Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo XXI – A medicina brasileira depois de Osvaldo Cruz
Capítulo XXI – A medicina
brasileira depois de Osvaldo
Cruz
DATA dos primeiros dias dêste século, o aparecimento do homem de ciência, a quem o destino confiou a missão de renovar a prática das ciências biológicas de aplicação médica, no Brasil, a ponto dos novos conhecimentos técnicos, sob a fé das doutrinas pastorianas, que revolucionaram a medicina nos três últimos decênios do século passado. Êsse homem providencial foi Osvaldo Gonçalves Cruz. Recém-chegado da Europa, depois de três anos de estágio no Instituto Pasteur, de Paris, desconhecido em seu país, do estrangeiro surgiu a indicação de seu nome para trabalho técnico de competência especializada. Venceu na primeira fase de apresentação; em breve, muito jovem, chegara ao primeiro pôsto dos serviços sanitários da República; foi árdua e atribulada sua gestão; teve audácia no cometimento, lutou e venceu com denôdo na administração sanitária, sem esquecer, em atividade paralela, a parte estrutural de sua obra – a escola brasileira da medicina experimental.
Assim é que, enquanto combatia a peste e a febre amarela, corriam os trabalhos de Manguinhos com o preparo do sôro e da vacina antipestosa e os estudos de entomologia aplicada, relativa à evolução e hábitos do mosquito transmissor. Sem demora, ampliou as pesquisas relativas às endemias tropicais, a começar pelo impaludismo. Pouco depois, um jovem e iluminado pesquisador – Gaspar Viana – descobria o tratamento da leishmaniose pelo tártaro emético, em injeção intravenosa, substância esta que foi depois empregada, com êxito igual, no combate à esquistossomose, amplamente disseminada no Norte do país. A igual passo, surgiram os resultados dos estudos de Chagas no interior de Minas, com o descobrimento de nova parasitose, transmitida por um hematófago – Triatoma magista, e produzida por um tripanossomo – Trypanossoma cruzi, designação eponímica devida ao sábio que orientou e dirigiu as pesquisas que culminaram no maior feito da nossa patologia experimental, qual foi o estudo completo da doença em sua etiologia, evolução, formas clínicas e profilaxia. A bacteriologia da tuberculose teve o seu momento de interêsse mundial com os trabalhos de Fontes. Desenvolveu-se, sob a direção de Osvaldo Cruz, com a vantagem de vária colaboração, o estudo biológico de artrópodes hematófagos, ixodídeos, dípteros nocivos ao homem e aos animais. Foram então investigados os meios de combater as epizootias que dizimam nossos rebanhos. O Instituto recebeu a ajuda de professôres estrangeiros que fizeram cursos de especialização técnica; por seu turno, os novos técnicos nacionais davam cursos de bacteriologia e protozoologia, preparando jovens profissionais brasileiros nas ciências do laboratório.
As publicações do Instituto, com o auxílio da excelente biblioteca e de muitas centenas de revistas científicas, adquiriram renome mundial. Os artigos das Memórias do Instituto Osvaldo Cruz eram escritos em português, reproduzido ao lado o texto noutra língua (inglês, francês e alemão), tendo o diretor o pensamento de mais tarde só publicá-los, patrióticamente, em português, para obrigar a solicitação estrangeiras a buscar os ensinamentos veiculados no idioma nacional.
Tal providência, como outras tantas projetadas pelo gênio criador do sábio patrício, não teve execução até o presente.
Foram instaladas filiais do Instituto em Belo Horizonte, no Maranhão, em Belém, em Pelotas. O Instituto Biológico, de São Paulo, obedeceu a mesma e igual orientação. Por ocasião de sua morte um professor da Faculdade de Medicina da Bahia propôs que todos os laboratórios bacteriológicos oficiais do Brasil tivessem o nome de "Osvaldo Cruz", como os similares da França, em homenagem a Pasteur.
Ainda nos seus últimos dias, já doente, o infatigável pesquisador estudava os meios de vencer a saúva destruidora e o caruncho que inutiliza o milho e o feijão.
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Em dezessete anos de vida intensa, Osvaldo Cruz renovou métodos, dando orientação nova à vida científica brasileira; em matéria de higiene, nem uma providência deixou de ser orientada sem a afirmação do laboratório; a clínica assimilou as novas pesquisas, e, em cada hospital, laboratórios foram instalados e equipados, acompanhando os progressos crescentes da técnica. Desenvolveu-se o gôsto pelas indagações no sentido de clarear os horizontes de nossa patologia, crescendo o interêsse pelas ciências de aplicação em medicina, química industrial e veterinária.
Foi um modelador de aptidões; como ninguém, soube fazer discípulos e despertar vocações desconhecidas. Era sincero e irradiante seu otimismo em relação às possibilidades nacionais em matéria de educação, de trabalho científico, de vigor cultural.
"Mestre dos mestres", lhe chamou Rui Barbosa.
Osvaldo pensava que, no Brasil, se devia fazer a ciência para o Brasil, e quando alvitrava a importação de técnicos estrangeiros, não admitia que se fizesse senão sob caução da direção brasileira.
"Na história da ciência brasileira, diz o Dr. Oscar Freire, da Faculdade da Bahia, o nome de Osvaldo Cruz marca uma fase decisiva. O desejo de resolver os problemas nacionais com elementos próprios, fazendo no Brasil a ciência para o Brasil, todo se perdia em esforços isolados e esparsos. Preciso era fundar um núcleo, onde se reunissem os elementos de trabalho capazes, e donde se irradiasse para o Brasil inteiro a claridade de uma nova orientação e de novos horizontes. Em tal função Osvaldo Cruz nacionalizou verdadeiramente a ciência médica, estabelecendo o princípio de que é no Brasil que se devem fazer a medicina e a higiene para o Brasil."
É um cimo a contemplar outro cimo, e na altitude intelectual só os peritos se confrontam e estimam.
Essa a grande obra do sábio brasileiro, e dela, no ascendente de patriotismo, a fé militante e a honestidade da ambição.