Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo III – A formação
VINHA o jovem médico de um curso medíocre, apressado, porque realizado em quatro anos o turno, escolar escalado num sexênio. Trazia, porém, com os atributos pessoais, ainda latentes. o ascendente de forte estrutura, pacientemente trabalhada em vigilante educação doméstica, continuada pela dedicação paterna no curso de humanidades e nos estudos superiores, decisivamente orientados no sentido da medicina. Foi, então, que se lhe desvendou o pendor para os trabalhos de laboratório. Começa assim, radiosa e promissora, sua formação profissional.
De 1892 a 1917, estira-se uma vida de grande homem, sàbiamente dirigida e porfiada. Sua tese de doutoramento, sôbre Veiculação Microbiana pela Água, afirma precocemente o homem de laboratório, aliás pressentido, durante o curso, nos lugares que exerceu como ajudante de preparador da cadeira de Física e, a seguir, como ajudante de preparador do laboratório de bacteriologia, na cadeira de Higiene da Faculdade de Medicina.
No prefácio de sua tese, confessa o doutorando que, desde o primeiro ano de seu tirocínio, começara a ler, e manusear livros de microscopia, exercitando-se no manejo do microscópio e na técnica das preparações.
Em janeiro de 93, casou-se com D. Emília Fonseca, de cujo consórcio teve seis filhos, dos quais três varões. Dos filhos, quatro sobrevivem.
O Dr. E. de Sales Guerra, chefe do serviço de doenças internas da Policlínica Geral do Rio de Janeiro e notável clínico na cidade, é autor de um livro de impressões sôbre Osvaldo Cruz, escrito à feição de suas recordações e testemunhos pessoais. Seu mais velho amigo, dedicado e fiel desde que o conheceu em 1894, Sales Guerra derrama sua admiração comovida em copiosas páginas de gratas reminiscências. Embora inspirado em irrestrito louvor, o livro se recomenda, principalmente, pela documentação autêntica a respeito da vida do grande brasileiro.
Conta, o Autor, como o conheceu, à cabeceira de um doente, assistido pelo jovem profissional, que até então exercia o cargo de médico da Fábrica de Tecidos Corcovado, no qual sucedera a seu pai, por infausta coincidência falecido no ano de sua formatura.
Em 94, chamado para medicar uma filhinha de Osvaldo Cruz, Sales Guerra deu com um laboratório de análises na residência do colega, que bem provido lhe pareceu na disposição de aparelhos e pertences.
Por êsse tempo, a esforços de silva Araújo e Sales Guerra, fundara-se, na Policlínica Geral, um laboratório de análises clínicas, que foi confiado a Osvaldo Cruz, à sua assiduidade, competência e probidade técnica.
Pouco durou, entretanto, o seu estágio na Policlínica, compelido que foi a deixá-la, para empreender viagem de estudos à Europa, como lhe aconselhara Francisco de Castro, que definiu sua formação profissional, sem embargo da hesitação de comêço, natural em quem quer acertar o rumo da vida com a responsabilidade de chefe de família.
Em carta de Paris a Sales Guerra, apenas recém-chegado, dizia: "Já comecei os estudos: estou freqüentando o serviço de vias urinárias do Prof. Guyon. Freqüento também o curso de higiene e preparo-me para estudar a minha ingrata, quanto adorada bacteriologia..."
Naquele tempo, as ciências de laboratório fascinavam pelo brilho crescente, mas em verdade pouco prometiam, como meio de vida, a um profissional pobre. Aconselhavam amigos que se preparasse igualmente numa especialidade clínica. Por isto, a bacteriologia adorada lhe parecia ingrata. Em carta seguinte, era mais explícito, já então em pleno desdobrar de sua fecunda atividade: "Além do curso do Prof. Guyon, aplico-me ao estudo da higiene, microbiologia, histologia patológica e química biológica, com o intuito de, quando voltar, montar aí um laboratório para análises destinado a auxiliar o diagnóstico microbiológico das diversas entidades mórbidas, exame de sangue, etc."
Em carta ulterior, confidenciava: "Embora em Paris tudo incite ao trabalho e o facilite, penso todos os dias em volver à nossa boa e querida terra, ao seio dos amigos. [....] Aqui são os dias desfiados nos laboratórios do Instituto Pasteur ou no Laboratório Municipal, onde se encontram bons amigos, que bondosamente nos mostram como se aplainam dificuldades, que a cada passo se alevantam, diante dos que se enveredam pelos terrenos da experimentação. As noites são dedicadas à família, a visitas ou ao teatro".
