Vida e obra de Oswaldo Cruz

Clementino Fraga · Capítulo 32 de 36

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Vida e obra de Oswaldo Cruz

Capítulo XXVIII – Moléstia e morte

Capítulo XXVIII – Moléstia e

 

morte

 

DESDE 1903, recresceram os trabalhos de Osvaldo cruz com a direção da Saúde Pública – as campanhas profiláticas contra a febre amarela e a peste, e, paralelamente, a construção do Instituto de Patologia experimental, até então mal instalado numa dependência da Fazenda de Manguinhos.

Na proporção dos encargos, cresciam sempre os obstáculos, a obstinação do contra, como sempre acontece em qualquer tentativa séria, as dificuldades de tôda a ordem num país que tem o privilégio da burocracia, repele a disciplina e as boas normas de administração.

A atividade excepcional de Osvaldo Cruz não conhecia a necessidade de repouso. Em 1907, em meio a tantas canseiras, tomou a responsabilidade de concorrer à Exposição Internacional de Higiene, de Berlim, disputando ao lado de cento e vinte e três representações do mundo científico. A 30 de julho, partia para a Europa e, a 25 de agôsto, tomava o trem de Paris a Berlim. Desta cidade escreveu a Sales Guerra, em 29 de agôsto:

"Estou aqui em verdadeira dobadoura por causa da Exposição. Está tudo atrasado. As comunicações oficiais ainda não foram feitas, e com a minha meia língua ando de lá para cá, convencendo a esta gente que o Brasil está oficialmente representado e que nós precisamos de facilidade para desempenhar nossa missão. Escusado é dizer que esta agitação dum nevropata transtornou-lhe ainda mais os nervos, de modo que já voltou a insônia, e em quinze dias já lá se foram três quilos. Paciência e Vorwarts! como dizem os habitantes desta linda cidade. Na realidade Berlim é um mimo, como cidade, deixando Paris a perder de vista. É uma cidade moderna, com bela arquitetura muito variada, muito diversa daquela uniforme monotonia de Paris, que, não obstante, aprecio muito mais pelo sentimento artístico do povo, que aqui absolutamente não existe.

Adeus, meu querido Amigo, vou à casa do carpinteiro orientá-lo."

 

Estava a vinte dias da inauguração da Exposição. Durante o tempo passado em Berlim, trabalhando continuamente, a ergastenia aumentara sensivelmente, e já então, encenada com insônia, distúrbios digestivos, horror ao ruído, mais nítida e compulsiva a introversão do seu temperamento.

O Dr. Sales Guerra, seu médico e grande amigo, sempre atento aos menores indícios de alteração de sua saúde, assim se exprime:

"O Estado de saúde de Osvaldo Cruz começava a inquietar-me seriamente. Persistiam as fobias, a insônia, êle alimentava-se pessimamente, não digeria e já estava perdendo albumina. Cogitando nas desastrosas conseqüências resultantes de alguma infecção que porventura se enxertasse naquele organismo exausto, e por isso, pouco resistente, deliberei comunicar-lhe os meus receios e lhe fazer sentir a necessidade de cuidados urgentes e persistentes para melhorar o seu estado.

Na entrevista, a que procurei dar certa solenidade, depois de alguns qualificativos exprobatórios: 'suicida', 'doente desobediente' etc., propus fôsse ouvido um professor da Faculdade de Berlim, para que formulasse o tratamento a seguir, visto serem as minhas prescrições observadas apenas pela metade, se tanto. Fingia-me suscetibilizado. Explicou que o conjunto de circunstâncias, do meu conhecimento, embaraçara, realmente, o tratamento, mas, agora, mais desafogado, estava resolvido a cuidar de si. – Que devia fazer? – perguntou.

Convidei-o para fazermos juntos uma cura no sanatório de Valmont, em Montreux, onde êle encontraria tôdas as facilidades para o tratamento dietético, de repouso e do isolamento que lhe convinha, segundo me parecia; tratamento que podia ser modificado pelo Dr. Vidmer, diretor do sanatório, versado em moléstias da nutrição.

Estava disposto a observar o tratamento com rigor, foi sua resposta complacente, mas que o dispensasse de realizá-lo em sanatório, de que tinha horror; seguiria o tratamento em Paris, onde sua exclusiva diversão seria a freqüência mode rad a dos museus. Lá observaria o maior repouso, a dietética e 'saberia isolar-se no meio da multidão'... Objetei-lhe que êsse gênero de isolamento não tinha ainda a sanção da terapêutica. Eu conhecia suficientemente o meu caprichoso doente para não insistir mais."

