Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo XIX – Trabalho e afirmação
Capítulo XIX – Trabalho e
afirmação
Coube a Osvaldo Cruz, a ventura extraordinária de ser um dêsses raros eleitos, um dêsses levitas do sacerdórcio consagrado à diminuição dos padecimentos humanos. Essas criaturas amadas e benditas, como êle, devem os milagres da sua obra à ação dêsse deus Interior, o do entusiasmo, bela palavra, "uma das mais belas dos nossos idiomas", mas infinitamente menos bela do que o sentimento que traduz, a paixão das grandes inspirações, das grandes abnegações, o heroísmo do trabalho, da justiça e da verdade.
Rui Barbosa
NO BRASIL, a medicina experimental repontou na Bahia, com os estudos de Wucherer, sôbre filariose, e de Silva Lima sôbre o ainhum. Pelas alturas de 1863, a curiosidade profissional, ainda desarmada, repara e se concentra na observação de aspectos clínicos das moléstias mais comuns da região. Datam dêsse tempo os trabalhos sôbre beribéri. A atividade de um núcleo de estudiosos exigiu a criação de uma revista de medicina – a Gazeta Médica da Bahia, a mais antiga de suas congêneres brasileiras. No Rio de Janeiro, entre os trabalhos conhecidos e depois verificados, tiveram maior relêvo as pesquisas do Prof. Pedro Severiano de Magalhães.
Foram êstes, principalmente, os precursores da fundação da escola de medicina experimental, parte ressaliente da obra magnífica de Osvaldo Cruz. Dianteira a observação clínica, assim foi também, em visão pressaga, em relação à obra de Pasteur. Revela a história da medicina que "a epopéia pastoriana teve num clínico humilde o seu precursor de gênio, cuja obra esquecida, não há muito, Chauffard relembrava na Academia de Medicina de Paris. O batedor de Pasteur foi Jean Hameau, médico modesto, sumido numa aldeia da França. Em 1843, cêrca de trinta anos antes de Pasteur, Hameau enviou à Academia uma memória sôbre os vírus, em que os distinguia dos venenos e peçonhas, afirmando a sua natureza viva. "Em tôda a parte a vida está na vida, e a vida devora a vida", disse êle. Como condições imanentes no vírus, apontava o contágio, a incubação e a regeneração. E acrescentou: "tôdas as causas produtoras das moléstias, nas quais se pode reconhecer essas três qualidades, são vírus." Suas pesquisas clínicas chegaram a conclusões terapêuticas, hoje vitoriosas, com a vacinoterapia: "dispomos, disse ainda, de quatro meios de ação contra os vírus - impedi-los de chegarem até nós; substituir o vírus perigoso por outro que o seja menos; neutralizá-los e sustentar o organismo na defesa contra seus efeitos." Para Hameau, o organismo era o foco de vírus, e, de referência à cólera, disse convicto: "os doentes são outros tantos laboratórios onde se recompõe e perpetua o flagelo." Na colisão do sentimento, comenta Chauffard, entre comovido e deslumbrado: "que admiráveis antecipações, que vistas proféticas de um grande pensador
solitário!"1
Três decênios andados, em 1874, Pasteur proporciona ao mundo sábio o conhecimento de sua obra formidável, capaz de reformar a ciência muitas vêzes secular. De seu destino de glória recortava a mortalha dos conhecimentos clássicos, produzindo a maior crise científica que já viram os círculos eternos da humanidade!
Em 1885, Bergeron, presidente da Academia de Medicina de Paris, felicitando a Pasteur pela notável memória sôbre o tratamento preventivo da raiva, disse comovido: "a comunicação que acabamos de ouvir permite ao mundo sábio, senão a tôda a humanidade, conceber novas e incomparáveis esperanças." De então, o impulso vigoroso que assinalou o criador de gênio e renovou a medicina, marcando duas fases históricas: antes e depois de Pasteur. Foi primeiro a observação clínica, que tantos séculos respeitaram; veio depois a cruzada experimental, que, adentro dos laboratórios, elabora a ciência pura e a transmite à clínica para os turnos azados da aplicação. O mundo científico recolheu, da elaboração experimental, o ascendente prodigioso de nova e fecunda orientação, que transpôs tôdas as fronteiras e imprimiu, ao esfôrço médico, o cunho das conquistas científicas. No Brasil, sem esquecer os precursores nas ciências do laboratório, com justiça, foi Osvaldo Cruz o verdadeiro nacionalizador da medicina experimental.
Quando, vai para três quartos de século, a peste penetrou no Brasil, de logo suspeitada pela observação clínica, foi mister identificá-la na realidade de seu fator etiológico. Entre os cientistas apontados para essa verificação figuraram Chapot Prevot, Francisco Fajardo, Adolfo Lutz, Osvaldo Cruz e Vital Brasil. Constituídos em comissão, em pouco verificaram, no flagrante da pesquisa de laboratório, a razão do diagnóstico clínico. Cogitou-se, desde logo, da vacinação e sorovacinação antipestosas, já conhecidas e praticadas para combater a doença, além dos meios agressivos de profilaxia, que aconselhavam a desinfecção e a destruição do rato, fortemente receptível à moléstia e perigoso para o homem pela pulga que hospeda e transmite o germe da moléstia.
