Um contemporâneo do Infante D. Henrique
Capítulo 49
e em campo a tres d'elles os melhores juntamente [49]. A resposta d'el-rei para o conde foi então graciosa e branda, e com mostrança que lhe pesara de o ouvir, que para o mau fundamento dos que tratavam a morte do infante, foram mui tristes signaes,{94} e por arredarem el-rei do infante D. Henrique e do conde, que começavam ser causa, que de todo impedia seu damnado proposito, o levaram a Cintra aforrado».
Este ultimo periodo de Ruy de Pina tem sido interpretado por alguns escriptores com manifesta confusão. Suppõem elles que Alvaro Vaz é que foi levado para Cintra, e não o rei. Eu entendo o contrario. Em Major a redacção póde suscitar duvidas; diz o erudito inglez: «Apesar da frieza, que lhe mostraram (ao conde de Avranches) por sua amizade a D. Pedro, foi sempre seu caloroso e perseverante defensor, e tal poder tinha sua influencia, que os maus conselheiros de elrei julgaram conveniente fazel-o retirar para
Cintra»[50].{95} Soares da Sylva, deixando-se arrastar pelo equivoco, escreve: «N'este mesmo tempo veio á Côrte o Conde de Abranches
D. Alvaro Vaz de Almada, que até alli estava [51] em Cintra.
Ora, em face do texto de Pina, vê-se que Alvaro Vaz veio de Ceuta, e que os cortezãos, para subtrairem D. Affonso V á influencia do conde, levaram o rei aforrado para Cintra.
D. Antonio de Lima, no Nobiliario, diz que Alvaro Vaz de Almada armou tres navios contra os genovezes que andavam no Estreito, que lhes tomou uma carraca, e praticou outros feitos valorosos. Não diz, porém, em que época isto succedeu. Mas poderá talvez presumir-se que fosse n'esta segunda ida a Ceuta, e que sejam estes os{96} feitos a que o infante D. Pedro se refere.
Os genovezes tinham n'aquelle tempo uma poderosa marinha, e póde bem ser que affluissem ao estreito de Gibraltar com a mira em Ceuta, chegando a fazer uma investida, que Alvaro Vaz teria repellido victoriosamente.
Os nossos chronistas guardam silencio sobre o assumpto. Mas não custa a acreditar que o motivo que levou novamente a Ceuta Alvaro Vaz fosse a ameaça dos genovezes, contra os quaes elle acudiria com tres navios armados á sua custa.
Sendo assim, ficaria explicado o facto de ter abandonado temporariamente o governo do castello de Lisboa, como explicadas ficariam tambem uma phrase do infante D. Pedro e a admiração que o joven rei manifestou mais uma vez pelo insigne capitão, a ponto dos cortezãos julgarem conveniente retirar D. Affonso V para Cintra, {97} para evitar a repetição de entrevistas que davam vantagem ao conde de Avranches.