Vida e obra de Oswaldo Cruz

Clementino Fraga · Capítulo 27 de 36

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Vida e obra de Oswaldo Cruz

Capítulo XXIII – Nova homenagem

Capítulo XXIII – Nova

 

homenagem

 

EM 1910, regressando de sua viagem à Amazônia. a convite da Companhia Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, seus amigos e admiradores, já então verdadeira legião, prepararam-lhe uma recepção que fugisse aos moldes habituais de banquetes e almoços, já então triviais e inexpressivos. Ofereceram-lhe uma recepção com boa música no Palácio Monroe. Foi especialmente convidado o Conselheiro Rodrigues Alves, que compareceu e estêve sempre ao lado de seu dileto auxiliar de govêrno. Em nome da comissão organizadora falou Medeiros e Albuquerque, cujas belas palavras aqui transcrevemos, com prazer:

"Ex.mo Sr. Dr. Osvaldo Cruz. – Quando ontem à noite, causando-me a mais estranha das surprêsas, os organizadores desta esplêndida festa me vieram dar a incumbência de ser o seu intérprete, a primeira idéia que tive foi naturalmente a de recusar-me. Devia caber a palavra a um homem de ciência, a um homem que soubesse falar do vosso merecimento com a competência de um profissional.

Mas os que me convidaram souberam achar um recurso capcioso para me conquistar a adesão. Subornaram-me pela vaidade. Lembraram-me que houve um momento em que, não vos conhecendo de maneira alguma, eu fui dos primeiros a aplaudir o vosso esfôrço em prol da reforma dos serviços de higiene; cheguei, durante algum tempo, a ser o único na imprensa desta capital a ousar defender aquêle vosso negregado crime: o Código de Torturas...

E foi um pouco por isso que êles se lembraram de mim. Demais é bem certo que não se precisa ser homem de ciência para reconhecer a importância da vossa obra. Os homens de ciência não vos devem maior gratidão do que os mais rudes e incultos moradores desta cidade.

Nem mesmo é possível restringir a uma circunscrição territorial brasileira a gratidão que mereceis. Ainda que não aceiteis as incumbências que vos vão ser dadas em alguns Estados da União para nêles combater a febre amarela, até mesmo êsses Estados já vos devem gratidão pelo que fizestes aqui. Porque extinguindo nesta cidade aquela moléstia, vós livrastes o Brasil inteiro da pecha de insalubridade que o apoucava.

Bem ou mal, para uso de estranhos, a capital é a representação do país. E se todos os habitantes dêle vos devem gratidão por isso, os homens de ciência vo-la devem ainda por outro motivo: pela vossa indefectível probidade científica. A probidade que tem o Código Penal de guardá-la e a ameaçar os que dela desgarram com os seus castigos é mais fácil de ser achada do que a probidade científica, que nenhum código defende. Chegar pelo estudo a uma convicção calma e refletida, sustentar essa convicção de um modo inquebrantável, resistir às dúvidas, às ironias, aos gracejos, e acabar por impô-la – é uma virtude superior. Foi a virtude de Colombo, que, se não contava achar a América no seu caminho, estava pelo menos certo da esfericidade da Terra. Foi a vossa virtude, quando convencido da doutrina da transmissão da febre amarela pelos mosquitos, não duvidastes pô-la à prova, com tôda a energia, exigindo do govêrno as medidas necessárias para isso.

Era natural a oposição. A idéia de moléstia sempre foi no espírito popular uma idéia misteriosa e um pouco sobrenatural. Em alguns povos, havia deuses especiais que incarnavam certas moléstias. Em outros, a moléstia era pelo menos um pavoroso castigo divino. Depois, a medicina por muito tempo falou vagamente em 'miasmas', em 'princípios mórbidos' – coisas vagas e intangíveis. Veio a idéia de micróbio: mas, essa idéia, que aliás custou a vencer, tinha ainda para o grande público o prestígio da invisibilidade. Só os microscópios o devassavam. Chegar, porém, ao mosquito era quase afrontoso ao bom senso popular. Porque o mosquito é bastante grande para ser visto e insigniflcantemente pequeno para parecer que mereça ser temido: o mosquito é um animal ridículo.

Criar todo um conjunto de medidas rigorosas só pelo temor do mosquito, parecia um desafio ao bom senso – o grosso bom senso popular. Daí todos os remoques que vos crivaram quando vos fizestes o bravo marechal dos mata-mosquitos. Era preciso, através da campanha que tivestes de suportar, aquela máscula e serena virtude que se chama a probidade científica: seguro de uma verdade, aceitar para a fazer vencer ainda os piores ataques. À vossa firmeza se devem simultâneamente os resultados práticos, que todos hoje reconhecem, o resultado teórico de mais uma prova da doutrina que defendeis.

E, por isso, neste momento, há em tôrno de vós os que vos aplaudem pelos benefícios práticos que fizestes a todo o Brasil e há os que vos aplaudem pelo vosso valor científico. O gôverno seguinte vos fêz, porém, o presente que mais vos há de ter sido grato: o de dar o vosso nome ao Instituto que dirigis, e que, segundo dizem os competentes, sem nenhum exagêro de patriotada, não tem igual no resto do mundo. O preito foi merecido.

Merecido é também o que vos rendemos hoje e que se achou um mau intérprete para vos dizer quanto êle é grande e sincero, mesmo assim patenteará a sua grandeza e sinceridade, porque é o do escol de um povo que vos deve benefícios inestimáveis. porque é o da fina flor dos nossos homens de ciência, que proclama o vosso alto valor.

É essa homenagem que traduz a festa que agora vos cerca. E porque os organizadores dela pensaram que seria justo associar-lhe o nome de vossa admirável companheira de vida, quiseram que a lembrança desta reunião ficasse, por assim dizer, materializada em um pequeno mimo, que me incumbiram de entregar-lhe. Certo, há uma desproporção formidável entre a bagatela que encerra êste escrínio e o esplendor desta reunião. Se não fôsse o receio de sacrificar as comparações poéticas a uma comparação de maior côr local, tratando-se de um bacteriologista, eu lhe lembraria que em uma dose infinitesimal de certas toxinas há às vêzes um princípio ativíssimo, capaz de fulminar os sêres mais robustos.

A comparação não é poética, mas ela serve bem para lembrar que o valor das coisas não se mede pelo seu tamanho. Ela serve para mostrar que a proporção não é uma regra na natureza. Uma bagatela pode ter associado um mundo de recordações, de idéias, de sentimentos. O infinitamente grande pode ser evocado pelo infinitamente pequeno.

Assim, neste quase nada vai a homenagem da imensa e respeitosa admiração de vossos amigos pela companheira, que vos enche a vida de carinho e vos permite a tranqüilidade precisa de espírito, para cumprirdes a vossa luminosa missão. Quando esta solenidade acabar e todos nós tivermos dispersado e não restar nestas salas escuras nem uma pessoa. nem uma luz, nem uma flor – tudo isso estará concentrado misteriosamente nesta pequena jóia."