir da pós-graduação e do início da vida profissional, comecei a fazer uma leitura sistemática dos textos de Marx, os três volumes de O capital e o Capítulo VI inédito, os Grundrisse, A ideologia alemã, O manifesto; de Lênin, O que fazer e O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Introduzi a leitura de Para além do capital de Mészáros quando ainda não existia tradução em português para Beyond capital, para espanto dos estudantes de doutorado, que consideraram aquilo uma iniciativa maluca, dado que estávamos em pleno período de hegemonia neoliberal (1996) e quando a sociologia havia feito uma dolorosa autocrítica. De modo ilustrativo, muitos de nossos colegas converteram-se de posições radicais para posicionamentos bem mais centristas e conservadores, com base em Habermas, Weber, Hanna Arendt – a profundidade desta passagem e conversão foi tanto mais traumática quanto envolveu pessoas que haviam sido presas políticas, tendo alguns quase morrido sob as torturas nas cadeias e prisões. Neste período, alguns poucos colegas, uma minoria dentro do Departamento de Sociologia da UnB, preservaram o cultivo do pensamento crítico de esquerda e do marxismo militante.
Admiro em Durkheim a precisão conceitual, e em seguidores, como Bourdieu, a crítica contra o pensamento estabelecido e prevalente e a inexistência de um recurso metodológico que conduza sem erros às descobertas científicas. A corrente durkheimiana e bourdieusiana bem como a valoração da observação empírica que somente os norte-americanos conferem ao campo da sociologia são outros pontos importantes.