Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo V – Do Instituto de Manguinhos para a direção da saúde pública
Capítulo V – Do Instituto de
Manguinhos para a direção da
saúde pública
MAL terminara o ano de 1902, em que sobreveio a crise da diretoria do Instituto de Manguinhos, Osvaldo Cruz tinha apenas trinta anos, quando lhe adveio o convite para diretor de Higiene. Vale a pena conhecer as circunstâncias que o projetaram numa época em que só os homens maduros ou idosos chegavam às posições de mando, principalmente na administração. No caso, sobrelevam dois fatos, puramente acidentais: o de um profissional que assistia, como médico, ao ministro de Estado da pasta da Justiça e Negócios Interiores; a nobreza dêsse médico, que, sendo clínico, teve a coragem moral de confessar-se incapaz de exercer um cargo técnico, indicando em seu lugar um profissional jovem, ainda desconhecido da maioria dos de sua classe. O ato do Dr. Egídio de Sales Guerra é dos que afirmam uma individualidade. O fato histórico merece ser conhecido através do depoimento do próprio narrador, em seu livro de reminiscências, publicado em 1940, sob o título Osvaldo Cruz: "Absorvido na reorganização do Instituto, as visitas de Osvaldo Cruz à Policlínica, onde deixara substituto, se tomaram cada vez mais raras, e tinham lugar tarde, à hora em que me não encontrava mais. Certo dia, porém, chegou mais cedo: vinha animado, com certa expressão de contentamento – e logo que o último consulente se retirou, disse com ênfase que lhe não era habitual: 'trago uma notícia que deve alegrar a todos os brasileiro – a dos magníficos resultados da campanha contra a febre amarela em Havana. Confirma-se a doutrina de Finlay, na verdade a mais verossímil, a mais aceitável: o mosquito é, de fato, transmissor da moléstia' e, retirando da pasta, que nunca deixava, uma revista americana, mostrou estísticas detalhadas, reveladoras do rápido decrescimento dos casos de tifo icteróide, desde que os médicos militares instituíram a nova profilaxia – a da destruição sistemática do pernilongo rajado, de suas ninfas e larvas.
'Será um crime, ajuntou Osvaldo Cruz com desusada veemência, não repetirmos aqui, sem demora, os mesmos processos...'
Pensa V., atalhei, que entre nós tais medidas dariam os mesmos resultados? Em Cuba, ajuntei, país recentemente conquistado, impera a lei marcial e os higienistas militares, dispondo de podêres discricionários, de amplos recursos, foram quebrando as resistências, com facilidade; ao passo que em nossa terra domina a indisciplina, o 'não pode'. E dinheiro para matar mosquitos, como obtê-lo?, ajuntei ainda.
Lembre-se de que nesta populosa capital de clima tropical, até agora, não se conseguiu verba para abastecê-la de água suficiente, a fim de que, no verão, se possam satisfazer as mais imperiosas necessidades higiênicas.
'Mas, não é possível, retorquir Oswaldo Cruz, que o govêrno, informado do que se conseguiu em Havana, negue recursos e leis de emergência para uma campanha de resultados seguros, que nos reabilitará aos olhos do mundo.' "
O diálogo prosseguiu: vieram à baila as infamantes hecatombes ocorridas no Rio, de que o caso do Lombardia foi o mais estrodosamente vexatório.
Da minha parte, repeti o retumbante fracasso da tentativa de formação de um núcleo de colonização belga, no Estado do Rio. O Dr. Allard, dispondo de abundantes recursos, fornecidos por capitalistas belgas para a realização da emprêsa, estava em negociações para a compra de vasta área de terreno na Estação de Serraria, quando foi sacrificado pela febre amarela, e com êle, sabe Deus, quantas possibilidades vantajosas se perderam para o Brasil.
Êsse encontro com Osvaldo Cruz teve lugar em fins de novembro de 1902, quando deveres de profissão me proporcionavam freqüentes encontros com o Dr. J. J. Seabra, recentemente nomeado ministro da Justiça e do Interior.
Em janeiro de 1903, disse-me o ministro que o nôvo govêrno ia aplicar com rigor a lei que proíbe acumulações remuneradas e, como conseqüência, ficariam vagos vários cargos, entre êles o de diretor de Higiene. Não lhe ocultei o receio de que fôsse mal acolhida a exoneração do diretor de Saúde em exercício, funcionário de alta capacidade, que se tornara uma tradição no cargo, pelo tempo que o exercia; ponderei mais que seria difícil dar-lhe substituto. Sendo funcionários, como eram, os higienistas mais conhecidos, também acumulariam se fôssem nomeados.
