Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo I – Introdução
A BIOGRAFIA é um gênero literário difícil. O homo sapiens, de Forster, vive realmente, através das circunstâncias de tempo e de meio, sob o determinismo implacável de compulsões internas – nutritivas e amorosas; sofre a influência de taras e complexos, de lutas e proscrições sociais, da disciplina religiosa e da camaradagem política. Em tudo o homem que vive, sente, pensa e mobiliza energias físicas e morais. A verdade importada da vida real impõe reservas de expressão e preocupações de delicadeza, sobretudo para não ferir melindres pessoais dos que sobrevivem e prolongam a família carnal e espiritual de uma figura ilustre. A paisagem de urna vida tem claridades e sombras, e, da análise de proporções, na visão da realidade, resultará o interêsse impessoal em cada caso concreto.
A glória alcançada por alguém que veio da humildade, que soube viver e sentir como homem, detém a admiração póstuma, sendo capaz de levedar estímulos e ambições. Seduz e educa pelo exemplo. E, em síntese transparente, de uma bela vida, buscada em documentos e testemunhos autênticos, recomenda o interêsse da posteridade; expressivamente, como diz Maurois: "por là, qu'on veuílle ou non, la biographie est um genre qui touche à la morale et plus qu'aucun autre em littérature".
Uma biografia não pode reproduzir a linha geométrica das personagens do romance, nem tampouco deve recompor o tecido de fatos e lendas que deformam as figuras históricas; no romance a complexidade da vida obedece à visão do romancista, não raro à demonstração de uma tese ou à indagação psicológica no mistério da personalidade, que instintos e paixões absorvem e dramatizam; na história o interêsse maior participa da época em que viveu determinado indivíduo e sua ação social avulta ou deprime predicados pessoais em choque com a ambiência contemporânea. Donde biografia e história têm seus propósitos definidos no enrêdo dos acontecimentos: a diferença ressalta dos aspectos que personalizam e daqueles que generalizam. E, pois, na biografia prevalece o indivíduo; na história, a época. É certo que a ciência da biografia repousa nos fatos de caráter individual, mas também é verdade que o encanto da narração, seu tecido e vigor reverdecem no arranjo literário. A biografia moderna acompanha o indivíduo nos altos e baixos de sua existência, no tumulto da atuação, temeridades e incidências que, singularmente, o projetam entre homens e coisas. De tal jeito, não só uma vida heróica merece ser recordada, senão também uma existência modesta, consagrada ao culto do bem e da virtude, justamente prezada na amplitude de seus dons. Permite-se o louvor; menos se concede, porém, a deformação inspirada na simpatia ou má vontade. Testemunhos idôneos, bons documentos e espírito literário recomendam o interêsse biográfico. A biografia assim entendida é um estudo de complexidade: analisa e projeta o conceito de exceção; compreende as intermitências sentimentais, respeita os erros compulsórios do instinto e atende às mercês inesperadas da fortuna - "tôdas as vidas têm os seus desertos". Sobretudo alertado o esfôrço de compreensão: assim na plenitude da graça, como na santidade, outro tanto de referência aos valôres humanos, que exaltam a personalidade e conduzem à glória.
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"Uma vida bem descrita é quase tão rara quanto uma vida bem vivida", disse Carlyle. Seria possível uma biografia de Osvaldo Cruz? Talvez, ao menos em parte, porque a vida breve lhe limitou a inquietação espiritual, a implacável liberdade do instinto, a ebulição prolongada da vida interior. Sua atuação como homem público foi rápida, ascencional, fulgurante. Num ímpeto de vida sofreu a maldade da injustiça e fartou-se no resgate dos louvores; a pouco trecho encontrou a glória, que, afinal, é bem pouco, porque é apenas "a vantagem de sermos conhecidos por aquêles que não conhecemos".
Tentar a expressão de uma personalidade pode ser obra de artista, nem sempre fiel à verdade biográfica. Os reflexos da ação individual iluminam o quadro da existência que, a ser traçado com frieza e desinterêsse, ficaria sem a sugestão do colorido: "um belo retrato é, a um tempo, uma fotografia fiel e uma transposição artística da realidade".
A vida breve de Osvaldo Cruz livrou-o dos acontecimentos que se despenham da maturidade e são o tributo oneroso do instinto e dos afetos. Bem contada, sua vida refaz-se no próprio interêsse. Não foi um predestinado, com mandato nominal para vir ao mundo. A criança que viu a luz em São Luís de Paraitinga, aos 5 de agôsto de 1872, e tomou o nome de Osvaldo, era filho de um médico da roça e teve a ventura original do lar em que nasceu. O pai, Dr. Bento Gonçalves Cruz, tanto que chegou a época de educar os filhos, deixou a aldeia, em busca do meio onde mais fácil fôsse realizar esta aspiração, e, profissional pobre, não lhe esmoreceu o ânimo na diligência de conseguir o sonhado êxito.
