Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo IV – Primeira comissão
EM FINS de 99 aparecem casos suspeitos de peste bubônica, em Santos. Designado pela Diretoria de Higiene, para apurar o fundamento da denúncia, o bacteriologista recém-chegado vai a Santos, e verifica a existência da moléstia importada por via marítima. À prova seus conhecimentos práticos de Bacteriologia, a presteza das pesquisas que confirmaram a peste por ocasião de sua entrada no Brasil, recomendaram sua capacidade, num momento em que raros iniciados ensaiavam na prática dos trabalhos de laboratório.
Receando a contaminação provável do Rio de Janeiro, o Barão de Pedro Afonso, diretor do Instituto Vacínico Municipal, obteve do Prefeito Cesário Alvim, a criação de um instituto de soroterapia antipestosa. Faltava o técnico especializado que foi pedido ao Instituto Pasteur, de Paris. Roux respondeu que o Brasil tinha em Osvaldo Cruz, há pouco egresso do Instituto, o técnico a indicar. Foi cedida a Fazenda Manguinhos, de propriedade municipal, e o Barão de Pedro Afonso que tinha sido colega de ano do Dr. Bento Gonçalves Cruz, lembrando esta circunstância, convidou Osvaldo Cruz, que aceitou o encargo.
A 23 de julho de 1900, depois de algumas peripécias acarretadas pelo temperamento autoritário do barão, foi oficialmente inaugurado o laboratório para a preparação de sôro antipestoso, pomposamente denominado Instituto Soroterápico Federal, que os bons fados permitiram fôsse a célula de origem do Instituto de Manguinhos, hoje Instituto Osvaldo Cruz.
Em fins de 1900, sôro e vacina, antipestosos eram já empregados na terapêutica e na profilaxia da peste. Paralelamente à produção especial veio o desenvolvimento de trabalhos experimentais; sobrelevava, então, a capacidade do diretor, na educação técnica de seus auxiliares, ou fôsse o trato de aparelhos delicados com os colegas, ou o cuidado com os elementares serviços de lavagem de vidros, exercitando, com o exemplo, o trabalho de auxiliares mais humildes. Em pouco, os trabalhos chegaram ao conhecimento do meio médico; em busca do assunto de tese, os alunos dos últimos anos da Faculdade buscavam o recanto de Manguinhos. Desde logo alguns acudiram ao aceno da vocação, tornando-se discípulos da nova escola de medicina experimental.
Não terminaria o ano de 1902 sem que explodisse séria incompatibilidade entre o Barão de Pedro Afonso e Osvaldo Cruz, tendo como conseqüência a renúncia de ambos. Por essa época, o Instituto de Manguinhos já produzia quanto bastasse às necessidades de sôro e vacina contra a peste, que Roux considerou excelentes e Kolle e Otto, de Berlim, classificaram entre os mais eficazes.
Poucos dias passados sôbre a crise interna, Osvaldo Cruz voltava ao Instituto, como diretor único, consolidando de vez sua situação, dadas as credenciais de exceção que revelara, durante dois anos, na direção dos trabalhos experimentais.