De Paris, com a data de 19 de outubro de 1907, escreve a Sales Guerra:

 

"Depois de ter percorrido uma longa via-sacra estou instalado no meu antigo quartier dos Champs Elysées: Av. Marignan, 17, num pequeno rez-de-chaussée mais ou menos confortável. Oficialmente estou em Londres: o isolamento já deu bom resultado: durmo perfeitamente. Mas, os desequilíbrios vasomotores aumentaram. Passo os dias com as extremidades regeladas e, segundo tuas acertadas previsões, a dispepsia parece que se está instalando, digiro pessimamente, tenho a língua sempre coberta de saburra, com a impressão dos dentes etc., etc. Enfim, deixemos de lado a carcaça, que não merece que se lhe dê atenção.

As minhas nevralgias têm serenado um pouco. O tratamento vai dando resultado: ontem deitei-me às 8 horas da noite, e, dum sono só, fui até às 8 horas da manhã!!! Doze horas dum dormir sem tréguas. Seguindo, sempre (quando posso), teus preciosos conselhos, tenho comido repetidas vêzes ao dia e pouco de cada vez. O ganso foi substituído por uma omelete e um bife. Vou a um restaurante onde não falo. Sento-me e o garçom, já conhecedor dos hábitos do freguês, traz tudo sem que tenha tido necessidade de despender uma só palavra! Digiro melhor, quase bem e estou começando a sentir-me feliz."

 

Interrompeu o estágio de repouso em Paris, seguindo para o México, como representante do Brasil na Convenção Sanitária, de onde escreveu, a 4 de dezembro:

"Não imaginas em que dobadoura ando eu metido! Em Washington vim saber da existência dum como programa a que eram obrigados os países que concorriam à Convenção do México. Entre as obrigações havia a de apresentação duma memória escrita, dum resumo da mesma, também por escrito, em português e inglês. Imagina dar cumprimento a isso em menos de dez dias: escrever, fazer traduzir, imprimir e apresentar. Foi um horror! Tive de trabalhar noite e dia – e lá se foi tudo quanto lucrei em Paris. Por isso não te tenho escrito, há tanto tempo. – Estamos agora em plenas sessões da Convenção. Já fui até obrigado a discursar! Enfim as coisas vão indo menos mal e o nosso querido Brasil não tem feito figura triste. Agora estou nas prebendas de festas, passeios, comesainas e discurseiras. Enfim, já se passaram dois dias e ainda me faltam três para conquistar minha liberdade. Assim que se encerrar o Congresso seguirei para Londres e daí para Parais, donde pretendo seguir para o Rio, em fins de janeiro, após um pequeno descanso, para lá não me apresentar com o aspecto de 'múmia' que agora tenho."

 

Tornando à Europa, foi primeiro a Londres e de Paris escreveu a 1 de janeiro de 1908:

 

"Aqui em Paris tenho melhorado.já durmo e é quanto me basta. Em Londres, passei pessimamente: contraí uma gripe que me proporcionou alguns dias de febre e me preparou uma tosse renitente e impertinente, que até hoje não me abandonou. Quanto aos nervos, estão êles por tal modo emaranhados, que não tenho mais esperança de desfazer o novêlo: estão como a cabeleira dum doente, após longa permanência no leito. Já não me preocupo mais com êles.

... espero seguir para nosso querido Brasil no fim do presente mês. Não posso mais continuar ausente: as faculdades efetivas hipertrofiaram-se com a viagem ao México, de maneira que estou ansioso por conhecer a nova filha, a nova casa, a sorte de meus livros etc. etc. Depois, recebi telegrama em que se me anuncia ter sido sancionada pelo presidente a organização de Manguinhos, de maneira que preciso estar no Rio para colocar a máquina sôbre os trilhos: fazer a nomeação dos rapazes, etc., etc. Meu grande receio é que se ponham em prática os atentados que, segundo as cartas e os jornais, pretendem perpetrar no Rio à minha chegada. Será para mim motivo de ser levado à cama. Não me posso conformar com tais processos e só a idéia faz-me eriçar os cabelos!"

 

Em comêço de 1911, compromete-se a comparecer à Exposição de Higiene, de Dresde, devendo partir em março.

"Naquela época, diz Sales Guerra, o estado de saúde de Osvaldo Cruz se achava em equilíbrio instável: esclerótico cárdio-renal, hipertenso, albuminúrico, fôra acometido de dois ataques de edema pulmonar, de que ficaram vestígios permanentes na base dos pulmões: quadro sintomático de prognóstico sombrio. Não houve, entretanto, considerações que o persuadissem da necessidade de uma cura de repouso. 'Morrerei mais depressa se ficar inativo', repetia; outras vêzes ouvia a receita e sorria silencioso. Decidira levar a filha primogênita, então de dezessete anos, em sua companhia.

