Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo XXV – Na academia brasileira
Capítulo XXV – Na Academia
Brasileira
EM 1911, alguns acadêmicos insistiram, com Osvaldo, para que apresentasse sua candidatura à vaga de Raimundo Correia, na Academia Brasileira, à semelhança de Pasteur, também requestado pela Academia Francesa. Foi eleito por 18 votos, contra 10 que sufragaram ao laureado poeta Emílio de Meneses.
A Academia, que adotara o critério dos expoentes, não podia prescindir da figura do sábio, que tanto elevou o nome do Brasil. Foi eleito na sessão de 11 de maio de 1912, recebido a 26 de junho de 1913.
O discurso de recepção, vale recordar, tanto importa ao conhecimento do homem, nas vantagens culturais e gôsto pela arte, aliás denunciado nos hábitos de vida e em sua correspondência.
Do merecimento do nôvo acadêmico, dirá quem o recebeu, Afrânio Peixoto, nos trechos adiante, colhidos em seu belo
discurso: 1
"Vossa presença aqui nada tem de surpreendente. Consideramos que ocupais agora um dos lugares que vos devem caber, por tôda a parte onde a benemerência seja acatada. Cumprimos conosco um dever de nossa honra, antes de vos agraciarmos com uma distinção. Podereis passar sem nós; a Academia vos requestou. Nisto ela é bem feminina – que pecado feliz! – quando procura possuir tôdas as jóias ao seu alcance. E, se os que a invejam, neste momento, fingem exigir razão prática de sua escolha, ela lhes confia que não conseguiu ainda divulgar diferença essencial entre ciências e letras, a não ser que umas se fazem com as outras, e estas, pela literatura – revelação do ambiente, do povo, da ocasião – incluídas assim no determinismo científico."
Exalta em Osvaldo Cruz seus dons de sensibilidade e de caráter: "Quis a Academia Brasileira fazer esta justiça desde já. Por isso, tão solícita, vos acolheu. Sucedeis a um poeta: até nisso ela marcou o propósito de firmar que se abrem aqui sucessões à inteligência e não à herança, de colaterais ou de descendentes, na semelhança do espírito, corno na ordem civil. Aliás, não seria difícil justificar uma contradição, tão da índole humana, como um sábio é o parente próximo de um poeta. No amor da natureza, e nas ânsias – por seduzi-la ou por compreendê-la, há entre os dois apenas a diversidade dos meios. E não raro êles se encontram: Goethe não será exemplo singular. O vosso discurso é agora revelação nova. Vós sois, porém, como os grandes poetas que não fazem versos: nem sempre êstes têm poesia e ela sobeja na vossa vida e na vossa obra. Sois sentimental: basta ver-vos, para sentir que tendes coração terno e sentidos delicados. Tendes a piedade religiosa que já fugiu do comum dos homens; chegais até ao fetichismo, e às vêzes à superstição, que as mesmas mulheres do nosso tempo vão esquecendo. Enquanto resolveis difícil problema sanitário, na paz do vosso gabinete de trabalho, guarnecido de móveis de gôsto e de quadros escolhidos, de um insensório oriental escapam-se meadas de fumo, que descrevem volutas azuis e arabescos caprichosos, e seduzem pelos sentimentos a um deliqüescente bem-estar, e pela imaginação levam para a distância comprida do sonho; só vos prendeis à realidade se vos dão êsse ambiente de poesia.
Por isso, do vosso instituto, perdido numa restinga de mangue, fizestes palácio encantado, como a fantasia dos califas nunca realizou algum no Oriente; na maravilha da construção arquitetônica não faltam entretanto os mínimos requintes de comodidade e de técnica: êle é o vosso grande retrato, objetivo e espiritual, traçado com a sinceridade dos que pensam realizar apenas urna idéia e refletem nas coisas a própria natureza. É nesse cenário, que preparastes para a vossa família intelectual, os discípulos, que passais os vossos mil e um dias, embevecidos e extáticos, na pesquisa da verdade e na contemplação da ciência.
