Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo XVII – Osvaldo Cruz na Amazônia
Capítulo XVII – Osvaldo Cruz na
Amazônia
EM JUNHO de 1910 anunciava-se que a Companhia Madeira-Mamoré Railway, depois de ensaiar trabalhadores de várias origens regionais, até da China, não podia prosseguir sua emprêsa pelas péssimas condições sanitárias da região. Em tal situação, sua diretoria, associada à Companhia Port of Pará, resolveu contratar os serviços do grande cientista patrício, já consagrado como "o saneador do Rio de Janeiro."
Sofrendo o embate da oposição de sua família e de alguns amigos, Osvaldo Cruz, tendo ouvido a opinião de seu médico e grande amigo, Dr. Sales Guerra, aceitou o convite. Partiu, a 16 do mesmo mês, diretamente para a zona em que estava sendo construída a Madeira-Mamoré, acompanhado do Dr. Belisário Pena, seu antigo auxiliar na Diretoria de Saúde Pública.
A 25, chegou a Belém, conforme as seguintes notícias a Sales Guerra:
"Chegamos hoje ao Pará donde pretendo seguir diretamente para o Madeira e, por isso, serão muito raras as notícias que te poderei dar dessa segunda etapa de nossa jornada.
A viagem tem sido esplêndida e creio que já aumentei de pêso."
Com a data de 11 de julho, nova carta, de Pôrto Velho, ponto inicial da E.F. Madeira-Mamoré, cidade bem tratada do ponto de vista higiênico. verdadeiro oásis naquela região doentia. Dizia a carta:
Aqui chegamos após esplêndida viagem durante a qual não me afastei uma linha de tuas determinações.Já estive estudando um pouco a região. Há aqui uma célebre cidade de Santo Antônio que é um verdadeiro horror do ponto de vista sanitário. Creio que no inferno não há região análoga. Pretendo permanecer aqui uns vinte dias para bem poder formar um juízo sôbre tôdas as questões que me interessam."
A 25 de julho, escrevia Osvaldo, de Candelária, a dois quilômetros de Pôrto Velho, onde se encontravam as instalações sanitárias americanas:
"Com que satisfação recebi tua boa cartinha e como te estou ainda mais grato (se possível) pela solicitude que tens tido com meus filhos doentes. Apesar de distante e longe déles estou inteiramente tranqüilo e esta tranqüilidade, que vale dias de vida, devo-a à tua carinhosa amizade.
Meu caro, isto aqui é de impressionar. A cifra de impaludismo é colosal, mas isto não assusta: só cede a doses cavalares de quinina, mas cede. Mas, o que impressiona, é o beribéri, não pela quantidade, que é relativamente muito pequena, mas pela qualidade. Há ataques quase primitivos de pneumogastrite, e em poucos dias manifestam-se outros sintomas de nevrite do pneumagástrico, trazendo a morte no meio da mais trágica agonia. É um espetáculo tétrico. Tenho assistido aos últimos momentos de alguns dêsses desgraçados e que me deixaram impressão indelével. Mas, desde que haja oportunidade de remoção imediata a morte é evitável, de modo que os médicos daqui, que, seja dito de passagem, são de alta competência e de admirável dedicação, logo nos primeiros sinais fazem a remoção dos afetados, e têm salvo assim muitas vidas. Mas de tôdas as moléstias a que zomba de tudo e de todos é a pneumonia lobar que grassa com intensidade, matando 60% dos atacados que, em regra, são rapazes vigorosos e fortes. As condições aqui para contrair essa moléstia são favorabilíssimas. A umidade é enorme: pela madrugada os telhados gotejam, como após grandes chuvas. As diferenças de temperaturas são colossais, indo a mais de 10 graus. Durante o dia o calor é difícil de se suportar com a temperatura de 33.°,
mas à tarde, cai bruscamente e tem-se uma terrível sensação de frio. Os operários trabalhando durante o dia transpiram abundantemente, e à tardinha, com a queda brusca de temperatura, resfriam-se facilmente.
Creio que ficarei aqui uns dez dias. Tenho trabalhado bastante. Faço diàriamente autópsias. Percorri tôda a linha e tenho meu juízo perfeitamente baseado e estou com os elementos necessários para aconselhar algumas medidas que se me afiguram bastante profícuas.