Na véspera da partida. vencendo certa relutância, observei-lhe: 'V. pensou na possibilidade de adoecer durante a viagem e só poder contar com a assistência inexperiente de uma menina, cujo senso deliberativo, em tal conjuntura, certamente se perturbará?'

"Pensei até em coisa pior, respondeu; mas vou arriscar. Desta vez, falta-me coragem de empreender viagem sem uma pessoa da família ao meu lado. Talvez sintoma nôvo do desequilíbrio do vago-simpático, ajuntou sorrindo, como V. costuma dizer...

Na ocasião da partida entreguei à filha um memorando, em sobrescrito fechado, que só se deveria abrir se Osvaldo Cruz adoecesse em caminho. Nesse escrito eu figurava as hipóteses mais prováveis e indicava as prescrições de eficácia já verificada, com exclusão de outras, que, embora indicadas e usualmente empregadas, tinham dado mau resultado."

Estêve em Dresde, tornou ao Pará para inspecionar os serviços de profilaxia agressiva, voltando a Dresde, de onde regressou ao Rio de Janeiro, depois de passar por Berlim, Hamburgo e Paris.

Em 1915, escreve seu dedicado médico a respeito de sua doença:

"De velha data, moléstia grave minava inexoràvelmente o organismo privilegiado de Osvaldo Cruz. Êle próprio, aos trinta e cinco anos, surpreendera sua albuminúria – que nunca mais o largou. Os demais sintomas de esclerose renal foram aparecendo lentamente. Êle nunca se iludiu sôbre o seu caso; encarava-o filosoficamente; não queria parecer doente, dissimulava com arte um ou outro sintoma aparente. Bem poucos sabiam do seu verdadeiro estado de saúde. Em casa todos ignoravam. Quando, a sós, tocávamos nesse ponto e eu procurava atenuar a gravidade do prognóstico, êle sorria dizendo: 'meu pai faleceu do mesmo mal aos quarenta e oito anos, eu irei um pouco antes...' e mudava logo de assunto.

Do tratamento êle observava a dietética com certo rigor, abstinha-se dos alimentos reputados nocivos e não usava sal. Pouco lhe custava a privação, a êle que não era comedor. Às refeições, Osvaldo Cruz só se deixava tentar pela sobremesa, pelos doces e confeitos. Por cima da mesa de estudo, além de um belo busto de Pasteur, de flôres renovadas diàriamente, de cavaletes montados de pequenos letreiros mnemotécnicos, viam-se caixetas de porcelana esmaltada contendo confeitos, alguns perfumados, que êle trincava de vez em quando, no correr do trabalho.

Dois ovos formavam base de sua alimentação diária. Com êles, dizia, contava reparar o grama e meio de albumina, que perdia nas vinte e quatro horas, e deter ou moderar a marcha do esgotamento. Mas êsse alimento azotado só podia ser permitido enquanto o rim fôsse suficiente e a taxa da uréia do sangue não se elevasse.

Pouco depois voltaram as crises de insuficiência renal e se amiudaram. Quando em uma delas o quadro sintomático se complicou de soluço, de contraturas dolorosas, de perturbações do ritmo respiratório etc., sinais de intoxicação do bulbo, declaramos categoricamente que se tornara imperiosa a necessidade de uma temporada de completo repouso e rigoroso regime.

Provocavam essas crises às vêzes contrariedades, de que havia então no Instituto motivos constantes, e trabalhos fatigantes a que se dava, mesmo naquele estado precário de saúde e apesar das recomendações de repouso.

Alarmados, os amigos cogitávamos de afastá-lo do Rio, do Instituto, onde se consumia.

Mais uma vez, alegando pontos obscuros para mim, no conjunto sintomático de sua moléstia, propus conferências com os magnatas da medicina. 'Admira-me, respondia, para mim que não sou clínico está tudo claro demais; deves estar talvez cansado de me aturar, vai para casa descansar e depois volta; tem paciência, leva mais esta pesada cruz ao calvário... Comovente resignação...'

A doença de Osvaldo cruz se tornava cada vez mais grave. Dominavam o sombrio quadro patológico o soluço, a dispnéia, as contraturas dolorosas, a escassez da visão.

O soluço foi o sintoma mais incômodo, mais pertinaz, resistiu às medicações usuais e a mais algumas que improvisamos Carlos Chagas e eu.

Não se tendo conseguido do doente que outros colegas o visitassem, Carlos Chagas, que subia do Rio, tôdas as manhãs, encarregou-se de indagar de profissionais de nomeada na capital, se conheciam algum tratamento eficaz contra aquêle sintoma intolerável, além dos que estávamos empregando sem resultado.

