Vida e obra de Oswaldo Cruz

Clementino Fraga · Capítulo 30 de 36

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Vida e obra de Oswaldo Cruz

Capítulo XXVI – Outras distinções

Capítulo XXVI – Outras

 

distinções

 

EM ABRIL de 1914, reuniu-se em Montevidéu uma Conferência Sanitária, que visara adotar novas medidas que atualizassem a Convenção de 1904. Osvaldo Cruz compareceu, como delegado brasileiro, tendo sido aclamado seu presidente. As homenagens que lhe foram prestadas por essa ocasião refletem o prestígio extranacional de seu nome.

Finda a Conferência, partiu para Buenos Aires, onde foi recebido como membro honorário da Academia de Medicina e da Sociedade Argentina de Higiene e Engenharia Sanitária. A 30 de abril regressou ao Brasil, depois de várias homenagens sociais em sua honra.

Ainda em abril do mesmo ano, o govêrno francês conferiu ao grande brasileiro a "Cruz da Legião de Honra".

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Tendo o VII Congresso de Medicina e Cirurgia de Belo Horizonte, reunido em 1912, concedido a Osvaldo uma medalha de ouro, em reconhecimento a seus serviços ao país, foi a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro incumbida de entregar o referido prêmio, o que foi feito em sessão de junho de 1914. Em resposta a Raul de Almeida Magalhães, orador da Sociedade, o homenageado recordou, em rápida mirada, os trabalhos originais do Instituto, nas seguintes palavras:

"São palavras de discípulo querido as que acabais de aplaudir referentes ao velho mestre com as ampliações da juventude, fazendo lembrar o convívio do laboratório dos inesquecíveis tempos que já lá vão...

A idéia que levou o VII Congresso de Belo Horizonte a provocar esta manifestação solene tem alta significação nacional. Semelhante honra não me cabe, a mim, simples trabalhador no instituto que dirijo; mas à plêiade de esforçados e incansáveis pesquisadores que no conjunto compõem a escola de Manguinhos. Endereçaram-na por ser o diretor.

O movimento, que o escol da classe médica brasileira levantou no seio do Congresso de Belo Horizonte, foi consagração formal dos princípios defendidos e propagados pelos biologistas, que conseguiram implantar entre nós a escola de medicina experimental. Êsses ilustres representantes da classe médica brasileira reconheceram e proclamaram o valor das pesquisas de laboratório, para firmar o diagnóstico das moléstias em bases científicas precisas; e deliberaram materializar essa convicção na preciosa jóia que acabo de receber. É êsse o primeiro documento do nosso livramento da tutela científica estrangeira a que nos acostumáramos. Esta tutela precisava acabar. A inauguração das pesquisas de laboratório entre nós lhe pôs têrmo final, e abriu era nova à elucidação das questões obscuras, que o estudo das moléstias dos nossos climas suscita.

Os múltiplos problemas de patologia tropical só se podem resolver de modo peremptório, no local onde os casos se produzem. Nem é razoável contar nos viessem do estrangeiro de toma viagem soluções satisfatórias de tais problemas. De lá só nos podiam vir, como quase sempre vieram, resultados imperfeitos de estudos incompletos, baseados ou em informações falhas ou realizados com material insuficiente, impróprio ou já alterado, ido de longe. Êsses estudos, é sabido, requerem longas e pacientes investigações, material de renovamento fácil para experiências repetidas, em que o resultado de um dia corrige às vêzes os da véspera.

São dignos de menção os resultados definitivos das investigações até agora praticadas, na escola de medicina experimental. No tocante à etiologia, já se verificou a causa do bócio endêmico do Brasil Central, a de micoses diversas, tidas antes, erradamente, pór manifestações de tuberculose, de lues, ou por modalidades de tumores malignos. Estão hoje as micoses científicamente classificadas. O mesmo se deu com as úlceras. O problema da tuberculose recebeu alguns toques de luz. As tinhas, a questão da piedra foram elucidadas em muitos pontos. Foram estudados e classificados muitos transmissores de moléstias, bem assim veiculadores e hospedeiros intermediários. Dos transmissores alguns provados, outros considerados prováveis ou possíveis.

No que respeita à profilaxia, estudos de pesquisadores patrícios dotaram a veterinária de vacinas de grande eficácia, tais como a da peste da mangueira e a do carbúnculo verdadeiro. A helmintologia foi enriquecida de espécies novas; e foram corrigidos erros, que circulavam com foros de verdades nos livros estrangeiros.

Em protozoologia muitas questões foram elucidadas, outras foram resolvidas de todo. Algumas de grande interêsse geral, referentes a protozoários parasitos, como o ciclo evolutivo do halterídio do pombo, o estudo de tripanossomos e de coccídios etc.; outros de interêsse local e entendem com a microfauna brasileira.

Finalmente, a terapêutica recebeu também valiosas contribuições, já no terreno da soroterapia, com a preparação do sôro antidisentérico contra a disenteria indígena, já no que respeita ao conceito da quinina-resistência, do plasmódio do impaludismo. A quimioterapia acaba de descobrir a cura de certas tripanossomíases e a do granuloma venéreo, a cura da leishmaniose pelo emético, descoberta de um dos mais prestimosos pesquisadores de Manguinhos."

Terminando, congratula-se com os presentes pelo espírito de solidariedade da classe médica brasileira, de que aquela imponente cerimônia é documento incontestável, e ao mesmo tempo um estímulo para os incansáveis pesquisadores da escola de medicina experimental. "A êles, pois, e não a mim, os vibrantes aplausos com que me festeja esta distinta assembléia a quem dedicamos êles e eu a nossa perene gratidão." (Muitos e persistentes aplausos.)

Foi êsse discurso uma verdadeira afirmação da maioridade científica da medicina brasileira.

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Nova vez, em 1915, partiu para a Europa em comissão oficial.

Partia desolado com a morte de Gaspar Viana,1 aos trinta anos de idade, jovem sábio e uma das mais belas afirmações da nova família científica brasileira.

 

A tentativa final – combate à saúva

 

Consultado pelo presidente do Estado do Rio de Janeiro sôbre a possibilidade de uma campanha contra a formiga, Osvaldo procurou pessoalmente situar-se no aprêço do problema, estudando os meios de combate para larga aplicação em terras fluminenses. Experimentou primeiro com gases asfixiantes, insuflados pelo aparelho Clayton, verificando que em zonas plantadas a ação seria mais prejudicial à vida vegetal, que a das formigas que a perseguia. Enveredou por caminho mais longo, estudando a vida da formiga, seus hábitos e preferências, aliás a exemplo de Pasteur com o bicho-da-sêda. Observou os formigueiros, abundantes em Manguinhos, e fêz construir em barro um formigueiro artificial, tendo uma parede de vidro para facilitar a observação. Foi quando o acidente ocular, de natureza toxêmica, o impediu de continuar. Quem hoje penetra na sala-museu do Instituto, fechado desde sua morte, lá verá, entre móveis e objetos, essa curiosa recordação de seus últimos dias.