'É decisão assentada, tornou o ministro, é medida de caráter geral que atingirá a quantos acumularem. Havemos de encontrar higienista desincompatibilizado.'
Mais tarde, voltando ao assunto, o Dr. Seabra ofereceu-me o cargo de diretor de Higiene. Agradecendo a distinção, declarei que me não especializara em estudos de higiene, e, demais, não tinha vocação nem jeito para funcionário público.
Sendo o cargo público, como é, a maior aspiração do brasileiro, o primeiro número do seu programa de vida, a minha recusa a tão honrosa proposta não podia deixar de surpreender o ministro.
Quanto a mim pessoalmente, repugnava-me aceitar cargo que, como muitos outros, a meu ver, deve ser exercido por técnicos escolhidos, e eu o não era.
Prosseguindo a conversação, comuniquei ao ministro que a febre amarela acabava de ser extinta em Cuba, onde fôra secular, pelos médicos militares americanos, depois da ocupação da ilha, e quem me referiu essa bela conquista científica, ajuntei, ponderou, muito criteriosamente, que será 'um crime o govêrno brasileiro não repetir aqui, sem demora, a mesma campanha. Importa, pois, que, se prevalecer a idéia da desacumulação, o futuro diretor de Higiene conheça, por miúdo, a tática empregada em Cuba, a fim de nos libertar da negregada peste'.
Mas, haverá em nosso meio quem esteja ao corrente dêsses pormenores e seja capaz de empreender semelhante luta com êxito? - indagou o ministro, vivamente interessado na solução do problema, que seria um título de benemerência para sua administração.
Vencendo certa hesitação, lancei, a mêdo, o nome de Osvaldo Cruz.
O ministro que o ouvia pela primeira vez, admirado, interrogou: "quem é Osvaldo Cruz?"
É o diretor do Instituto de Manguinhos, respondi, consumado bacteriologista, discípulo notável do Instituto Pasteur, de Paris.
Lembrando o seu nome, sem autorização para tanto, sem lhe ter jamais falado a êsse respeito, talvez me esteja adiantando demais, acrescentei; é possível que, convidado a vir exercer funções de diretor de Higiene, cargo tão espinhoso e malsinado, o não aceite e prefira prosseguir seus estudos no Instituto.
De fato naquela quadra de serviço apertado em Manguinhos, pouco nos víamos, Osvaldo Cruz e eu, e não tive oportunidade de lhe comunicar o assunto de minhas recentes conversas com o ministro, nem, tampouco, de aludir à possível vagatura do cargo de diretor de Higiene. Mas, uma vez lembrado o seu nome ao ministro, convinha, por óbvios motivos, observar cautelosa reserva, nada dizer-lhe, até que se decidisse quem seria o nomeado. Assim, se fracassasse a nomeação do meu candidato, quase desconhecido e tão mal apadrinhado, poucos teriam notícia do fraco prestígio do padrinho; caso contrário. o segrêdo e a surprêsa dariam maior realce e elegância à vitória. Todos gostamos de parecer influentes junto aos podêres públicos...
Aprouve ao destino apoiar nossa causa, que era a causa do Brasil. Dias depois de ter lembrado o nome de Osvaldo Cruz, recebi convite do ministro para levar à secretaria 'aquêle meu amigo', de quem talvez já tivesse esquecido o nome.
Emprazei Osvaldo Cruz para nos encontrarmos na Policlínica, por volta das 14 horas, sem dizer o objetivo do encontro. Esta forma de convite lhe não era estanha: eu costumava chamá-lo para colhêr material de exame em casa de doentes e, quando possível, íamos juntos.
Partimos da Policlínica, acompanhados de um colega dermatologista, com quem me entretive, durante o pequeno percurso, acêrca do doente que tratávamos juntos. Separamo-nos dêle na Praça Tiradentes. No vestíbulo do velho casarão, sede do Ministério, Osvaldo Cruz, intrigado, perguntou: 'Que viemos fazer aqui? De que se trata? V. deve saber.'
Respondi, gracejando: 'o ministro encomendou-me um diretor de Higiene capaz de exterminar a febre amarela no Rio... pensei logo em V., no seu entusiasmo pela campanha havanesa, na estatística...'
