Um contemporâneo do Infante D. Henrique
Capítulo 11
—Não filheis trabalho em quebrar as portas, cá não tendes nenhum empacho em vossa entrada, cá os mouros são já partidos todos d'aqui e sómente ficamos nós ambos que vos abriremos as portas quando quizerdes.{22}
—Ora pois, respondeu João Vaz de Almada, filhai lá esta bandeira e ponde-a sobre esse muro, até que nos vamos.
Este mesmo episodio é contado por mestre Matheus de
Pisano[11], estrangeiro erudito, que foi chamado a Lisboa para escrever em latim a historia da guerra de{23} Ceuta, como quer
Herculano[12], ou para ser professor de D. Affonso V.
João Vaz de Almada levou a Ceuta os seus dois filhos, Pedro e Alvaro, que, depois da victoria, ahi foram armados cavalleiros: Pedro
pela mão do infante D. Duarte, herdeiro da corôa[13]; e Alvaro por mão do infante D. Pedro.
Foi certamente n'esse dia que principiaram a estabelecer-se entre D. Alvaro Vaz de Almada e o infante D. Pedro, como consequencia tradicional d'essa cerimonia, os laços de lealissima amizade, que os uniu durante toda a existencia, e{24} que não deixou sobreviver um ao outro mais do que alguns momentos.
D. João I deu a capitania e guarda da fortaleza de Ceuta a João Vaz de Almada, que a teve até á partida d'el-rei para o reino, ficando depois a cidade entregue a D. Pedro de Menezes, que foi o primeiro capitão d'ella.
Recolhendo a Portugal, João Vaz de Almada, malquistado, por motivos desconhecidos, com Gonçalo Pires Malafaia, esperou-o ás
portas da Relação e maltratou-o corporalmente[14].
Malafaia, que já tinha sido escrivão da chancellaria de el-rei D. Fernando, seguiu, por morte d'este rei, a causa do mestre de Aviz, exercendo depois, e em annos successivos, os cargos de védor da fazenda{25} real, e o de regedor (presidente) da Casa do Civel, além de receber por doação as propriedades confiscadas, no termo de Lisboa e Santarem, a João Fernandes Pacheco e a Fernam Gomes da Silva.