Agradeço-te mais uma vez os cuidados dispensados aos meus e peço-te que apresentes meus melhores respeitos à Comadre.
O Belisário envia-te cumprimentos. Tem-me cercado de todos os cuidados que lhe transmitiste."
Osvaldo Cruz instalou-se no Hospital de Candelária, estabelecimento de emergência, mas bem provido pelos médicos americanos que ali trabalhavam. Estudou as doenças locais e elaborou o plano de combate.
Em Pôrto Velho, um jornal The Porto Velho, marconigram, publicou suas impressões:
"Foi da mais agradável surprêsa a impressão que tive ao chegar em Pôrto Velho. Nunca tinha cogitado, que no recesso das florestas amazônicas fôsse encontrar um núcleo civilizado e civilizante, como é o centro de partida da nova via férrea: boas e confortáveis casas de habitação, abastecimento de água, canalização de esgotos, luz elétrica, fábrica de gêlo, lavandaria a vapor, telégrafo sem fio, um esplêndido hospital e o Marconigrama.
Quem vê Pôrto Velho, prevê, para breve, Guajará-Mirim. Porque não há dificuldades nem resistências naturais, que possam fazer face a quem encarou o problema da E.F. Madeira-Mamoré com a agudeza de vista, com que acaba de o ser feito agora. A competência, a energia, a inteligência e atividade dos dirigentes, aliados aos recursos técnicos mais modernos e eficazes deram notável impulso aos trabalhos e souberam acautelar a vida do pessoal com a indispensável tutela médica proficiente e carinhosa em região difícil como a que está sendo atravessada.
Outra surprêsa – essa ainda maior – me estava reservada e é a que respeita às moléstias da região. Ouvia falar em formas fulminantes de doenças, que matavam em instantes a mor parte do pessoal em pleno trabalho. Eram tôdas as pestes conhecidas e outras ainda indeterminadas que tinham escolhido a zona da Madeira-Mamoré, para assentar seus arraiais.
E, a não ser algumas moléstias outras em depressa número, entre elas o beribéri, que atacou apenas cinco por cento de todo o pessoal e para a qual a remoção da zona é a cura quase certa, só vim a encontrar a malária. Mas a malária ou impaludismo está na classe das moléstias que só tem quem quer, isto é, contra ela conhecem-se hoje medidas seguras bem estabelecidas e que postas em prática com rigor, preservam com certeza as pessoas de suas investidas. E se na Madeira-Mamoré ainda há malária, é porque ainda há recalcitrantes, teimosos ou surdos, que não querem ouvir os conselhos dos médicos que são repetidos a tôdas as pessoas e a todos os instantes: tomar diàriamente a quinina e dormir sempre sob mosquiteiros. É preciso que as duas medidas profiláticas sejam postas em prática conjuntamente.
O Marconigrama já se tornou eco das palavras do simpático e proficiente Dr. Lovelace: vida sem quinina é morte.' Deve continuar nessa, campanha humanitária, abrindo os olhos àqueles que não querem ver, mostrando-lhes a inocuidade do uso da quinina e as vantagens que ela trará, impedindo, que, 80 a 90% do pessoal adoeçam! Mas o uso da primeira deve ser aliada sempre ao emprêgo de mosquiteiro, mesmo que aparentemente não haja mosquitos nas zonas de trabalho. O mosquiteiro deverá ser usado de preferência logo após o pôr do sol, havendo menos perigo de ser picado pelos mosquitos alta noite do que no crepúsculo, que é a hora por êles preferida. Basta às vezes um só mosquito para dar a moléstia.
Por isso, ao sair de Pôrto Velho, extremamente bem impressionado pelo que vi e observei e grato à fidalga hospitalidade e inúmeras gentilezas recebidas, deixo, consignadas aqui, como última recordação, e remate final as palavras já velhas, que todos estão habituados a ouvir dos lábios dos médicos de Candelária, que tanto se esforçam pelo bem-estar e pela conservação da saúde e vida do pessoal e que faço minhas: Só terá saúde e conservará a vida quem usar da quinina e mosquiteiro, ou mais sintéticamente:
'Quinina plus mosquiteiro igual a O Malária.'
