Um contemporâneo do Infante D. Henrique
Capítulo 60
Todos, á excepção de D. Alvaro, aconselhavam D. Pedro a que não avançasse mais; diziam-lhe que, feita aquella demonstração de força, retrocedesse para Coimbra.
O infante ouvia-os engolphado n'uma abstracção melancolica. Mas deu ordem para que o exercito marchasse na direcção{115} de Alcoentre: para a morte é que era o caminho.
Cbegados ahi, D. Alvaro Vaz de Almada pratíca um novo acto de bravura, de fogoso ardor militar.
Ayres Gomes da Silva, a quem coube a guarda das forragens, fôra cercado pelos esclarecedores do exercito real.
Mal que isto se soube em Alcoentre, no acampamento do infante, «o conde de Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os do arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados, querendo-se salvar cairam em um grande tremedal e lagoa, de que não poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os vivos levaram logo ante o infante, entre os quaes o principal{116} era um
Pero de Castro, fidalgo e criado do infante D. Henrique» [60].
Impellido por este acontecimento, o exercito de D. Pedro avançou. Sahiu-lhe ao caminho a noticia de que D. Affonso V havia partido de Santarem ao seu encontro. Sabido isto, o infante mandou fazer alto, a pequena distancia de Alverca, junto ao ribeiro de Alfarrobeira.
O conde de Avranches, que era sempre o primeiro, foi observar o exercito do rei, que se aproximava.
Fez-lhe impressão a grandeza d'esse exercito. Mas, voltando, occultou a toda a gente a sua impressão, menos ao infante.
«... e alguns disseram que o Conde pedira e requerera ao infante, visto a desigual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e salvasse, e o deixasse{117} com sua gente alli onde folgaria