Filho de um casal digno e feliz, que o preparava para a vida, o jovem percorreu todos os turnos da instrução primária, secundária e superior. esclarecimentos seguidos por atilada e paciente educação; foi médico como o pai: apenas diplomado, acudiu ao apêlo de suas tendências espirituais, trabalhando a formação profissional no rumo da especialização em medicina experimental, no próprio centro de suas conquistas, em pleno esplendor da era pastoriana. Espírito ágil, dedicado ao laboratório e em seus estudos absorvido, Osvaldo Cruz convenceu-se de que a profilaxia ensaiada em Havana devia ser aplicada no Rio de Janeiro. Circunstância puramente casual fê-lo diretor da repartição de Saúde Pública, em momento de rara fortuna política, quando um govêrno que sabia gastar encontrou nos cofres públicos dinheiro que seu antecessor soube acumular. O patriotismo do govêrno acertou com a capacidade desconhecida do jovem profissional. Empreendida a luta pelo saneamento do Rio, o êxito triunfal, que as vicissitudes da campanha tornaram mais glorioso, fêz crescer num ímpeto o prestígio do administrador técnico, permitindo-lhe obra de mais vulto, que foi o desenvolvimento da medicina experimental no Brasil, alguns anos antes criada no Instituto Soroterápico, de Manguinhos. Foi a auréola do sábio no tresdôbro da atividade criadora. Tudo dentro da lógica de acontecimentos impulsionados pela disciplina de uma personalidade.
Assim, parece-me, deve ser entendida a biografia de Osvaldo Cruz, sem o enfeito da predestinação, que lhe diminui o valor pessoal, diligente e alado no plano da atuação. Homens e fatos de sua época tiveram, naturalmente, seu papel na conjugação de elementos, uns que ajudaram e outros, de cuja hostilidade a colaboração foi preciosa.
O escôrço biográfico deve projetar o homem, sem esquecer a parte essencial de sua obra, os atributos humanos da personalidade, suas maneiras, predileções, simpatias e virtudes alérgicas, pequenos ridículos e nobres paixões. Tudo isto, é claro, sem a pretensão de recompor a síntese da vida interior.
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A vantagem de ter trabalhado ao lado de Osvaldo Cruz, e a circunstância de vinte anos depois ter dirigido a segunda campanha contra a febre amarela, permitiu a quem escreve estas linhas o conhecimento pessoal de fatos e incidentes incorporados ao patrimônio espiritual da obra do sábio brasileiro.
Em honrosa homenagem, agradecendo a saudação de Rodrigo Otávio Filho, no Rotary Club, e para atalhar comparações murmuradas, disse sôbre o mérito das duas campanhas: "A campanha anterior combateu uma endemia, ao passo que nós enfrentamos um surto epidêmico, modalidade mais séria na expansão das doenças transmissíveis. Entretanto, fôrça é confessar que mais difícil foi sem dúvida a campanha de Osvaldo Cruz, porque atuou da primeira vez, operando em meio hostil, fazendo coisa nova no Brasil. Esta sim foi a verdadeira campanha, a grande cruzada redentora, até porque criou no meio a nova mentalidade, orientando-a no propósito benemérito das práticas sanitárias, inalienáveis num país nôvo que quer crescer e progredir.
Foi Osvaldo Cruz o nosso Messias sanitário, e todos nós com êle aprendemos, dêle lucramos, nos seus grandes exemplos nos abeberamos e ainda hoje dêle nos nutrimos. Não falaria eu em higiene, e ainda menos a praticaria. se não fôsse o seu ensino e a disciplina de sua orientação. A campanha sanitária que ora celebrais ainda ostenta uma vitória de Osvaldo Cruz, porque lhe reflete o espírito de organização, a índole de suas energias, o alto quilate do seu idealismo patriótico, sàbiamente inspirado na valia e oportunidade das medidas sanitárias".
Vale entretanto considerar que a vitória sôbre a febre amarela é a parte menor de sua grande obra. Avultou com a hostilidade, e, como a história se repete, tanto aconteceu com a segunda campanha de má vontade pessoal contra o técnico que a dirigiu.
O grande mérito de Osvaldo foi a fundação da escola de medicina experimental no Brasil; foi o seu privilégio de fazer discípulos e cultores da ciência pura, pela só sugestão de seu exemplo de dedicação e altivez espiritual. E curioso é que êsse homem que revelou tantas qualidades de administrador e chefe de escola, em sua impressionante sobriedade verbal, exercia sôbre discípulos e auxiliares a inapelável autoridade de quem sabia "mandar pedindo e pedia mandando".
Para resgatar o pecado original brasileiro, de falar muito e pouco fazer, Osvaldo Cruz muito fêz e pouco disse dos outros e de si mesmo. Certa vez confessou: "já me arrependi de ter falado, nunca de ter calado". Em sua biblioteca havia uma estatueta, que bem representa o silêncio na execução artística: um frade com o indicador cruzado sôbre os lábios, em expressão de permanente tranqüilidade.
No Brasil, uma existência de trabalho útil, sem bulha nem rumor à sua volta, quase não se compreende. Um predicado pessoal que identifica a exceção. E essa ascendência sugestiva, quase sem palavras, reflete um dos aspectos poéticos de seu destino.