Candelária, agôsto de 1910.
as.) Gonçalves Cruz"
A carta de 8 de agôsto, anunciando o regresso, dizia:
"Escrevo-te de volta aos pátrios lares, tendo terminado, de modo que julgo proveitoso, a missão de que fui incumbido. Consegui modificar os sistemas usados, com inteira aquiescência dos empreiteiros, que se mostraram muito reconhecidos, assim como os médicos, pela nova orientação que se inicia e que terá ainda de ser, dilatada e completada após a exposição que já tenho feita para o C. Sampaio.
O que toma inóspitas as regiões do Madeira é o impaludismo. As outras moléstias, se bem que gravíssimas, são em, cifra relativamente diminuta, inclusive o beribéri, que só ataca 5%, do pessoal e mata 1%. Mas o impaludismo é de gravidade extrema e ataca 80 a 90% do pessoal. Os acessos perniciosos são comuníssimos, sendo muito freqüentes, os acessos álgidos, com 35.°, 35.°5 graus de temperatura. O impaludismo daqui é extremamente resistente à quinina. Só se podem influenciar os casos comuns com 3 gramas de quinina (cloridrato) aplicados em injeção intramuscular. A dose mínima nos acessos periódicos é de 5 gramas diários, sem o que nada se consegue. A dose de 60 centigramas diários de quinina, como preventivo, não tem ação. É preciso elevar essa dose a 75 centigramas e 1 grama nas 24 horas. Aqui as doses terapêuticas de quinina estão ombreando com as doses tóxicas do medicamento.
Como já deves ter tido notícia pelos jornais (que souberam a coisa antes que eu dela tivesse certeza), vou dirigir a campanha contra a febre amarela no Pará. Chegando ao Rio contratarei o pessoal e voltarei com êle ao Pará onde instalarei o serviço, voltando logo para aí, no fim duns vinte dias a um mês. E de quando em vez darei uma vista de olhos no que se estiver fazendo. Para o serviço gastarei 200.000$000 por mês e avaliei a despesa total em dois mil contos. Quanto às vantagens materiais que terei ainda não cogitei delas e deixei-as ao alvitre do governador. Talvez agora êle me.faça referências a êsse ponto."
De passagem por Belém, ida e volta, entendeu-se com o govêrno, que o convidara para libertar o Pará da febre amarela. Recebido sempre com deferências especiais pelo govêrno, classe médica, imprensa e elite social, Osvaldo Cruz em carta a um amigo, referindo-se a tais demonstrações, dizia: "estão me deitando a perder, preciso partir quanto antes, senão me destreino; nós da Saúde Pública não estamos habituados a tais finezas..."
Tornou ao Rio, onde ia empreitar nova tarefa de amor a sua pátria.
A região do Madeira, na parte encachoeirada do rio, numa extensão de cêrca de 386 quilômetros, a navegação é impraticável, sendo necessário substituí-la pela viação férrea.
Na época da cheia, o rio transborda e alaga vastas zonas convizinhas, que se tornam imensos criadouros de mosquitos transmissores do impaludismo, principalmente as "celias" (C. albimana e C. argirotarsis).
Da constituição mórbida local, além do impaludismo (terçã benigna e forma tropical ou terçã maligna), fazem parte a pneumonia (50 a 60%), o beribéri, a disenteria, a ancilostomose, as febres eruptivas. Para carregar o quadro tétrico – o alcoolismo e a subalimentação.
Só a profilaxia química e a defesa mecânica era possível, sendo impraticável tratar as extensões alagadas.
A dose de 60 centigramas diários de um sal de quinina, como profilático, ficava inoperante. As pesquisas de Osvaldo Cruz determinaram então a dose útil, eficaz, que devia ser elevada a 75 centigramas. Concluindo seu relatório, aconselha Osvaldo Cruz as seguintes providências:
1. "O chefe do serviço sanitário deverá ter a mais absoluta
autonomia e exercer sua ação, relativamente à profilaxia, sôbre todo o pessoal superior e subalterno sem exceção de pessoa.
2. O pessoal engajado sê-lo-á de preferência nas zonas não
palustres, e será submetido a cuidadoso exame em Itacoatiara, nos pontões, onde serão tomadas as precauções para evitar o contágio pelo impaludismo que grassa em terra.
