Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo XXVII – A prefeitura de Petrópolis
Capítulo XXVII – A prefeitura de
Petrópolis
CORRIA o ano de 1916 e as condições de saúde de Osvaldo Cruz dia a dia se agravavam. Pensou sua família, com o consenso de íntimos amigos, em afastá-lo da direção do Instituto, em tudo trabalhosa e salteada de pequenos incidentes, que, ainda assim, feriam sua aguda sensibilidade. Acabava de ser criada a Prefeitura de Petrópolis, sendo o cargo de nomeação do presidente do Estado, que, ciente dêsse desejo, imediatamente o nomeou em agôsto do mesmo ano. A 17 de agôsto, quase clandestinamente assumia o cargo, avisando apenas ao chefe interino em exercício, ao qual pedia, "como favor especialíssimo", que lhe transmitisse as respectivas funções "na mais absoluta intimidade e sem a menor solenidade".
A 18, apresentava seu programa de administração, com os seguintes itens:
Encampação do Banco Construtor.
Encampação da Fazenda Imperial e resgate dos foros pelos proprietários.
Impôsto (2$000 por metro) sôbre terrenos devolutos.
Desenhista de jardins.
Preparo de gás pobre com lixo e produção de energia elétrica para os britadores e oficinas.
Aquisição e manutenção de condução para o Prefeito e Inspetor de Obras.
Rêde de esgotos.
Substituição na Prefeitura das carroças de tração animal por automóveis.
Regulamentação e fiscalização da venda do leite. Organização do serviço sanitário.
Barragem dos rios e revestimento do álveo com seção ovóide. Formação de quedas d'água em degraus. Formação dum lago à feição do Bois em Serpentina. Construção de um edifício de Diversões.
Bondes – linha circular Castelania-Alto da Serra. Rosarium.
Plantio de flôres nas margens dos rios.
Organização do ensino primário.
Fiscalização do ensino de português nas escolas estrangeiras. Museu Histórico do Império e Jardim Botânico, no Palácio Imperial.
Parque para ginástica das escolas e educação física obrigatória para todos os colégios.
Caminho para Pedra-Açu.
Calçamento de macadame asfaltado e interlinha dos bondes e paralelepípedos.
Estatística da população e índice de analfabetismo. Revisão do impôsto predial.
Repressão da mendicância e criação de asilos para mendigos. Matadouro e laboratório.
Bondes elétricos para o Rio ligando-se à Light.
Como se vê, Osvaldo cruz não era capaz de guardar um cargo
como simples sinecura: 1
"Sem embargo do grave estado de caquexia cárdio-renal, o grande perdulário, à maneira do môço à la cervelle d'or, no seu extremado amor à Pátria, aceita ainda o convite do govêrno fluminense para assumir a direção da Prefeitura de Petrópolis. Por um milagre de energia moral, o que lhe falta em vigor físico é sobejamente compensado pela fortaleza de espírito. Imediatamente, toma como secretário o Dr. J. Pedroso, seu antigo companheiro na Saúde Pública; delineia e inicia em parte um plano de remodelação e embelezamento da pitoresca cidade; estabelece normas de economia e moralidade administrativas, expungindo a praga da politicagem, atuando com a mesma clarividência, o mesmo ânimo do lutador de outros tempos.
Tanto bastou para que certos elementos de um partido local, particularmente vulnerado por tais medidas, desenvolvessem contra o Prefeito a mais desumana das campanhas oposicionistas que jamais se pôde conceber. Para isso, mercê da chamada liberdade de imprensa, que desgraçadamente prospera à sombra das nossas leis, o referido grupinho monta um jornaleco e todos os dias se deleita a conspurcar os louros de um sábio benemérito.
A despeito de tudo, o administrador caminha desassombradamente e idealiza um programa que por nossa desdita desapareceu com a mente que o arquitetou, mas que deveria ser uma espécie de código municipal, um perfeito paradigma para tôdas as edilidades nacionais e até estrangeiras."
Por fim, o gigante tomba no leito para não mais se erguer. Não obstante, ainda lhe restam as derradeiras energias para cumprir os deveres do seu cargo, e lá lhe vai ter às mãos, todos os dias, o expediente que êle assina graças a um esfôrço que a qualquer outro seria impossível. Mas como tudo tem um limite, e o afeto sempre foi uma das poucas armas eficazes contra aquêle espírito intransigente, conseguem os infatigáveis médicos que o doente passe o exercício ao substituto legal."
Agora, no testemunho de Ezequiel Dias, seu discípulo fiel e dos mais queridos, um aspecto pungente de maldade anônima, que projeta em tôda hediondez o flagrante das contradições humanas:
"Num tranqüilo recanto da Rua Montecaseros, com frente para a colina onde se acha o cemitério, demora um solar antigo situado num jardim florido de hortênsias. Um lustre encarnado, ao alto da varanda cingida de trepadeiras rubras, ilumina suavemente as escadarias. No salão de visitas, também vermelho, tudo é silêncio e escuridão. Na sala de jantar algumas pessoas cabisbaixas falam à surdina, pisando na ponta dos pés. Ao lado, num quarto, à luz mortiça de um abajur, jaz estendido no leito o vulto ofegante de um homem.
Súbito, ao longe reboa um alarido confuso. O doente entreabre os olhos, ergue a cabeça como quem procura distinguir melhor a algazarra. O cansaço, porém, fá-lo tornar à primitiva posição. Mas, a atoarda recomeça mais forte, chegando distintamente ao aposento, apesar dos esforços da família, que corre a fechar tôdas as portas e janelas, com o intuito de sustar aquela invasão de sons estridentes e desordenados. O enfêrmo, todavia, mais uma vez alça a fronte, aguça o ouvido e indaga:
— Que barulhoe é êsse?
E logo um coração amigo informa-lhe sorrindo:
— É o carnaval: um cordão que passa a tocar o Zé-Pereira.
O mestre retruca apenas com um ar de incredulidade.
Nesse mesmo momento, sobe num crescendo a estranha música de pancadaria. Escutam-se perfeitamente grosseiros estrídulos que repercutem com veemência. O doente reprime a custo a dispnéia e, num olhar em que revive por instantes a chama de outrora, diz aos circunstantes:
— É uma manifestação...
Era-o, de fato; mas as latas de querosene e gritos da ralé, que num ofertório de gentilezas próprias de hienas excitadas vinha trazer ao ex-Prefeito o testemunho do seu regozijo pela provável restituição do govêrno municipal à camarilha que o explorava. Era a política de campanário em tôda a sua hediondez macabra, num esganiçar de abutre impaciente. Era o tropel dos estercorários que avançavam pressurosos com o adubo moral para a vivificação da Árvore da Imortalidade que em breve havia de emergir da sepultura de um herói."
Desta passagem sombria de incompreensão humana, hoje tristemente histórica, paradoxalmente, uma luz se desprende e aponta às gerações o exemplo de uma vida que não temeu a vida, não esmoreceu ante os desenganos, e, sem intermitências, serviu à Pátria no misticismo da devoção.