Uma ou outra prescrição aconselhada, foi também inoperante. Persistia, pois, o soluço sem trégua dia e noite, sem que o sono o interrompesse. De manhã, exausto, o pobre doente regurgitava grande quantidade de espuma, formada dos líquidos do estômago, vascolejados pelas sacudiduras que o soluço incessante imprimia ao diafragma, e por intermédio dêste, ao estômago.

Contra um tal sofrimento que persistiu até o coma terminal, só nos faltava lançar mão da eletricidade, da qual pouco se podia esperar, visto persistir a causa do mal – a intoxicação urêmica.

Entendia o doente, sempre lúcido e senhor de si, que aplicações elétricas só no Rio...

Êle bem sabia quão problemático era o resultado daquele tratamento sintomático; mesmo assim, resolveu descer. Dei-lhe a entender que a viagem podia prejudicá-lo.

'Que pode acontecer? indagou. É melhor acabar com isto de uma vez; vou despedir-me do Rio...'

E foi.

A faradização do frênico também não deu resultado, não modificou a situação.

A êsse suplício, juntavam-se, sem todavia lhe alterar o ritmo sinistro, contraturas dolorosas interessando músculos do tronco, do pescoço e, às vêzes, de um dos braços, como cãibras, que forçavam o doente a tomar atitudes ou posturas forçadas.

Osvaldo Cruz se pejava de ser ou de parecer doente, tinha pudor do sofrimento, evitava que os de casa assistissem ao pungente espetáculo daquelas crises, cuja dor êle se esforçava por dissimular, sem o conseguir de todo. Eram as crises precedidas de certa sensação, espécie de aura, que as anunciava, e quando êle as pressentia dava sinal para fazermos evacuar o quarto. Estava assim combinado entre nós, os assistentes que nos revezávamos, Carlos Chagas, o filho, médico de pouco tempo, e eu.

Veraneávamos em Petrópolis, eu e os meus, naquela quadra de tristezas, desde fins de dezembro de 1916. Compungia-me, mas ao mesmo tempo me consolava, passar o dia e boa parte da noite ao lado do amigo, sofredor estóico, que em breve ia perder para sempre. De bom grado o fazia, tanto mais, quanto êle não cessava de repetir que minha presença o confortava.

Naquele transe doloroso, como em tôdas as fases da vida intensa que levou, não cessei de admirar a beleza de suas atitudes, a incomparável resignação no sofrimento... e que sofrimento! À dispnéia constante, com exacerbações ao menor esfôrço, que o edema das bases pulmonares e o soluço mantinham, juntou-se a cegueira quase total, cujo efeito moral é, como se sabe, dos mais deprimentes, situação aflitiva que se prolongou por quarenta dias!"

Pela manhã, a 11 de fevereiro de 1917, Osvaldo Cruz entrou em coma. À noite, às 21 horas, "na ante-sala, conchegados como um grupo de aves tímida ao pressentir uma tormenta, estão Sales Guerra, Chagas, Pedroso, Belisário Pena e membros da família. Conversam sôbre a crueldade da agonia que se estira num longo estado coma toso; rememoram-se benefícios recebidos daquele discreto coração; recapitulam-se todos os valôres da vida prestes a extinguir-se; lamenta-se a grande desgraça que vai abater o Brasil. E como que a resumir todos os conceitos, numa concisão admirável, salientava-se uma frase comovida de Sales Guerra:

— Foi o homem mais perfeito que até hoje tenho conhecido.

Era a voz da Posteridade que se antecipava na sua real e nobre glorificação.

Dez minutos depois expirava Osvaldo Cruz."1

Pela família e amigos do grande morto foram cumpridas as suas "últimas vontades":

 

"Desejo com sinceridade que se não cerque a minha morte dos atavios convencionais com que a sociedade revestiu o ato da nossa retirada da

cena da vida. Pelo respeito que voto ao pensar alheio não quero capitular de ridículos êsses atos: julgo-os para mim completamente dispensáveis e espero que a Família, que tanto quero, se conforme com êsses inofensivos desejos que nasceram da maneira pela qual encaro a morte, fenômeno fisiológico naturalíssimo ao qual nada escapa. Tão geral, tão banal é que julgo absolutamente dispensável frisá-la com cerimônias especiais. Por isso desejaria que se poupasse aos meus a cena da vestimenta do corpo, que bem pode ser envolvido em simples lençol.

Nada de convites ou comunicações para entêrro, nem missa de sétimo dia. Nem luto tampouco. Êste traz-se no coração e não nas roupas."

 

Como viveu, morreu, "superior ao seu tempo e ao seu país", como disse Rui Barbosa, na sessão cívica de 23 de maio de 1917, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.