Surpreendido, um tanto perturbado, deu algumas passadas pelo vestíbulo e disse: 'a honra é grande, mas a responsabilidade é formidável'. Subimos. Satisfazendo a natural curiosidade do ministro de lhe conhecer o programa sanitário e o modo de executá-lo, Osvaldo Cruz declarou que, em primeiro lugar, se empenharia na extinção da febre amarela, repetindo no Rio o mesmo processo empregado em Havana, com brilhante êxito, sem se descuidar de outros problemas sanitários, que estavam reclamando pronta solução.
Delineou o plano de campanha contra a febre amarela, aludiu à indispensável reorganização da repartição para atingir aquêle escopo. Embora colhido de surprêsa, a facilidade com que Osvaldo Cruz expunha pormenores do plano de combate à febre amarela denotava conhecimento profundo e longamente meditado do grave problema.
A perseguição ao mosquito, corno base da profilaxia, despertou natural admiração e algumas apreciações jocosas por parte do ministro.
No despacho seguinte o nome de Osvaldo Cruz foi apresentado ao presidente da República para o cargo de diretor de Saúde Pública. Parece que o chefe do Estado também estranhou se lhe propusesse pessoa tão pouco conhecida para cargo de tal importância, e perguntara: 'Quem é êsse Osvaldo Cruz, Dr. Seabra?'
'Sr. Presidente, eu também não o conheço, respondeu o ministro; um amigo em quem confio, apresentou-mo como higienista consumado, capaz de extinguir a febre amarela, por um nôvo processo americano.'
Compreende-se o interêsse patriótico que devia despertar no ânimo do Presidente Rodrigues Alves a possibilidade da extinção da febre amarela - glória que naturalmente afagava para o seu govêrno. A esperança de alcançá-la deve ter influído, para que sancionasse a investidura de Osvaldo Cruz. Não concorreram menos para essa decisão a fé comunicativa do jovem higienista, a segurança com que garantiu o êxito da campanha, fixando-lhe o prazo de duração apenas em três anos, se o govêrno lhe desse 'fôrça e recursos'.
Suas palavras eram tão sinceras, tão firmes, que persuadiram o presidente a pactuar, a aceitar o temerário compromisso.
A imprensa e o público acolhêram a nomeação de Osvaldo Cruz entre surpreendidos e desapontados. Quase ninguém o conhecia.
Na verdade sua reputação começava apenas a despontar: era vagamente citado em rodas médicas que tiveram notícia do seu estágio no Instituto Pasteur, de Paris; dos trabalhos que lá executou, do laboratório de pesquisas clínicas à Travessa de São Francisco. Sabia-se da existência dêsse gabinete de microscopia e análises biológicas por um pequeno folheto que êle dirigiu 'aos Srs. Médicos', contendo instruções relativas ao modo de colhêr o material para as diversas espécies de análises, advertindo que o diagnóstico e o prognóstico das moléstias, sem o recurso do laboratório, permaneciam muitas vêzes obscursos – advertência necessária naquele tempo em que se cogitava pouco dêsses meios de elucidação. Sabia-se mais que Osvaldo Cruz exercia as funções de diretor do instituto soroterápico de Manguinhos, e que fôra designado para autenticar a peste em Santos; mas, tanto a sua chegada da Europa, a instalação do laboratório, como a sua nomeação para aquêles serviços, se passaram silenciosamente, sem entrevistas com repórteres, sem retrato nas fôlhas. A um parente, autor de pequena e descorada notícia de sua estadia no Instituto Pasteur, fêz reparos de desaprovação."
***
Nos comemorativos de sua formação, vimos que Osvaldo Cruz apurava normas de independência pessoal, conjugando-se com as aquisições crescentes de sua educação técnica. No Instituto Pasteur, conheceu a vida do grande sábio que evangelizava a ciência, com o vigor da crença religiosa; tomou-o como nume de adoração intelectual. A exemplo de Pasteur, consagrara-se ao trabalho científico, animado dêsse Deus interior, que é o entusiasmo no caminho acidentado da perfeição. Desde então, pensara no problema da febre amarela em sua Pátria, procurando estudá-la, sobretudo no aspecto de sua profilaxia. Foi, assim, que não perdeu de vista o descobrimento de Finlay e os trabalhos experimentais que brotaram da fecunda sugestão. Acompanhou com ardor devoto as peripécias das experiências médicas americanas, em Havana, até os resultados que vingaram com a certeza da transmissão culicidiana. Conhecido o vector, o caminho era combatê-lo sem tréguas, o que lhe parecia relativamente fácil, com autoridade e recursos materiais .