Solicitada ao Prof. Roux, diretor do Instituto Pasteur, de Paris, a indicação de um bacteriologista capaz de instalar um laboratório e preparar os produtos biológicos específicos, respondeu Roux: "Dentre o pessoal técnico que tenho a honra de dirigir, ninguém possui maior competência que o Dr. Osvaldo Cruz, cuja capacidade e idoneidade científica conheci pessoalmente, durante o tempo em que trabalhou em nosso Instituto." Assim superiormente credenciado, recebeu do govêrno a incumbência de providenciar no sentido da urgente necessidade. Fundado imediatamente o Instituto Seroterápico, em Manguinhos, local distante da cidade, em velha casa de subúrbio, começa a obra de um só trabalhador, que teve de preparar discípulos e auxiliares, indispensáveis ao trabalho técnico que só êle conhecia. Foi a célula inicial de tôda organização, culminada depois com a fundação do Instituto de Patologia Experimental, que hoje perpetua seu glorioso nome. Os produtos do trabalho de Manguinhos acudiram à epidemia pestosa no Rio de Janeiro, em Santos, em São Paulo, na Bahia, onde foram diagnosticados casos da moléstia; foram logo reputados e afirmaram a eficiência do preparo.
Conta Ezequiel Dias2 como chegou a ser o primeiro recruta do nôvo serviço: "Feitas as apresentações, retirou-se o Dr. Pôrto, deixando a sós os dois recém-conhecidos, que entabularam o seguinte diálogo:
— Em que ano está o senhor?
— No terceiro.
— Tem mêdo da peste?
— Não, senhor.
— Está disposto a trabalhar tantas horas quantas forem necessárias para cumprir as suas obrigações, sem dependência de nenhum horário fixo?
— Perfeitamente.
— Agora, uma última pergunta, à qual ligo muita importância: o senhor conhece alguma coisa de bacteriologia?
O môço teve um momento de dúvida: de um lado, a fascinação que exercia sôbre si o inesperado cargo de auxiliar de um verdadeiro cientista, além dos proventos que daí lhe adviriam; de outro lado, a sua consciência que o compelia a dizer a verdade. Optou por esta, deixando-se, porém, cair interiormente numa crise de abatimento moral.
— Não senhor.
— Pois está muito bem; é essa uma das condições exigidas.
Tempos depois, valendo-se da bondosa condescendência do mestre, o ex-recruta perguntou-lhe curioso:
— Lembra-se das condições que o senhor me apresentou para ser seu ajudante?
— Mais ou menos.
— Por que é que o senhor fazia questão de um auxiliar sem nenhuns conhecimentos de microbiologia?
— Por uma razão muito simples: porque se você soubesse alguma coisa da matéria, devia ser muito pouco, só servindo para lhe dar presunção e portanto dificultar o seu aprendizado. E eu prefiro certos ignorantes."
A vacina e sôro antipestosos, preparados no laboratório recém-criado, foram enviados a Paris e Berlim. Roux achou-os excelentes; Kolle e Otto classificaram o sôro "entre os melhores conhecidos". A técnica foi modificada – "modificação do Instituto de Manguinhos", era a simples advertência, sem indicação nominal do autor. Começa a repercussão no meio médico da atividade desenvolvida por Osvaldo Cruz: afluem jovens médicos e estudantes, curiosos dos assuntos de laboratório, alguns que buscavam temas e orientação das teses de doutoramento.
Em 1902, uma desinteligência com o Barão de Pedro Afonso causou a retirada de Osvaldo Cruz da direção do Instituto; resolvido o incidente, voltou o diretor, já então livre da dependência do Instituto Vacínico, de que era chefe o barão, que foi, aliás, o fundador dêste estabelecimento, de tão relevantes serviços à causa pública na profilaxia da varíola.
Apenas reintegrado em suas funções, Osvaldo Cruz, no gôzo de ampla autonomia técnica e administrativa, pensou logo em desenvolver as atividades do Instituto, no sentido da patologia experimental, reservando uma das seções ao preparo dos produtos biológicos aplicáveis à peste.
Neste em meio, com o início do quatriênio Rodrigues Alves, Osvaldo Cruz, aos trinta anos de idade, assume a direção dos serviços sanitários do Brasil. Estava consolidada sua reputação e seu prestígio pessoal crescia na ação, não obstante a campanha cedo desencadeada contra o môço administrador, que de logo se propôs a extinguir a febre amarela no Rio de Janeiro.
A confiança de parte da classe médica prestigiava o diretor, que já se recomendara em cargo técnico pela capacidade de trabalho, energia e competência. Pesquisas inéditas, trabalhos originais começavam a aparecer, sendo que a primeira tese de doutoramento fôra publicada em 1901; em 1902 dois novos trabalhos; em 1903 cinco teses sôbre bromatologia, vacinação e soroterapia antipestosa. Em 1909, o número de trabalhos de Manguinhos sornava setenta e um. Surgiram as Memórias do Instituto. A nova construção caminhava morosamente, com escassas verbas próprias e auxílio do pessoal operário da Saúde Pública, em parte destacado para a obra, até porque naquele tempo o Instituto fazia parte da Diretoria-Geral.
Já vitoriosa a campanha contra a febre amarela, ocorreu a exposição universal de higiene, de Berlim, à qual concorreram quase todos os serviços organizados do mundo. Coube ao Brasil o 1.º prêmio. Consolidava-se, assim, espetacularmente, a fama da organização brasileira, sobressaindo, como era natural, a figura estóica do diretor. O govêrno, na ausência de Osvaldo Cruz, ainda na Europa, dera seu nome ao Instituto de Manguinhos. Apressa-se a construção; não míngua o equipamento necessário para instalação dos laboratórios; ampliam-se as atividades. O Instituto logra autonomia. São contratados sábios estrangeiros, diversamente especializados: Hartmann, Giemsa, Prozeck, Durck. Lá está, vindo de São Paulo, o sábio brasileiro Adolfo Lutz, uma das mais respeitadas figuras da ciência brasileira.