Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo XVIII – Campanha antiamarílica no Pará
Capítulo XVIII – Campanha
antiamarílica no Pará
ORGANIZADA a embaixada sanitária, ao todo oitenta e sete pessoas, partiu do Rio de Janeiro, a 27 de outubro de 1910. Compunha-se dos técnicos, adestrados na campanha carioca, Dr. João Pedroso, subchefe, Drs. J. Pedro de Albuquerque, Leocádio Chaves, Belisário Pena, Maurício de Abreu, Caetano da Rocha Cerqueira, Augusto Serafim da Silva, Abel Tavares de Lacerda, Costa Lima, Emídio de Matos, auxiliares técnicos, e de quatro chefes de turma, vinte capatazes, cinqüenta guardas e um administrador.
Mais sete profissionais foram incluídos em Belém, entre os quais os Drs. Periassu, Aben-Athar e Mac-Dowell, antigos discípulos de Manguinhos.
Datam de 15 de novembro as primeiras notícias a Sales Guerra:
"Aqui estamos residindo no Largo da Pólvora (Praça da República) n.º 16 e 17, e andamos numa vertigem de trabalho.
A febre amarela grossa aqui com desusada intensidade e o tempo não nos chega para atender às notificações. Só ontem os colegas notificaram vinte e um casos! E, dêstes, cinco em um só domicilio! Imagina em que dobadoira vivemos. Passo o dia encarapitado num automóvel a percorrera
cidade, animando as tropas. Os expurgos se fazem em proporções fantásticas e certas zonas há em que só se respira enxôfre. Organizamos todo o serviço dentro de sete dias, contratando para mais de duzentos homens inteiramente inexperientes e tendo de fazer confeccionar todo o material, inclusive o uniforme do pessoal. Foi um verdadeiro tour de force. Mas é preciso despender tôda essa atividade para corresponder às gentilezas do govêrno e do povo, que nos tratam como a semideuses. O primeiro instalou-nos principescamente num excelente palacete no ponto melhore mais nobre da cidade tem-nos facilitado tudo. O povo, de sua parte, nos tem acolhido com a mais cativante delicadeza, sujeitando-se a todos os nossos expurgos e a outras torturantes operações, sempre gentil e amável, prestando-se a ficar no meio da rua até tarde da noite sem alimento. É incrível o grau de infecção da cidade; os turcos, especialmente, têm sido dizimados na atual epidemia!
A temperatura aqui é bem elevada, de modo que transpiramos continua e abundantemente, o que tem contribuído para fazer com que minhas banhas tenham diminuído, conforme suas prescrições, que tôdas, dentro do limite do possível, têm sido atendidas religiosamente. Não tenho tido dores de cabeça, nem nada mais, e se não fôsse um pouco de insônia, estava completamente bem.
Os colegas são uns admiráveis companheiros e o sucesso da campanha com tais elementos é seguro e estou animadíssimo. Não sei quando voltarei porque o serviço ainda apresenta alguns 'ressaltos' e só daqui sairei quando éle estiver bem polido, bem brunido."
Tornado ao Rio de Janeiro, depois de instalado o serviço em Belém, preparou-se para concorrer à exposição de Dresde. Foi à Europa, tomando de lá ao Pará, onde chegou a 8 de junho. Escreveu a 13, nos seguintes têrmos:
"Desde o dia 8 que estamos aqui em Belém, onde encontrei tudo perfeito, em relação ao nosso serviço. Já não temos mais febre amarela sob a forma epidêmica, e estamos há dois meses sem óbito e há um mês sem caso algum. O resultado foi o melhor possível e todos aqui estão compenetrados da realidade dos resultados colhidos. Todo o trabalho cifra-se em evitar a importação de casos de Manaus, onde a moléstia continua a grassar com intensidade. Aqui estamos fazendo o expurgo sistemático dos antigos focos e espero que dentro de mais seis meses estará o mal completamente erradicado."
A 17, reembarcava para a Europa, caminho de Dresde, de onde tornou ao Pará para entregar o serviço e despedir-se com o seu pessoal. Iniciada a campanha a 12 de novembro de 1910, seis meses depois dirigia-se ao governador do Estado, dizendo cumprida a promessa de vencer o surto epidêmico, conforme a seguinte estatística:
Casos óbitos confirmados
"Novembro de 1910 96 49 (depois do dia 12)
Dezembro de 1910 85 37
Janeiro de 1911 27 15
Fevereiro de 1911 13 9
Março de 1911 4 1
Abril de 1911 2 1
Maio de 1911 1 0"
Nessa comunicação, o chefe da campanha advertia ao govêrno que a moléstia não desaparecera, senão sob a forma epidêmica, sendo necessário mais tempo para erradicá-la. O serviço foi mantido, reduzido de intensidade, conforme o plano, e Belém libertou-se da febre amarela.
Cumpre salientar o espírito patriótico do Governador João Coelho, a cuja iniciativa devem seus coestaduanos o grande serviço prestado à sua terra. Sua visão humanitária não poderá ser esquecida em se tratando de governar, auscultando as necessidade mais prementes de um povo - o desvêlo tutelar pela sua saúde.
Julgando o fato com justiça, a bancada paraense na Câmara Federal telegrafou ao Governador João Coelho, exprimindo suas felicitações:
"CONGRATULAMO-NOS COM V. Ex.ª PELO ÊXITO COMPLETO DA CAMPANHA DE PROFILAXIA DA FEBRE AMARELA,
COMPARTILHANDO JÚBILO NOSSA TERRA E ASSOCLANDO-NOS JUSTAS HOMENAGENS DE GRATIDÃO PRESTADAS AO GLORIOSO DR. OSVALDO CRUZ E V. Ex.ª PELA ABENÇOADA INICIATIVA TORNOU BENEMÉRITO. GRATOS COMUNICAÇÃO RECEBIDA, FELICITAMOS PARÁ SAUDANDO V. Ex.ª."