3. Os infectados receberão desde logo tratamento intensivo pela
quinina; sendo rejeitados os caquéticos, pouco capazes de produzir trabalho útil. Os sãos começarão a receber, diàriamente, 30 centigramas de cloridrato de quinina. Êste regime será continuado durante a viagem.
4. Chegado a Pôrto Velho, o pessoal são passará a usar 75
centigramas de sal de quinina e o infectado sofrerá nôvo exame. Se êste fôr negativo, êle irá para o trabalho sob um
regime próprio. Se fôr positivo será recolhido ao hospital, onde continuará o tratamento se houver conveniência, se não será rejeitado.
5. O pessoal que seguir para os acampamentos receberá um
cartão com o nome, número da chapa etc., fornecido pelo médico. Êste cartão será branco para os sãos e azul para os infectados tratados.
6. Para cada cinqüenta trabalhadores haverá um distribuidor de
quinina. Êste distribuirá diàriamente a cada trabalhador são – 75 centigramas de quinina. os antigos infectados receberão à hora do jantar mais 75 centigramas.
7. O distribuidor de quinina entregará diàriarnente a cada operário,
após a ingestão verificada da quinina, um bilhete com a data e assinatura. Somente à vista dêsses bilhetes é que será feito o pagamento ao pessoal. descontando-lhes tantos dias quantos os em que não tomou quinina.
8. O distribuidor de quinina que, durante o mês, apresentar turmas
sem doentes de impaludismo terá uma gratificação igual à metade dos vencimentos.
9. O operário que passar três meses sem ter acesso febril por
impaludismo terá uma gratificação correspondente a 1/5 dos vencimentos.
10. Se se verificar que o distribuidor de quinina fornece os vales
sem ter feito com que o operário ingira a quínina, será despedido, não tendo direito às passagens da ida e volta que serão concedidas àqueles que cumprirem à risca o determinado.
11. A Companhia construirá em todos os acampamentos grandes
galpões telados para cem homens. Êstes galpões ficarão sob a fiscalização dos quinizadores das respectivas turmas. Logo após o pôr do sol, todo o pessoal será recolhido a êsses galpões e aí encerrado. Serão teladas tôdas as habitações dos operários em Pôrto Velho, Candelária e as da linha.
12. Para tornar efetiva essa obrigação cada quinizador disporá da
necessária fôrça.
13. Nas turmas de conserva estendidas provisôriamente sôbre a
linha, e nas de exploração o pessoal será obrigado a se
recolher ao crepúsculo às rêdes com mosquiteiros, sob pena de lhes ser descontados tantos dias quantos forem os que se verificar não terem usado da proteção. As casas de turmas definitivas e as estações serão à prova de mosquitos.
14. Os quinizadores ficarão sob a fiscalização dos médicos dos
acampamentos, que deverão examinar três vêzes por semana todo o pessoal, recolhendo sangue de todos os suspeitos. Os médicos verificarão se as instalações de proteção se conservam úteis . Se algum trabalhador fôr atacado de malária será energicamente tratado e só sairá do hospital quando estiver microscàpicamente curado (ausência de gametos).
15. Todos os acampamentos deverão ser providos de água fervida
e, ao partir para o trabalho, cada turma deverá levar um garrafão dessa água (profilaxia da disenteria).
16. Providências serão tomadas para que os trabalhadores usem
calçados e não defequem senão em determinados lugares, onde se tomarão medidas para destruição das larvas de ancilóstomos (profilaxia da ancilostomíase).
17. Urgem as medidas para saneamento regional da vila de Santo
Antônio, um dos maiores focos da região.
18. Dessecamento dos pântanos na vizinhança das habitações
definitivas. Impedir a venda de bebidas alcoólicas.
19. O serviço sanitário fica sob a direção do atual chefe do serviço
sanitário, que se encarregará só da profilaxia e terá, do ponto de vista sanitário, podêres absolutos, podendo exigir da Companhia a dispensa e substituição de funcionários de qualquer categoria que se oponham, impeçam ou não se queiram sujeitar às determinações prescritas.
20. O govêrno terá um representante junto a êsse serviço, cuja
missão será auxiliar, fiscalizar e apoiar as medidas postas em prática pela emprêsa."