Todo vós, na aparência externa e manifesta, esquiva e desprendida; bem trajado, mas sem propositado apuro no vestir; o precioso chapéu de palha desabado; os olhos tímidos e profundos, que olham de longe em cintilações; a palavra rara e sugestiva, mandando sem apêlo, como quem aconselha e suplica; o perfil nítido e voluntário; a cabeleira basta, empoada precocemente pelo tempo... vos dão aspecto romântico e aventuroso, que contrasta com as certezas positivas de vossa vida de sábio, provocante como paradoxo vivo. É que sois um poeta desgarrado na ação, provando a plasticidade maravilhosa dêsse plasma do entendimento que nos faz o que queremos e dos outros o que soubermos querer.
É uma das vossas idéias favoritas, e pelas quais tendes triunfado na vida, que a vontade eficaz basta para suprir a tôdas as insuficiências das coisas e dos homens. Não escolheis os vossos comandados pelo favor enganoso do sentimento ou pelo concurso de provas falíveis; quaisquer que êles sejam, e os acasos da vida vo-los deparem, vós os fazeis bons, dedicados, inteligentes e capazes.
Não que o não fôssem, ou não o sejam de antes, mas os faríeis, se até não fôssem. É o método seguro das grandes vontades. Jesus elegeu em quaisquer os seus apóstolos. Improvisou Bonaparte os seus marechais. Tendes um seminário de sábios, que o não eram, não o seriam provàvelmente, mas os fizestes, como vos fizestes, mudando talvez as vossas primeiras inclinações, denunciadas ainda nas aparências da vossa obra e até no aspecto de vossa pessoa.
Êste poder absoluto da vontade, em que acreditais e que exerceis, é a vossa fôrça e dela vos veio a glória. Falta-nos competência para discuti-la, no que tem de técnico: os nossos sapientes vizinhos da Academia de Medicina vos conferiram certamente essa honra, com os seus aplausos. Retemos apenas o traço forte de vontade, com que libertastes a nossa pátria do flagelo que mais de uma centena de milhar de vidas lhe consumira e por mais de meio século a injuriava diante do mundo civilizado; retenho o epíteto que vos conferiu nesse momento histórico o assombro e a admiração de alguém, que vos compreendeu: UM HOMEM...
O sábio estrangeiro que, muitos anos antes dêstes dias felizes, vos ouvia em confissão para se convencer, quando ainda em meio da campanha já possuíeis a certeza do triunfo, só pôde traduzir o seu assombro e a sua admiração por esta palavra, que lhe ouvimos:- 'Osvaldo Cruz... é um homem!'
É o epíteto mais belo, e o mais nobre, que o homem costuma dar ao seu semelhante. Talvez porque raríssimos dêles o merecem.
Tem a ciência, pois, a sua poesia, áspera e forte, poesia violenta de ação, feita também às vêzes de sofrimento, mas de vontade dominadora, outras muitas, diante da qual a da imaginação é frágil e efêmera, como sonho de criança.
Reunis, por conseguinte, todos os méritos que fazem grande o homem, orgulho da sua espécie: a sensibilidade com que no trato íntimo, na família, entre os amigos e os discípulos, colegas e subordinados, sois querido e venerado; a inteligência com que ides abrindo caminhos novos ao conhecimento, educando uma geração de sábios que já honram ao mestre, e serão ufania desta terra; a vontade, finalmente, com que em todos os dias de vossa vida ajuntais serviço nôvo e relevante aos que já nos prestastes, e beneméritos, de salvação pública, por tôda a parte, do Rio de Janeiro aos confins da Amazônia. Não receareis contraste.
A Academia Brasileira, que pretende ser o índice abreviado da cultura nacional, faltaria à sua nobre ambição, se não vos cobiçasse. E se vos tem hoje, não lhe deveis por isso gratidão; não o estranhará a ninguém: é porque tínheis aqui, desde muito, um lugar obrigado."