Acompanhando os passos de sua permanência em Paris,
escreveu Ezequiel Dias, seu dileto discípulo: 1 "E assim êle fêz. permanecendo em Paris quase três anos. repartindo inteligentemente o tempo entre o Instituto Pasteur e o Laboratório de Toxicologia. Neste, ao lado de Ogier e Vibert, se orientou cabalmente em tudo quanto se relaciona com a moderna prática médico-legal, tôda ela baseada em sólidos alicerces científicos".
Mas, onde se lhe antolhou o ambiente intelectual que anelava, foi no Instituto Pasteur. Aí, o acolhimento do Prof. Roux foi tão significativo que saiu dos moldes adotados nessa instituição. Nunca indenizou o material de trabalho e os animais de experiência, conforme era de praxe. Tudo grátis. Indagando, veio a saber que devia tamanha munificência, e outras muitas gentilezas, ao fato de ser o primeiro filho do Brasil que batia às portas da Casa de Pasteur, para cuja fundação concorrera generosamente o magnânimo D. Pedro II. Entretanto, já não viviam nem o gênio criador da Microbiologia, nem o nosso ex-monarca. Mas, no glorioso Instituto sabiam e sabem zelar os sentimentos de gratidão e, por isso, lá deve estar, até hoje, o busto do nosso último Imperador, como prova de que o culto da ciência não repele as delicadezas de sentimento.
Osvaldo apreciava extraordinàriamente êsse e outros traços do grande bacteriologista, de quem se tomou amigo sincero.
Outra amizade, aí também adquirida, foi a de Metchnikoff, cujas idéias e doutrinas admirava com entusiasmo. O sábio russo retribuía-lhe ex-corde o afeto e achava especial prazer em conversar com o seu jovem amigo brasileiro, na língua dêste, a qual havia aprendido na ilha da Madeira, onde expirara a sua primeira espôsa. E seria talvez bem diferente a trajetória de Osvaldo, se anuísse ao honroso convite para trabalhar definitivamente no laboratório do genial descobridor da fagocitose. Mas. para isso, seria preciso que o nosso patrício não amasse bastante a sua terra
E Sales Guerra acrescenta: "Durante sua permanência em Paris, deu à estampa vários trabalhos sôbre medicina geral, pesquisas histopatológicas, etc. Sempre previdente, não se descuidou de freqüentar uma fábrica de artefatos de vidro para laboratório, onde, de blusa como os demais operários, adestrou-se na manipulação e confecção de empolas, provetes, pipetas e em dar aos tubos de vidro o feitio adequado aos variados e multiformes aparelhos usados nos laboratórios. Aos já numerosos trabalhos adicionou mais êsse. Aqui, no Instituto de Manguinhos, criou a secção especial de artefatos de vidro e ensinou a vários auxiliares a manipulação
dessas utilidades"2.
Vieram dessa iniciativa as primeiras empôlas fabricadas no Brasil, e, ao que afirmam, pessoalmente por Osvaldo Cruz, para adestrar seus auxiliares.
Um fato, narrado pelo Dr. Phocion Serpa, é significativo de sua
bravura técnica. 3 Em Paris, nos laboratórios de Toxicologia de Vibert e Ogier, que freqüentou como estagiário, coube-lhe elucidar um caso difícil de pesquisa toxicológica: um homem fôra encontrado morto na própria cama, por envenenamento, que a justiça queria saber se pelo gás de iluminação ou pelo gás produzido pelo carvão vegetal. Somente na primeira hipótese os herdeiros teriam direito à indenização. Aplicando seus conhecimentos de medicina experimental, já adquiridos no Instituto Pasteur, o técnico brasileiro resolveu o problema, identificando os processos idôneos para chegar à realidade da causa.
Em 1899, regressa o jovem bacteriologista, em cujas credenciais a armadura de sábio espera seu momento de atuação. No Brasil, era apenas chefe de laboratório incipiente da Policlínica Geral.
Instala, então, um laboratório completo de análises biológicas, aplicadas à clínica, na antiga Travessa de S. Francisco, hoje Rua Ramalho Ortigão. Nessa mesma ocasião, Francisco de Castro o convida para assistente da sua clínica, na Faculdade, mas não pôde aceitar por lhe parecer distante o exercício de suas absorventes cogitações. Consta, entretanto, a existência de uma carta, no arquivo de Francisco de Castro, na qual Osvaldo Cruz declina da honra de ser seu assistente, por ter as manhãs ocupadas como médico da Fábrica de Tecidos Corcovado, em cujo exercício substituíra seu pai. Esta versão reflete, mais uma vez, a sua devoção filial, recusando, por tal motivo, um cargo apetecido pelos profissionais jovens, sobretudo junto a um grande mestre, a maior figura magistral de seu tempo.