Um contemporâneo do Infante D. Henrique
Capítulo 42
Apenas se sabe, por uma phrase vaga de Ruy de Pina, e por outra phrase, não menos vaga, do proprio infante D. Pedro, que elle estivera em Ceuta.
Julgaria D. Alvaro,—insaciavel de correr perigos e aventuras,— que a sua presença não era já precisa em Portugal ao infante D. Pedro, cuja causa estava ganha? Dar-se-ia em Ceuta algum acontecimento, que fizesse com que o infante, como regente do reino, entendesse ser necessario mandar alli o seu mais seguro e dedicado amigo?
Ficou em Ceuta D. Alvaro ou iria tambem ao estrangeiro, tentar novos feitos de armas, hypothese a que se inclina o collaborador do Diccionario popular?{72}
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Foi effectivamente durante esta sua ausencia que Henrique VI o encheu de mercês importantissimas.
«D. Alvaro Vaz estava então militando em Ceuta, e esse homem de nobilissimo caracter, que, emquanto D. Pedro foi feliz, se conservou afastado, voltando até, segundo todas as probabilidades, ao estrangeiro, porque não é natural que em 1445 Henrique VI de Inglaterra lhe conferisse todas as graças que dissemos, na sua ausencia, D. Alvaro, apenas soube o que se tramava contra o seu
irmão de armas, veio logo para Portugal...» [42]{73}
Por minha parte pendo a acreditar que D. Alvaro não sahiu de Ceuta, mas devo dizer, francamente, que caminho apenas por conjecturas.
É possivel que a morte do pai e do irmão mais velho, ignorando eu comtudo a data certa em que falleceram, levasse Henrique VI a galardoar em D. Alvaro os serviços que anteriormente havia recebido d'elle proprio e da sua familia.
Mas é mais provavel que, «por esforço do infante D. Pedro», como diz Landim, lhe fossem feitas aquellas mercês.
As duas phrases, de Ruy de Pina e do infante D. Pedro, que logo citaremos, fallam apenas de Ceuta; supponho, por isso, que D. Alvaro Vaz de Almada não iria mais longe n'essa segunda ausencia.
O que é certo é que as mercês de Henrique VI a D. Alvaro são do anno de 1445, em que o valoroso Capitão estava fóra de Lisboa.{74}
Os documentos comprovativos das mercês encontrou-os o snr. Figanière, e indicou-os pela primeira vez no Catalogo dos manuscriptos portuguezes existentes no muzeu de Londres (Lisboa, 1853), por esta fórma;
«N.º 6.298. Fol. 316—Noticia de D. Alvaro Vaz de Almada, conde de Abranches, cavalleiro da Jarreteira.
«Fol. 317—Cópia de um documento passado sob o sêllo privado (copy of Privy Seal) em que contém a eleição de D. Alvaro de Almada, como cavalleiro da Jarreteira, e creando-o conde de Abranches em Normandia. Datado de Westminster a 4 de agosto do 23.º anno do reinado de Henrique VI, rei de Inglaterra; isto é, de 1445.
«Fol. 319 verso—Cópia de outro semelhante documento, concedendo ao mesmo D. Alvaro de Almada, conde de Abranches, a somma annual de 100 marcos.{75} Datado de Westminster a 9 de agosto do mesmo anno.
«Fol. 320 a 321—Cópia de outro semelhante documento, dando ao mesmo D. Alvaro de Almada uma taça de ouro do valor de 40 marcos, a qual continha 100 marcos em dinheiro. Datado de 13 de agosto do já referido anno.
«Os quatro precedentes documentos estão collocados em seguida uns dos outros».
Eis o que dizia o Catalogo. Tres annos depois, no Panorama, o snr. Figanière publicava na integra os documentos, cuja traducção vamos dar em seguida:
«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23, maço 6, pergaminho 2.º
«Henrique, por Graça de Deus Rei de Inglaterra, de França e Senhor da Irlanda, aos Arcebispos, Bispos & saude.
«De grandes louvores devem ser cumulados, e com singular gloria exaltados{76} os que com ardente zelo se empenham em sacrificar o seu tempo e até a propria vida á salvação da Patria; que se expõem aos perigos para assegurar a tranquillidade publica, e que acima de todas as cousas d'este mundo ambicionam fama illustre e nome immortal, e se dão por felizes quando julgam poder com os seus serviços e lealdade promover o publico bem. Oh benemerita classe de homens! sem os quaes não poderiam gozar de segurança as cidades, as fortalezas, os reinos, os dominios, os Principes da terra, nem mesmo a propria Terra. Oh muito illustres e justos varões! sob cuja administração exemplar todas as virtudes se avigoram e florecem, os máos são reprimidos e os criminosos castigados. Ninguem ha, certamente, que com digno louvor possa celebrar por escripto ou de palavra almas tão nobres. N'este numero se deve contar e celebrar o insigne e preclaro varão, o bravo e glorioso militar,{77} D. Alvaro de Almada, que desde tenra idade, apenas saido da infancia, apaixonado de gloria militar e ambicionando os premios dos valentes e a salvação commum, com todo o esforço e zelo se applicou aos exercicios militares, e logo que chegou á idade mais propria para a guerra, cresceu-lhe o esforço com a idade, e em defeza do Estado se portou com tão superior coragem que nada lhe parecia agradavel, digno de estima ou de apreço se não se encaminhasse ao bem commum; e tal valor mostrou nos perigos da guerra, e tal prudencia no remanso da paz, que com toda a justiça se devem premios ao seu trabalho. Por estas razões considerando nós a nobreza d'este varão, e as eminentes qualidades que, unidas a seus feitos, lhes dão grande realce, e outrosim as gloriosas façanhas por elle praticadas no tempo do Christianissimo Rei de gloriosa memoria nosso Antecessor, realçadas ainda{78} pelas provas de amor, obediencia e dedicação que a nós e nossos reinos elle tem dado; o nomeamos cavalleiro socio e irmão da ordem da Jarreteira por voto unanime d'esta Ordem; e em testimunho de nossa Real Munificencia e das suas virtudes o nomeamos e estabelecemos Conde de Avranches no nosso Ducado de Normandia; e cingindo-lhe a espada o investimos n'este nome, dignidade e titulo e com elle effectivamente o honramos. Queremos e mandamos por nós e por nossos herdeiros que o dito nosso leal Dom Alvaro conserve perpetuamente para si e seus herdeiros varões, seus descendentes havidos em legitimo matrimonio, o nome e dignidade de Conde de Avranches. Foram testimunhas os veneraveis Padres: I. arcebispo de Cantuaria; I. arcebispo de Yorck; Thomaz, de Norwich; Will, de Sarum; I. Bathon e Wellen, bispo de Gloucester, tio materno do nosso carissimo Duque Humfredo;{79} e os nossos carissimos parentes os duques João Exon, e Humfredo Buck; e Wilhelmo, marquez de Suffolk; João, visconde de Beaumont e seus amados e fieis soldados Radulpho Cromwell e Radulpho Bottler, thesoureiros de Inglaterra, e o chanceller Mestre Adam Moleyns e outros. Dado por nossa mão em Westminster a 4 de agosto. Por carta de sello privado passada